Capítulo 4: A Forja
As noites eram as piores.
Alan dormia a seu lado, um oceano de distância. Seu calor já não alcançava a ilha de gelo onde Clair vivia.
O sono não trazia descanso, apenas um vazio branco e silencioso.
Nessas horas, ela se levantava e ia para a sala de estar, onde a única companhia era o brilho da tela de seu laptop.
Alan a incentivara a procurar terapia, grupos de apoio. As páginas que ela abria, no entanto, não falavam de cura. Falavam de combate. Krav Maga. Boxe. Defesa Pessoal Urbana. Seus dedos se moviam pelo teclado com uma precisão desapaixonada, a mesma que usava para catalogar novas aquisições para a loja.
Ela revisitava a memória do ataque não como um trauma, mas como um problema tático. O soco que desferira. A energia fora mal aplicada, o pulso não estava travado. A postura, errada. A distância, ineficiente. Ela havia lutado com a fúria desordenada de um animal encurralado. Um erro. A violência, ela percebeu, não era uma questão de emoção. Era uma questão de física. De geometria. De eficiência.
Sua busca a levou a uma academia no lado industrial da cidade, um lugar sem logotipos brilhantes ou promessas de bem-estar. O site era simples, funcional. Mostrava homens e mulheres com rostos sérios, suados, praticando movimentos que não eram bonitos, mas brutais. Movimentos projetados não para marcar pontos, mas para terminar uma luta. Clair preencheu o formulário de inscrição online. O clique do mouse no botão "Enviar" soou anormalmente alto no silêncio do apartamento.
***
A academia cheirava a suor, borracha e o cheiro metálico de esforço. Era o oposto polar da "Toca dos Livros". Era um lugar de caos controlado, e Clair, surpreendentemente, se sentiu em casa.
Nos primeiros dias, seu corpo protestou. Os músculos, acostumados a levantar caixas de livros, gritavam sob o esforço. A dor, no entanto, era bem-vinda. Era uma dor limpa, honesta, uma distração tangível do zumbido oco em sua mente. O instrutor, um ex-militar chamado Marcus, corrigia sua postura com toques impessoais e eficientes. Ela não recuava. Processava cada ajuste como informação tátil.
A obsessão floresceu rapidamente. Ela chegava mais cedo, ficava até mais tarde, repetindo os movimentos até que se tornassem memória muscular. Sua inteligência, antes aplicada à literatura e à psicologia de seus clientes, agora se dedicava a aprender a anatomia da violência. Pontos de pressão. Chaves de articulação. As formas mais rápidas de quebrar um osso, de cegar um oponente, de cortar o fluxo de ar para o cérebro.
O momento de virada aconteceu três meses depois. Durante um treino de sparring, um parceiro de treino maior a prendeu contra a parede, simulando um ataque. A pressão do corpo dele, o cheiro de suor, a sensação de estar imobilizada... por uma fração de segundo, o ginásio desapareceu, e ela estava de volta àquela escuridão.
Mas desta vez, não houve pânico. Nenhuma dissociação. Em vez disso, um clique. Frio e metálico. Seus quadris giraram, criando espaço. Sua mão golpeou a virilha dele, não com força, mas com precisão. Enquanto ele se curvava, o cotovelo dela subiu, atingindo a mandíbula dele com um estalo seco. Ele caiu de joelhos, ofegante.
Marcus apitou, terminando o exercício. O parceiro de treino olhou para ela, com uma expressão assustada, quase medo.
— Jesus, Clair. Onde você aprendeu isso?
— Aqui — respondeu ela, a respiração calma, o rosto impassível.
Pela primeira vez em meses, ela sentiu algo além do vazio. Uma faísca. A sensação de controle. Era inebriante.
***
O treinamento reescreveu sua percepção do mundo. As ruas não eram mais apenas ruas; eram paisagens táticas, com rotas de fuga, pontos cegos e potenciais armas improvisadas. As pessoas não eram mais apenas pessoas; eram uma coleção de posturas, gestos e vulnerabilidades. Ela analisava a forma como um homem distribuía o peso nos pés, o ângulo de seu pescoço, e sua mente calculava automaticamente três maneiras diferentes de incapacitá-lo.
Um dia, no final de uma sessão particularmente brutal, ela se aproximou de Marcus enquanto ele guardava o equipamento.
— Marcus — disse ela, a voz calma. — Você ensina defesa com facas? Ou como usá-las?
Ele parou, olhando para ela com uma nova intensidade. Seus olhos avaliaram o rosto sério dela, a ausência de medo ou hesitação. A maioria dos alunos que fazia essa pergunta tinha uma energia nervosa. Clair tinha a calma de um cirurgião.
— Nós ensinamos a desarmar um agressor com uma faca — respondeu ele, a voz grave. — É a única coisa que um civil deveria tentar fazer. Usar uma faca para atacar... isso é outro jogo. Confuso, sangrento. Ninguém vence numa luta de facas.
— Entendo — disse Clair, o rosto uma máscara inescrutável. — Mas e se a eficiência for mais importante que a vitória?
Marcus não respondeu, apenas a observou por um longo momento antes de se virar para terminar seu trabalho. A conversa nunca foi mencionada novamente, mas algo na dinâmica entre eles mudou. Ele começou a treiná-la com mais rigor, como se a estivesse preparando não para uma briga de rua, mas para uma guerra.
Já em casa, Alan notou a mudança visível em seu corpo — mais magro, mais flexível. A preocupação dele era uma cor azul cada vez mais pálida aos olhos dela; uma emoção distante, dissolvendo-se no cinza que agora dominava o mundo.
— Você está treinando muito, Clair — disse ele uma noite. — Talvez devesse ir com calma.
— Eu nunca me senti melhor — respondeu ela. E, da forma mais distorcida possível, era verdade.
Na calada da madrugada, o brilho da tela do laptop iluminava o ambiente. Enquanto Alan dormia, ela estudava a anatomia humana com a mesma dedicação que antes reservava para a leitura de romances. Mapas de veias e artérias. A localização precisa dos órgãos internos. A diferença entre uma veia jugular e uma artéria carótida.
Não era mais sobre defesa. Era sobre conhecimento e controle absoluto.
***
Aconteceu numa terça-feira chuvosa. Ela estava saindo da academia, o capuz do moletom cobrindo seu rosto. Do outro lado da rua, sob a luz doentia de um poste, um grupo de homens saía de um bar, suas risadas altas e vulgares rasgando a noite.
E então ela o viu.
Ele era cinza, como o resto do mundo sem importância. Mas quando os olhos de Clair se fixaram nele, a memória daquela noite — o toque, o peso, a violação — colidiu com o conhecimento letal que agora habitava seu corpo.
Uma nova cor explodiu em sua visão.
Um vermelho escarlate, pulsante.
A cor da presa.
O homem se destacou da paisagem monocromática como um incêndio em uma floresta de cinzas. Ele era a única coisa real, a única coisa que importava.
E pela primeira vez desde que seu mundo se partiu, Clair sorriu. Um sorriso frio, fino e terrivelmente cheio de propósito.