Capítulo 6: O Caçador
A notícia se espalhou pela vizinhança como uma mancha de óleo. Primeiro, foram os sussurros, trocados em voz baixa na padaria e na fila do mercado. Depois, veio o noticiário local, com uma foto granulada do prédio e uma repórter falando em tons sombrios sobre um "assassinato brutal". O boato mais recorrente era de latrocínio, um assalto que deu terrivelmente errado. Uma especulação que fazia as pessoas trancarem suas portas mais cedo.
A sala de reuniões do 17º Distrito cheirava a café requentado e a uma frustração silenciosa.
O detetive John Miller analisava as fotos da cena do crime.
Seu parceiro, Dave Chen, pegou a ficha.
— Richard Sinclair, histórico de agressões, dívidas com agiotas.
— Um verdadeiro cidadão exemplar — completou John com um toque de sarcasmo.
Dave bateu com o dedo na ficha, como se a resposta fosse óbvia.
— Tudo indica um acerto de contas.
— Aparentemente, mas algo não se encaixa, não parece um crime encomendado — disse John, a voz grave. — Um profissional daria um tiro na nuca. Isso aqui... isso foi pessoal. Íntimo. O assassino queria olhar nos olhos dele.
John se levantou, o som da cadeira se arrastando no chão quebrando o silêncio. Ele pegou o casaco do encosto.
— Vou dar uma volta no bairro, sentir o pulso da rua. Tem uma livraria ali perto, de uma conhecida. Ver se ela ouviu alguma coisa. Você vem?
— Não, tenho que terminar este relatório para o capitão. Divirta-se.
John bufou. "Diversão" era a última palavra que ele usaria.
***
A campainha da porta soou. John entrou. Amanda, que estava no balcão, abriu um sorriso.
— Boa tarde! Posso ajudar?
— Na verdade, eu vim falar com a Clair — disse John, seus olhos já procurando por ela.
Clair surgiu de trás de uma estante, o coração de Clair deu um salto inesperado. Ao reconhecer alguem que ela pensava ter esquecido há uma década. John. Parado na entrada de sua loja, parecendo mais velho, mais cansado, mas com o mesmo olhar intenso que a dissecava.
— John Miller?
Ele se aproximou.
— Clair Stone. A quanto tempo, vejo que você não mudou nada.
— Amanda, querida, você se importa de começar a organizar aquela remessa que chegou no depósito? É um trabalho que vai levar um tempinho.
— Claro, Clair! — disse Amanda, pegando um estilete. — Prazer em conhecê-lo! — ela disse para John antes de desaparecer pela porta dos fundos.
O clique da porta do depósito fechando ecoou no silêncio. Clair se virou para John, a máscara de chefe gentil se desfazendo.
— Ainda julgando o livro pela capa? — ela respondeu, com seu tom irônico afiado. — O que te traz por aqui? Duvido que tenha desenvolvido um amor súbito pela poesia vitoriana.
Ele puxou o distintivo do bolso. Detetive.
O ar pareceu ficar rarefeito. O coração disparou. Por um instante, a surpresa ameaçou quebrar o controle precário que ela mantinha. O homem do seu passado. O debatedor. O quase-algo. Agora, a Lei. A caça. A ameaça.
Ela forçou o ar a voltar, o zumbido em sua cabeça se acalmando, transformando choque em cálculo. A cor dele, um cinza diferente, denso, ganhou um matiz de azul pálido, a cor de uma memória perigosa.
— Detetive — ela repetiu, a voz perfeitamente estável. — Nunca imaginei.
— Infelizmente, não é uma visita social. Estou no caso de um assassinato próximo daqui.
— Eu ouvi os boatos — disse ela. — Um choque para todos.
— Você parece estar lidando bem com isso.
— O medo não resolve o mistério — ela respondeu, a frase soando como um desafio velado. — E alguém precisa manter a ordem por aqui.
A palavra pareceu ressoar nele. Ele a observou por um momento, a intensidade de seu olhar quase física.
— Entendo perfeitamente — disse ele, a voz mais suave. Ele lhe entregou um cartão. — Bom, se você ou sua funcionária se lembrarem de qualquer coisa...
— Eu ligo — ela completou, pegando o cartão. Os dedos deles se tocaram, um contato frio e sem significado para ela, mas ela notou que ele recuou como se tivesse se queimado.
Ele hesitou, claramente relutante em sair.
— Já que estou aqui... alguma novidade que valha a pena? Algo para tirar a cabeça do trabalho.
Enquanto ela o guiava até a seção de mistério, Clair reparou na aliança em seu dedo.
— Alguém conseguiu ultrapassar a muralha e encontrar algo?
John olha para a aliança e depois para ela.
— Não havia muralha Clair. Apenas um homem que não sabia como expressar os sentimentos. — Disse John com um olhar nostálgico.
Quando ele finalmente saiu, Clair o observava de dentro da loja.
Amanda voltando do depósito, vê Clair olhando pela janela.
— Quem era aquele bonitão?
— Ninguem importante. — diz num tom de tristeza e vazio, e depois vê Amanda com os olhos brilhando e um sorriso diferente. — O que foi? Tem algo no meu rosto?
— Não, não. — Deu uma risadinha — Mas eu nunca tinha visto você ficar assim Clair, toda corada.
— Para de besteira Amanda. — Voltando a olhar lá para fora.
De volta ao carro, John olhou para a vitrine. Clair estava lá, observando-o. Por um instante, através do vidro, seus olhares se cruzaram. E ele teve a sensação desconfortável de que, enquanto ele estava investigando um crime, ela o estava investigando.