Tiana estaciona o carro em sua vaga na garagem de casa, Tom segura sua mochila no colo, ainda com o olhar vago. Ela quer confortá-lo, mas não sabe como. Tudo ainda parece uma brincadeira, algo tolo, mas os três estão levando muito a sério para não ser verdade. Ambos saem do carro em silêncio, passam um pouco das dezoito horas quando chegam em casa. E, como imaginam, a janta já está pronta.
— Voltando juntos hoje? Que diferente. — Sorri a mãe ao ver seus filhos entrando pela porta da garagem.
— Pois é, dei uma voltinha com o chatinho hoje depois da aula. — A garota senta na mesa e começa a preparar seu prato, o irmão segue para o quarto.
— E deu alguma coisa com ele? Tá tão pra baixo. — Fica olhando o filho subir as escadas devagar. — Depois que guardar as coisas vem jantar!
— Acho que não deu nada, deve ser por causa daquela menina ainda. — Felizmente o rompimento com Mandy é uma boa desculpa para não deixar sua mãe muito preocupada. É melhor dizer isso do que falar que seu filho está passando por um episódio de Além da Imaginação.
Tom desce para comer cansado, e só vai jantar, pois precisa se alimentar. Enquanto mastiga apático fica pensando “se eu não fizer isso hoje terei outra chance amanhã?”. Então mesmo relutante limpou seu prato. A comida de sua mãe é deliciosa, mas hoje mal sente o gosto.
Não muito depois toma um bom banho e vai ver tevê em sua cama. O garoto não consegue ficar nem cinco minutos acordado, mesmo mal passando das vinte horas.
Tomás não se dá conta do momento em que percebe estar sonhando. Sente que já está ali sentado já há algum tempo, sem nada acontecendo.
Despreocupado, olha em volta, o lugar é digno de um sonho, está num local como uma casa de campo, mas diferente de qualquer uma que já viu. O céu tem uma coloração puxada para o roxo e no horizonte é possível um grande anel lembrando o de Saturno.
A vegetação em volta também não é familiar, as plantas e árvores são bem diferentes, mas o cheiro forte de madeira e mato é estranhamente similar. Todas as folhas na vegetação que o rodeia são marrons ou vermelhas.
A mesa e a cadeira onde está sentado são bem comuns em suas construções, mas as marcas da madeira são diferentes, muito lisas e sem nenhum nó.
Enquanto admira a paisagem alienígena em que se encontra, uma pessoa sai da casa. É ele mesmo, pelo menos, a pessoa possui sua fisionomia, mas o jeito de se portar passa uma impressão de imponência que Tom nunca conseguirá alcançar.
— Olá Tom. Bom que você despertou. — Fala o outro Tom enquanto senta na cadeira logo em frente.
— É a primeira vez que sonho comigo mesmo, pelo menos que eu me lembro. — Ri sem graça. Essa situação, por algum motivo, o deixava desconfortável.
— Ah sim, essa aparência. — O outro Tom sorri também. — Mas eu não sou bem você, não exatamente. Está vendo essa casa? Esse campo? — Aponta para os lugares com um olhar nostálgico. — Eu nasci aqui, há poucos metros da onde estamos agora.
O verdadeiro Tom fica confuso, aquilo tudo parece mais real a cada minuto que se passa. O falso Tom se levanta e caminha um pouco para olhar melhor o campo lindo e extenso ao lado da cabana, após alguns segundos de admiração volta a falar.
— Faz muito tempo isso, séculos talvez pela sua contagem cronológica. Com certeza essa casa já não existe mais. Mas eu guardo essa memória com muito carinho. Essa foi a última vez que vi essa cabana antes de ir para academia.
— Quem é você e por que estamos tendo essa conversa?
— Tomás, eu sou o que vocês aqui popularmente chamam de mago, ou feiticeiro. — Tom sorri sem graça, aquilo não passa nenhuma credibilidade. — Você pode não acreditar, o que é normal, afinal seu mundo não foi abençoado com uma divindade, porém é verdade.
— Como assim? — Nesse momento cai a ficha para o garoto. — Você tem relação com o que está acontecendo comigo nesses dias não tem?
— Sim, tenho. — Para alguns segundos. — Tom, você não é 100% você. Por enquanto você é, mas aos poucos vai deixar de ser.
— Heim? — Agora o estranho realmente não faz sentido.
