Depois de dormir por dois dias inteiros, Aileen finalmente se sente como ela mesma novamente. Deitada na cama, ela assiste Benji calçar as botas.
- A gente vai só ignorar o assunto? – Ele pergunta sem levantar os olhos.
- Que assunto? – Ela responde entre bocejos.
- Não vamos falar sobre as bruxas? – Ele pergunta sentando na cama e a encarando.
- E falar o quê? – Ela pergunta lembrando da batalha árdua recente, mas que parecia ter sido há muito tempo.
- Não sei, qualquer coisa.
- Não tem o que falar, Benji. – Ela diz tentando encerrar o assunto.
- Mas o que elas te falaram? O que realmente aconteceu? – Ele pergunta preocupado.
- Falaram absurdos, nada que tivesse sentido. Vamos deixar esse assunto de lado, principalmente agora com mais gente aqui. – Ela diz levantando-se e indo em direção ao banheiro.
- Você não pode evitar o assunto para sempre.
- Você quer apostar? – Ela diz fechando a porta do banheiro.
Aileen afunda na banheira como se a água pudesse lavar toda a trilha de sangue que ela deixa por onde passa. Tudo o que ela queria, antes e agora, era viver tranquilamente, mas problemas a perseguem onde quer que ela vá. No entanto, agora ela é uma bruxa escondida em uma floresta escura, não uma figura política importante e não ia deixar que nada nem ninguém atrapalhasse sua vida livre de milhões de olhares afiados observando seus movimentos. Ela está determinada a proteger sua paz, não importa o quê, não importa quem.
O clima no acampamento não está nada amigável, cada um estava para um lado fazendo qualquer coisa para evitar uns aos outros. Aileen sente a tensão no ar e ao invés de chamar Benji, decide perguntar ao garoto o que havia acontecido.
- Ei garoto, vem cá! – Ela chama acenando para Áki.
- Finalmente você acordou, achei que estava em coma. – O menino diz aliviado ao vê-la.
- O que aconteceu enquanto eu estava dormindo? Tá o maior climão aqui. Por falar nisso estou morrendo de fome.
- Cassian fez comida, vem pegar um pouco e te explico o que aconteceu. – Áki diz pegando na manga do vestido preto dela levando-a em direção à fogueira.
Ele então contou sobre a discussão de Benji e Jiaer, e sobre como Jiaer não gostava ou confiava nela e que nos últimos dois dias ele e Cassian tentaram remediar a situação, mas que eles só acabaram brigando mais ainda. Áki explicou que Benji e Jiaer sempre estavam em conflito por algum motivo, fosse esse bobo ou não, embora fossem melhores amigos, eram de personalidades muito diferentes, que esse tipo de coisa acontecia com frequência e logo eles voltariam a se falar normalmente.
- Que infantilidade. – Aileen diz com um olhar de indiferença.
- Não devia falar assim do Benji, ele te defendeu com unhas e dentes. – Áki diz entregando a ela um prato de cogumelos fritos com legumes.
- Problema dele! – Ela diz pegando o prato.
- Você é um pouco insensível, sabia? – Ele diz quase decepcionado.
- Se dois amigos adultos não conseguem entrar em consenso por meio de uma conversa o que eles são? Moleques. Você disse que isso sempre acontece... – Ela se cala quando Benji chega perto.
- Pararam de falar por quê? O assunto chegou? – Ele pergunta sarcasticamente.
- Sim, eu estava te chamando de moleque. – Aileen se senta perto da fogueira e começa a comer, Cassian realmente transformou ingredientes sem graça em uma ótima refeição.
- Eu te defendo e é isso que recebo. – Benji diz sentando ao seu lado.
- Não me defenda, tente fazer o outro entender você ao invés de engajar uma discussão. Ele é seu amigo, certo?
- Você mal acordou e já está me dando lição de moral, dá pra ver que está curada. – Ele chega perto do ouvido dela e sussurra, - como se logo você pudesse me dar lição de moral.
- Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu brigo com inimigos, não com meus amigos.
- Que amigos? - Benji pergunta com uma pitada de sarcasmo.
- Claro que tenho amigos. – Ela responde desviando o olhar. – Você não é a única pessoa dessa ilha. – Ela diz baixinho.
- Bruno não conta. – Ele diz provocando.
- É claro que conta, você só está com inveja já que ele não gosta de você. – Ela diz enfiando uma colher na boca de Benji para que não diga mais nada. – Certo! Precisamos nos preparar para a viagem. Me deixe analisar o mapa. – Após alguns minutos analisando qual a melhor estratégia a seguir ela finalmente diz:
- Vamos para Arkhûn primeiro, não vamos direto pra Runavir...
- Quem elegeu você como nossa líder? – Jiaer a interrompe.
- Se você acha que conhece a Ilha da Lua melhor que Benji e eu, fique à vontade para liderar. – Jiaer fica em silêncio. – Não, né? Continuando, as pessoas de Runavir são muito hostis, não vai ser bom ir direto pra lá, passar por Arkhûn para colher informações é melhor, tem um centro comercial grande e conhecemos muita gente, podemos começar por lá e depois seguir o mapa.
