Capítulo 02 - Hobby e Rotina
Parte 1 - Um novo ritmo, uma nova rotina
A primeira semana de convivência foi uma mistura de descobertas e pequenas tensões. Aos poucos, a rotina de Marina e Felipe começou a tomar forma, não sem tropeços pelo caminho.
Felipe acordava cedo, mesmo sem ter uma rotina fixa ainda, decidido a se estabilizar, passou a procurar emprego logo na primeira semana. Os primeiros dias foram de andanças pela cidade: bater de porta em porta, entregar currículos, tentar entrevistas rápidas. A sensação de estar começando do zero pesava, mas ele se mantinha firme.
Marina trabalhava meio período em um escritório, mas às vezes era chamada para cobrir turnos extras, aproveitava o período de férias escolares. Passava boa parte do dia fora chegando cansada no fim da tarde, outras vezes já noite. Ainda assim, mantinha um ar decidido, queria provar a si mesma que era capaz de viver sozinha.
(Extra – As panelas de Marina) - No fim de uma tarde corrida, Marina tentava preparar algo rápido na cozinha: arroz de pacote, molho pronto, frango descongelado às pressas.
Felipe entrou e observou de braços cruzados.
— Isso é comida... ou castigo? — perguntou com um sorriso torto.
Marina ergueu a colher como se fosse uma espada.
— Eu cozinho do meu jeito, senhor “crítico de comida”.
— Então amanhã eu faço. — respondeu ele, rindo.
Ela reclamou, mas por dentro ficou curiosa para ver se ele realmente cozinhava tão bem assim.
Numa tarde qualquer, Felipe se encontrou com Rafael e Thiago em uma lanchonete próxima ao centro. O lugar era simples, mas aconchegante, com cheiro de pastel e café forte impregnado no ar. Eles se reuniram em uma das mesas de canto, como faziam desde que Felipe chegara à cidade. Conversaram sobre os velhos tempos, sobre a cidade, até que surgiu o assunto emprego.
Rafael, sempre comendo algo, falava de boca cheia:
- Cara, estão contratando na empresa. Tem vaga lá no setor de suporte, você não comentou que manjava? – comentou Rafael.
Felipe ergueu as sobrancelhas, curioso:
- Sério mesmo? Isso seria perfeito – os olhos de Felipe brilharam.
Thiago deu uma risada curta, balançando cabeça:
- Eu posso dar um toque no chefe, mas ó… não me faz passar vergonha, cabeça.
Felipe sorriu com aquele jeito seguro de si:
- Relaxa. Sei até sorrir bonito, se for preciso.
Os três caíram na risada, chamando a atenção de um senhor na mesa ao lado. O clima leve deixou o tempo correr sem que percebessem.
Logo depois, Rafael recebeu uma mensagem no celular e levantou às pressas:
- Preciso ir. Minha mãe pediu ajuda com umas coisas lá em casa. A gente se fala.
Ele saiu rápido, deixando Felipe e Thiago sozinhos. O silencio durou pouco, quebrado por Felipe:
- Aliás, você tinha comentado daqueles lugares que vendem temperos, né? Eu estava pensando em cozinhar umas coisas… mas não faço ideia de onde encontrar.
Thiago sorriu de canto:
- Eu conheço. Te levo lá, sem erro. Melhor do que comprar nessas redes granas, onde o sabor parece tudo igual.
Felipe se animou, já tinha procurado por todo canto algo que lembrasse o sabor que ele tanto se orgulha.
Os dois seguiram juntos para as compras, conversando sobre a adaptação de Felipe na cidade.
(Extra - Recordações) - O entardecer já tingia o céu de laranja quando Felipe e Thiago caminhavam lado a lado pelas ruas movimentadas. O amigo explicava onde ficavam alguns mercados mais escondidos, onde era possível encontrar temperos mais raros.
— Cara, eu não pensei que fosse tão difícil achar um simples coentro por aqui — Felipe comentou, rindo de leve.
Thiago riu também. — Isso aqui é outro mundo, véi. Mas eu conheço os atalhos. Hoje mesmo te mostro umas lojinhas certas.
— Aí sim — Felipe respondeu, dando de ombros.
Depois de alguns passos em silêncio, Thiago soltou de repente:
— É engraçado te ver aqui comigo de novo… Lembra? Você vivia lá em casa comigo e com a minha irmã. A gente passava a tarde inteira sem nem perceber o tempo correr.
Felipe apenas arqueou a sobrancelha, mantendo o tom neutro. — É… faz tempo disso.
