O padre ainda permanecia diante do altar, imóvel, sustentando um sorriso sereno que parecia cuidadosamente ensaiado. A luz que atravessava os vitrais projetava sombras coloridas sobre seu rosto, suavizando seus traços e, ao mesmo tempo, tornando-os estranhamente indecifráveis.
— Por favor, fiquem — disse ele, com uma tranquilidade que soava quase calculada. — Ainda não terminamos.
Zach sustentou o olhar do sacerdote por alguns segundos. Havia algo ali, algo que não se encaixava, não exatamente uma ameaça, mas também não era acolhimento. Era… intenção. Após esse breve silêncio, ele devolveu um sorriso contido.
— A gente volta depois.
Sem esperar resposta, virou-se e saiu.
Areia Perdida.
O contraste era imediato e violento. Se a capela carregava um silêncio denso e controlado, Areia Perdida era o oposto absoluto, um lugar onde o caos havia deixado marcas visíveis e ainda pulsantes. O vento cortava as ruas com agressividade, levantando poeira e cinzas, fazendo portas mal fixadas baterem contra as paredes e telhados rangendo sob a pressão constante.
O cheiro de pólvora permanecia impregnado no ar, misturado ao odor seco da madeira queimada. Estruturas parcialmente destruídas ainda sustentavam as cicatrizes de um conflito recente, vigas retorcidas, paredes rachadas, janelas estilhaçadas. Nada ali sugeria reconstrução completa; apenas sobrevivência.
Dentro de um dos prédios em recuperação precária, Victor estava sentado, com as mãos firmemente amarradas. Sua postura, no entanto, não refletia desespero. Pelo contrário, havia uma estranha serenidade em seu olhar, como se estivesse exatamente onde esperava estar.
À sua frente, Gaspar permanecia de pé, encostado em uma mesa de madeira desgastada. Entre os dedos, ele girava lentamente um cartucho de bala, observando-o como se aquilo fosse mais interessante do que o próprio prisioneiro.
— Sabe o que eu acho curioso? — disse, em tom calmo, quase distraído.
Victor não respondeu. Seus olhos apenas acompanharam o movimento do cartucho por um instante, antes de voltarem para o rosto de Gaspar.
— Você não tentou fugir.
Gaspar ergueu o olhar, agora atento.
— Um cara como você… que enxerga o futuro…
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Já devia ter tentado pelo menos umas dez vezes.
Victor soltou um riso baixo, sem humor.
— Já tentei.
Gaspar arqueou a sobrancelha, interessado.
— E?
Victor levantou o olhar, sustentando-o com firmeza.
— Não funcionou.
Dessa vez, a resposta prendeu a atenção de Gaspar de verdade. O cartucho parou de girar entre seus dedos.
— Por quê?
Victor hesitou por um instante. Não por dúvida, mas por escolha.
— Porque não importa o que eu faça…
Seus olhos perderam o foco por um breve segundo, como se observassem algo além daquele espaço.
— Eu sempre acabo aqui.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era analítico.
Gaspar inclinou levemente a cabeça, processando.
— Então você não tá preso pelas cordas…
Victor esboçou um sorriso quase imperceptível.
— Eu tô preso… porque ainda não acabou.
Gaspar soltou um riso nasal curto.
— Justo.
Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância entre os dois.
— Então vamos acelerar isso.
Victor ergueu ligeiramente o olhar.
— Você não vai conseguir.
— Por quê?
— Porque você não é o problema.
O silêncio voltou, mais pesado desta vez.
Gaspar estreitou os olhos.
— Explica.
Victor inclinou a cabeça.
— Você realmente acha que tudo isso que aconteceu… foi só sobre mim?
Gaspar não respondeu. Mas agora, estava ouvindo com atenção genuína.
Victor continuou:
— A Trupe não move peças à toa.
Uma pausa.
— E você sabe disso.
Gaspar cruzou os braços.
— Então fala logo.
Victor sorriu — não havia provocação naquele gesto, apenas convicção.
— Eles já estão jogando em outro lugar.
Gaspar ficou imóvel.
— Onde?
Victor respondeu, com a mesma calma:
— Isso eu já não sei.
O silêncio caiu novamente, mas agora carregado de implicações.
— Mas tenho quase certeza — continuou Victor — de que envolve alguém de patente extremamente alta na Trupe.
Gaspar virou-se de costas por um instante, pensando.
— Quem?
Victor deu de ombros.
— Talvez outro capitão… ou, quem sabe… um general.
Gaspar levou a mão ao rosto, pensativo.
— A cidade mais próxima daqui é Santa Carmesim…
Ele voltou a encarar Victor, aproximando-se novamente.
— Quem dos seus está lá?
Victor permaneceu em silêncio.
Gaspar suspirou, impaciente.
— Olha… eu não tenho tempo pra isso.
Um assobio curto ecoou no ambiente. No mesmo instante, um rifle se ergueu, apontando diretamente para o rosto de Victor.
— Se você não me disser… eu atiro.
