- Então quer dizer que você conheceu a Aileen antes mesmo do Benji? – Cassian pergunta.
- Sim, ela morava comigo na Montanha dos Dragões, antes de o Benji roubar ela de mim. – Lóng responde se divertindo com a conversa.
Depois de muito chorar ao reencontrar os amigos, Lóng contou seu lado da história e então ouviu o que havia acontecido com os outros desde que chegaram a Drei. Mas durante toda a conversa uma figura inquieta se movia em silêncio, quase imperceptível, analisando cada detalhe da cabeça aos pés de Lóng. Áki podia ir e vir sem ser notado, o ar em si o ajudava a andar com pés leves como uma pena, mas quando todos contaram suas histórias o garoto explodiu em excitação.
- Você é realmente um dragão? – Ele pergunta e Lóng pode jurar que em seus olhos estão todas as estrelas do universo. – Eu quero ver.
- Você não pode ver agora. – Aileen diz se juntando ao grupo. – Se Lóng se transformar em dragão aqui vai destruir o acampamento, a barreira impede que ele saia e ele é enorme.
- Ah... – Áki diz um pouco desapontado.
- Não se preocupe Áki, vão ter muitas oportunidades pra isso ainda. – Lóng diz consolando o amigo.
- Como está o Benji? – Cassian pergunta.
- Ainda dormindo, mas quero que dê uma olhada nele, Lóng, afinal o curandeiro aqui é você. – Ela responde.
- Tem razão, quando fui até a barraca vocês estavam dormindo, então acabei me distraindo com o pessoal. Vou ver como ele está. – Ele diz se dirigindo até a barraca.
Ao entrar, Lóng vê que Benji está acordado, ele parece zonzo e confuso, mas Lóng se sente aliviado ao vê-lo, sua condição parece melhor que antes quando estava pálido e o corte em sua perna profundo e cristalizado. Benji o encara com um grande ponto de interrogação estampado no rosto e Lóng se dá conta de que tem algumas explicações para dar.
- Você é um curandeiro. – Benji diz depois de ouvir toda a história. – Combina perfeitamente, você é a pessoa com o coração mais puro que conheço.
- Isso não tem nada a ver... – Lóng diz timidamente. – Eu fiquei muito mais surpreso por ser você quem levou Aileen embora da montanha.
- Quem diria que a gente passou tão perto um do outro sem saber. – Benji diz pensativo.
- O que aconteceu com as bruxas, Benji? – Lóng pergunta um pouco hesitante em ouvir a resposta.
- Pra ser sincero eu não sei. Eu não vi. Tudo o que lembro é de ser arremessado pra longe e depois encontrar Aileen desmaiada perto de uma árvore.
- A magia dela mudou. – Lóng diz seriamente.
- Eu sei, também percebi isso. – Ele diz lembrando dos pequenos feitiços de brilho lilás, antes cor de rosa, que ela fez após a batalha com as bruxas. – Ela usou um feitiço proibido pra proteger a gente.
- Você fala do Reino das Ilusões? – Lóng pergunta alarmado sentindo um calafrio por todo o corpo.
- Não, ela estaria morta antes mesmo de completar o feitiço. – Benji afirma. – Mas não foi muito longe disso, ela usou O véu do sonho eterno.
- Me admira que ela esteja viva. – Lóng diz surpreso.
- Cassian tinha uma bolsa cheia de pedras âmbar, calhou de nos encontrarmos no caminho de volta para o acampamento, foi nossa salvação. – Benji deixa as costas retas e limpa a garganta antes de continuar. – Você parece saber bastante sobre ela...
- Bem, é natural que eu saiba sobre alguém que more comigo... Ou morava, nesse caso. – Lóng diz olhando ao redor.
- Não necessariamente... – Benji diz sem perceber o próprio ciúme.
- O quê? – Lóng pergunta sem perceber o ciúme do amigo.
- Eu... Eu quis dizer que é bom que nos reencontramos, é isso. – Benji diz confuso com os próprios sentimentos.
- Por que você estava tentando matar um dragão azul, afinal? – Lóng pergunta curioso.
- Ah, me disseram na Ilha da Folha que assim eu poderia voltar pra casa, mas pensando agora isso nem ao menos faz sentido.
- Eu tenho que dizer, nunca ouvi nada de bom sobre essa ilha, parece que eles gostam de sacanear todo mundo. – Lóng diz rindo.
- Tem gente boa por lá, mas realmente tem muita gente sacana, não dá pra negar.
- Tem muitos livros escritos em Elkarin, - Lóng diz analisando os diversos livros no chão perto da cama de Aileen. – Vocês compraram na Folha?
- Não, são todos de Runavir, lá só vendem livros em Elkarin. É a única cidade que permanece fiel à antiga Drei. – Benji responde.
- Ah! É a cidade que não aceita muito bem forasteiros, certo?
- Essa mesma, bando de preconceituosos! – Benji afirma.
- Aileen e os outros dragões me contaram que coisas como a língua e a cultura de Drei foram se perdendo com a chegada de forasteiros, cada um trouxe sua própria língua e costumes, é compreensível que a antiga capital de Drei não seja muito acolhedora com pessoas como nós, eles só querem proteger o próprio legado. – Lóng diz tentando entender o lado das pessoas de Runavir.
- Você sempre tenta ver o lado dos outros, não sou tão nobre quanto você. – Benji brinca, mas admira essa qualidade no amigo.
– Agora me deixe ver sua perna, já enrolamos demais com tanta conversa. – Lóng diz já examinando o ferimento do amigo.
Lóng é um Dragão Vermelho, o que significa que ele é um curandeiro, cada dragão tem suas peculiaridades, seus próprios dons e a própria magia. Só alguém com o coração completamente puro pode se tornar um curandeiro, aqueles que nunca foram corrompidos por coisa alguma e acreditam verdadeiramente na bondade do mundo, e esse é Lóng, alguém que é, em sua natureza, uma pessoa genuinamente boa. Lóng é o único Dragão Vermelho de Drei, fazendo dele o único curandeiro.
Lóng cospe algo parecido com lava e aplica na ferida na perna de Benji, não queima, tampouco fere, é a magia de cura ancestral em sua mais pura forma. Após Lóng tratar o ferimento e o cobrir com bandagens, os dois saem da barraca e se juntam aos outros perto da fogueira.