Capítulo 01 - Recomeço
Parte 1 - O encontro
A cidade parecia que tinha saído de um livro antigo. Fachadas coloridas, telhados inclinados e varandas floridas se alinhavam pelas ruas de pedras. Era difícil acreditar que aquele lugar seria seu novo lar, tão distante do calor, do sotaque e da comida de sua terra natal.
Ainda parecia estranho andar por aquelas ruas, tão diferentes das avenidas largas da sua cidade natal. O frio o fazia acelerar o passo, a curiosidade de conhecer o possível novo lar o mantinha firme.
Desde que chegou ao sul, estava hospedado na casa de Thiago, amigo de longa data. Thiago não se importava, mas Felipe sabia que precisava do seu próprio canto. Talvez por isso aquele anuncio no celular tenha chamado tanto a atenção: “aluguel barato, boa localização…”, e a promessa de independência. Seguindo as instruções do mapa no celular, encontrou-se diante de um casarão em estilo colonial.
O casarão aparentava imponente no final da rua, a fachada em estilo colonial lembrava um tempo antigo. No térreo, um pequeno estacionamento com quatro vagas recebia carros modestos, enquanto a porta principal levava direto à uma residência que ocupava quase todo o primeiro piso.
Felipe subiu pela lateral, onde uma escadaria estreita conduzia ao andar superior. O corrimão de madeira, polido pelo tempo, rangia sob o toque da mão. Vasos de flores alinhados nas bordas exalavam o cuidado, e o ar frio da tarde trazia consigo o cheiro doce de pão vindo da padaria na esquina. No topo da escada, um corredor comprido se estendia, revelando três portas espaçadas. Os apartamentos aparentemente amplos e idênticos. O primeiro apartamento já estava ocupado, o segundo também, o ultimo, era seu destino.
Felipe parou diante da porta indicada e conferiu novamente o endereço no celular. Com os dedos trêmulos não sabia se era pelo frio ou pela ansiedade. “É só um quarto”, pensou. “Nada demais.”
Antes mesmo que reunisse coragem para bater, a maçaneta girou e a porta se abriu. Do outro lado, uma garota de porte mediano, cabelos longos castanhos lisos e olhos cor de mel o observava com cautela. Vestia um casaco grosso de lã, que realçava a postura firme e, ao mesmo tempo, transmitia a pressa de quem carregava preocupações maiores que a idade.
— Você deve ser o… interessado no quarto? — perguntou ela, a voz misturando surpresa e curiosidade.
Felipe sorriu, meio sem jeito. Sua barba curta mostrava que fazia poucos dias que não se barbeava e os cabelos levemente desalinhados reforçavam o ar de quem ainda buscava se adaptar à rotina.
— Isso mesmo. Sou Felipe. — Estendeu a mão, o sotaque baiano marcando cada sílaba.
Ela demorou um segundo, mas aceitou o aperto de mão.
— Marina. — respondeu com firmeza.
Ela abriu espaço para que ele entrasse. O apartamento tinha uma atmosfera simples, mas aconchegante. A sala era ampla, iluminada pela luz que atravessava as janelas, a cozinha americana se abria logo ao lado, pratica e funcional. Havia duas portas no corredor, cada uma levando a quartos com varandas próprias, e ao fundo, um banheiro grande com uma banheira antiga.
— O valor é quinhentos reais, incluindo internet e água. A energia a gente divide. — explicou Marina, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Felipe assentiu, observando tudo com calma.
— Está dentro do que seu esperava. Parece um bom lugar.
Conversaram por mais alguns minutos sobre coisas praticas: horários, as regras básicas do prédio. Marina parecia um pouco desconfortável, mas Felipe acreditou que era apenas a cautela natural de alguém prestes a dividir o lar com um desconhecido.
Quando ele comentava que estava hospedado na casa de um amigo enquanto esperava as coisas chegarem, Marina respirou fundo e disse:
— Bom… se quiser mesmo ficar, tem uma última coisa. Você precisa conhecer os proprietários. Eles são muitos corretos e gostam de conversar com qualquer novo inquilino.
Felipe sorriu.
— Sem problemas. É só eu me apresentar direitinho, certo?
Marina mordeu o lábio, como se soubesse que não seria tão simples.
— Mais ou menos isso… eles são um pouco tradicionais. Mas deixa comigo. Eu marco um jantar com eles hoje à noite.
— Hoje mesmo? — ele arqueou a sobrancelha.
— É melhor resolver logo. — disse Marina, dando um meio sorriso.
E assim ficou decidido.
Foi nesse contraste silencioso que o encontro se firmou. Não havia romance ali, não ainda. Apenas duas realidades opostas que, a partir daquele instante, passariam a dividir o mesmo espaço.