Acordo.
Bella a Eternum: As eternas guerras de outro mundo
Criado por Iako Sabat
Revisão: Iako Sabat
Um ambiente tão alvo quanto a neve de um inverno prolongado, onde três esferas queimavam chamas díspares entre si e formavam camadas sobre um espectro, a silhueta de um garoto.
Nesse ambiente, Emília, de cabeça baixa, vendo Mirabelle se afastar, tentava erguer a mão para a segurar, mas estava pesada. Aquela visão das costas dela era tão distante quanto olhar para o alto de um monte. As palavras queriam sair, mas não passavam de sua garganta, travada com um gosto amargo.
— Mi–
Ela tentou, o braço se ergueu e os dedos do pé até tencionaram para a levantar, mas quando aqueles frios olhos azuis a miraram, sua mão recuou e a garganta fechou novamente.
— O que faz você cogitar que eu vou lhe escutar?
Sem respostas para aquela pergunta, a tensão de seu rosto foi acompanhada por um respirar pesado, mas a lembrança daqueles olhos amarelos, cheios de lagrimas e o abraço que os acompanharam, a fez se erguer.
— Eu não quero que me escute, eu quero que você tome sua responsabilidade.
— Responsabilidade? Eu? Você tem noção do que acabou de me falar?!
Ela perguntou, mas não houve resposta. Em silêncio, Emília abaixou a cabeça e assim continuou até que ela respirou profundamente e ergue os olhos para encará-la. — Eu não vou ficar amargurado o passado como você!
— O que foi que você disse? — Uma veia sobressaltou na testa de Mirabelle. — Emílliare… É melhor medir suas palavras.
— Não! Você nunca me escutou! Você sempre quer tomar todas as decisões! Você sempre quer ser a certa! Foi por sua causa que eu tive que ir até Sansigro! Para parar aquela chacina!
— Emílliare!
— E– E– Eu só não quero que ele sofra! — Emília caiu perante ela, de joelhos, e segurou em suas pernas. — Por favor! Ele não merece isso!
— Muitos não merecem o que lhes é dado. — Mirabelle a olhou de cima.
— Mas ele não! Ele não tem nada a ver com isso!
— Mas quem o está ameaçando?
— O que? — Emília congelou, mas logo foi pega de surpresa pela mão de Mirabelle agarrando seu pescoço.
— Escute aqui, sua meretriz… — Ela ergueu a mão e levantou Emília pelo pescoço, aproximando os lábios do ouvido dela. — Eu nunca vou esquecer o que você fez em Lorium! — completou, arremessando-a novamente no chão. — Mas não se preocupe com ele.
Emília tossiu e massageou a garganta, olhando para ela que se aproximou novamente da poça de líquido negro.
— O que você quer dizer com isso?! — Levantou-se atônita, apoiando-se nas próprias pernas.
Vários pensamentos se passaram na cabeça de Mirabelle que balançou o rosto em negação. — Eu– — Subitamente parou e mordeu os lábios e, em seguida, suspirou. — Eu já estou ligada a ele.
— Espera! — Emília teve uma sensação ruim por um momento, uma sensação ruim tomou conta de seus lábios, os quais colocou a mão sobre. — Você–?
Mirabelle se virou para ela com uma feição séria, mas que não negava. Sem reação para com aquilo, seu corpo esmoreceu e, por um momento, ela não soube o que falar.
— Estamos unidos agora.
Emília tentou se levantar, mas, após aquilo, tornou-se difícil até tensionar os braços. O máximo que pôde foi olhar para o espectro rodeado em chamas e amargar aquela visão.
— Ei, acorde. — Mirabelle voltou até perto dela e balançou a mão, frente a seu rosto.
— O– o que?
— Você disse que o Guardião dele está com Isabella, onde exatamente ele está?
— Ahn? O guardião? — Desnorteada, olhou para os lados, aerea a pergunta.
— Não, O demonio interior. — Deu um cascudo na cabeça dela e se virou novamente.
— Ai!
— É claro que estou falando do guardião dele, sua Idiota!
— Não precisava disso!
— Isso ainda foi pouco para o que eu realmente quero fazer com você… — Mirou novamente nela, pelo canto do rosto, que se acuou. — Me responda logo, onde o Guardião de está?
—.Eu… Eu… Eu não sei… — As pontas de seus indicadores se tocaram enquanto seu rosto se abaixava.
