Capítulo 11: O Suspeito
O dia seguinte nasceu cinzento e sem promessas. John chegou à delegacia sentindo o peso da noite anterior. A imagem de Clair, quebrada e vulnerável, estava gravada em sua mente, sobrepondo-se às fotos das cenas de crime que assombravam seu sono. Ele mal havia se sentado em sua mesa, o café ainda fumegando na xícara, quando Dave se aproximou, os olhos brilhando com a energia de uma nova pista.
— John. Tenho uma coisa pra você.
Dave entregou o relatório preliminar da perícia digital.
— O celular da Amanda. A perícia conseguiu extrair os registros de chamadas e mensagens deletadas. E encontrei um padrão. Um padrão bem suspeito.
John se inclinou, os olhos percorrendo o relatório. Um nome se repetia com uma frequência alarmante nas últimas semanas. Ligações tarde da noite. Mensagens apagadas.
— Muitas chamadas de Alan Foster — disse Dave, observando a reação do parceiro.
O nome atingiu John como um soco. Ele ergueu a cabeça, o olhar afiado.
— Alan?
— Exatamente — confirmou Dave, o tom profissional, mas com um toque de triunfo. — Alan Foster. Chef de cozinha e namorado da dona da livraria onde a vítima trabalhava.
Um silêncio tenso se instalou entre eles. Uma nova peça do quebra-cabeça, a conexão pessoal que eles procuravam, havia acabado de cair na mesa. Mas para John, a peça não se encaixava; ela quebrava a imagem que ele tinha em sua mente. Alan não se encaixava no padrão.
John se levantou, caminhando lentamente até o grande quadro que dominava a parede da sala. Ali, o mapa de seus fracassos estava exposto. Três fotos. Três vítimas. Richard Sinclair, Julian Trevis e Amanda Reed. Conectados por finas linhas vermelhas que levavam a uma única anotação no centro:
PADRÃO: Vítima imobilizada. Causa da morte: Perfuração torácica única e precisa. Arma: Lâmina de gume duplo.
Até agora, eram crimes sem um rosto, sem um motivo claro. Assassinatos de uma eficiência brutal que pareciam quase aleatórios. Mas agora...
— Um caso clássico de crime passional — disse Dave, juntando-se a ele em frente ao quadro. — Ele tinha um caso com a funcionária. E a silenciou. Ciúme da vítima com outra pessoa? Ou ela teria ameaçado contar tudo?
A lógica era impecável. Fazia sentido. Mas algo na intuição de John protestava. A frieza cirúrgica dos golpes não combinava com a explosão de paixão que Dave descrevia. Mesmo assim, era a primeira pista sólida que tinham. Era o único caminho a seguir.
John pegou um pequeno bloco de notas de sua mesa. Arrancou uma folha, pegou um marcador preto e escreveu duas palavras em letras maiúsculas.
ALAN FOSTER.
Ele caminhou de volta ao quadro. Com um alfinete, fixou o pequeno papel no centro, bem ao lado da anotação sobre o padrão dos assassinatos. O nome pairava ali, uma âncora no mar de incertezas. O foco da investigação havia mudado.
Eles agora tinham um suspeito. Tinham um monstro para caçar.
John não imaginava que, enquanto ele mirava em Alan, a verdadeira caçadora estava em seu apartamento, encarando os cacos de sua própria imagem e se perguntando o que fazer com a cor vermelha que agora a definia.
***
No dia seguinte, Alan Foster chegou à delegacia com a arrogância de quem se considera acima de qualquer suspeita.
Sentou-se na cadeira de metal da sala de interrogatório, os braços cruzados sobre o peito, o rosto uma máscara de impaciência.
John entrou na sala, fechando a porta atrás de si. O som metálico do trinco ecoou no silêncio. Ele se sentou do outro lado da mesa, sem pressa, colocando apenas um bloco de notas e uma caneta entre eles.
— Sr. Foster. Obrigado por vir — disse John, a voz calma e neutra.
— Não tive muita escolha, tive? — retrucou Alan.
John ignorou o comentário.
— Onde o senhor estava na noite do assassinato de Amanda Reed? Digamos, entre onze da noite e duas da manhã.
— Eu estava em casa — respondeu Alan, a voz firme. — Por acaso estou sendo acusado?
— Estamos apenas cobrindo todas as bases. Qual era a sua relação com a Srta. Reed?
— Não havia relação. Ela era apenas a funcionária da minha noiva — disse Alan, e pela primeira vez, ele encarou John diretamente, os olhos frios e desafiadores.
A palavra pairou no ar. Noiva.
