Então, com um leve sorriso que parecia carregar mais significados do que demonstrava à primeira vista, ele completou, em tom calmo e seguro:
— Zach “Red.” Griff.
Naquele exato instante, algo no ar mudou. Não foi apenas a revelação do nome, foi a forma como ele o pronunciou, como se estivesse confirmando uma peça de um quebra-cabeça já conhecido. Ficou claro, para todos ali, que aquele encontro estava longe de ser um mero acaso.
O silêncio que se seguiu caiu como uma lâmina afiada, cortando qualquer tentativa de normalidade.
Silas arregalou os olhos, visivelmente surpreso.
— Como você
Antes que pudesse concluir a pergunta, Gaspar ergueu a mão com um gesto simples, porém firme, interrompendo-o.
— Relaxa — disse ele, com uma tranquilidade quase irritante. — Areia Perdida não é exatamente… isolada como vocês imaginam.
Elara, que até então observava em silêncio, deu um passo à frente, sua expressão séria e analítica.
— Você também é um Marcado.
Gaspar não respondeu imediatamente. Em vez disso, levou a mão até a túnica e a abriu levemente. O gesto foi rápido, calculado quase como se estivesse oferecendo apenas o suficiente para provocar, mas não para revelar por completo. Por um breve instante, uma carta pôde ser vista. Não totalmente, apenas um vislumbre. O suficiente, no entanto, para notar um símbolo dourado, intrincado e quase hipnótico, que parecia pulsar com uma energia própria.
Logo em seguida, ele fechou a túnica.
— Talvez.
Zach deixou escapar um sorriso de canto.
— Isso definitivamente não foi um “não”.
Gaspar ignorou o comentário com naturalidade, como se já estivesse acostumado a esse tipo de provocação.
— Se vocês estão indo para Areia Perdida… então já estão atrasados.
Silas franziu o cenho, incomodado.
— Atrasados pra quê?
Gaspar desviou o olhar para o horizonte. O vento aumentou de intensidade, levantando poeira ao redor e trazendo consigo uma sensação inquietante.
— A Trupe não está apenas caçando vocês… — ele fez uma breve pausa, como se escolhesse cuidadosamente as palavras. — Eles já estão lá.
Elara sentiu um aperto no peito, súbito e desconfortável.
— Quantos?
Gaspar respondeu sem hesitar:
— Muitos.
Zach começou a girar a adaga entre os dedos, pensativo, como se aquela informação não o intimidasse, pelo contrário.
— Perfeito.
Silas virou-se para ele, incrédulo.
— Perfeito?!
Zach deu de ombros, mantendo o sorriso torto.
— Quanto mais deles… mais fácil fica completar o nosso plano.
Gaspar observou a reação com um interesse genuíno, analisando Zach com mais atenção.
— Você é mais problemático do que me disseram.
— E você fala demais pra quem acabou de aparecer — retrucou Zach, sem perder o tom provocador.
Gaspar soltou uma breve risada.
— Justo.
Sem acrescentar mais nada, ele se virou e começou a caminhar na direção oposta, como se a conversa estivesse encerrada.
— Ei! — chamou Elara. — Você não vai nos ajudar?
Gaspar parou. Por um momento, o silêncio voltou a dominar o ambiente. Ele não se virou.
— Já ajudei.
A resposta foi seca, direta.
O silêncio se prolongou por alguns segundos, até que ele acrescentou:
— Mas se quiserem continuar vivos… não entrem em Areia Perdida pelo portão principal.
Zach estreitou os olhos, atento.
— Por quê?
Gaspar inclinou levemente a cabeça, como se a resposta fosse óbvia demais para precisar ser explicada.
— Porque lá… eles estão esperando.
Uma rajada de vento atravessou o grupo, trazendo consigo uma sensação de urgência.
Então, com naturalidade, Gaspar continuou:
— Venham comigo. Eu conheço um caminho diferente até Areia Perdida.
Silas não abaixou o rifle.
— E por que diabos a gente confiaria em você?
Gaspar suspirou, como se já esperasse aquela pergunta.
— Não confiem.
Ele virou o rosto apenas o suficiente para que um de seus olhos dourados ficasse visível sob a sombra do chapéu.
— Só sejam inteligentes o bastante pra perceber que eu ainda não tentei matar vocês.
Zach soltou um riso curto.
— “Justo”.