— Como posso explicar melhor. — Pensa por alguns segundos. — Veja, nós vamos ter várias conversas como essa então você não precisa ter pressa para entender tudo de uma vez. De forma simples eu reencarnei e sou você. Porém essa versão de mim, que você está vendo agora, é minha consciência trancada em sua mente. Quando você dorme podemos compartilhar brevemente seu corpo como duas pessoas, digamos assim. — O verdadeiro Tom claramente não gosta de ouvir aquilo, por mais absurdo que pareça. — Esse seu lado estava preso em nossas mentes desde que nasceu. Mas agora que está amadurecendo nós vamos aos poucos nos unir, por assim dizer.
— Sem chance! — Tom se sente violado, pode sentir algo em seu corpo, como um parasita que se revelou.
— Bem, você não tem escolha, você só está vivo mesmo por minha causa, e eu tenho muito interesse que isso continue assim. Se tiver alguma dúvida sobre isso pergunte aos seus pais. — Tom vai voltar a falar, mas não consegue abrir sua boca, ela está colada. — Nesse momento você precisa mais ouvir do que falar. — Continua o falso Tom. — Você é esperto, e notou que está em perigo. Esses apagões, como chamou, foram necessários para que eu pudesse defendê-lo.
O mago se levanta para ficar mais confortável, pois começa a gesticular enquanto fala com seu outro, Tom.
— Seu corpo ainda é muito frágil e não suporta o fluxo de energia que passa quando uma magia é realizada. — Mostra com as mãos o que diz. — Então por hoje vamos fazer o seguinte, vou te mandar para um lugar especial, chegando lá preste atenção nas instruções da estátua que irá falar com você e tente não morrer. No nosso próximo encontro eu respondo mais de suas perguntas. Agora vá!
Tom sente um calor tomar seu corpo e sua visão se ofusca num clarão dourado. Quando se acostuma com a luminosidade se vê em pé numa sala grande de tijolos rústicos. Nas paredes há alguns móveis que parecem armários, mas estranhos esteticamente.
No centro da sala há uma enorme estátua. A peça é feita de algo como mármore, retrata o que podia se chamar de mulher, seu corpo possui curvas semelhantes ao de uma humana, mas é claramente outra coisa. Seu rosto tem olhos grandes que parecem saltar levemente do rosto, nenhum tipo de sobrancelha, ou nariz. A boca é ovalada, mesmo fechada Tom nota que não é bem como a sua.
Prendendo seus cabelos compridos há uma espécie de coroa pomposa. Além disso, a figura esculpida possui dois pares de braços, o primeiro par está com as mãos abertas aos céus como se louvasse algo, enquanto as outras duas seguram uma espada apoiada no chão.
Tomás fica um tempo olhando para a obra de arte e o local onde está. Esses detalhes, o cheiro de guardado e a poeira balançando no ar, tudo aquilo é real demais para ser somente um sonho. De alguma forma sente que estava ali de verdade.
Como uma criança pequena, o garoto esfrega seus olhos, como se isso fosse ajudá-lo a ver seu quarto ou acordá-lo. Ao fazer esse gesto percebe que não está mais em seu próprio corpo, e, o pior de tudo, está pelado. A mente de Tom ocupa o corpo de uma criatura semelhante a estátua, pois também têm dois pares de braços.
Próximo ao local onde está há um cabide com algumas roupas, ele as pega e tenta se vestir, mas é um desastre. Por mais que tente, não consegue controlar individualmente os braços extras. Quando está perto de desistir, uma voz ecoa pelo cômodo.
— Então você originalmente só possui dois braços? — Tom se assusta e dá um pulo para trás. Os olhos da estátua brilham e a voz vem dela, mesmo sem mexer os lábios.
— Sim, só dois. — O garoto responde, mas o som e o sentido não são os mesmos. Tanto a sua voz, quanto a da estátua falam outra língua pelo que ouve, porém sua mente percebe o significado com clareza.
— Vamos nos livrar desse excesso.
Ao finalizar a frase um dos pares de braços do novo corpo do garoto simplesmente caem no chão, fazendo barulho de madeira. Tomás se assusta com a súbita mutilação, se desequilibra e também cai, mas sem tirar os olhos dos membros que rolavam pelo piso como braços de um manequim.
— Você está mais assustado do que qualquer um que já passou por aqui. — A voz da estátua não revela nenhum traço de emoção que sugira o que pensa, se é que pensa algo.
