Capítulo 02 - Hobby e Rotina
Parte 3 - Entre teclas e encontros
O casarão seguia com pequenos rituais que, aos poucos, se tornavam parte do dia a dia. De manhã, o cheiro do café preparado por Felipe escapava pelo corredor; à tarde, o barulho da porta batendo anunciava Marina chegando exausta do trabalho. Entre esses horários, a vida parecia correr sem pressa, como se o próprio casarão se acostumasse ao novo ritmo dos dois.
A rotina seguiu estável, mas a tranquilidade estava prestes a ser quebrada. Pouco antes de sair para o trabalho, Marina ouviu batidas firmes na porta. Ao abrir, deu de cara com o entregador, que segurava uma caixa retangular com um adesivo da transportadora colado de lado.
— Entrega para o senhor Felipe Santana. — disse o homem, estendendo o pacote.
Marina assinou rapidamente, ajeitou o embrulho contra o corpo e o levou para dentro. Deixou a caixa em cima do sofá, lançando um olhar curioso. Não tinha a menor ideia do que se tratava e, como estava atrasada, decidiu não mexer.
Horas depois, especificamente à noite, Felipe entrou no apartamento. Ainda tirava o casaco quando avistou o pacote repousando no sofá. O coração disparou no mesmo instante.
— Não acredito… — murmurou, largando a mochila no chão e correndo até a caixa.
Marina, de pijama, surgiu do quarto, enxugando os cabelos com uma toalha como de costume.
— Ah, o entregador trouxe isso hoje, esqueci de avisar. Só deixei aí. É seu né?
Felipe sorriu de orelha com a orelha.
— É meu, sim. E você não faz ideia do quanto esperei por isso.
Seus olhos brilharam como os de uma criança diante de um brinquedo novo.
— Enfim! — Exclamou. Carregando a caixa para dentro do quarto como se fosse um tesouro.
— O que é isso? — perguntou Marina com curiosidade.
— O futuro, Marina. — disse ele, rasgando a fita adesiva com um sorriso quase infantil. — O futuro chegou em forma de notebook.
Ela arqueou a sobrancelha, tentando não rir.
— Só espero que esse tal “futuro” não faça barulho demais de madrugada.
Felipe ignorou a provocação, concentrado em montar o equipamento sobre a sua escrivaninha. O brilho da tela inicial iluminou seu rosto como se fosse um ritual.
Pouco depois, mensagens no celular começaram a pipocar. Thiago e Rafael, curiosos, marcaram a primeira jogatina para aquela mesma noite.
No meio da semana, Felipe chegou mais cedo do que o normal. O expediente tinha sido encurtado e, com o tempo livre, decidiu passar pela padaria da esquina. O balcão de madeira, impregnado de cheiro de pão fresco, era familiar desde o primeiro dia em que visitou o lugar. Pegou alguns pãezinhos e, nume escolha impulsiva, levou também uma fatia de cuca, coberta de farofa doce.
De volta ao apartamento, encontro Marina largada no sofá, ainda com o uniforme do trabalho, uma expressão cansada e um livro esquecido sobre o colo.
— Comprei reforço. — disse ele, mostrando a sacola. — Pão e… uma coisa com nome estranho que a moça disse que era o que mesmo?? Deixe-me lembrar, a sim, a moça jurou que era “cuca”.
Marina ergueu o olhar, surpresa.
— Você nunca comeu cuca?
— Olha pra minha cara, Marina. Parece que eu já vi alguma “cuca” onde eu morava?
Ela riu, pela primeira vez no dia, e aceitou o prato improvisado que ele montou. Comeram juntos, em silêncio confortável, apenas o barulho da rua preenchendo o ambiente.
A noite caiu. O apartamento, antes calmo, foi tomado por sons frenéticos: cliques de mouse, vozes animadas, risadas e gritos de comemoração.
— Vai, vai, vai! — a voz de Thiago ecoava pelos fones, mas Felipe não resistia a responder em voz alta, como se estivesse em um campeonato mundial. — Puxa a lane, “Lahkir”!
Marina, já de pijama, surgiu na porta do quarto com cara de poucos amigos.
— Você tem noção de que a vizinhança inteira já sabe que você tá “puxando a lane”?
