- Aileen! Aileen! – Benji entra correndo na barraca encontrando Aileen no chão.
- Hã? – Ela responde sonolenta.
- Aileen? – Benji chama cutucando sua bochecha.
- Que é? – Ela responde se esparramando ainda mais no chão.
- Ah! Que ódio! Vai dormir na cama, achei que estava morta, que susto. - Benji grita, mas se sente aliviado.
- Você saberia se eu tivesse morrido. – Ela diz puxando o braço dele para usar como travesseiro.
- Eu senti que você desmaiou. Me assustou pra caramba.
Ele diz, mas ela já está em sono profundo. Acariciando seus cabelos ele involuntariamente sorri e passa um bom tempo absorvendo cada aspecto de seu rosto, fascinado com o quanto ela é bonita. Após colocá-la na cama e deixá-la confortável, Benji volta para onde os amigos estão estudando o mapa.
- Está tudo bem? Você saiu correndo. – Cassian pergunta.
- Tá tudo bem, é só que mesmo com as poções de cura ela ainda precisa descansar. Não devia ter usado magia ainda, ela está exausta. – Ele responde corando um pouco lembrando do rosto dela de segundos atrás.
- Eu sei que vocês são um casal e querem ficar juntinhos, mas essa barraca de vocês não é muito pequena? Ela vai conseguir descansar? – Cassian pergunta.
- Não somos um casal. – Benji diz corando mais ainda. – De onde você tirou essa ideia? – Os três amigos olham para ele, pois é algo muito óbvio.
- Então a barraca realmente deveria ser maior. – Cassian o provoca.
- O que aconteceu ontem? Ela estava quase morta. – Jiaer pergunta.
- Não foi nada, ela só usou magia demais. Vamos ver o mapa. – Benji tenta mudar de assunto imediatamente, deixando Jiaer ainda mais desconfiado da bruxa.
- Estão todos espalhados por Drei, mas não diz quem é quem. – Cassian finge que não percebeu a mudança repentina no tom de Benji e continua a falar sobre o paradeiro do resto do grupo.
- Ela disse que o feitiço não necessariamente procura pessoas, mas objetos, então só mostra a localização. – Benji diz.
- Devemos começar com quem está mais perto então. – Áki diz pegando o mapa. - Mas não sei qual é o lugar, já que não indica onde fica o acampamento.
- Por segurança, só Aileen e eu podemos ver a localização do acampamento.
Benji analisa os lugares marcados no mapa, os pontos luminosos na Ilha da Lua não eram nada bons, ele preferia se aventurar pelo mar escuro a ir nesses lugares.
- Eu realmente não quero ir a esse lugar. – Benji diz apontando para um dos pontos de luz.
- Por quê? – Jiaer pergunta.
- Porque é na vila Runavir. É onde fica a seita religiosa d'O Escolhido. - Benji explica revirando os olhos.
- Uma seita religiosa? Aqui? Do nada? – Cassian pergunta intrigado.
- Sim, a Lua tem muitos segredos escondidos no escuro e a Seita d'O Escolhido em Runavir guarda muitos deles. Mas o problema não é isso, só vivem habitantes naquela cidade e eles são absolutamente insuportáveis. Eles acreditam que alguém vai aparecer pra pegar o trono, sei lá, e odeiam forasteiros - Benji diz revirando os olhos novamente.
- Que trono? – Cassian pergunta.
- Exatamente! Que trono? – Benji já está de saco cheio de toda essa história e evitava ao máximo ir até a vila Runavir.
- O que aconteceu pra você não querer ir lá? – Jiaer pergunta.
- Bem, pra começar...
*Início do flashback*
Um dia Aileen e Benji estavam em Runavir comprando mantimentos quando a dona da loja de ervas insistia em contar histórias ao invés de receber o pagamento.
- Reza a lenda que um dia O Escolhido virá para reivindicar o trono-
- Que trono minha senhora? Desde quando isso aqui tem trono? – Aileen pergunta.
- Posso terminar? Obrigada. Reza a lenda que um dia O Escolhido virá para reivindicar o trono de Drei e unificar as três ilhas, guerras cessarão-
- Que guerra, filha? – Benji pergunta. – Tá todo mundo ocupado cuidando da própria vida. Perdão, prossiga. – Ele a deixa concluir a história após a mulher lhe lançar um olhar muito desagradável.