— Peraí, outras pessoas já passaram por isso? — Pergunta curioso, talvez esse ser poderia dar alguma informação útil para tirá-lo dessa armadilha.
— Sim, não muitos considerando o tempo, mas alguns. Você parece o mais despreparado de todos.
— Obrigado… — Se levanta e volta a se vestir, agora se sentindo um pouco mais humano ele consegue colocar as roupas que estavam separadas.
— Criatura, eu sou o espírito de Kar, e serei seu guardião nos momentos que você estiver neste plano. Como se chama? Qual divindade abençoa seu povo?
— Bem, eu me chamo Tomás, mas pode só chamar de Tom. Agora divindade…não sei não. Temos várias religiões, com vários deuses, mas não dá de dizer uma que abençoa. Não sei o que você quer dizer na real. — O garoto vagamente se recorda que o estranho Tom comentou que eles não eram abençoados, será que seria a mesma coisa?
— Um povo sem benção, que peculiar. Se você possuísse uma divindade ela seria presente na sua vida como a água que bebe. O simples fato de você não saber já me diz que de onde vens não há artes proveniente das graças divinas.
— Se você diz, como posso discutir, não faço ideia do que está acontecendo.
— Verdade, isso deve ser confuso, deixe-me esclarecer sua situação. Você vive nesse momento em um dos golens do meu mestre. Assim você pode usufruir da vida neste plano enquanto está inconsciente no seu mundo original.
— Quer dizer que não estou aqui de verdade então? — Uhul, mais alucinações.
— Não, você está aqui. Esse lugar é tão real quanto a cama em que repousa.
— E se eu me machucar, ou acordar, o que acontece comigo? — Tomás cruza os dedos para que a resposta não seja morte certa. No fundo o garoto ainda encara aquilo como um sonho consciente, mesmo sendo tão real. Em sua cabeça isso não passa de uma aventura onírica.
— Caso você se machuque sentirá dor como qualquer criatura, e se esse corpo for destruído você retornará de forma brusca ao seu corpo original. Mesmo que você não morra, a experiência será a de morte, e seu psicológico pode sofrer bruscamente. — Tom suspira, pelo menos não morrerá, mas mesmo assim não pode fazer nada imprudente.
— Certo, e qual o motivo de eu estar aqui?
— Você está na cidade Bush’Kar, onde o ensinamento das artes divinas é amplamente encorajado. Não há lugar melhor para começar a aprender.
— Então estou aqui para isso? Aprender?
— Como você vem de um plano sem divindades, seu conhecimento deve ser zero. Sua espécie não deve nascer preparada para aguentar o fluxo de energia de um ritual. Então presumo que esse seja o principal objetivo de sua visita, prepará-lo para que possa manipular as artes em seu corpo original.
— E como vou manipular isso aí se eu não aprender? — Tom acha que a estátua fala demais e responde de menos.
— Não há uma real necessidade que você aprenda, pois você já sabe, mas é importante que seu corpo se adapte o mais rápido possível a utilização das graças.
— Mas isso não faz sentido, eu não estou aqui com meu corpo físico. Então como meu corpo vai se adaptar?
— Muito do que é feito aqui é refletido no seu corpo original. Você ainda está ligado a ele. Com certeza, a adaptação seria mais eficaz sem a utilização de um golem, mas isso não é possível no seu estado atual.
— Tentar colocar lógica em magia não vai dar certo, melhor só aceitar essa loucura. E eu nunca concordei com isso. — Reclama.
— Você não tem opção, você é meu mestre, porém suas memórias precisam de um corpo maduro para começarem a aflorar.
— Isso é muito absurdo… Mas se estou aqui de verdade, se isso é real. Não posso fingir que não estou interessado e ver um mundo completamente diferente do meu. — Tom ainda não engole essa conversa de se fundir com um mago que brotou na sua cabeça. Agora que está mais calmo, sente uma estranha empolgação crescendo.
— Não sei como é seu mundo, mas uma terra sem uma divindade deve ser um purgatório. Espero que, no seu tempo aqui, você seja agraciado com a visão de alguma de nossas deidades.
— Tipo eles andam por aí? — Deus com certeza nunca andou por aí.
