Capítulo 01 - Recomeço
Parte 3 - Um furacão chamado Susana
O sábado amanheceu com céu azul e vento frio típico do inverno, Marina saiu cedo para cumprir o turno no trabalho. Passou boa parte do dia ocupada, resolvendo tarefas e lidando com pequenos afazeres que exigiam sua atenção constante. Não era algo que ela particularmente amasse fazer, mas o emprego ajudava a manter sua independência — e era esse o ponto que mais motivava.
Quando finalmente encerrou suas responsabilidades, respirou fundo, já com outro destino em mente. Pegou o caminho direto até a casa de Susi, levando consigo a leva ansiedade de passar a tarde com a amiga. Já conhecia aquele caminho de cor — afinal, as duas eram amigas desde pequenas — mas sempre se impressionava com o porte elegante da casa da família Moretti. Era uma construção ampla, fachada em madeira clara, com janelas grandes e uma varanda que exibia vasos de flores bem cuidadas.
Ao tocar a campainha, Marina foi recebida pela mãe de Susi, sempre cordial, e logo conduzida até a sala espaçosa, decorada com moveis modernos e discretos, sinais da boa condição financeira da família.
Poucos instantes depois, Susi desceu as escadas com passos leves. Os cabelos ruivos, cortados pouco abaixo dos ombros, balançavam a cada movimento. Os olhos verdes brilharam quando avistaram a amiga.
— Marina! — exclamou, abrindo os braços.
O abraço foi caloroso, e logo a espontaneidade de Susi tomou conta da sala.
Ela usava jeans justo, um suéter vinho e brincos discretos que realçavam seu rosto. Sempre parecia estar arrumada sem muito esforço.
— Você demorou, achei que ia desistir – disse ela em tom provocador, com um sorriso travesso.
— O frio não ajudou — respondeu Marina, rindo. — Mas eu não ia perder a chance de te ver.
Subiram juntas para o quarto de Susi, que refletia bem a personalidade dela: uma mistura de bagunça organizada, roupas espalhadas pela cadeira, maquiagem aberta sobre a penteadeira e uma guitarra encostada ao lado da cama. Marina olhou em volta e balançou a cabeça.
— Você não muda mesmo…
— E você continua perfeitinha demais — retrucou a ruiva, jogando-se sobre a cama. — Eu só funciono no caos, você sabe.
Conversaram por horas, passando de assuntos triviais até confidencias mais sérias. Em meio a risadas, Marina comentou sobre Felipe e a recente mudança no apartamento.
Susi arregalou os olhos, surpresa.
— Espera… você realmente colocou um cara para morar contigo? — disse, rindo incrédula. — Marina, isso não parece nada com você.
— Foi uma decisão rápida… e complicada. Mas ele é confiável, eu acho. — Marina explicou, um tanto sem graça.
Susi apoiou o queixo na mão, pensativa.
— Sabe, eu poderia até pensar em ir morar contigo, mas… meus pais nunca aceitariam. Eles me dão de tudo, não tenho motivo pra sair daqui. Diferente de você, eu não preciso brigar por espaço.
Houve um silêncio breve. Marina suspirou.
— É, eu sei.
Logo o clima volto a ser leve. Susi, animada, bateu palmas.
— Já sei! Vamos comemorar esse seu último fim de semana sozinha! Hoje à noite na sua casa. Só nós duas. Vai ser nossa despedida.
Elas riram juntas e passaram o resto da tarde planejando a pequena bagunça que, inevitavelmente, tomaria conta do apartamento de Marina.
No caminho para a casa de Marina Susi insistiu novamente na pergunta enquanto terminava um pacote de batatas fritas:
— Você vai mesmo dividir o apê com um garoto? — perguntou Susi, com um tom misto de provocação e curiosidade.
— Já aceitei. Não tinha muita escolha. Aluguel está perto de vencer e após a última conversa com meus pais decidi não pedir a ajuda deles. Você sabe que eles são contra eu morar sozinha, enfim... — Marina suspirou, erguendo o copo. — Mas ele parece gente boa.