John notou o leve sorriso de escárnio que cruzou o rosto de Alan — provocação pura.
— Noiva? — John repetiu, inclinando-se levemente para a frente, o olhar curioso. — Sr. Foster, há quanto tempo o senhor e a Clair não moram mais juntos?
A pergunta atingiu Alan como um golpe físico. A fachada de calma se rachou, revelando a raiva por baixo. Seus ombros ficaram tensos, o rosto endureceu.
— Isso é um assunto íntimo entre mim e a Clair. Não é da sua conta.
— Torna-se da minha conta quando uma jovem que trabalhava para ela é encontrada morta, e o seu número aparece dezenas de vezes no celular dela — respondeu John, a voz ainda calma, mas agora com um fio de aço.
Alan se levantou abruptamente, a cadeira arrastando ruidosamente no chão.
— Já chega! — ele disse, a voz elevada, a arrogância transformada em indignação. — Eu quero falar com meu advogado. Agora.
Nesse momento, a porta se abriu e Dave entrou.
— Não será preciso, Sr. Foster — disse Dave, com uma polidez gélida. — Por enquanto, terminamos. O senhor está liberado.
Alan ajeitou o casaco, o rosto vermelho de raiva. Ele caminhou em direção à porta, mas parou ao passar por John. Inclinou-se, a voz um rosnado baixo, venenoso.
— Eu não sei qual é o seu jogo, detetive. Mas fique longe da Clair.
Ele saiu, batendo a porta atrás de si.
John permaneceu sentado, olhando para a porta fechada. A reação de Alan não foi a de um homem inocente e assustado. Foi a de um homem culpado e encurralado. Tudo apontava para ele. A lógica, as provas, o comportamento.
***
A noite na delegacia era espessa com o cheiro de café requentado e frustração. John encarava o quadro de investigação, um mapa de becos sem saída. O nome "ALAN FOSTER" estava no centro, mas para John, ele parecia uma peça forçada em um quebra-cabeça que se recusava a se encaixar. A reação arrogante no interrogatório, as dezenas de ligações para Amanda... tudo apontava para um crime passional. Mas a frieza dos golpes, a precisão cirúrgica... aquilo não se encaixava.
Frustrado, John se afastou do quadro e voltou para sua mesa. Ele precisava de uma nova perspectiva. Decidiu voltar ao início de tudo, à vítima zero: Richard Sinclair. Quem era ele? Por que ele seria o primeiro?
Ele mergulhou nos arquivos de Sinclair. Histórico de brigas, pequenas fraudes, agiotagem de baixo nível. Nada que o conectasse a um chef de cozinha. John estava prestes a desistir quando um detalhe no relatório chamou sua atenção: o veículo de Sinclair. Um sedã escuro, antigo, modelo e placa listados.
Um alarme soou na mente de John. Ele rapidamente abriu outro arquivo em seu computador. O relatório de agressão sexual de Clair. Ele rolou a página até a descrição do veículo dos agressores.
"Carro escuro. Um sedã, antigo."
O coração de John acelerou. Era vago, mas era uma conexão.
De repente, as peças começaram a se encaixar, mas de uma maneira nova e terrível.
E se não foi um crime passional? ele pensou, a adrenalina da descoberta começando a fluir. E se foi vingança?
Ele olhou para o quadro. Clair foi atacada por Sinclair. Alan, seu namorado, descobre. Ele não confia na polícia para resolver. Ele decide fazer justiça com as próprias mãos. Ele caça Sinclair e o mata, não com a raiva de uma briga, mas com a frieza de uma execução. A precisão dos golpes... fazia sentido agora. Era premeditado.
John continuou a traçar a linha. E o segundo assassinato? O homem no beco? Talvez outro cúmplice. John não tinha como provar, mas a teoria se sustentava.
E, por fim, Amanda.
A teoria de Dave era que Alan a matou porque ela ameaçou expor o caso deles. Mas na nova teoria de John, o motivo era muito mais sombrio. E se Amanda soubesse? E se ela soubesse que Alan havia se tornado um assassino e ameaçou denunciá-lo? Alan não a matou por amor ou ciúmes. Ele a matou para se proteger. Para silenciar a última testemunha.
A imagem que se formou na mente de John era a de um homem que começou como um vingador e passou a eliminar qualquer um que pudesse expô-lo.
Uma sensação percorreu sua espinha, uma intuição terrível e gelada. Se a teoria dele estivesse certa, ainda havia uma ponta solta. A mais importante de todas. A pessoa que era o motivo de tudo. A pessoa que agora, com sua separação, não estava mais sob a proteção dele, mas sim em seu caminho.
Clair.
Ela poderia ser a próxima.