— Sim, afinal como seria possível agraciar o povo sem sua presença? — Tomás imagina que isso não daria muito certo na Terra. — Pegue tudo que está dentro do baú perto da porta e explore. Quando seu tempo nesse mundo acabar você voltará a sua origem. Não se preocupe com o golem, ele retornará a este local.
— Certo… Por hoje é isso então?
— Sim.
Tomás caminha com um pouco de dificuldade até o baú ao lado da porta. Dentro dele há um tipo de mochila, feita para uma pessoa com quatro braços, um objeto que deve ser um cantil e um pequeno caderno. Ao folheá-lo percebe ser algum tipo de documentação. Mesmo entendendo a língua falada, ele não consegue ler o que está escrito.
Sem demorar muito coloca todos os itens dentro da mochila e sai da sala para o novo mundo lá fora. Do outro lado da porta há uma escadaria, com suas paredes feitas do mesmo tijolo rústico da sala. É iluminada por somente duas lamparinas, uma no início, logo ao seu lado, e outra no final, ao lado da outra porta. Essas lamparinas geram luz por algum tipo de pedra, seu brilho lembra fosforescência.
Ao sair da escada, o garoto se vê em um tipo de capela pequena, talvez? Com dois metros de diâmetro. Numa posição de destaque há uma pequena estátua similar a sua anfitriã. Aos seus pés algumas oferendas, porém Tom nem pensa nisso.
A saída do local não possui uma porta, é aberta, e ele vê pela primeira vez esse novo mundo. A pequena capela fica escondida entre uma vegetação estranha, árvores com folhas e flores bem amarelas, várias delas espalhadas pelo local.
Uma rua de pedra passa logo em frente, mas quem quiser chegar aonde está terá que sair do caminho e passar, pelo que podemos chamar de mato, mas não é bem isso.
Por toda rua de pedra postes de madeira se erguem, de metros em metros, eles literalmente brotam do solo, como se as árvores tivessem sido contorcidas especificamente para essa utilidade.
Tom caminha até o meio da rua, é um dia muito bonito, o céu azul como na Terra, sem nenhuma nuvem no céu. A única diferença é um enorme planeta que cobre metade do horizonte. Definitivamente ele não está em casa.
A visão do outro corpo celeste tomando metade do céu o surpreendeu tanto, que quase não repara na grande metrópole que espalha até onde sua vista alcança. Tom parece estar na periferia de Bush’Kar, e essa estrada deverá levá-lo até o centro da cidade.
De longe não é possível dizer muito sobre essa metrópole, ela lembra cidades de fantasia que o garoto via em seus videogames, porém possui alguns prédios muito altos e bem coloridos. A vista é linda, o contraste das árvores bem amarelas contra o céu perfeitamente azul o preenche de alegria. A mochila é ajeitada no ombro, quem diria que não ter mais um par de braços seria um problema. Enfim, começa a andar.
Sua noção de tempo está tão bagunçada quanto seus pensamentos. Pode ter passado só alguns minutos, ou talvez horas. Até agora Tom passa por algumas casas simples e locais que devem ser similares às fazendas da Terra. Não consegue identificar nenhuma das plantas ou animais de criação que se depara.
O estranho é que até agora não viu nenhum outro ser de quatro braços, tudo está tão quieto. Porém, esse silêncio vai desaparecendo aos poucos, quanto mais se aproxima da cidade.
Não há nenhum tipo de muralha, fosso ou qualquer coisa do tipo que define com clareza quando a Bush’Kar realmente começa, a cidade se espalha de forma orgânica pela região. O número de casas aumenta e quando Tom se dá conta já está andando pelas ruas da metrópole.
O número de pessoas circulando pelo local aumenta significativamente conforme avança, todos parecem seguir a mesma direção, que por coincidência, é para onde Tomás caminha, o centro. Ninguém ali parece ligar para ele, o garoto é só mais um no meio de vários, e isso dá tranquilidade para aproveitar esse estranho passeio.
As ruas estão decoradas, bandeirolas e algo similar às flores. O cheiro do ambiente é agradável, a brisa traz perfumes cítricos misturados com frituras. Tantos sons e cheiros que ele não consegue separá-los.
A rua que segue, a estrada não é larga, nenhum tipo de transporte deve utilizá-la com frequência, mas é perfeita para as pessoas caminharem. Após subir uma pequena ladeira, Tomás se depara com uma vista ainda mais incrível. Ele está em um ponto mais elevado do que o restante de Bush’Kar e dali tem uma vista panorâmica de quase toda metrópole.