Thiago pareceu pensar um pouco, até que perguntou sem rodeios:
— E você não foi mais visitar ela? Achei que, mesmo depois que vim pro Sul, vocês ainda tivessem algum contato.
Felipe ajeitou a alça da sacola que carregava e respondeu no mesmo tom indiferente:
— A gente se afastou. Mantinha um contato ou outro, mas nada demais. Coisa normal.
— Hm, entendi — Thiago assentiu, satisfeito com a resposta, e voltou a falar sobre os temperos.
Felipe o acompanhou, tranquilo por fora. Nenhum traço de emoção escapava do rosto, nenhuma pausa denunciava lembranças. Mas no fundo, ele sabia exatamente o que estava escondendo.
O tempo passou e logo anoiteceu, eles se despediram, cada um tomando um caminho diferente sob o vento frio da noite.
Felipe subiu as escadas carregado com várias sacolas, as tábuas dos degraus de madeira rangiam suavemente sob cada pisada. Ao chegar no corredor, deu de cara com uma figura familiar: Susi, parada em frente à porta do apartamento de Marina, mexendo no celular.
- Oi, Susana – ele disse com um sorriso amistoso.
- Aguardando Marina? Ela anda chegando meio tarde do trabalho ultimamente… não quer esperar lá dentro e ficar pra jantar?
Ela ergueu o olhar, surpresa pelo convite inesperado, e abriu um sorriso maroto:
- Hm, olha só você… será que cozinha bem mesmo? Ou é só charme de baiano?
Felipe riu baixo. – Se ficar, vai descobrir.
Enquanto isso, Marina ainda estava presa no escritório, com os olhos grudados na tela do computador. O relógio já passava da hora de ir embora quando lembrou de checar o celular. Uma mensagem de Susi brilhava na tela: “Tô aqui na sua casa, cadê você?”
Ela respondeu a mensagem: “Desculpa amiga, já estou finalizando. Logo eu chego. Felipe já chegou? Me aguarda”. Ela fechou tudo às pressas, se despedindo com um sorriso cansado e quase correndo pelas ruas geladas.
(Extra – o aroma subindo as escadas) - Enquanto Felipe cozinhava no apartamento acima, o cheiro de temperos fortes e convidativos escapava pela janela e descia pelas escadas.
Na sala do andar de baixo, Seu Jorge voltou a erguer o nariz, desta vez com um ar de surpresa.
— Irene... isso não é cheiro de queimado, não. Tá bom demais!
Ela sorriu, servindo o marido com calma:
— Parece que temos finalmente alguém que sabe cozinhar naquele apartamento.
Jorge riu, divertido:
— Então a menina teve sorte com esse inquilino. Pelo menos não vamos mais viver com cheiro de panela esturricada...
Ao chegar, abriu a porta e foi recebida por um aroma envolvente, cheio de temperos marcantes, que contrastava com o cheiro industrializado de seus pratos rápidos.
Felipe apareceu na cozinha, usando o avental que encontrara pendurado atrás da porta. Ele a cumprimentou casualmente:
- Acabei usando sua cozinha, espero que não se importe.
Marina piscou, surpresa. Seus olhos logo encontraram Susi largada no sofá, mexendo no celular como se estivesse em casa. Um estranho alívio percorreu o corpo dela ao vê-los ali, juntos e tranquilos. Em seguida, ela mesma se perguntou o porquê daquela sensação.
Na mesa, Felipe apresentou um dos pratos típicos da Bahia: um bobó de camarão, cheio de cor e aroma, acompanhado de arroz soltinho e farofa.
Susi foi a primeira a provar, os olhos se arregalando:
- Mas… isso tá maravilhoso! Marina, se você não quiser ele eu quero hein.
Felipe riu, sem jeito, enquanto Marina dava um tapa de leve no ombro da amiga.
- Para de falar besteira, Susi…
Mesmo constrangida, ela não conseguiu esconder o quanto também estava encantada com o sabor. Era diferente, quente, quase familiar, mesmo sendo tão distante da culinária à qual estava acostumada.
Depois do jantar, Felipe recolheu suas coisas e subiu para o quarto, deixando as duas sozinhas.
Marina foi até a pia, começando a lavar os pratos. Susi, meio relutante, se levantou e pegou alguns copos para ajudar.
- Não adianta me olhar com essa cara, Mari. Tô ajudando, mas de má vontade.
As duas caíram na risada, e a noite seguiu leve, entre fofocas, comentários aleatórios e a certeza de que aquela rotina estava prestes a muda para todos.
(Extra – Depois do jantar) - Enquanto Marina lavava a louça.
