— Então… o que veem? — perguntou Elara, embora, no fundo, já soubesse a resposta.
Sua voz soou firme, mas carregava uma leve tensão, quase imperceptível para ouvidos desatentos. A lamparina sobre a mesa lançava uma luz quente e instável, fazendo com que as sombras dançassem nas paredes de madeira envelhecida, como se o próprio ambiente estivesse inquieto com o que estava por vir.
Zach foi o primeiro a responder. Seus olhos permaneceram fixos na carta que segurava, como se temesse desviar o olhar e descobrir algo ainda mais perturbador.
— “O Diabo” … — disse ele, com a voz mais baixa do que o habitual.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Silas inspirou profundamente antes de falar. Sua postura era mais contida, mas o leve franzir de sua testa denunciava um desconforto interno.
— “A Sacerdotisa” … — afirmou, em um tom controlado, embora carregado de uma sutil decepção.
Por fim, Elara virou sua própria carta lentamente, como se estivesse conduzindo um ritual cuidadosamente ensaiado.
— E a minha… é “O Julgamento”.
O ar na sala tornou-se pesado. Não era apenas a revelação das cartas que causava aquele desconforto, mas o significado por trás delas. Não eram meros símbolos impressos em papel; eram sinais, marcas de um destino maior, de um mundo oculto que se estendia muito além da compreensão comum.
Cada um deles permaneceu imóvel por alguns instantes, observando suas respectivas cartas como se buscassem respostas que ainda não estavam prontos para compreender.
O silêncio se instalou, profundo e opressor.
Lá fora, a chuva caía com intensidade crescente, suas gotas golpeando o telhado e as janelas como um tambor distante, marcando o início de algo inevitável. O vento soprava por entre as frestas da construção, trazendo consigo um frio sutil que parecia penetrar até os ossos.
Zach apoiou os cotovelos sobre a mesa, ainda encarando a carta.
— O que… isso significa, exatamente? — perguntou, sua voz carregada de tensão.
Silas ainda segurava sua carta com firmeza, como se temesse que ela pudesse desaparecer a qualquer momento. Ele ergueu o olhar em direção a Elara.
— Então isso quer dizer que… nós fomos marcados?
Elara inclinou levemente a cabeça, observando os dois com uma expressão difícil de decifrar.
— Não — respondeu, com calma. — Não “fomos” marcados… nós já nascemos marcados.
Havia um tom de orgulho em suas palavras, mas também uma aceitação madura, como alguém que já havia passado pelo processo de entender o próprio destino.
Zach respirou fundo.
O mundo sempre lhe parecera imprevisível, mas agora adquiria uma nova camada de complexidade. Era como se, de repente, cada decisão que tomasse tivesse consequências invisíveis, ramificando-se em direções que ele mal podia conceber.
— E qual é o próximo passo? — perguntou ele, tentando manter a compostura.
Elara se levantou lentamente. Seus passos eram silenciosos enquanto ela caminhava até a janela. Por um instante, permaneceu imóvel, observando a chuva escorrer pelo vidro, distorcendo a paisagem lá fora.
A luz da lamparina refletia em seus olhos, que agora brilhavam com intensidade.
— Primeiro… vocês precisam entender o que significa ser um “Marcado”.
Ela se virou para encará-los.
— Aqueles que nascem assim possuem habilidades especiais. Cada uma delas está ligada a uma das cartas do tarô.
Zach ergueu levemente a sobrancelha, ainda intrigado.
Elara continuou:
— “O Diabo”, por exemplo… é capaz de criar ilusões extremamente poderosas. Ilusões tão realistas que podem enganar todos os sentidos.
Ela olhou diretamente para Zach.
— Como é o seu caso.
Zach apertou a carta entre os dedos. Uma mistura de fascínio e inquietação tomou conta dele.
— “O Julgamento”, que é a minha carta… me concede clarividência. Consigo ver além do presente, perceber padrões, possibilidades… fragmentos do que ainda está por vir.
Ela fez uma breve pausa antes de continuar.
— Já “A Sacerdotisa” … — disse, olhando para Silas — está ligada à cura e à regeneração. Um poder raro… e extremamente valioso.
Silas se inclinou sobre a mesa, observando novamente as cartas.
— Então… isso significa que existem outros como nós?
— Sim — respondeu Elara. — Ao todo, são vinte e dois.
Zach cruzou os braços, pensativo.
— Então temos que encontrar os outros dezenove?
Elara assentiu.
— Exatamente. E há algo curioso nisso tudo… — acrescentou, com um leve sorriso enigmático. — Pode parecer ironia ou apenas o destino em ação, mas… os Marcados sempre acabam se encontrando.