A cidade se estende até onde enxerga. O som de pessoas festejando agora alcança seus ouvidos com força. É possível ver algo que parece pipas voando sobre as casas, mas se movendo muito rápido para ser somente isso.
O mais incrível de tudo, é que no centro da cidade se ergue um colossal canhão. Maior que qualquer construção que ele já havia visto, tão grande que a sombra de seu cano faz uma enorme sombra nos telhados abaixo. Por algum motivo Tomás não pensa que esse armamento será utilizado de forma bélica. É enorme demais, e sua estrutura possui vários adornos. Mesmo de longe é possível ver que toda sua estrutura é decorada. Também tem o fato de que em volta da gigantesca base fica o centro das comemorações.
Enquanto está perdido absorvendo a vista uma pessoa, e quando digo pessoa me refiro a um nativo desse mundo, para ao seu lado e diz “é muito bonito não é mesmo?” o assustando. Tom dá um pequeno pulo para o lado, não esperava ter contato com ninguém, e não sabe como reagir, mas não tem escolha.
— Me desculpe, não queria te assustar. — Sorri.
Tom não conseguiu entender que a expressão feita é um sorriso, mas algo na sua voz passa essa sensação.
— Eu que peço desculpas, estava concentrado. — Não sabe como está falando, sua mente pensa, mas os sons são completamente diferentes.
— É sua primeira vez em Bush’Kar?
— Sim, nunca havia visto nada parecido.
— É mesmo uma cidade linda. — Volta a olhar a vista antes de se virar novamente para o garoto. — Prazer, me chamo Trat’Zanel. — Leva um de seus braços em direção a ele como forma de cumprimentá-lo. Um dos braços que Tom já não tem mais. O garoto não faz ideia de como é o aperto de mão desse povo, então não reage imediatamente, como o normalmente é esperado nessas situações. Trat percebe a confusão dele e logo traz seu braço para próximo do corpo. — Me desculpe, foi muito indelicado da minha parte, não notei sua situação.
— Não precisa se desculpar, eu que não soube como agir. Prazer, me chamo Tomás.
Tom não é um desastre em interação social, realmente não é, mas a situação o pega de surpresa. Está tão despreparado que ficou parecendo um carro a álcool tentando pegar numa manhã fria. E o garoto tem razão para se preocupar, afinal essa é a primeira interação de um humano com uma espécie alienígena, olha o peso em seus ombros.
— Tomás? Que diferente. — A pessoa queria dizer estranho, bizarro, ou qualquer outra coisa do tipo, tudo menos diferente, mas a educação a impediu. — E somente Tomás?
— Sim, imagino que seja meio estranho, mas esse é meu nome. — Tom não vê a necessidade de dizer seu sobrenome e confundir ainda mais a cabeça dessa pessoa. Agora que para e observa melhor, lembra vagamente a estátua, então provavelmente deve ser do sexo feminino, talvez…
— Mas qual divindade te agraciou quando nasceu? Como você pode notar eu fui abençoada por Zanel, o que não é tão comum nessa região, afinal estamos nos domínios de Kar.
— Eu não saberia dizer. — Ri sem graça.
Trat já o olhava com um pouco de pena por tê-lo envergonhado quando foi cumprimentá-lo, isso em sua cabeça, mas agora está visivelmente triste por ele. Tanto que até Tom consegue notar. Então o garoto logo muda de assunto.
— Aquela construção lá e essa festa que parece que está ocorrendo, você sabe me dizer o que é?
— Você está aqui e não sabe o que está acontecendo? — Responde surpresa com outra pergunta.
— Não sei.
— Hoje estamos comemorando o envio da primeira comissão diplomática para Jantyr.
— Jantyr?
— Sim, Jantyr. — Aponta para o outro planeta no horizonte. — Você está bem?
— Ah sim, é que minha memória não é perfeita, por assim dizer.
— Ah me desculpe novamente pelas minhas indelicadezas. — Trat fica ainda mais constrangida, abaixa a cabeça e se xinga mentalmente. — Quer que eu te acompanhe o resto do caminho? Pelo visto nós dois estamos seguindo para o festival.
— Claro, será um prazer.