Elara continuava observando Gaspar com atenção redobrada. Havia algo nele que não se encaixava. Não era hostilidade, nem uma ameaça direta.
Era controle, controle em excesso.
— Ele não está mentindo — afirmou ela, finalmente.
Silas olhou para ela, hesitante.
— Tem certeza?
— Tenho.
Zach girou a adaga mais uma vez antes de guardá-la.
— Então vamos ver esse tal caminho.
Gaspar assentiu, sem olhar para trás, e começou a andar. O grupo o seguiu.
Enquanto avançavam, o silêncio começou a pesar. Foi Zach quem decidiu quebrá-lo:
— Então… aquele cara que você matou… você conhecia ele?
Gaspar fez um leve aceno afirmativo.
— Não lembro o nome com certeza… mas acho que era Luke.
Zach ergueu uma sobrancelha, curioso.
— Você sabe bastante sobre a Trupe.
— Ele tinha a carta da “Torre” — continuou Gaspar. — Se não me engano, conseguia transformar coisas em pó…
— Por isso o terremoto — completou Elara, interrompendo. — Ele transformou o solo em pó, desestabilizando tudo.
Gaspar sorriu de leve.
— Exatamente, mocinha. Você é bem inteligente.
O caminho que seguiam não era uma estrada convencional.
Era um desvio.
Uma trilha estreita serpenteava entre formações rochosas imensas, criando algo semelhante a um corredor natural esculpido pelo tempo, ou talvez por algo muito além disso. As paredes de pedra bloqueavam grande parte da luz, mergulhando o ambiente em uma penumbra abafada.
O som dos cascos dos cavalos ecoava de forma oca, quase perturbadora.
— Esse lugar nem aparece no mapa — comentou Silas.
— Exatamente — respondeu Gaspar, sem desacelerar.
Elara passou a mão pela parede de pedra enquanto caminhava, sentindo a textura irregular.
— Esse caminho… não é natural.
Gaspar sorriu discretamente.
— Não mesmo.
Zach olhou ao redor, atento a cada detalhe.
— Foi você?
— Não.
O silêncio voltou a se instalar.
— Mas eu conheci quem fez.
Ninguém perguntou mais nada.
Conforme avançavam, o ar parecia mudar. Não era exatamente mais pesado — era… denso. Como se o espaço carregasse memórias antigas, vestígios de algo que havia acontecido ali há muito tempo.
— Isso aqui… — murmurou Elara — tem resquício de poder.
Gaspar parou.
— Chegamos.
A trilha se abriu à frente, revelando a paisagem além.
E então eles viram.
Areia Perdida.
Mas não era a cidade que esperavam encontrar.
Colunas de fumaça se erguiam em vários pontos. Algumas construções estavam parcialmente destruídas; outras, claramente ocupadas. Havia movimento — mas não era o de uma cidade viva. Era o de um território tomado.
No centro, uma estrutura improvisada havia sido erguida, alta e imponente, como um símbolo de domínio… ou um aviso.
Silas apertou o rifle com força.
— Isso não é uma emboscada…
Zach sorriu, os olhos fixos na cena.
— Isso é uma guerra.
Elara estreitou os olhos, analisando com cuidado.
— Não… é pior.
Ela ergueu o braço e apontou.
No topo da estrutura central, havia uma figura.
Imóvel.
Observando.
Mesmo à distância, era possível sentir sua presença esmagadora, silenciosa e dominante.
Pela primeira vez desde que haviam chegado, Zach ficou em silêncio.
— Aquele ali… — disse ele, em voz baixa.
Gaspar colocou as mãos nos bolsos, tranquilo.
— Capitão.
Silas travou o maxilar.
— Outro?
Gaspar assentiu.
— E não é qualquer um.
Elara respirou fundo.
— Qual?
Gaspar demorou alguns segundos para responder. O vento soprou mais forte, como se antecipasse o peso do nome que viria.
— Victor Faísca.
Zach esboçou um meio sorriso.
— Então ele sabe que estamos aqui?
Gaspar respondeu com a mesma calma de sempre:
— Não.
Ele ergueu o olhar para a figura distante.
— Mas ele também é um Marcado.
Elara engoliu em seco.
— Qual Arcano?
Gaspar respirou fundo antes de responder.
— A Morte.
O vento cortou o silêncio que se seguiu.
E, pela primeira vez… Zach não teve resposta.
Continua…