Felipe riu, virando-se para ela.
— Relaxa, é só hoje.
— Foi o que você disse ontem, enquanto me servia um café amargo às pressas.
Ele abriu a boca para responder, mas o grito de Rafael no fone interrompeu:
— “Lahkir”, foco! Você morreu de novo, cara!
Marina reprimiu o riso e voltou para o quarto, balançando a cabeça.
No dia seguinte, a cena se repetiu. Marina tentava ler um livro na sala quando os gritos começaram outra vez. Curiosa contra a própria vontade, aproximou-se da porta do quarto de Felipe. Pela fresta, viu o Felipe rindo como se o mundo fosse apenas aquilo: pixels, derrotas e vitórias.
No terceiro dia, ela perdeu a paciência.
— Tá, chega. — Anunciou, entrando sem bater. — Me explica o que é essa bagunça. Você passa horas nisso. Por quê?
— Porque é como desligar do mundo. Quando eu jogo, esqueço o resto. — respondeu Felipe num tom de autossatisfação.
Felipe ajeitou o headset e olhou para ela com um sorriso malandro.
— Quer aprender?
— Eu? Jogar isso? — Respondeu Marina.
— Porque não? — Thiago, respondeu do outro lado da linha, ouviu a discussão e se intrometeu: — A gente sempre precisa de mais gente no time!
— Não, obrigada. — respondeu Marina, seca, mas já dando alguns passos para perto. — Só quero entender o que tem de tão… divertido.
Felipe puxou a cadeira ao lado, oferecendo como quem entrega uma armadilha. Marina hesitou, mas acabou sentando.
Aos poucos, ela foi acompanhando os comandos, tentando entender as mecânicas. Não demorou muito até que soltasse uma risada involuntária ao ver o boneco de Felipe morrer de maneira ridícula.
— Você é péssimo nisso. — Provocou, cruzando os braços.
— Ei, respeito, que eu sou veterano.
— Veterano em morrer? — Completou Marina.
A gargalhada de Thiago e Rafael ecoou pelos fones, e Felipe suspirou, derrotado.
Nos dias seguintes, a curiosidade de Marina cresceu. Primeiro, só observava. Depois, pediu para tentar uma partida. No início, seus erros eram motivo de chacota, mas logo virou uma espécie de desafio coletivo: ensinar Marina a jogar.
A partir dali, as noites ficaram mais agitadas. As primeiras partidas de Marina foram um desastre. Morreu várias vezes em sequência, xingou as torres e riu de si mesma. Felipe, paciente, guiava os passos, corrigindo sua pressa, mostrando os caminhos.
E então, certo dia surgiu Susi, farejando a novidade, aparecendo na porta do quarto de Felipe em uma tarde de sábado com um saco de batatas fritas na mão.
— Eu ouvi que vocês estão jogando escondidos de mim? — anunciou Susi.
— Não é escondido, Susi… — começou Marina, logo atrás de Susi tentando impedi-la de falar.
— Quero jogar também. — Decretou a ruiva, já empurrando a amiga para o lado e entrando no quarto. Ao entrar sentou-se frente a tela.
Felipe piscou, sem acreditar.
— Mas… você ao menos sabe mexer no teclado? — perguntou Felipe, ainda incrédulo da cena.
— Eu sei fazer compras online, não deve ser tão diferente. — respondeu Susi, já pegando no mouse.
O caos estava instaurado. Entre gargalhadas, reclamações e jogadas atrapalhadas, Marina e Susi mergulhavam em um novo universo. As derrotas se acumulavam, mas numa madrugada qualquer veio a primeira vitória. Marina gritou de alegria, Susi bateu palmas como se fosse final de campeonato, e Felipe apenas sorriu, satisfeito.
Dias depois, Thiago e Rafael arrastaram Felipe para a praça central depois do expediente. O frio da noite era cortado pelo movimento de estudantes, crianças correndo e casais caminhando de mãos dadas. Marina apareceu com Susi, que havia insistido para encontra-los “por acaso”.
— Ah, que coincidência – disse Susi, exagerando no tom. — Vocês também vieram?
Thiago arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— Coincidência… sei.
