Capítulo 02 - Hobby e Rotina
Parte 4 - Noite regada à álcool
O inverno parecia se arrastar, mas o calendário insistia em avançar. Julho chegava ao fim, trazendo consigo dias de céu cinzento e vento gelado que atravessava as ruas da cidade. Dentro do casarão, no entanto, o ambiente era outro: vozes, risadas, barulho de teclas e, vez ou outra, o cheiro de pão fresco escapando da cozinha.
Marina começava a perceber que a rotina com ele não era mais novidade, e sim habito. De manhã, encontrava a xícara de café já servida, à noite, havia sempre o som abafado de cliques vindo do quarto ao lado. Era estranho como um estranho começava a se tornar previsível.
Mas naquela semana. Algo diferente pairava no ar.
No sábado, logo depois do almoço, Thiago e Rafael apareceram no apartamento sem muito aviso. Susi como sempre, não demorou a se convidar. A sala ficou cheia em minutos, embalagens de salgadinhos e casacos espalhados pelos móveis.
Felipe, distraído, não percebeu as trocas de olhares, as risadinhas abafadas entre os amigos. Marina, sim. Sentiu que havia um segredo compartilhado ali, e que ela ainda não tinha sido incluída.
Foi Susi quem quebrou o suspense, com a sutileza de um trovão:
— Então, Mari… já pensou no que vai dar de presente pro seu “namorado de mentirinha”?
Marina quase engasgou com o chocolate quente que bebia. — Presente?
Thiago riu, balançando a cabeça. — Não dá pra fugir, Marina. Vinte anos não se fazem todo dia.
Rafael completou, em tom cúmplice: — E você vai ter que nos ajudar. Se não for você, ele não deixa a gente preparar nada.
Marina olhou de um para o outro, tentando disfarçar a surpresa. Por um instante, pensou em negar, se esquivar da responsabilidade. Mas a imagem de Felipe escrevendo sozinho em seu caderno, sempre com aquele olhar distante, lhe veio à mente.
Respirou fundo. — Tá… o que vocês têm em mente?
Foi nesse instante que Felipe, distraído no sofá, ergueu o olhar. O jeito como eles cochichavam não lhe passou despercebido.
— Tá acontecendo alguma coisa? — perguntou, franzindo a testa.
O silêncio pesou por um segundo. Susi foi a primeira a se recompor, puxando o celular do bolso e digitando rápido. A mensagem chegou a Rafael, que não demorou a entender o recado.
— Putz, já tá tarde. — disse Rafael, levantando-se de repente. — Vamos Thiago?
Thiago piscou, confuso. — Hã? Mas a gente…
Rafael o segurou pelo braço, insistindo com o olhar. Só quando já estavam na porta ele murmurou:
— Depois eu te explico.
Os dois saíram juntos, deixando Marina com o coração acelerado. Felipe os acompanhou com os olhos, ainda desconfiado, mas não comentou nada.
Susi, por sua vez, permaneceu mais um pouco, rindo de qualquer coisa para quebrar o clima. Quando finalmente se levantou, já era tarde o bastante para Felipe ter perdido o interesse em questionar de novo.
— A gente se fala, Mari. — disse ela, lançando-lhe um olhar cúmplice antes de sair. Marina fechou a porta atrás da amiga e respirou fundo. O segredo ainda estava seguro.
Mais a tarde Thiago mandou mensagem em um dos grupos de celular:
**Thiago:** “Amanhã à tarde, praça central. Sem o Felipe. Bora alinhar?”
**Susi:** “Óbvio. Mas se ele perguntar, eu digo que vou comprar batom novo.”
**Rafael:** “Até amanhã então.”
Marina leu as notificações com uma mistura de curiosidade e receio. Hesitou em confirmar, mas no fim digitou apenas:
**Marina:** “Ok. Eu vou.”
No final da tarde de quarta-feira o vento gelado varria a praça central, mas o sol ainda aquecia um pouco o ambiente. Thiago e Rafael já esperavam próximos a uma banca de pipoca, Susi mastigava um algodão-doce cor-de-rosa. Quando Marina chegou, todos fizeram questão de se aproximar rápido, como se estivessem conspirando.
— Então, a gente precisa decidir — começou Thiago, ajeitando o cachecol. — O Felipe vai fingir que esqueceu o próprio aniversario, como ele sempre faz, mas não dá pra deixar passar.
Principalmente os vinte anos, né? — completou Rafael. — Data redonda merece algo especial.