Zach ficou em silêncio por um momento, como se processasse aquela informação. Então, levou a mão ao bolso de seu sobretudo e guardou a carta.
— Dezoito — disse ele, de repente.
Silas franziu a testa.
— Como assim dezoito?
— São dezenove além de nós — retrucou Silas.
Zach balançou a cabeça lentamente.
— Não… dezoito.
Os dois o encararam, confusos.
— Eu matei um deles — continuou Zach, com naturalidade inquietante. — Batista Dinamite. Na cidade de Pico do Corvo.
O nome pairou no ar como uma sombra.
— Ele era um dos quatro capitães da Trupe Explosiva. Não posso provar…, mas, se o que você disse for verdade… então ele era um Marcado.
Silas arregalou levemente os olhos.
— Então… é menos um.
Elara observou Zach com atenção renovada.
— Você tem certeza?
Zach assentiu.
— Se os Marcados sempre acabam se encontrando… então sim. E além disso… ele usou uma habilidade estranha contra mim. Algo como teleporte… ou talvez uma velocidade absurda.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Foi interessante.
Elara soltou um suspiro, balançando a cabeça.
— Você realmente não deixa de me surpreender.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
Zach se levantou e caminhou até a lareira. As chamas crepitavam suavemente, projetando sombras que pareciam ganhar vida própria nas paredes.
— Estou pronto para o que vier — disse ele, com convicção. — E algo me diz… que a Trupe Explosiva tem a maior concentração de Marcados.
Silas também se levantou, ainda hesitante.
— Mas como vamos enfrentar isso? Nós quase morremos lutando contra Don Fogo Santo.
Zach virou-se para ele.
— Don Fogo Santo é um general. Um dos maiores. Mas não é o único.
Seus olhos brilhavam com determinação.
— Existem outros. E quando encontrarmos com ele novamente… estaremos mais fortes.
Silas hesitou por um instante, mas acabou assentindo. Havia algo na confiança de Zach que era difícil de ignorar — uma força quase contagiante.
A chuva continuava a cair lá fora, mas agora parecia menos opressiva. O vento que entrava pelas frestas trazia uma sensação estranhamente reconfortante.
— Então… estamos juntos nisso — disse Silas, finalmente.
— Juntos — confirmou Elara, estendendo a mão.
Zach a apertou, firme.
Um leve sorriso surgiu em seu rosto.
— Então vamos beber. Acho que uma aliança dessas merece ser comemorada.
Elara arqueou levemente uma sobrancelha.
— Amanhã partimos — disse ela. — Mas hoje… precisamos descansar.
— Concordo — acrescentou Silas.
Zach levou a mão ao bolso e retirou um cantil. Deu um longo gole, limpou os lábios com o dorso da mão e soltou um suspiro satisfeito.
— Isso aqui… é do bom.
Elara o observou com leve desaprovação.
— Você já está bebendo de novo?
Zach deu de ombros.
— Relaxa. Preciso de muito mais do que isso pra ficar bêbado.
Apesar da leve tensão, a noite seguiu de forma mais leve. Entre conversas e histórias compartilhadas, os três começaram a se conhecer melhor, criando os primeiros laços de uma parceria que ainda seria colocada à prova inúmeras vezes.
O amanhecer chegou envolto em uma névoa suave.
Assim que despertaram, seguiram até o estábulo. O cheiro de feno e madeira úmida preenchia o ambiente.
Zach caminhou diretamente até sua égua.
— Oi, Cinzenta… senti sua falta menina.
Ele acariciou a crina do animal, que respondeu com um leve relincho.
— Cinzenta? — perguntou Elara, curiosa. — Por que esse nome?
Zach permaneceu em silêncio por um instante antes de responder.
— Ela é uma Puro-Sangue. Uma das raças mais raras que existem.
Sua voz suavizou.
— Foi um presente do meu pai.
Ele fez uma pausa.
— Hoje… ela é a única família que me resta.
Elara abaixou o olhar.
— Eu sinto muito… não queria tocar nesse assunto.
Zach deu um pequeno sorriso.
— Está tudo bem. Todo mundo tem suas histórias.
Ele segurou as rédeas de Cinzenta.
— Vamos. Temos um longo caminho pela frente.
Elara e Silas escolheram seus cavalos. Um imponente frísio negro para ela e um resistente mustang marrom para ele.
Sem mais palavras, montaram.
O destino estava traçado.
A próxima parada: Areia Perdida.
E, com ela, novos perigos… e novas revelações.
Continua...