Victor não se moveu.
— E você vai se arrepender.
Silêncio.
— Ok. Você escolheu.
Outro assobio. O mecanismo do rifle foi acionado.
— Eu sei o que você tá fazendo — continuou Gaspar. — Tá bancando o resistente pra me fazer pensar que eu não puxo o gatilho em nenhum cenário.
A pressão sobre o gatilho aumentava lentamente.
— Mas eu sei que puxo.
— Espera.
Gaspar recuou levemente a arma, sem abaixá-la.
— Fala.
Victor respirou fundo.
— Eu não sei quem está lá.
Gaspar estreitou os olhos.
— Continua.
— Eu nunca encontrei com ele. Nem sei o nome.
Uma pausa.
— Ele só se identifica pelo arcano.
Gaspar finalmente abaixou o rifle.
— Qual arcano?
Victor hesitou apenas o suficiente para tornar a resposta crível.
— O Imperador.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
— É tudo o que eu sei.
Gaspar observou Victor por mais alguns segundos, avaliando a veracidade daquilo. Em seguida, pegou seu chapéu sobre a mesa.
— Já é mais do que o suficiente.
Colocou-o com precisão.
— Bom…
Virou-se em direção à saída.
— Acho que alguém vai precisar limpar essa bagunça.
Victor apoiou a cabeça contra a parede.
— Tenta chegar a tempo.
Gaspar parou na porta, sem olhar para trás.
— Eu sempre chego.
E saiu.
De volta a Santa Carmesim.
Assim que cruzaram a porta da capela, o ar pareceu mudar, não apenas em temperatura, mas em densidade. Era como sair de um ambiente controlado para algo… imprevisível.
Silas foi o primeiro a quebrar o silêncio, soltando o ar preso no peito.
— Tá… aquilo não foi normal.
Zach continuou andando por alguns passos antes de parar. Seus olhos percorriam a praça central, atentos, analisando padrões invisíveis.
— Não — respondeu, por fim. — Não foi.
Elara permaneceu próxima à entrada por mais alguns segundos. Seu olhar voltou-se para dentro da capela, como se tentasse confirmar uma sensação.
— Ele percebeu a gente — disse, em voz baixa.
Silas soltou um riso nervoso.
— Ótimo. Então agora somos oficialmente o problema.
— Não — corrigiu Elara. — Nós somos a variável.
Zach inclinou levemente a cabeça.
— E ele não gosta disso.
O som dentro da capela demorou a desaparecer completamente. Não houve conversas, nem despedidas. Apenas passos, sincronizados demais, organizados demais. Como se cada pessoa soubesse exatamente o que fazer, sem precisar pensar.
Zach observava.
— Isso não é fé… — murmurou.
Elara acompanhou o movimento dos fiéis.
— É comportamento induzido.
Silas passou a mão na nuca.
— Seja lá o que for… eu não gosto.
O padre desceu do altar com a mesma leveza calculada de antes. Seus passos eram precisos, quase artificiais.
— Fico feliz que tenham voltado.
Zach apoiou o ombro em um banco, postura relaxada, olhar atento.
— A gente resolveu dar uma chance.
— Santa Carmesim sempre merece uma chance — respondeu o padre.
Silas cruzou os braços.
— E esse povo todo? Eles são sempre assim?
— Assim como?
— Quietos demais.
O padre sorriu levemente.
— Disciplina não é um defeito, meu filho.
Elara observava tudo, não apenas o padre, mas o espaço, as colunas, as sombras. Algo estava errado. Não visível…, mas presente.
— Essa cidade parece… organizada demais.
— É porque deixamos o caos para trás — respondeu o padre, rápido demais.
Zach percebeu.
— Engraçado… geralmente quem diz isso… ainda tá fugindo dele.
O padre sustentou o olhar por um segundo.
— Aqui, não.
Silêncio, mas não era um silêncio vazio... era observado.
Um rangido leve ecoou.
Silas virou o rosto imediatamente.
— Você ouviu isso?
— Ouvi — disse Zach.
O padre não reagiu.
— Não há mais ninguém aqui.
Elara estreitou os olhos.
As sombras próximas às colunas pareciam… densas. Não apenas escuras — consistentes, como se ocupassem espaço.
Ela mudou levemente de posição.
Por um instante, teve certeza. Havia algo ali. Observando. E, no momento em que percebeu… Aquilo recuou.
— Tem alguém aqui — disse ela, em tom baixo.
— Apenas nós — respondeu o padre, sereno.
Zach sorriu.
— Então “nós” somos mais do que três.
O sorriso permanecia, mas agora havia intenção nele.
— Padre… posso fazer uma pergunta?
— Claro.
Zach inclinou levemente a cabeça.
— Quem te ensinou a controlar tanta gente assim?
Dessa vez… O padre demorou, um único segundo, quase imperceptível, mas suficiente.
Zach viu.
Elara viu.
Silas sentiu.
E, em algum lugar nas sombras… algo se moveu.
Continua…