Susi se adiantou, com o entusiasmo de sempre:
— Eu já tenho meu presente. Vocês que se virem.
— Moeda do jogo. — respondeu Rafael, direto. — É o que ele mais vai usar.
— Já combinamos isso entre nós. Mas o que a gente precisa mesmo é… — ele olhou para Marina. — De você.
— Eu? — ela ergueu as sobrancelhas.
— Ele não vai aceitar nada se não tiver sua mão no meio. — Rafael deu de ombros. — Ele vai pensar que estaria incomodando os demais. Se você ajudar, ele não vai desconfiar de nada.
Marina sentiu o olhar dos três sobre si. Tentou disfarçar a surpresa, mas a lembrança de Felipe escrevendo sozinho em seu caderno, sempre com aquele ar distante, lhe veio à mente. Respirou fundo
— Tá… — murmurou. — Então, mais uma vez. O que vocês têm em mente?
As ideias começaram a surgir ali mesmo, entre o cheiro de pipoca e o barulho de crianças correndo pela praça. Nada grandioso: bolo comprado, salgadinhos, refringente e, para dar um toque diferente, uma bebida suave — nada pesado, mas o suficiente para deixar a noite descontraída.
— Eu não bebo. — Interrompeu Marina.
— Sem problemas. — disse Thiago.
— É só um drink pra brindar mesmo, podemos fazer pra você sem álcool. — Acrescentou Rafael.
— Marina, você fica encarregada de enrolar ele no dia. — decretou Susi, sem cerimônia. — Pensa em algo simples, tipo “ajudar a carregar sacolas” ou sei lá.
— E você pode dar um presente útil. — acrescentou Thiago. — Algo que ele use todo dia.
Marina lembrou-se do mouse gasto que ele insistia em usar. — Acho que já sei.
Rafael sorriu. — Então é isso. Surpresa resolvida.
Susi deu uma risadinha maliciosa, como se já imaginasse o desenrolar da noite.
Na quinta-feira, Marina saiu cedo para o trabalho. Havia cumprido turno pela manhã. Lembrou de ligar para Felipe:
— Você tá ocupado hoje à tarde? — perguntou, a voz hesitante. — Preciso de uma ajuda. Quero comprar um mouse melhor. Pensei em dar uma olhada em algumas lojas no centro, mas não entendo nada disso e não queria ir sozinha.
Felipe sorriu, surpreso. — Já tá virando gamer, é?
— Não exagera. — respondeu ela. — Só não quero morrer tanto no jogo.
Do outro lado da linha, ele riu baixo.
— À tarde vou estar no trabalho, mas dá pra gente se encontrar no meu horário de almoço. Que tal?
— Serve. — respondeu rápido, talvez mais rápido do que gostaria.
Na hora marcada, Maria o esperava próxima à praça central, ajeitando a bolsa no ombro. Felipe chegando apressado, com o caso aberto e o crachá ainda preso à camisa. Entraram juntos em uma loja de eletrônicos. As vitrines exibiam teclados coloridos, headsets iluminados e mouses de todos os tamanhos. Felipe, animado, passou a explicar com paciência cada detalhe: DPI, botões extras, ergonomia. Marina ouvia com atenção, fingindo anotar mentalmente, mas na verdade só observava o entusiasmo dele, a forma como seus olhos brilhavam quando falava de algo que gostava.
— Esse aqui é ótimo. — apontou ele para um modelo simples, mas resistente. — Não é dos mais caros, mas dura bastante.
Marina pegou a caixa nas mãos, fingiu avaliar e devolveu à prateleira.
— Acho que vou esperar. Preciso receber primeiro.
Felipe não estranhou. — Faz sentido. Melhor não gastar à toa.
Quando saíram da loja, caminhavam lado a lado pela rua movimentada. Uma senhora que passava, carregando sacolas, parou por um instante, olhou para os dois e sorriu:
— Formam um casal tão bonito.
Marina congelou. O comentário ecoou em sua mente. Abriu a boca para responder, mas não encontrou palavras. Felipe, sem jeito, apenas ajeitou a mochila nas costas.
— Acho melhor eu ir — disse ele, com um meio sorriso. — Meu horário de almoço tá acabando.
— Claro… eu já vou pra casa também. — respondeu Marina, desviando o olhar.
Despediu-se dele com um aceno rápido e ficou observando enquanto ele se afastava pela rua. Só então percebeu o quanto aquele simples passeio havia parecido… diferente. Quase como um encontro.