- O que precisamos preparar pra levar? Você disse que já tinha o que precisávamos, o que exatamente é? – Cassian pergunta.
- Nas minhas bolsinhas cabem muitas coisas, uso magia para aumentar o tamanho delas por dentro, então sempre levo comida, remédios e água. Podemos comprar mais comida em Arkhûn, mas antes de ir vou fazer poções com as pedras âmbar para cada um de nós. – Ela responde já se dirigindo à mesa com tudo o que precisava para as poções.
- E nós? – Cassian pergunta novamente.
- Não precisam fazer nada, mas se tiverem ouro já ajuda. Aileen e eu não caçamos recentemente e eles aceitam ouro em Arkhûn, no caso de precisarmos comprar alguma coisa. Eu só tenho algumas moedas. – Benji explica.
- Eu não tenho mais nenhuma moeda, gastei todas com morangos. – Ela diz e depois entra em seu próprio mundinho procurando frascos e fazendo suas poções.
Os rapazes começam a se arrumar para sair, pegando apenas o essencial, como suas armas, já que a viagem seria longa. Após terminar as poções Aileen entrega um frasco para cada um, a poção da pedra âmbar pode salvar as vidas deles em momentos cruciais. Vendo a bagagem deles ela entrega a cada um uma bolsinha mágica, viajar sem bagagem é mais seguro na Ilha da Lua, apenas suas armas prontas para uso deveriam ficar fora da bolsa.
Aileen e Benji deixam os outros lá fora e entram na barraca para se trocar e se prepararem para sair.
- Dessa vez eu fico com a pedra de portal, ainda não acredito que você perdeu a outra. Temos sorte de ter uma extra, é muito demorado criar uma. – Aileen diz enquanto se troca de costas para Benji.
- No meio daquele pandemônio eu tinha coisas mais importantes com que me preocupar. – Benji responde também se trocando de costas para Aileen. Eles desenvolveram esse tipo de dinâmica naturalmente.
- Seja como for, a pedra fica comigo dessa vez. Pronto! Vamos lá? – Ela diz ao terminar de se vestir.
Aileen sai de dentro da barraca com uma aura que torna impossível não notar sua presença. Os cabelos vermelhos caem em ondas até a cintura, os fios parecem macios e bem cuidados. O corpete branco, bem justo e cheio de detalhes dourados, brilha com a luz que passa entre as árvores. Os botões dourados, alinhados perfeitamente, dão a impressão de que cada um deles guarda um feitiço. Dos ombros, cai uma capa roxa comprida, pesada e elegante, que balança com o vento. Os bordados dourados que enfeitam o tecido parecem desenhos mágicos, como se contassem histórias da antiga Drei. Usando botas roxas da cor da capa, ela também tem as pernas cobertas por meias da mesma cor que sobem até as coxas, e logo acima delas há enfeites dourados com pedrinhas vermelhas que lembram brasas acesas. Pequenos pingentes pendem desses adornos, balançando a cada passo que dá, ela é simplesmente linda, mas deixando claro que, mesmo com toda a beleza, há também força e perigo nela.
Os três rapazes a observam e todos têm o mesmo pensamento de que ela parece ser ao mesmo tempo uma bruxa guerreira e alguém de sangue nobre. Uma figura que não precisa falar nada para ser lembrada, porque só a maneira como está vestida já faz todo mundo parar para olhá-la. Até mesmo Jiaer teve que admitir para si mesmo que aquela mocinha miúda que ele havia conhecido, agora emanava um ar de imponência e começou a entender um pouco o motivo de Benji querer tanto levá-la na viagem.
Atrás dela Benji também sai da barraca e sua aparência não impressiona menos que a dela. Seu rosto é jovem e refinado, de traços suaves e bem definidos, emoldurado por cabelos escuros que caem de forma levemente ondulada. Os olhos, profundos e atentos, carregam uma expressão calma, quase distante, como quem observa o mundo de um ponto mais alto, onde o tempo passa mais devagar.
Ele veste um longo casaco azul-profundo, de corte elegante e caimento impecável, ricamente bordado com fios de ouro desenhando luas, estrelas e delicadas constelações. Fios finos e correntes ornamentais percorrem o tecido como traçados celestes, criando um desenho sofisticado e simbólico. A parte interna do casaco revela um degradê suave, do azul-escuro ao azul-claro, salpicado por pequenos pontos luminosos que lembram um céu estrelado. Sob o casaco, surge uma camisa de tom escuro, ajustada e sóbria, que serve de base para os detalhes dourados do conjunto. A calça branca, de linhas retas e acabamento preciso, contrasta com o azul noturno do casaco e confere leveza visual à composição. Um cordão fino e claro acompanha o traje, pendendo com naturalidade e acrescentando movimento. No pulso esquerdo um bracelete branco com as fases da lua gravadas em preto cintila com descrição completando o conjunto com refinamento.