— Ele faz seu tipo né?? — comentou Susi, apoiada no balcão da cozinha.
Marina parou por um instante, corando levemente.
— Não começa, Susi... ele é só meu colega de apartamento.
Susi riu, entregando um prato limpo:
— “Só colega”, sei...
Depois de lavar os pratos com Susi, Marina se jogou no sofá. As duas ainda riram de algumas histórias antigas da escola, até que o cansaço começou a pesar. Susi se despediu com um abraço apertado e uma piscadinha para Felipe, que havia saído do quarto apenas para beber água.
- Boa noite, “chef” – disse ela, zombando. – Se continuar cozinhando assim, vai ter fila de pretendentes na porta da Mari.
Felipe apenas riu, balançando a cabeça. – Boa noite, Susana.
- Susi, apenas Susi. – Retrucou a ruiva.
- Boa noite, Susana. – Insistiu Felipe rindo.
Lá fora havia um carro buzinando levemente, era o pai de Susi aguardando para leva-la para casa. A porta se fechou. O apartamento, enfim, mergulhou em silencio. Marina suspirou, ainda com o aroma dos temperos no ar, e foi tomar um banho demorado para aliviar o peso do dia.
Saiu do banho já de pijama com seus cabelos ainda úmidos que caiam em mechas soltas. Caminhou pelo corredor em direção ao quarto, e foi então que notou uma fresta de luz escapando da porta entreaberta do quarto de Felipe.
(Extra – A escrivaninha) - O quarto de Felipe estava entreaberto, a luz fraca do abajur iluminava a cena: ele sentado à escrivaninha, com um livro aberto e algo pequeno entre os dedos.
De relance, pareceu uma foto. Felipe apoiava a cabeça na mão, pensativo, sem notar sua presença.
Marina seguiu adiante em silêncio, com os cabelos ainda úmidos da toalha nos ombros, levando consigo uma estranha curiosidade que preferiu não alimentar.
Por alguns dias perdurava a mesma cena.
Por instinto, desviou o olhar por um segundo. Lá dentro, viu-o sentado à escrivaninha. Um caderno, aberto, mas nas mãos ele parecia segurar algo que lembrava uma fotografia. Marina não conseguiu ver direito, apenas de relance percebeu o gesto, junto da expressão pensativa que ele carregava, apoiando o rosto sobre a mão.
Não quis insistir. Continuou andando, discretamente, até o próprio quarto. Encostou a porta atras de si e soltou o ar preso nos pulmões, tentando afastar a curiosidade que começava a crescer.
- Não é da minha conta… – murmurou baixinho, ajeitando-se na cama.
Do outro lado da parede, Felipe guardou o que tinha nas mãos com cuidado, fechou o caderno e apagou a luz.
E os dias se passavam. Depois de algumas tentativas frustradas, Felipe recebeu a indicação de Thiago e Rafael, que já estavam empregados em uma empresa de tecnologia da cidade. Foi chamado para entrevista e conseguiu a vaga. O alivio estampava seu rosto, afinal, precisava se manter sem depender de ninguém.
(Extra – Primeiro dia no trabalho) - Felipe, de uniforme recém-pego, olhava para o crachá como quem encarava um troféu.
— Primeiro emprego longe de casa... — murmurou.
Do nada, Thiago apareceu ao lado dele, dando um tapa leve nas costas: — Bora, baiano. Aqui ninguém tem moleza.
Felipe revirou os olhos, mas não escondeu o sorriso: — E eu achando que ia ter um veterano camarada pra me ajudar...
Rafael, que passava ouvindo, riu alto: — Veterano a gente é... camarada, não prometo.
Marina, por outro lado, voltava todos os dias mais cansada, reclamando de pequenos problemas no escritório e das mudanças de horário.
- O pessoal acha que sou de ferro – murmurava, largando a bolsa no sofá e se jogando em seguida.
Dois jovens dividindo o mesmo teto, cada um com seus segredos, seus ritmos, suas rotinas, seus problemas, sem perceber que, pouco a pouco, começavam a invadir o mundo um do outro.
(Extra – Novos aromas) - Na noite seguinte, Marina chegou cansada do trabalho. Assim que abriu a porta, foi recebida por um aroma intenso: cebola refogada, coentro, pimenta na medida.
Susi estava esparramada no sofá, sorrindo satisfeita.
— Amiga, sério... se você não quiser ele, eu quero.
Marina respirou fundo, tentando disfarçar a surpresa e o leve alívio de ver a amiga ali.
— Só você mesmo, Susi...