Mas em vez de seguir para casa, Marina respirou fundo, virou os calcanhares e voltou à loja. Foi direto ao balcão e apontou para o mesmo modelo que Felipe havia indicado.
— Quero esse. Mas… pode embalar para presente?
A atendente sorriu, enquanto Marina observava a caixa ser envolvida em papel colorido. Seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir.
Saiu da loja abraçando o pacote como se fosse um segredo precioso. Um presente simples, mas cheio de significado.
No grupo de mensagens, Thiago sugeriu que no domingo se reunissem todos no apartamento de Marina e Felipe, cada um com seu notebook. Não seria apenas uma jogatina, mas uma desculpa perfeita para preparar o terreno da surpresa.
**Thiago:** “Domingo é raid no apê. Todo mundo leva o note.”
**Susi:** “Se não tiver comida, eu não vou.”
**Marina:** “Tá certo.”
Felipe só respondeu com um emoji, sem imaginar o que estava sendo tramado por trás daquela “reunião gamer”.
De volta ao casarão, escondeu a sacola no fundo do guarda-roupa. À noite, quando Felipe jogava animado com Thiago e Rafael, ela fingia se distrair com um livro, mas na verdade não conseguia evitar o pensamento: “Será que ele vai gostar?”
O relógio seguia avançando. Cada dia trazia uma pequena faísca de expectativa, embora Felipe fingisse não perceber. O domingo da jogatina se aproximava, e logo depois viria o dia 28. A cada passo, a contagem regressiva para a surpresa ganhava mais peso — e Marina percebia, sem querer, que não estava apenas participando de um plano: estava, de alguma forma, envolvida nele de um jeito muito mais profundo.
Na sexta-feira, a manhã começou como tantas outras, mas Marina não conseguia se concentrar nas tarefas mais simples. Enquanto arrumava o quarto, esbarrou na porta do guarda-roupa e, por reflexo, lembrou-se do pacote escondido no fundo. O embrulho parecia pulsar ali dentro, como se fosse uma presença viva. Respirou fundo e fechou a porta rápido demais, quase como se temesse ser pega em flagrante.
Era só um mouse, repetia a si mesma. Simples, prático. Mas, ao pensar em entregar aquilo a Felipe, o estomago revirava. A cada vez que lembrava do sorriso dele na loja, enquanto falava das especificações técnicas, sentia que talvez tivesse escolhido certo… ou errado demais.
Durante o expediente, o celular não lhe dava descanso. O grupo de mensagens estava em plena atividade.
**Susi:** “Marii, já ensaiou a cara de surpresa quando entregar o presente?”
**Marina:** “…”
**Thiago:** “Concentrem-se, por favor. Pizza ou cachorro-quente no domingo?”
**Rafael:** “Pizza. Mas compra cuca também.”
**Susi:** “Pizza + presente + álcool leve. A receita da catástrofe.”
Marina suspirou, guardando o celular de volta na bolsa. Pensou em responder, mas desistiu. Era melhor manter o segredo quieto, mesmo entre eles.
Felipe, claro, estava fora dessa conversa.
No escritório, Felipe trabalhava no ritmo costumeiro. Tinha se adaptado ao setor, resolvendo pendências com eficiência que chamava a atenção dos colegas. Um deles, encostado à mesa, comentou entre papéis:
— Domingo é seu aniversário, né?
Felipe levantou os olhos, desconversando com um encolher de ombros.
— Só mais um dia.
O colega riu, mas não insistiu. Por dentro, Felipe sentia o peso família daquela data se aproximando. Aniversários nunca haviam sido simples, e ele preferia não pensar muito.
No fim da tarde, Felipe lançou no grupo a oportunidade perfeita:
**Felipe:** “Já que a gente vai se reunir domingo, que tal a gente participar do Clash já no sábado? Um, campeonatozinho leve. Nada sério, mas da pra brincar.”
Thiago foi o primeiro a reagir, sempre com o pé atras.
**Thiago:** “Não sei se as meninas estão prontas pra isso…”
Susi respondeu sem pensar duas vezes, com a confiança de sempre:
**Susi:** “Eu já nasci pronta. É só me darem apoio.”
Rafael mandou um emoji de risada, e Marina digitou devagar:
**Marina:** “Prometo tentar não atrapalhar.”
Felipe leu, sorriu diante da tela e respondeu com simplicidade:
**Felipe:** “Ninguém aprende sem tentar. Pra ter experiência, é preciso fazer a experiência acontecer.”
Marina já no apartamento aproveitou um intervalo nos afazeres para descer e falar com os proprietários. O cheiro de café fresco preenchia o térreo. Bateu levemente na porta.