Susi mordeu a batata e estreitou os olhos, divertida:
— Sempre tem uma outra opção caso ele seja um gatinho. Se você não quiser ele, eu quero, hein.
Marina apenas revirou os olhos e riu sem responder.
A noite já tinha tomado conta da cidade quando Marina e Susi retornaram ao apartamento. As duas riam alto, carregando algumas sacolas de besteiras que compraram no caminho: refrigerante, salgadinhos e alguns doces. Assim que entraram, Susi jogou o casaco sobre o sofá sem pensar duas vezes e olhou em volta, avaliando o espaço com olhos curiosos.
— Então é aqui que você vai morar com seu… “namorado virtual”? — perguntou, com um sorriso malicioso.
Marina reclamou, tentando esconder o incômodo.
— Ele não é meu namorado de verdade, e você sabe disso.
Susi se jogou no sofá e esticou as pernas.
— Tá, mas responde uma coisa… vocês vão dormir juntos no mesmo quarto?
Marina arregalou os olhos, quase engasgando com a pergunta.
— Claro que não! São dois quartos. — respondeu, corando. — Eu não teria concordado se não fosse assim.
— Hm… — Susi cantarolou, fingindo pensar. — Mesmo assim, eu ainda acho que você vai acabar se complicando com essa história. Mas olha, se ele for bonito como você falou… não sei se eu resistiria.
Marina revirou os olhos, tentando não rir.
— Você não tem jeito mesmo.
A noite seguiu leve. Elas colocaram música, comeram as guloseimas e ficaram até tarde conversando sobre tudo e nada. O apartamento, antes arrumado, transformou-se em uma verdadeira bagunça: embalagens espalhadas, almofadas no chão, a mesa da cozinha coberta de copos e pratos.²
Dona Irene, estava cuidando das plantas subiu e passando pelo corredor, lançou um olhar discreto pela janela entreaberta.
Retornou para sua casa e comentou com Jorge:
— Parece até festa lá dentro... — murmurou com um sorriso torto.
Seu Jorge, sentado na poltrona da sala com o jornal nas mãos, nem tirou os olhos da leitura:
— São jovens. — disse de forma seca, como quem já vira aquilo antes.
Irene soltou uma risadinha abafada e seguiu adiante, deixando o comentário no ar.
Quando o sono bateu, as duas se acomodaram no quarto de Marina, rindo como se fossem adolescentes em uma festa do pijama.
Era manhã de domingo, o sol mal despontava quando o som de batidas firmes ecoou pela porta. Marina, ainda sonolenta, arrastou-se até a entrada com o cabelo bagunçado, camiseta larga e expressão cansada. Abriu a porta devagar e se deparou com Felipe, bem arrumado, carregando algumas malas.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma figura surgiu atras dela: Susi, de short curto e uma blusa leve que mal cobria os ombros. Ela parou por um instante, observando Felipe de cima a baixo, e abriu um sorriso travesso.
— Olha só, então esse é o famoso “namorado”? — disse, inclinando a cabeça. — Marina, você não me contou que ele era tão gato…
Marina quase pulou de susto, empurrando Susi para trás.
— Susi! Vai se arrumar agora! — sussurrou nervosa, tentando fechar a porta por um instante.
Felipe coçou a nuca, sem saber como reagir, mas não conseguiu esconder o leve riso diante da cena. Quando a porta se abriu novamente, Marina estava mais composta, embora ainda corada, e a bagunça atrás dela parcialmente escondida.
— Você chegou cedo… — disse, surpresa. — Não era às dez que combinamos?
Felipe ergueu o celular, mostrando as horas.
— São dez horas em ponto, Marina.
Ela ficou sem resposta por alguns segundos. Susi, já saindo pela porta e arrumada às pressas, não perdeu a chance de jogar charme.
— Bom dia, vizinho. Boa sorte com a minha amiga. — disse, piscando e dando risada. — Se ela não te quiser, pode me procurar.
Marina suspirou, envergonhada, enquanto Felipe apenas sorriu, puxando uma das malas para dentro.
E assim, em meio as provocações e constrangimentos, o novo capítulo da convivência entre os dois começava.