- Guerras cessarão e Drei terá 100 anos de paz e harmonia. – A mulher finalmente termina.
- Será que ela usa droga? – Benji pergunta baixinho para Aileen.
- Eu suspeito que sim. – Ela sussurra de volta.
- É UMA LENDA REAL! Todos os habitantes de Drei a conhecem. – Ela diz colocando muita soberba na última frase.
- O preconceito contra forasteiros também vai acabar quando o "escolhido" aparecer? – Aileen pergunta em tom de provocação.
- Sua bruxa maldita, O Escolhido vai exterminar a sua raça inteira! – A mulher diz furiosa.
- Mas ele não ia acabar com a "guerra"? Genocídio não parece muito pacífico – Agora Benji a provoca.
- Só teremos paz quando sua raça imunda de forasteiros sumir daqui. – A mulher cospe nas botas de Aileen.
- Chega! Segura minha sacola, Benji. Eu vou dar na cara dessa vagabunda.
- Mira no nariz dela.
Benji não batia em mulheres malucas sem poderes ou habilidades especiais, mas isso não quer dizer que ele não queria enfiar uma barra de sabão na boca dela por suas palavras sujas. Naquele dia eles voltaram para o acampamento com mantimentos e ervas para banho e a mulher ficou em sua loja com um nariz quebrado.
*Fim do flashback*
- E essa é só uma das histórias. – Benji dá de ombros.
- Aparentemente o preconceito com forasteiros existe em todos os lugares. Não entendo por que os habitantes nos odeiam tanto. – Áki diz desgostoso.
- Mesmo que não houvessem forasteiros, encontrariam outra coisa pra odiar. Somos humanos, é isso que fazemos. – Cassian diz amargamente. – Não importa em que mundo seja.
O preconceito contra forasteiros existia em todos os lugares de Drei, no entanto a Ilha da Folha era mais receptiva, a Folha vivia do comércio e se houvesse uma oportunidade de fazer negócios não importava muito quem era, ou o que eram. Se fadas, elfos, ogros ou humanos tivessem coisas valiosas ou ouro para gastar os comerciantes ficavam mais do que felizes em recebê-los. Já na Lua e no Sol poderia se encontrar todos os tipos de pessoas e criaturas, infelizmente muitos humanos não eram muito receptivos a forasteiros. Isso não impedia Aileen e Benji de explorar a ilha em que viviam, mas com toda certeza trazia muitos problemas a eles.
- Precisamos partir imediatamente, pelo que você falou quem estiver em Runavir com certeza está em perigo. – Jiaer diz já arrumando suas coisas para a viagem.
- Não podemos ir sem a Aileen e ela precisa de mais tempo para se recuperar. – Benji diz lembrando do semblante pálido dela e de como quase a perdeu no dia anterior.
- Um dos nossos amigos está nesse lugar correndo perigo e você está preocupado com uma desconhecida? – Jiaer diz alterando a voz.
- Ela não é uma desconhecida. – Benji responde duramente.
- Vai escolher ela ao invés de nós? – Jiaer pergunta enraivecido.
- Não é uma questão de escolha. Ela é minha parceira praticamente desde que cheguei aqui e vocês são meus amigos, estivemos juntos a vida toda, não preciso escolher, todos nós vamos. E fique você sabendo que não sobreviveríamos um único dia lá fora sem ela. – Benji diz firmemente, ele não abandonaria os amigos, mas também jamais deixaria Aileen para trás.
- Você ficou cego por estar apaixonado. Essa mulher é muito suspeita. – Jiaer insiste.
- Não estou apaixonado, e o que exatamente ela fez pra você achar ela suspeita? Tudo o que ela fez foi ajudar até agora. O que você tem contra ela? – Benji pergunta também alterado.
- Só não confio nela. – Jiaer responde.
- Que irônico. Vocês são mais parecidos do que imagina. – Benji diz com um sorriso torto.
Aileen, que dorme profundamente em sua cama confortável, não se deu conta da discussão que acontece lá fora. A magia de Aileen é forte e não se esgota, mas seu corpo ainda é de uma humana e a batalha com as outras bruxas quase a destrói. A pedra âmbar havia impedido sua morte, mas ela ainda precisaria de pelo menos mais 24h de sono para se recuperar completamente. Do lado de fora da barraca o silêncio toma conta do acampamento, os amigos comiam o café da manhã calados, cada um imerso em seus próprios pensamentos conturbados.