— Dona Irene, seu Jorge… queria conversar com vocês.
A senhora apareceu abrindo a porta, ainda enxugando as mãos no avental. — Claro querida, entre.
Marina adentrou a porta.
— O que houve? — perguntou Irene com muita curiosidade.
Marina ajeitou o cabelo atras da orelha, um pouco sem jeito. — É sobre o domingo… vamos nos reunir lá em cima, jogar, comer alguma coisa. Mas também queríamos aproveitar e fazer uma surpresa pro Felipe. É aniversário dele.
Os olhos de Irene brilharam. — que lindo gesto! Ele merece. Pode deixar o bolo comigo, querida. Eu faço questão de preparar.
— Sério? — Marina arregalou os olhos, surpresa. — Nossa, isso vai ajudar muito.
— E nós subimos pra cantar parabéns, então. — completou Irene, já animada.
— Mas sem ficar muito, eu sei que vocês gostam de descansar. — Marina acrescentou, cuidadosa.
Jorge, que ouvia da poltrona, ergueu a voz:
— Só o suficiente para comer um pedaço de bolo, né, Irene?
As duas riram, e Marina se sentiu mais tranquila.
Ao sair viu Felipe que surgiu subindo as escadas. Ele acenou a mão, distraído, mas não se aproximou. Apenas sorriu rápido e seguiu o caminho até o apartamento.
Marina se despediu apressada dos proprietários e correu atrás dele.
Dentro do apartamento, enquanto Felipe tirava o casaco, lançou-lhe um olhar curioso.
— Tudo certo lá embaixo?
— Tudo sim. — respondeu ela rápido demais. — Só estava conversando com dona Irene.
— Algum problema? — insistiu.
Marina balançou a cabeça, forçando um sorriso. — Nenhum problema.
Felipe não desconfiou de nada. Apenas assentiu e foi direto para o quarto, largando a mochila. Marina fechou a porta devagar, respirando aliviada. O segredo estava seguro por mais um dia.
Já dentro do apartamento, Marina foi até a cozinha, fingindo mexer em alguns copos apenas para não encarar Felipe de imediato. Ele havia se jogado no sofá, mexendo no celular, aparentemente sem dar muita importância ao que acontecera lá embaixo.
— Felipe… — começou apoiando-se no balcão. — Você tem algo planejado pro domingo à tarde?
Ele levantou os olhos, surpreso com a pergunta. — Domingo? Acho que não. Por quê?
— É que… — Marina hesitou, buscando as palavras certas. — Eu queria sair um pouco. Pensei em dar uma volta, e como a Susi vai estar ocupada, queria saber se você poderia me acompanhar.
Felipe ajeitou-se no sofá, interessado. — Claro. Mas… tem problema se eu chamar Thiago e Rafael?
Marina sorriu de leve, tentando parecer despreocupada. — Não, problema nenhum.
— Beleza, então. — respondeu ele, voltando a atenção para o celular. — Vai ser bom sair um pouco.
Marina se aproximou, encostando-se discretamente no encosto do sofá. O plano já estava em movimento, e Felipe não fazia ideia. No grupo em paralelo, ela confirmava os detalhes pelo celular: encontrariam-se primeiro na praça central, conhecida pelas árvores altas e caminhos de pedra, antes de seguirem juntos para o aquário da cidade, enquanto isso os demais arrumariam o apartamento, até o momento em que os dois voltassem. Marina manteve o semblante tranquilo, mas por dentro sentia a ansiedade crescendo. Domingo estava cada vez mais perto.
Aproveitando o momento pediu alguns conselhos culinários para Felipe, a cozinha do apartamento se transformou em sala de aula improvisada. Felipe ajeitou o avental — mal arrumado, mas com pose de chef — e posicionou o celular no balcão, exibindo a receita. Marina, hesitante, segurava a colher de pau como se fosse uma arma.
— Certo, primeira lição: mexer o molho sem parar. Senão gruda e queima. — explicou Felipe, aproximando-se para guiar sua mão.
— Você tem certeza que isso vai ficar comestível? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha desconfiada.
— Confia no professor aqui. — respondeu, ele com um sorriso exageradamente confiante.
Marina tentou seguir as instruções, mas o molho borbulhou alto e espirrou, quase acertando os dois. Ela soltou um gritinho e recuou, enquanto Felipe ria e segurava a panela a tempo.
— Calma, calma… isso é só o molho mostrando personalidade. — brincou ele.