— Não sabe?! como não sabe?
— Eu não sei, tá bom!? Após ouvir sobre você, ele ficou falando sobre Raruniãn!
— Raruniãn? — Mirabelle voltou-se totalmente para Emília. — Por que Raruniãn?
— Eu… Eu não sei...
— Não sabe? como não sabe!?
— Agora eu tenho que saber de tudo!? — Ela se levantou, esbravejando, suas mãos não paravam quietas. — Eu nem lembrava da existência desse lugar! Vai ver, ele pensou que você estava querendo fazer outra perseguição!
— Perseguição? Eu fui exilada justamente por isso e deveria ter permanecido assim por mais mil anos, o que você quer dizer com iniciar outra perseguição? — Inclinado a cabeça em estranheza, Mirabelle cruzou os braços.
— E eu sei lá! Depois que essa garota citou Lorium antes de desmai–
— Desmaiar? — Mirabelle assustou-se. — Como assim desmaiar? O que aconteceu?
— Na-nada! — Temendo por outro exercício de pescoço involuntário, Emília logo correu para se explicar: — E-ela passou mal!
— Mal? Como? Como ela passou mal!?
— É-é-é... — Encurralada, uma lembrança a revisitou, era Miguel lamentando a própria morte a Isabella, cena essa qual tinha assistido de longe enquanto ponderava sobre o que estava acontecendo e esperava a chegada do Anjo. — Eu não vou mentir, os dois se enfrentaram.
— O quê! — Aquela era uma das últimas possibilidades que queria ter escutado.
— Se acalme! Está tudo bem! — Emília se levantou e segurou nos ombros dela. — Ele não chegou a machucá-la... — Um sentimento ruim passou por sua mente, mas o ignorou por um bem maior. — Ela desmaiou assim que ele liberou energia! — Alguns segundos se passaram, mas deu para sentir a tensão daqueles ombros rígidos diminuírem junto à apreensão no olhar e um respiro de alívio. — Pois é, ela está bem agora, não há lugar melhor para se estar no supramundo do que sob a proteção de um Anjo.
Mirabelle desviou o olhar — É bom saber que ela está bem... — Mas ainda demonstrava desconfiança das palavras que lhe eram ditas. — Você me disse que você é minha única chance de ver Isabella, por quê?
Emília se assustou com quão rápido foi o raciocínio e a tomada de decisão de sua contraparte e teve dificuldade em responder. — A-a- bem... Na verdade eu não sei...
— Como assim não sabe? Você me diz que é minha única chance e agora vem me dizer que não sabe?
— Não é bem assim, é só que as coisas se complicaram um pouco...
— Um pouco?
— É que eu não sei o que vai acontecer com a minha cabeça quando ele retornar...
— Do que você está falando? — Mirabelle estranhou a afirmação.
— Sabe, é que quando ele levou a Isabella e partiu, ele meio que deixou o Miguel sob minha responsabilidade… E eu não sei como vou explicar pra ele isso aqui... — Olhando da gigante poça de líquido negro até o topo das esferas com o espectro no centro delas, Emília demonstrou uma grande insegurança.
Mirabelle olhou para a cara de desespero dela, abaixou a cabeça rindo e em seguida levantou e soltou altos risos. — Hunf! Bem feito!
— Ei! Eu não fiz nada! Quem fez algo foi você! — Ela apontou para Mirabelle, que a encarou não só com raiva, mas com dúvida sobre a veracidade daquela afirmação.
— Eu? O que foi que eu fiz?
— Era para termos chegado a Dazur, eu não pensei que a conexão ia parar em Anirum! Nem mesmo que você estaria lá!
— Anirum? Eu estava em Anirum? — O arquear de uma sobrancelha junto aos olhos desviando para cima, carregava uma sensação estranha, era como se algo estivesse faltando em sua memória.
— Sim! Anirum! Era para ele pedir para aquele portão uma passagem direta para Dazur, mas você apareceu e ferrou com tudo!
— Anirum... — Quanto mais pensava, menos se lembrava.
— Depois que você me atacou, eu vim parar no Raquiru dele e a alma dele se juntou com uma sombra e tem essa esfera e... aaaaaaaaa! — Emília começou a puxar os cabelos, mas logo se acalmou.
Mirabelle, vendo aquilo, só pôde estranhar com desconforto e silencio.
