Ao deixarem para trás a pequena cidade de Areia Perdida, Zach, Silas e Elara retomaram sua jornada rumo ao próximo destino: Santa Carmesim. O contraste começou antes mesmo de a cidade surgir no horizonte.
A estrada que levava até lá era… diferente.
Não havia lama, sulcos de carroças ou marcas recentes de conflito. O solo era seco, firme e surpreendentemente uniforme, como se tivesse sido cuidadosamente mantido por mãos invisíveis. Nem pedras soltas, nem vegetação irregular. Apenas um caminho limpo demais para aquele mundo.
O vento soprava de forma constante, suave, mas carregava consigo algo que não pertencia àquela paisagem árida, um aroma, sutil, mas persistente.
Zach foi o primeiro a notar.
Seus olhos se estreitaram enquanto observava o horizonte distante. Seus sentidos estavam em alerta, mas ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se quisesse confirmar a impressão antes de compartilhá-la.
Silas, menos paciente, foi quem rompeu o silêncio.
— Tá sentindo isso?
Elara não respondeu de imediato. Endireitou a postura sobre o cavalo e inspirou profundamente, com atenção quase científica.
— Flores — disse, após alguns segundos. — Muitas flores.
A ausência de Gaspar tornava-se mais evidente naquele tipo de momento. Sem ele, o grupo parecia menor… e, de certa forma, mais vulnerável. Havia menos olhos atentos, menos opiniões, menos resistência caso algo desse errado.
Zach soltou um leve suspiro pelo nariz.
— Estranho ter cheiro de vida num lugar desses.
Silas deixou escapar um riso curto, quase seco.
— Depois de Areia Perdida, qualquer coisa viva já é estranha.
E assim seguiram.
O caminho continuou inalterado por longos minutos, até que, gradualmente, a silhueta da cidade começou a se formar no horizonte.
E então… eles viram Santa Carmesim, a primeira impressão era de uma tranquilidade quase irreal.
As casas estavam perfeitamente alinhadas, como se obedecessem a um projeto meticuloso. As ruas eram limpas, livres de entulho, rachaduras ou sinais de abandono. Não havia estruturas danificadas, nem indícios visíveis de conflito recente.
Mas não era isso que capturava o olhar... era a capela.
Erguida exatamente no centro da cidade, sua presença dominava completamente o cenário. Alta demais em relação às demais construções, suas torres se projetavam contra o céu como lâminas silenciosas. A arquitetura era antiga, rica em detalhes, imponente de uma forma que destoava do isolamento daquela região.
E ao redor dela… Rosas.
Um campo inteiro de flores vermelhas se estendia em todas as direções, formando um mar vibrante e silencioso. O tom carmesim era intenso demais, vivo demais, quase agressivo, contrastando com a paleta apagada do restante da paisagem.
Elara desacelerou o cavalo, incapaz de desviar o olhar.
— Elas são… bonitas — murmurou, quase para si mesma.
Zach acompanhou o olhar dela, mas sua expressão não suavizou.
— São.
A forma como ele disse aquilo não soava como elogio.
Eles continuaram avançando.
À medida que se aproximavam da cidade, as primeiras pessoas começaram a surgir. Moradores caminhavam pelas ruas, conversavam em pequenos grupos, carregavam sacolas, cuidavam de tarefas simples do cotidiano, normal, perfeitamente normal.
Um homem passou por eles.
— Boa tarde — disse, com um sorriso educado.
Houve um breve silêncio.
— Boa tarde — respondeu Elara.
O homem assentiu e seguiu seu caminho.
Silas inclinou levemente a cabeça, acompanhando-o com o olhar.
— Demorou pra responder… ou foi impressão minha?
Zach não respondeu, seus olhos percorriam a rua com atenção calculada.
Duas mulheres conversavam próximas a uma porta. Um garoto corria segurando uma bola. Um senhor varria a calçada com movimentos repetitivos.
Tudo funcionava, tudo estava no lugar, tudo parecia… correto demais.
Elara parou o cavalo.
Zach percebeu imediatamente.
— O que foi?
Ela demorou alguns segundos antes de responder. Seus olhos se moviam lentamente, analisando padrões, buscando algo que ainda não conseguia nomear.
— Você percebeu? — perguntou, em voz baixa.
Zach inclinou levemente a cabeça.
— Algumas coisas.
Silas olhou de um para o outro, confuso.
— Eu tô ficando maluco ou vocês dois tão vendo coisa que eu não tô?
Elara então disse, com firmeza contida:
— Ninguém está olhando pra gente.
Silas piscou, sem entender.
— Como assim? Aquele cara acabou de falar com a gente.
— Sim — respondeu ela. — Mas ele não olhou.
A confusão no rosto de Silas se intensificou.
Zach desviou o olhar na direção do homem que havia passado.
Agora ele caminhava pela rua… sem nunca ter virado completamente o rosto na direção deles.
Como se o contato tivesse sido… incompleto.
— …é — murmurou Zach. — Isso é estranho.
Foi então que o som começou, baixo, distante, contínuo, como um coro abafado.