A noite terminou com todos rindo em volta de uma banca de pipoca, a fumaça doce subindo no ar gelado. Marina, entre uma risada e outra, percebeu que já não estranhava tanto a presença constante deles.
Chegando no apartamento, depois de observar Felipe se divertir em mais uma partida, que Marina acabou soltando a pergunta quase sem pensar:
— Será que meu notebook aguentaria rodar esse jogo?
Felipe virou-se de imediato, os olhos brilhando com a oportunidade.
— Só tem um jeito de saber. — respondeu, já estendendo a mão.
— Deixa eu dar uma olhada.
Marina hesitou por um instante, abraçando o aparelho contra o peito como se fosse um segredo.
— Então pronto, me dá aqui. — disse Felipe, com um sorriso confiante.
— Se rodar, você entra no time.
Relutante, Marina entregou o notebook, ainda desconfiada. Felipe levou o notebook para a escrivaninha e, ao ligá-lo, a tela inicial exibiu o papel de pare: uma foto de Marina com os pais, sorrindo diante de uma praia ensolarada. O cabelo dela ainda mais comprido, os olhos cheios de brilho adolescente.
— Bela família você tem. — comentou ele, quase sem pensar.
Marina, que se aproximava para observar, parou no meio do caminho. O Sorriso na foto parecia lhe pesar nos ombros. Fingindo indiferença, cruzou os braços.
— Vai instalar ou vai virar crítico de fotografia, senhor “carinha do TI”?
Felipe percebeu a mudança no tom, mas não insistiu. Voltou a digitar, focando nas atualizações e limpeza de registros, enquanto Marina se sentou na cama, fingindo que mexia no celular. Por dentro, no entanto, a lembrança latejava: aquele registro de uma vida em que nada parecia complicado.
O silencio ficou pesado até que o barulho das teclas devolveu alguma normalidade ao ambiente.
— Pronto. Tá mais leve agora. Já aproveitei e instalei o jogo também. — disse Felipe, fechando a tampa.
Marina apenas assentiu, pegando no notebook de volta. Quis agradecer, mas a voz saiu curta demais.
Na semana seguinte, o grupo se reencontrou na lanchonete perto de uma faculdade. Entre risadas, Susi devorava uma coxinha enquanto Rafael tentava explicar a ela as diferenças entre o trabalho do Atirador e do Suporte.
— Então você ataca, mas precisa que o outro te proteja? — perguntou a ruiva, confusa.
— Basicamente. — respondeu Rafael, paciente.
— Hum… parece o Felipe e a Marina na vida real. Eu o ataco e ela tenta proteger.
Marina quase se engasgou com o refrigerante, arrancando gargalhadas de todos. Até Felipe, que vinha distraído mexendo no celular, não conseguiu segurar o riso.
Esses encontros casuais, aparentemente banais, começaram a tecer laços invisíveis. Em um desses encontros Felipe foi fazer uma visita rápida ao Thiago. Encontrou os dois amigos diante da TV, assistindo a um campeonato de Counter-Strike transmitido pela internet. Um time feminino mascarado chamava a atenção, jogando com uma sincronia invejável.
— Elas estão destruindo… — comentou Rafael, impressionado.
Felipe reconheceu de imediato a sintonia da dupla principal. E, por um instante, seus olhos pesaram. Um flash lhe atravessou a memória: a antiga equipe, a última final perdida, o peso da culpa que ainda carregava desde então. Engoliu seco, tentando disfarçar.
— Bora jogar? — desviou o assunto, arrancando a atenção dos amigos da tela.
Entre o barulho das partidas online e os cafés divididos. O grupo se consolidava. O frio do inverno já não parecia tão cortante. Entre gritos, risadas e jogadas atrapalhadas, o apartamento ganhou uma nova rotina. O barulho das teclas, as reclamações de Dona Irene sobre “juventude barulhenta” e até o olhar curioso de Seu Jorge quando sentia o cheiro de comida vindo de cima compunha o cenário.
Mas enquanto os dias passavam, uma data especial se aproximava. Felipe fingia que não ligava, mas já havia percebido as mensagens trocadas entre os amigos, as brincadeiras sobre “a surpresa do dia 28”.