Marina caiu na risada, cobrindo a boca para não gargalhar ainda mais.
— Se essa é sua aula, acho que vou preferir pedir delivery. — provocou, largando a colher no balcão.
Felipe suspirou em derrota, mas não perdeu o humor:
— Tá, justo. Aula encerrada. Próxima vez a gente tenta algo mais simples que não envolva explosões.
Ela apenas riu, pegando o celular para pedir comida.
Enquanto isso ele continuou mexendo a panela com calma. Pouco depois, desligou o fogo e ajeitou o molho em potinhos, deixando tudo pronto para congelar.
— Pelo menos agora você não precisará lidar com explosões nos próximos dias. — disse, fechando a tampa do último pote.
Maria riu, sentando-se à mesa.
— Ok, admito, essa parte foi útil. Mas o delivery vai salvar a noite.
Algum tempo depois o cheiro de pizza quente tomava conta do ambiente. Marina observou Felipe distraído, falando sobre a semana, e pensou no embrulho escondido no guarda-roupa. O presente que logo sairia das sombras para mudar, de algum jeito, a forma como ele olhava para ela.
{A conversa parecia ter terminado, mas já era tarde da noite quando Susi voltou a provocar o grupo:
**Susi:** “Mas afinal… o que é esse tal de Clash”
**Thiago:** “É tipo um mini-campeonato que rola no sábado e no domingo, de tempos em tempos”
**Rafael:** “A gente entra como time e cai contra outros grupos do mesmo nível. Se ganhar, sobe, se perder desce”
**Felipe:** “Cada dia pode render quatro ou mais partidas. Vai depender de como a gente for indo. Se avançar, pode durar uma parte da noite. Se cair cedo, acaba rápido”
**Susi:** “Então, em resumo, é como se fosse uma “gincana gamer” de fim de semana?”
**Marina:** “Acho que é isso. Só que sem torcida, sem bandeirinha e com muito mais xingamentos no chat.”
**Felipe:** “Mas é divertido. A gente aprende, erra, acerta, ganha alguns bônus… e, no fim, sai todo mundo com mais experiência.”}
O relógio seguia implacável. Faltavam apenas dois dias para o domingo da jogatina — e, para o aniversário.
O sábado correu arrastado, como se o tempo estivesse preparando terreno para a noite. Cada um cumpriu sua rotina em silêncio, mas no grupo de mensagens a expectativa crescia. Era o primeiro dia do Clash, um pequeno campeonato online que reunia times casuais para partidas organizadas.
Às dezoito horas em ponto, Felipe foi o primeiro a aparecer online. Ele aguardou todos ficarem online e mandou no chat:
“Entrem no Discord. Precisaremos de bastante comunicação.”
Lahkir (Felipe): “Prontos?”
Oberon (Thiago): “Não sei se as meninas estão preparadas pra isso…”
Susi entrou na conversa quase instantaneamente.
SuzaN (Susana): “Nasci pronta, já disse. Só espero que sabia me dar o apoio correto.”
Quando a primeira partida começou, Marina sentiu o coração acelerar. As mãos estavam frias sobre o teclado novo, mas aos poucos foi se acostumando. As instruções pacientes de Felipe e as provocações animadas de Susi ajudavam a quebra a tensão
Contra adversários de nível baixo, o grupo foi avançando. Não sem erros: Thiago reclamava do lag, cada vez que morria, e Susi, apesar da confiança, às vezes avançava além do necessário. Ainda assim, Marina surpreendeu a todos. Seus movimentos ganharam firmeza, sincronizados com as jogadas de Felipe, seus reflexos mais rápidos, e até Rafael admitiu:
— Você tá jogando bem melhor do que eu esperava.
Susi gargalhou. Eu disse! Essa dupla aqui vai carregar vocês.
Felipe apenas sorriu, orgulhoso.
Partida após partida, a equipe avançou até a final. O clima era de adrenalina pura, todos rindo, gritando instruções e comemorando pequenas vitórias. Mas no momento mais decisivo, algo deu errado.
Felipe pressionou o mouse com força, mas ele falhou, travando por segundos que custaram caro. A jogada se perdeu, o inimigo avançou, e a derrota foi inevitável.
O silêncio caiu pesado.
— Desculpa, galera… — murmurou Felipe no microfone, a voz baixa. — O mouse falhou.
Marina percebeu a diferença no tom. Não era só pela partida. Aquilo havia mexido em algo mais profundo.