Os três voltaram o olhar na mesma direção... A capela. O som vinha de lá, vozes. Muitas vozes. Repetindo algo em uníssono.
E então aconteceu, Todos os moradores da rua pararam, ao mesmo tempo, sem exceção, o silêncio que se seguiu foi breve…, mas pesado. E, com uma sincronia perturbadora, todos começaram a caminhar, na mesma direção.
A capela.
Os olhos de Silas se arregalaram.
— …tá.
Ele ajustou o rifle nas costas, agora visivelmente tenso.
— Agora ficou estranho.
Zach observava tudo em silêncio. Não houve reação exagerada, nenhum movimento brusco apenas atenção. Mas seus olhos… estavam atentos demais.
— Vamos — disse ele.
Elara virou-se para ele.
— Você tem certeza?
Zach esboçou um leve sorriso.
— Eu tô curioso.
E começou a andar.
O fluxo de pessoas logo os envolveu. Homens, mulheres, crianças, todos caminhando na mesma direção, em silêncio respeitoso. Alguns carregavam flores. Outros mantinham as mãos juntas, como em oração.
As rosas, vistas de perto, eram ainda mais impressionantes. As pétalas tinham um brilho quase vítreo, e o vermelho parecia profundo demais, como se escondesse algo sob a superfície.
Elara passou os dedos levemente por uma delas enquanto caminhava.
— São lindas…
Sua voz saiu quase inaudível.
Zach não respondeu. Seus olhos permaneciam fixos à frente.
A capela agora dominava completamente sua visão, as portas estavam abertas. E, por algum motivo… pareciam estar esperando.
O interior era ainda mais impressionante, a luz atravessava vitrais altos, projetando tons suaves de dourado e vermelho sobre o chão de pedra polida. As cores formavam padrões fluidos, quase vivos, como se respirassem junto com o ambiente.
O cheiro de incenso pairava no ar, leve, mas constante.
As fileiras de bancos eram ocupadas em completo silêncio, nenhuma conversa, nenhum murmúrio, apenas passos. E o som sutil da madeira sendo tocada.
Zach, Elara e Silas permaneceram próximos à entrada, observando.
— Isso aqui… — murmurou Silas, sem conseguir esconder completamente o desconforto — tá me dando arrepios.
— Fica atento — respondeu Zach, sem desviar o olhar do altar.
Elara permaneceu em silêncio.
Seus olhos analisavam cada detalhe, cada movimento, cada pausa, tudo ali era organizado demais.
No altar, uma figura surgiu.
O padre.
Vestia trajes longos, impecavelmente limpos. Seus movimentos eram calmos, precisos, quase coreografados. Cada passo parecia seguir um ritmo invisível. Ele parou no centro, ergueu o olhar… E sorriu.
— Sejam bem-vindos.
A voz ecoou pela capela com clareza absoluta, preenchendo o espaço sem esforço.
— É sempre uma alegria receber novos rostos em Santa Carmesim.
Silas cruzou os braços.
— Ele tá falando com a gente?
— Sim — respondeu Elara, em voz baixa.
Zach não reagiu. Apenas observava.
O padre continuou:
— Esta é uma cidade de paz… de reconstrução.
Ele abriu levemente os braços.
— Aqui, deixamos o passado… onde ele deve ficar.
Elara desviou o olhar brevemente para as rosas visíveis pelos vitrais.
— Recomeço… — murmurou.
O padre assentiu, como se tivesse ouvido, apesar da distância.
— Exatamente.
Isso fez Zach estreitar levemente os olhos.
— Interessante… — disse ele, baixo.
O discurso continuou, agora direcionado a todos.
Mas algo não encaixava, as pessoas ouviam…, mas não reagiam, não havia emoção genuína, nenhuma variação, era como observar uma plateia… decorativa.
Elara percebeu.
— Eles estão bem?… — Sussurrou.
Silas franziu o cenho.
— Como assim?
— Eles estão… respondendo certo demais.
Antes que pudessem explorar melhor aquilo, o padre ergueu a mão.
E todos se ajoelharam, ao mesmo tempo, sem atraso, sem ruído, sem escolha aparente.
Silas congelou por um instante.
— …ok, isso foi bizarro.
Zach ainda não se movia, mas algo estava se formando... desconfiança.
— Vamos sair — disse ele, de repente.
Elara virou o rosto.
— Agora?
— Agora.
Sem esperar resposta, Zach se virou e começou a caminhar em direção à saída.
Silas o seguiu imediatamente.
Elara hesitou por meio segundo… e então foi atrás.
Nenhum dos moradores reagiu, nem mesmo o padre, mas, quando estavam prestes a atravessar a porta
— Já vão?
A voz veio de trás, calma, sem mudança de tom.
Zach parou e virou o rosto lentamente.
O padre ainda estava no altar, sorrindo.
— Por favor, fiquem — disse ele. — Ainda não terminamos.
Zach sustentou o olhar por alguns segundos, então sorriu de volta.
— A gente volta depois.
E saiu.
Continua...