Tom acompanha Trat pela rua que desce em direção ao centro da cidade. A cada quadra que passa o movimento das pessoas aumenta, todos indo em direção à praça participar do grande evento, que não deve demorar tanto para começar. A nativa acaba fazendo o papel de guia turístico, explicando várias coisas que o garoto conhece. Para ela aquilo foi algo muito incomum e divertido.
As festividades estão ocorrendo no distrito principal de Bush’Kar, onde as ruas estreitas da cidade dão lugar a grandes praças decoradas com estátuas, fontes, prédios políticos e templos.
Mais em frente, há vários quilômetros de distância, começa a estrutura que suporta o gigante canhão. E nessa via várias barraquinhas foram montadas exclusivamente para o evento. O cheiro exótico da comida deixa Tom salivando de curiosidade. Naquele momento, enquanto admira os vários quitutes locais, o garoto percebe que muitos dos outros habitantes estão olhando para ele e cochichavam, ou rindo entre si. Não passam a impressão de ser algo maldoso, mas como não consegue decifrar as expressões pode estar enganado.
— Está com fome? A comida aqui é ótima. — Trat começa a olhar as opções de comida próximas de onde estão.
— Eu senti o cheiro e parece muito bom. — Será que ele pode comer com esse corpo? Pensa ao recordar dos braços de madeira rolando pelo chão. — Trat, por que parece que as pessoas tão me olhando? É tão estranho alguém só com dois braços?
— É realmente muito incomum alguém como você, afinal ao se machucar gravemente assim, dá para curar se não demorar muito. — Pensa um pouco sobre o assunto. — Se quem fizer o encanto for muito bom, talvez até depois de um tempo dê também. — A nativa fica um pouco tímida. — Mas não acho que seja por isso que estão te olhando.
Trat’Zanel se afasta dele e caminha até uma das barracas para comprar algum tipo de comida. A nativa volta com uma cestinha contendo duas bolinhas de alguma massa caramelizadas.
— Come um, eu adoro esse bolinho. — Pega um dos doces e entrega a cesta para Tom.
— Obrigado. — Ele coloca o doce inteiro em suas boca e começa a mastigar. É algum tipo de massa frita com um recheio molhado de alguma fruta cítrica suave, muito gostoso. — Nossa, isso é realmente bom. Mas eu não tenho dinheiro para te pagar.
— Não tem problema, fico feliz que gostou, isso já é o bastante. — Sorri.
— Então, qual o motivo deles ficarem me olhando? — Agora não é mais impressão, com frequência alguém olha para ele, e se está acompanhado fala algo.
— Bem, é que você é muito bonito. — Fala envergonhada, quer se esconder. — Como se tivesse sido esculpido, nunca conheci ninguém assim. — Não chega a olhá-lo nos olhos.
— Você deve estar brincando, acho que deve ser os meus braços. — Tomás olha para sua roupa, não tem como não notar as duas mangas caídas de forma ridícula onde deveria haver os braços que foram arrancados.
Quando Trat começa a responder, um grande clarão preenche o lugar, ela imediatamente puxa Tom para perto de si e diz “Vai começar!”. Vários balões coloridos começam a subir se espalhando pelo céu ao redor do canhão, a música se intensifica, assim como os gritos e palmas da enorme multidão. Tom sente a vibração da festa reverberar pelo seu corpo, até sua visão treme em alguns momentos.
Quando o segundo clarão toma conta todos ficam em silêncio. A imagem de Kar aparece. Tom reconhece a figura como sendo a mesma da estátua que lhe recepcionou neste mundo, porém sente, sem dúvida alguma, a divindade. Só de vê-la seu corpo aquece. Seu humor chega quase na euforia e um sorriso gigante fica estampado no rosto. É difícil ver com precisão a deusa, uma aura dourada emana de sua presença, no entanto, é impossível desviar o olhar.
A divindade começa a tomar forma e desce até o colossal canhão, que, ao seu lado, parece pequeno. Com uma de suas mãos ela toca na ponta do cano o abençoando, depois volta seu olhar para a multidão que a observa e os abençoam. Uma fina camada de pó dourado começa a cair sobre todos presentes, inclusive Tom, que ao sentir as partículas tocarem o seu novo corpo sente um prazer enorme. Algo que nunca experimentou antes, como se todos os seus sentidos fossem sobrecarregados de prazer. Um cheiro doce, um toque suave, um sussurro romântico, tudo e nada ao mesmo tempo.