Pouco depois, o barulho das vozes foi diminuindo, cada um desconectando aos poucos. Marina, no entanto, não conseguiu ignorar. Bateu levemente na porta do quarto de Felipe e entrou. Ele estava sentado diante do notebook desligado, olhar perdido.
— Ei. — chamou suavemente. — Não precisa se desculpar.
Felipe ergueu os olhos, surpreso. — Não gosto de falhar com o time. Ainda mais com vocês… me lembra coisas do passado.
Marina se aproximou, apoiando-se na lateral da escrivaninha. — Tudo bem. E, afinal… como eu me saí?
Felipe a encarou por alguns segundos, e um pequeno sorriso nasceu no canto dos lábios. — Se saiu muito bem. Melhor do que eu esperava.
Ela riu, leve. — Então vamos mais partidas?
Por um instante, o peso em seus ombros pareceu se dissolver. Ele ligou o computador novamente, os olhos brilhando outra vez.
— Vamos.
Ao logar, Felipe percebeu que todo mundo já estava reunido na sala do jogo, só esperando por ele. Assim que entrou, a notificação do convite apareceu e ele clicou sem pensar duas vezes.
— Até que enfim! A voz de Susi pipocou no chat. — Pensei que tava ocupado demais de namorico com a Mari. – provocou Susana.
No quarto ao lado, Marina já se preparava pra sentar, mas a provocação a fez dar uma risadinha. Pegou o fone e entrou no canal:
— Continua sonhando, Susi. Vai ficar só na sua imaginação.
O grupo inteiro caiu na risada, cada um tentando falar por cima do outro.
— Tá vendo? — disse Rafael, rindo. — Nem precisa responder, já entregou.
— Bora focar, cambada! — interrompeu Thiago, empolgado. — Hoje a gente vai limpar o gosto amargo da derrota.
Entre piadas, risadas e provocações, o time jogou como nunca. Cada nova partida era uma forma de espantar os fantasmas que insistiam em rondar. Partida após partida, eles venceram todas, encerrando a madrugada com aquela sensação boa de quem está exatamente no lugar certo.
Quando finalmente encerraram a última partida, já passava das três da manhã. Marina bocejou, recostando-se na cadeira, enquanto Felipe ainda encarava a tela com um brilho renovado nos olhos.
— Acho que agora chega… — ela murmurou, rindo baixo. — Senão a gente vai virar zumbi amanhã.
Felipe concordou, mas o sorriso teimoso não deixava seu rosto.
A apartamento silenciou pouco depois, cada um recolhido ao seu quarto. A madrugada fria arrastou-se devagar, como se o tempo conspirasse para prolongar aquele instante de trégua.
Entre sonos leves e pensamentos dispersos, chegou o domingo — dia marcado não apenas por uma nova jogatina, mas por algo muito maior que ele ainda não suspeitava.
O apartamento ainda estava silencioso quando Felipe acordou, um pouco mais tarde que o habitual. Anoite anterior de jogatina pesava nas pálpebras, mas havia uma sensação estranha no ar, algo que ele não conseguia identificar. Todos se levantaram devagar, tomando café, ainda comentando sobre as partidas da madrugada no grupo.
Depois do almoço, Felipe se adiantou, saindo para o ponto combinado. Marina ajeitou a bolsa no ombro, certificando-se de que o presente estava bem escondido, e logo o alcançou. Aguardaram o carro por aplicativo chamado por Felipe, conversando sobre detalhes triviais do dia, mas sempre com sorrisos cúmplices. Passaram a tarde no aquário, entre cardumes coloridos e observações animadas de Felipe, que pela primeira vez visitava um aquário. Marina se divertia com a empolgação dele, mas não podia deixar transparecer que algo grande os esperava em casa.
Já era fim de tarde quando recebeu a mensagem de Susi no celular: “Tudo pronto, podem voltar”, Marina assentiu, e o Uber os levou de volta ao apartamento. Felipe franziu a testa ao notar o térreo escuro.
— Estranho… Dona Irene e Seu Jorge quase nunca deixam a luz apagada… — comentou, olhando de relance
— Esqueci a chave… — disse Marina, sorrindo discretamente. — Tem como você abrir com a sua?
Felipe encaixou a chave na fechadura e girou a maçaneta. Assim que a porta se abriu, a luz acendeu e todos gritaram em uníssono:
— SURPRESA!!
Felipe recuou um passo, surpreso, e lágrimas começaram a se formar nos olhos. O apartamento estava decorado com balões, fitas, uma mesa cheia de salgadinhos, pizza e bolo. Rafael e Thiago correram para abraça-lo.
