Capítulo 10: O Peso
Três dias depois.
O cemitério estava mergulhado em um silêncio cinzento e úmido, quebrado apenas pelo choro contido da avó de Amanda e pelo som da terra sendo jogada sobre o caixão. O cheiro de lírios e terra molhada era sufocante. Clair estava ali, uma estátua de luto vestida de preto, observando tudo de uma distância calculada.
Todos que conheciam Amanda estavam presentes, um mar de rostos tristes e cinzentos. Todos, exceto um que se destacava.
Alan.
Desde a morte de Amanda, Clair evitava Alan com uma determinação feroz.
Clair pediu um tempo. Voltou para o próprio apartamento e manteve apenas o contato necessário — mensagens curtas, respostas mecânicas.
Ver Alan era impossível. Olhar para ele, insuportável.
Ele não era mais o azul pálido e frágil de sua memória. Agora, ele estava diferente aos seus olhos, cinza, mas emanava uma de aura vermelha. A cor da mentira. A cor da presa.
Ele tentou se aproximar dela perto do carro, antes da cerimônia.
— Clair, por favor, a gente precisa conversar — sua voz era um sussurro urgente, sua performance de luto impecável para os outros, mas transparente para ela.
Ela se afastou, o corpo rígido.
— Não temos nada para falar.
Ele a viu chegar com John, e a mandíbula dele se contraiu. John não disse nada, apenas permaneceu a seu lado, uma presença sólida e silenciosa. Um escudo que ela não sabia que precisava, mas que aceitou sem questionar.
Quando a cerimônia terminou e as pessoas começaram a se dispersar, Clair caminhou até a avó de Amanda. A senhora de cabelos brancos estava numa cadeira de rodas, empurrada por sua filha, tia de Amanda, os olhos perdidos numa profunda tristeza.
— Sinto muito pela sua perda — disse Clair, as palavras soando como se pertencessem a outra pessoa.
A avó a olhou, um traço de reconhecimento em seu rosto enrugado.
— Obrigada, querida. Ela era uma menina tão carinhosa... tão cheia de vida.
— Ela foi a melhor funcionária que eu já tive — respondeu Clair, a frase seca e profissional, uma barreira contra a onda de emoção que ameaçava afogá-la.
Os olhos da avó se iluminaram por um instante.
— Você... você é a Clair?
Clair apenas assentiu.
— Ah, minha querida. Amanda falava tanto de você. Dizia que você era como uma segunda mãe para ela. A pessoa mais inteligente e forte que ela conhecia.
O mundo parou.
As palavras da senhora a atingiram como uma explosão. Cada sílaba era um estilhaço que perfurava a armadura que Clair construíra com tanto cuidado. Segunda Mãe. O eco da inocência de Amanda, da admiração dela, da verdade que Clair havia assassinado.
O chão sob seus pés pareceu se desfazer. Os sons do cemitério se transformaram em um zumbido distante, as cores cinzentas se misturando em um borrão vertiginoso. Suas pernas cederam.
Ela não caiu. Um braço forte a envolveu, firmando-a. John. Ele a segurou, o toque dele era impessoal, mas a impediu de desabar.
— Clair!
A voz de Alan cortou o ambiente, cheia de uma preocupação performática. Ele correu até eles, tentando pegar o outro braço dela.
— Clair, você está bem? O que aconteceu? Eu te levo para o hospital!
O toque dele em sua pele foi como uma queimadura. Ela o repeliu imediatamente.
— Não toque em mim!
Seu olhar, desesperado, encontrou o de John. O mundo ainda girava, mas o rosto dele era um ponto fixo na tempestade.
— John — sua voz saiu como um sussurro quebrado. — Você pode... você pode me levar para casa?
Alan congelou, o rosto em choque e ofensa. A escolha dela, feita ali, na frente de todos, foi uma bofetada pública.
John não hesitou.
— Claro. Vamos.