Kar começa a sumir enquanto suas mãos despejam a benção sobre todos, e na mesma velocidade que ela se vai, o som das pessoas falando e comemorando retornam.
Trat olha para Tom empolgada, aquele é um momento único na vida. Ver uma divindade é difícil, mas acontece algumas vezes, principalmente numa cidade tão grande como Bush’Kar. Porém ser abençoado diretamente é algo que será compartilhado pelas famílias por gerações.
O garoto não consegue entender exatamente o que aconteceu e como se sente. É uma felicidade absurda, como se essa euforia tivesse sido forçada dentro dele. É muito bom, mas no fundo sua consciência acha aquilo estranho, não é normal. Talvez seja assim que um drogado se sente, pensa com dificuldade em meio aos risos que segura.
Ao tentar questionar Trat, percebe que algo muito rápido passa por cima de sua cabeça, nesse instante a nativa coloca suas mãos no rosto do rapaz, tampando seus pequenos ouvidos, e com suas outras mãos tapando os seus. Instantes depois o som avassalador do disparo do canhão alcança a multidão. O barulho é tão alto que desnorteia a maioria das pessoas, inclusive Tom, que teria caído se não fosse por Trat estar lhe segurando.
A multidão olha para o céu admirando o traço de fumaça deixado pelo projétil do canhão em direção a Jantyr. Finalmente o garoto percebe que os diplomatas foram disparados de um planeta para o outro. Isso não dará certo nunca. E não daria mesmo, mas felizmente ter acesso a magias resolve muita coisa.
Trat finalmente solta Tom e se desculpa por o ter segurado. Enquanto eles conversavam sobre o evento, o garoto sente que seu tempo está se terminando, como se ouvisse no fundo de sua mente o baralho desafinado de seu despertador.
— Eu tenho que me despedir Trat, já deu a hora de eu voltar.
— Pena, porque você não me manda um encanto quando der de conversar de novo?
— Eu não sei como fazer isso. — Fala sem jeito. — Eu vim para cá pra aprender essas coisas. Pelo menos é o que eu acho.
— Você nunca fez um encanto ou um ritual pequeno antes? — Para ela, aquilo é tão comum quanto usar um celular é para Tom. Bem, essa analogia não é muito boa, afinal ele não usa o aparelho.
— Não, nunca.
— Me dá sua mão. — Fala com um sorriso. — Deixa ela com a palma para cima desse jeito. — Arruma a mão dele para que fique na posição correta. — Eu não sei como é feito pelos discípulos de Kar, mas se for parecido com Zanel deve dar certo. — Tom só confirma com a cabeça. — Agora imagine que há uma linha saindo de sua mão e chegando a até a minha. — Trat posiciona sua mão há alguns centímetros da dele. — Você precisa imaginar com clareza essa linha nos ligando. Quanto mais longe eu estiver, mais difícil vai ser.
Tomás não tem dificuldade de criar uma imagem mental do que a nativa pede. Sente que consegue facilmente ignorar todos em volta e na mente visualizar com perfeição ambos e a linha os conectando. Em sua cabeça Tom é Tom, o velho Tom da terra, mas isso não fará diferença.
— Agora você deve começar a sentir um formigamento em volta do seu corpo, isso é a energia que quer começar a fluir por você. — Realmente o garoto sente o formigamento como ela descreve. — Se estiver pronto, repete o que eu vou dizer; Zanel, leve meus pensamentos, me abençoe com sua leveza, entregue minha mensagem.
Tom não chegou a repetir em voz alta o que ela disse, mas fez em sua mente as palavras como preparação. Porém, ao final do encanto, ele sente que algo aconteceu, um pulso como uma pedra caindo num lago parado.
Trat solta um grito abafado de susto, a nativa vê em sua mente uma imagem do verdadeiro Tom, de mão dadas com ela.
— Tudo bem Trat? — Pergunta ao abrir os olhos.
— Sim sim, deu certo. Você aprendeu bem rápido. Não achei que conseguiria na primeira tentativa. Eu nem ouvi seu encanto. — Já não está tão nervosa.
— Então é só isso que preciso fazer? — Parece que é pouca coisa para uma magia, esperava mais movimentos e palavras especiais.
— Bem sim, esse é um encanto bem simples, só pra mandar um alô pra alguém. Então, quando você tiver tempo, me procure… procure… procure…
Tomás acorda.