Ambos parecem guerreiros imperiais que exibem força e serenidade. Os três amigos de Benji mal o reconheceram, não só suas roupas, mas a expressão em seu rosto mostrava alguém diferente do amigo com quem eles cresceram. Ele e a bruxa, com expressões sérias em seus rostos, pareciam prontos para acabar com qualquer inimigo que ousassem cruzar seu caminho.
- Vocês parecem mendigos. – Aileen diz apontando para os três rapazes e o encanto de sua beleza se quebra como vidro.
- Não parecem mendigos, não seja implicante. – Benji a repreende.
- Esses molambos que estão usando não vão durar metade da viagem. – Ela diz defendendo sua opinião. – Pegue algumas roupas suas, resistentes, e entregue a eles. Se precisar de algum ajuste faço isso com um feitiço.
- Não precisamos disso, é muito extravagante e chamativo. – Jiaer diz ofendido.
- Precisam de roupas de tecido bom, não só pela durabilidade, mas também para proteção. Há tecidos vendidos em Arkhûn especialmente para roupas de guerreiros. Elas parecem pesadas e desconfortáveis, mas na verdade são leves e também resistentes como uma armadura. – Aileen explica.
- Mas precisam ser tão chamativas? Achei que não fosse bom chamar atenção por aqui. - Jiaer rebate secamente.
- Estamos indo em uma missão, não caçar. Precisamos chamar a atenção de todos, se quisermos obter informações e fofocas a melhor coisa a se fazer é andar por aí parecendo pavões. – Ela gira o corpo ao dizer a última frase fazendo a capa esvoaçar formando ondas hipnotizantes. – E eu não ando com gente molambenta.
- Aqui! Vistam isso. – Benji entrega algumas roupas aos amigos. – Segurança em primeiro lugar, e parecer pavões em segundo. – Ele diz rindo complementando a piada de Aileen.
Mesmo a contragosto os três pegam as roupas e percebem que Aileen estava certa, são roupas feitas com um tecido muito resistente, porém tinham a leveza de fios de algodão.
Jiaer veste um traje que mistura imponência e delicadeza. O casaco azul-marinho, fechado por botões dourados, molda-se ao corpo com elegância. Bordados sinuosos, em fios de ouro reluzente, percorrem as mangas e o peito como se fossem ramos de hera crescidos sobre o tecido. A faixa amarrada à cintura solta pregas que caem em camadas leves, criando movimento a cada passo, enquanto as calças, igualmente azuladas, se ajustam com discrição. Nos pés, botas pretas de couro brilham com firmeza, sólidas e práticas, completando o conjunto. Assim, em meio ao verde vivo da floresta, a figura dele parece tanto um príncipe errante quanto um guardião silencioso.
Áki veste um traje elegante, que combina a sobriedade de um uniforme com o requinte de um manto cerimonial. A túnica verde – que realça o ruivo de seus cabelos – de tecido leve e fluido, cai em camadas longas que se abrem como folhas sob a luz da floresta, cintilando com pontos de brilho, como se tivesse sido salpicado com pó de estrelas. Por cima dela, um cinto escuro ajusta-se firme à cintura, destacando o corte esguio da silhueta. As mangas são claras, contrastando com o verde profundo do manto, e terminam em punhos cobertos por manoplas azul-escuras adornadas por linhas douradas que serpenteiam como raízes vivas. O mesmo detalhe percorre as botas altas, que sobem até os joelhos, firmes e imponentes, com arabescos delicados gravados em dourado.
Cassian veste uma camisa branca de tecido leve, cujas mangas amplas se acumulam em dobras suaves até os punhos. Na frente, babados descem em ondas elegantes, enquanto o peito se fecha por um trançado de fitas pretas, como se a própria peça fosse moldada entre o formal e o romântico. Na cintura, um colete escuro, ajustado e firme, sustenta o traje com fileiras de botões dourados que cintilam discretamente sob a luz da floresta. De um dos lados, uma corrente com medalhões pende, acrescentando peso e sofisticação. A calça, igualmente escura, completa a figura com sobriedade, desenhando linhas retas que reforçam sua postura ereta. Nas mãos, luvas pretas sem dedos revelam a pele clara das extremidades, dando-lhe um toque de praticidade, quase aventureiro, que contrasta com a delicadeza aristocrática da camisa. Assim, entre o brilho do dourado e a suavidade do branco, o conjunto cria uma presença de alguém que caminha entre o salão nobre e a liberdade da floresta.
Mesmo que os trajes tenham caído muito bem neles, Aileen percebe que precisam de alguns ajustes e com um gesto de mão ela solta um feitiço.
- ○ ~ Pyun ~ ○. – Ela diz dando um peteleco no pingente que se esconde dentro da roupa e repousa em seu peito, então uma luz lilás envolve cada um deles ajustando seus trajes como se tivessem sido feitos sob medida. – Agora sim! Vamos lá buscar o resto dos pavões desse grupo.
E com isso os cinco iniciam sua jornada.