Ele a guiou para longe da cova, para longe de Alan, para longe do peso insuportável do que ela havia feito, deixando para trás o eco das palavras de uma avó de luto.
***
O caminho para casa foi percorrido em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido baixo do motor. O sol da tarde filtrava-se por entre as nuvens, pintando o painel do carro com uma luz pálida e indiferente. John não fez perguntas. Ele apenas dirigiu, oferecendo a Clair o raro presente de um silêncio sem expectativas.
Quando ele estacionou em frente ao prédio dela e desligou motor, o silêncio se tornou absoluto. Clair não se moveu. Suas mãos repousavam em seu colo, os dedos entrelaçados com força. Ela as encarou, como se pertencessem a outra pessoa.
— Você... — ela começou, a voz fraca, hesitando em sair para a noite vazia. — Você quer subir?
A oferta pairou no ar, frágil e desesperada. Não era um convite, era um pedido de socorro.
John a olhou, e em seus olhos não havia julgamento, apenas uma compreensão cansada. Ele balançou a cabeça lentamente.
— Em outras circunstâncias, Clair, eu adoraria. Mas não agora. Você está confusa, está sofrendo. Você precisa descansar.
Clair abriu a boca para protestar, para insistir, para dizer a ele que a solidão era a última coisa de que precisava. Mas seu olhar encontrou o dele, e as palavras morreram. Pela primeira vez, ela realmente o viu. O azul pálido que ela associava a ele, a cor de uma memória distante, parecia mais forte agora, mais nítido. Uma cor de integridade. De segurança. Era a cor de alguém que a via, não como um caso ou um projeto, mas como uma pessoa à beira do abismo, e se recusava a dar o empurrão.
Ela desistiu de falar. Apenas assentiu.
— Obrigada — sussurrou, e o agradecimento era por muito mais do que a carona. Ela abriu a porta e saiu para a noite fria.
Dentro de seu apartamento, o silêncio era uma presença física. Clair foi até a cozinha, a cabeça latejando, e engoliu um analgésico com um gole d'água direto da torneira. Seus movimentos eram mecânicos, os de alguém operando em piloto automático.
Ela entrou no quarto. Na cabeceira da cama, onde deveria haver um livro ou um copo d'água, estava o diário de Amanda. A capa com gatinhos era uma acusação silenciosa. Ela o encarou por um longo tempo, cada palavra que lera queimando em sua memória como brasa.
Finalmente, ela se virou, o olhar caindo sobre o grande espelho na porta do guarda-roupa. E então ela viu.
Algo terrivelmente perturbador.
Sua percepção, sua maldição, sempre fora externa. O mundo era cinza, as pessoas queridas eram azuis, as presas eram vermelhas. Ela, a observadora, sempre fora o ponto neutro. Sem cor.
Não mais.
No reflexo, ela se viu. E não era cinza. Era um vermelho escarlate, pulsante e doentio. A mesma cor que emanava de Alan. A cor da mentira. A cor da violência.
Um som escapou de sua garganta, um misto de soluço e raiva. Ela fechou o punho. Com toda a força que o treinamento lhe dera, com todo o peso de sua culpa e seu pesar, ela desferiu um soco contra a própria imagem.
O som foi uma explosão tripla: o estalo seco de seus ossos, o barulho agudo do espelho se estilhaçando e o baque oco da fina porta de madeira se partindo sob o impacto.
Ela recuou, ofegante, olhando para a destruição. Olhando para seu punho. Estava sangrando, a pele rasgada, com pequenos cacos de espelho brilhando como diamantes cruéis em sua carne. A dor era aguda, real, uma âncora bem-vinda no mar de sua confusão.
Ela ergueu a mão ensanguentada, olhando para ela como se fosse a primeira vez. E, no silêncio de seu apartamento destruído, ela perguntou à sua imagem quebrada.
— O que eu sou?
A resposta veio em um sussurro rouco, a verdade finalmente dita em voz alta.
— Um monstro.