Capítulo 8: A Traição
O quarto está quieto, exceto pela respiração constante de Alan. A mão de Clair paira sobre o vale de seu pescoço, mas o azul frágil desaparece, substituído por um pulso de vermelho vivo que a cega.
A percepção a atinge: O perigo é ela.
Clair recua a mão como se tivesse tocado em brasa, o coração disparado...
Ela desliza para fora da cama, um movimento fluido e silencioso, e a cor se retrai, o azul pálido retornando ao pescoço dele enquanto ele dorme, ignorante da sentença que quase foi executada.
***
Ao amanhecer, Alan já havia ido trabalhar e Clair caminha pela rua. O mundo está em seus tons habituais de cinza mudo. O cheiro de pão fresco da Padaria Doce Pão é uma das poucas sensações que ainda consegue atravessar a névoa.
— Bom dia, Clair. O de sempre? — pergunta a Sra. Almeida, já colocando a torta de limão em uma caixa branca.
— O de sempre, Sofia. Obrigada.
Ela paga e sai. A caixa em suas mãos é um ritual, uma oferta. Um vestígio de um hábito de um mundo que não existe mais. Ela chega à "Toca dos Livros" mais cedo que o de costume. O silêncio a cumprimenta quando ela entra. Estranho. Amanda já deveria estar aqui, com sua música baixa e o cheiro de café passado.
— Amanda? — Clair chama, a voz ecoando no vazio.
Nenhuma resposta. Ela deixa a bolsa no balcão, mas leva a caixa da torta, caminha para o interior da loja, entre as estantes que são suas sentinelas. Então, ela ouve. Um som abafado vindo do depósito. Um ritmo baixo, dissonante. Um rangido, um arrastar de tecido.
Seu corpo reage antes de sua mente. O treinamento assume o controle. Seus passos se tornam silenciosos, sua postura se abaixa. Ela se aproxima da porta do depósito, que está entreaberta. O som fica mais claro agora. É um gemido contido, o som de esforço.
Clair para ao lado da porta, o coração batendo em um ritmo controlado e frio. Ela se inclina, apenas o suficiente para ver pela fresta.
E o mundo para de girar.
Não há perigo. Não há um ladrão. Há algo infinitamente pior.
Amanda está lá, apoiada sobre a mesa de madeira usada para receber as remessas, a saia levantada, as costas pálidas expostas. E sobre ela, movendo-se em um ritmo animalesco e familiar, está Alan. O cabelo dele, que ela acariciou há poucas horas, está úmido de suor. Amanda solta um pequeno gemido, e a mão de Alan rapidamente cobre a boca dela. Um gesto de silenciamento. De cumplicidade.
O coração de Clair não dispara. Ele congela. Transforma-se em uma pedra de gelo em seu peito. Ela não sente dor, nem tristeza. Apenas um vazio vasto e absoluto, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés, deixando-a flutuando em um nada cinzento.
Ela recua. Um passo, depois outro. Seus movimentos são automáticos. Ela vai até a cozinha guardar a torta na geladeira, estava amassada, sem perceber, ela havia apertado com força a estrutura de papelão.
Então, volta para o balcão, liga o computador e se senta, as mãos pairando sobre o teclado. Uma estátua esperando o fim do mundo.
Minutos depois, a porta do depósito se abre. Alan aparece, ajeitando a camisa. Ele para abruptamente ao ver Clair. Uma microexpressão de pânico puro cruza seu rosto antes de ser substituída por um sorriso forçado. O azul em sua pele parece doentio, manchado.
— Clair! Meu amor, o que faz aqui tão cedo? — ele diz, a voz um pouco alta demais. — Eu... eu passei para procurar aquele livro de receitas de massas que falamos, mas já estou atrasado para o restaurante.
Ela não diz nada. Apenas o encara. Seu rosto é uma máscara de porcelana, sem uma única rachadura.
Ele se aproxima, claramente desconcertado pelo silêncio dela. Beija sua bochecha. A pele dela está rígida e fria.
— A gente se vê em casa — ele sussurra e sai apressado, a campainha da porta soando como um alarme de incêndio.
Pouco depois, Amanda emerge do depósito, o rosto corado, o cabelo ligeiramente desarrumado. Seu ar alegre habitual foi substituído por uma aura de constrangimento e culpa.
Clair clica em uma planilha, os olhos fixos na tela.
— Onde você estava? — A voz dela é calma, fria e desprovida de qualquer emoção.
Amanda estremece.
— E-eu... estava arrumando umas caixas no depósito. Chegaram ontem no fim do dia.
A mentira paira no ar, patética e transparente.
Clair respira fundo, um som quase inaudível.
— Tem torta na geladeira. A sua favorita.
— Ah... obrigada, Clair — gagueja Amanda, claramente percebendo a rispidez cortante sob a polidez.
É então que Clair finalmente levanta a cabeça e olha para ela. Olha de verdade.
O azul fraco, a cor de um carinho inocente e ingênuo, não está mais lá. Foi extinto, aniquilado. Em seu lugar, algo novo floresceu.
Um vermelho vivo, pulsante, emanava de Amanda como calor de uma fogueira. A mesma cor que ela vira em seu agressor. A mesma cor que pulsara na garganta de Alan.
A cor da presa.