⚠️ Aviso: Este capítulo contém cenas explícitas de violência e trauma psicológico. Se você for sensível a este tema, recomendo cautela na leitura.
Capítulo 2: O Abismo
O som dos saltos de Clair ecoava nas ruas desertas, um ritmo nítido e confiante contra o silêncio da meia-noite. As luzes dos postes derramavam poças de um amarelo solitário sobre o asfalto úmido. Ela gostava do silêncio da cidade adormecida, da ordem que a noite impunha ao caos do dia.
O zumbido de um motor crescendo atrás dela quebrou o feitiço. Um carro velho e escuro diminuiu a velocidade, emparelhando com seu passo.
— Ei, gracinha. Quer uma carona? — A voz era oleosa, arrastada.
Clair não quebrou o passo, nem olhou diretamente para ele.
— Não, obrigada. Moro aqui perto.
O carro continuou a segui-la.
— Qual é o problema? Não precisa ter medo.
Ele insistiu, e então o som dos freios chiou. O carro parou abruptamente alguns metros à sua frente, bloqueando seu caminho. A porta se abriu e o homem saiu, grande e intimidador.
— Não quer dar uma volta? — disse com um sorriso presunçoso no rosto.
Clair parou. Não havia medo em sua postura, apenas uma irritação gelada.
— Não.
Ela tentou desviar, mas dele, agarrou seu braço. O toque era possessivo, a mão apertando com força.
— Vamos, princesa. Você vai gostar.
Foi um erro. O impulso em Clair foi elétrico, uma reação forjada em anos de autoconfiança e desprezo pela estupidez.
Ela se virou, a outra mão fechada em um punho compacto, e o lançou com todo o peso de seu corpo contra o rosto do homem. Houve um estalo úmido e satisfatório. Ele a soltou, cambaleando para trás com o nariz jorrando sangue, o em choque e dor.
Por um instante, ela estava livre. Começou a correr, o som de sua própria respiração ofegante em seus ouvidos. Mas a liberdade durou apenas alguns metros. O homem a alcançou, um impacto brutal em suas costas a jogando no chão frio. Ela lutou, arranhando e chutando, mas a força dele era esmagadora. Uma luz branca e ofuscante explodiu atrás de seus olhos quando um punho a atingiu na têmpora. O som do mundo se desfez em um zumbido distante, e então, nada.
— Sua piranha! — foi a última coisa que seu cérebro registrou antes da escuridão.
***
Clair acordou com o cheiro de mofo e cerveja velha. Estava de bruços sobre algo áspero, um colchão ou um carpete sujo. A dor em sua cabeça era uma marreta pulsante. Suas mãos estavam presas atrás das costas, a imobilização total e aterrorizante.
Ela ouviu uma voz a xingando com uma casualidade brutal. Então, sentiu mãos rudes em seu corpo, removendo suas roupas, rasgando o tecido. O ar frio da sala tocou sua pele, e com ele veio a certeza gelada do que estava por vir.
Então, o peso de um corpo sobre o dela, invasor e inescapável.
O tempo se esticou em um vazio sensorial, onde as cores se dissolveram em sombras, e o que restou foi uma violação profunda, um roubo de controle que ecoava em silêncio dentro dela. Não havia detalhes além da escuridão que engolia tudo, deixando apenas o eco de uma dor que transcendia o físico. Ela se tornou uma espectadora de seu próprio corpo, flutuando em um limbo onde os sons eram distorcidos e o toque não tinha textura, apenas a abstração da violência.
Quando ele terminou, o silêncio voltou, quebrado apenas pela respiração pesada e o som de um zíper sendo fechado. Clair permaneceu imóvel, os olhos abertos e fixos no nada, mesmo quando ouviu a porta bater e o som do motor do carro desaparecer ao longe.
Ela estava sozinha. Mas o mundo vibrante e nítido que ela conhecia havia partido com ele. Em seu lugar, o cinza se espalhava como uma névoa, saindo do epicentro de sua dor e cobrindo cada canto de sua mente, prometendo que nada, nunca mais, seria o mesmo.