— Feliz aniversário, irmão! — disse Thiago, apertando-o com força. — Se que você não liga muito pra comemorações, mas não seria esse ano que você ficaria sem nada.
— Valeu, cara… — disse Felipe, emocionado, limpando uma lágrima.
— É isso aí! — completou Rafael, batendo nas costas de Felipe. — Agora só falta o bolo, hein!
Marina se aproximou com um sorriso contigo, ainda mantendo o olhar discreto, e abraçou Felipe fortemente. Ele sentiu o calor e o cuidado do gesto, antes que pudesse responder, ela beijou sua bochecha, sussurrando quase inaudível:
— Eles estão vendo… temos que manter as aparências.
— Sobre isso, eu… — começou Felipe, mas foi interrompido por Susi, que se adiantou com um embrulho peculiar:
— Ok, ok, sem chororô agora, chef! Agora é minha vez.
Felipe sorriu, ainda sendo segurado pelo braço por Marina, e acenou para que ela ficasse quieta, mas Marina apenas riu, encostando a testa na dele por um instante.
Na sequência, os presentes foram entregues:
Rafael e Thiago: um cartão com moeda do jogo (RP).
— Vai lá, usa no que você mais gosta — disse Rafael, piscando.
Dona Irene: uma caneca de cerâmica artesanal com o brasão da Bahia.
— Para se lembrar de sua terra, Felipe. E aproveitar bem seus cafés — disse Irene, sorrindo maternalmente.
Seu Jorge: uma garrafa de vinho de uma adega famosa.
— Vamos tomar ele hoje, Seu Jorge? — perguntou Felipe.
— Por que não? — respondeu ele, aceitando o convite com um sorriso discreto.
Marina: entregou o mouse novo.
— Para seus jogos… e para você lembrar de mim sempre que usar. — disse Marina, sorrindo, ainda com os braços envoltos ao redor dele.
Felipe abriu com cuidado e, ao ver o presente, não pôde deixar de sorrir:
— Mari… você acertou em cheio. Valeu mesmo.
Então chegou a vez de Susi. Ela estendeu o embrulho com ar malicioso:
— Tá pronto? — disse, piscando. — É pra vocês dois…
Felipe levantou a sobrancelha, curioso. Ele abriu o embrulho e encontrou uma pequena caixa com dois porta-chaves entrelaçados, um com a inicial dele e outro com a inicial dela, acompanhada de uma nota de Susi:
“Para lembrar que, mesmo que tentem esconder, vocês dois se pertencem em qualquer universo (mesmo que seja só para os proprietários… por enquanto).”
Ele riu surpreso, ainda emocionado, e ergueu os olhos para Marina.
— Você… começou, mas Marina apenas o abraçou novamente, beijando sua bochecha e murmurando:
— Silêncio… eles estão vendo.
O apartamento se encheu de risadas e pequenas provocações. O bolo foi cortado, as fatias distribuídas, e entre um gole de vinho e outro, Felipe percebeu que aquela comemoração não era apenas sobre presentes: era sobre amizade, cuidado e momentos compartilhados, que ele começava a valorizar mais do que imaginava.
Após o corte do bolo e a entrega de presentes, dona Irene e seu Jorge desceram para o térreo, preparando-se para retornar ao seu domingo habitual. Antes de saírem, dona Irene lançou um olhar cúmplice para Marina e disse, sorrindo:
— Hoje está liberada a bagunça! Aproveitem, meninos.
— Obrigado, dona Irene! — disse Felipe, ainda segurando o sorriso, enquanto observava os dois descendo a escada.
O clima no apartamento mudou imediatamente. Os amigos rapidamente arrumaram os notebooks sobre a mesa da sala, prontos para as partidas do Clash. A decoração de aniversario ainda dava um ar de festividade ao ambiente. Pela primeira vez, todos estavam reunidos para uma jogatina no mesmo lugar, estavam focados: Thiago, Rafael, Felipe, Marina e Susi.
— Bora lá, pessoal — disse Felipe, conectando o novo mouse. — Dessa vez a gente vence.
E venceram. A partida final foi intensa, cheia de estratégias e risadas nervosas. Quando o resultado final apareceu na tela, todos explodiram em comemoração. Rafael, sempre animado, pegou ingredientes improvisados para preparar drinks de comemoração:
— Sem álcool pra mim, hein! — avisou Marina, sorrindo.
— Pode deixar, Lahkir — respondeu Rafael, confiante.
Os drinks ficaram prontos e foram servidos. Marina, distraída conversando com Felipe sobre a partida, não percebeu que Susi, com seu jeito travesso, havia acrescentado discretamente um pouco de vodca no seu copo. Quando tomou o primeiro gole, percebeu um gosto ligeiramente diferente, mas não deu importância e continuou bebendo. Aos poucos, seu comportamento começou a mudar: risos mais soltos, gestos mais próximos de Felipe, uma sensação de calor que ela tentava disfarçar.
Felipe percebeu imediatamente, franzindo a testa e segurando o copo dela com cuidado:
— Mari… tá diferente… — disse baixinho, preocupado.
Rafael olhou de relance para o relógio e depois para o clima do apartamento, percebendo que era hora de ir embora. Cutucou Thiago para que notasse o clima também.
— Acho que já tá na hora da gente ir, Lahkir — disse Thiago, ajeitando a mochila.
— É… boa noite, irmão — completou Rafael, sorrindo maliciosamente.
Marina, ainda embriagada pela bebida, se aproximou de Felipe e grudou nele:
— Nossa… tá fazendo calor — murmurou, encostando no corpo dele, respirando quase ofegante.
Enquanto isso os meninos se despediam, ajustando seus equipamentos, Susi, que ainda estava caçando algo para comer, percebeu a cena. Felipe rapidamente tentou chama-la para ajudar:
— Susi! Vem cá, preciso que você cuide dela…
Susi, sem perder o ritmo, e com um sorriso malicioso, inventou rapidamente uma desculpa:
—Ah… eu também tenho que ir pra casa! Mas cuide da minha amiga, hein! — disse, piscando para Felipe.
Antes que ele pudesse insistir, Marina apertou Felipe ainda mais contra si, um misto de ciúmes e brincadeira na voz:
— Olhe mais pra mim! — sussurrou, quase com um tom possessivo.
Felipe suspirou, rindo baixo, sem coragem de se afastar. Ela ainda estava quente e um pouco alterada pela bebida, e naquele instante o mundo parecia se resumir aos dois. A sala, agora silenciosa, guardava o eco das risadas, das partidas e das provocações, enquanto os últimos resquícios do aniversário se misturavam à tensão crescente entre Marina e Felipe.
Marina ainda sentia o calor da bebida e o efeito da excitação das partidas. Seus dedos se enroscavam na camisa de Felipe, e a voz, mais baixa do que o habitual, saiu com sinceridade e vulnerabilidade:
— Sabe… eu… gosto de você, Felipe. Mais do que devia… e… minha família… não entende muito quem eu sou, nem minhas escolhas…, mas com você aqui… tudo parece ser mais fácil.
Felipe a ouviu atentamente, segurando sua mão, sentindo cada palavra atravessar a tensão que sempre existira entre eles.
Enquanto tentava buscar um pouco d’água para ela. Ela suspirou fundo, puxou ele, fechando os olhos, e num impulso, beijou Felipe. O primeiro toque de lábios foi breve, mas intenso. Ele não hesitou, respondeu com um beijo prolongado, profundo, se entregando ao momento, como se toda a ansiedade dos dias anteriores desaparecesse.
Entre sorrisos e respirações entrecortadas, Felipe guiou Marina até o quarto. A porta se fechou suavemente, e os dois se acomodaram no espaço já familiar, o coração batendo acelerado de cada lado. O mundo lá fora parecia distante…
O sol mal iluminava o quarto quando Marina despertou, sentindo a textura da cama. Ela abriu os olhos e percebeu que estava apenas de calcinha e com uma blusa de botão de Felipe em seu corpo. Um rubor subiu às bochechas, misturando a vergonha e confusão. Juntamente com uma terrível dor de cabeça. Tentou recordar a noite, mas via apenas um brando após um beijo no calor do momento…
Confusa, ela pegou o celular para ligar para ele, mas ouviu o toque vindo do quarto. Seus dedos tremiam levemente, misturando ansiedade e curiosidade. Ela se aproximou, encontrando o celular de Felipe sobre a escrivaninha, sinal de que ele havia esquecido.
O quarto permanecia silencioso, a rotina intacta, e Marina permaneceu ali, parada, segurando a blusa de Felipe fechada sobre si, tentando organizar pensamentos e emoções antes que o dia começasse de fato.
O silêncio trouxe mais perguntas do que respostas, e ali se encerrou a noite de domingo, deixando o eco da intimidade recém-descoberta pairando no ar, pronta para ser retomada nos próximos capítulos.