— Argh!!! Eu não aguento mais! São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo em que não tenho nem tempo de pensar!
— Como assim?
— Como assim!? — A paranoia começou a tomar conta de Emília que estava com os olhos esbulhados e fazendo caretas e gestos obscenos a cada exclamação que falava. — Eu nem bem cheguei aqui e esse lugar foi inundado de Vistria! A Vistria se juntou com a Santria do Miguel e formou uma esfera! A porra de uma esfera! Mas foi só isso? Não! Eu tive que conter ela logo em seguida porque ela começou a vazar do nada! Ai veio uma infiltração de Tena! Tena porra! Em seguida uma rachadura! E da porra da rachadura começou a escorre esse liquido estranho! E ai veio sua Santria! Sim! Quando a sua maldita Santria entrou aqui alguma coisa aconteceu... Todas as energias colidiram e formaram essa três esferas ao redor da alma dele e começaram a inundar esse lugar de Éter! Eu não consigo nem mesmo acessar os canais para fazer com que essa gosma saia daqui de dentro, porque agora qualquer coisa em que mexo! A alma do Miguel racha! — Irritada e com a respiração instável, ela apontou com o indicador para a projeção no meio das esferas, a qual Mirabelle teve que apertar os olhos para enxergar que estava coberta cortes.
— Aquilo é possível?
— Nem eu acredito nisso! É a primeira vez que vejo algo desse tipo em toda a minha existência e olha que a metade delas não fui eu que fiz!
— Como assim?
— E eu sei lá porra!? Elas começaram a aparecer com o passar do tempo! Eu só percebi que também as estava causando quando tentei conter a Tena que estava entrando.
— Mas o que você quer que eu faça?
— Eu– Eu não sei... — Emília respondeu com um olhar vago, carregando junto de si a impotência e insegurança sobre os problemas que tinha. Vendo em si a responsabilidade sobre a vida do garoto ela tomou uma atitude que melhor lhe coube naquele momento. — Por favor! — Ajoelhando-se, pôs a cara rente ao chão branco em que estava. — Você– Se você ao menos puder o proteger! Eu sei que não mereço perdão! Eu sei o que fiz! Mas por favor! Se puder proteger ele! Pelo menos até que o guardião dele chegue aqui!
Silêncio, essa foi a única resposta que teve após sua súplica, antes que levantasse o rosto e se deparasse com uma feição apática direcionada a si.
— Eu– Eu–
Mirabelle olhou profundamente para o rosto dela, seus olhos estavam fundos, instáveis. Seu corpo, trêmulo, a voz estava falha, mudanças de tom muito repentinas, tudo aquilo reunido a uma história mal contada. Desviando a visão para o garoto e depois para quem demonstrava profunda preocupação com ele, soltou um suspiro e pôs a mão sobre o rosto.
Em seguida, ficando de costas para Emília e andando em direção à esfera de energia.
— Mi– Mirabelle? — Ela levantou o rosto e olhou para a garota se afastando e indo em direção à poça de líquido negro. — E– Espera! O que está fazendo?
— Você pediu que eu cuidasse dele, não foi?
— Como? Como é possível? — Emília ficou assustada, em um instante, antes que tocasse a mesma, Mirabelle começou a levitar. Olhando de relance para trás, só para ver sua cara de preocupação e soltar um pequeno: — Hunf! — Enquanto se aproximava do garoto.
— Depois que você me explicou melhor, o controle dessa bagunça não é tão difícil... — Ela pôs a mão sobre a primeira esfera e um buraco se abriu, a energia começou a fluir descontroladamente e as rajadas eram tão fortes que empurravam Emília para trás, mas ela, ela continuava ali, estática perante a abertura que ia se criando.
— E– Espera! Você está–
Em um instante, assim como se descontrolou, a energia voltou à sua normalidade assim que Mirabelle adentrou a primeira esfera.
— Não é possível! — Descrente do que presenciava, só pôde assistir enquanto a via romper a segunda esfera, onde as chamas vermelhas tomaram conta de todo o espaço em uma repentina explosão.
Aquilo a assustou, mas logo se viu aliviada quando percebeu que ela conseguiu passar para a próxima esfera. — Ela consegui–
— Agora só falta você... — Falou Mirabelle que pôs as mãos sobre a esfera de chamas douradas, mas ela foi interrompida pelos gritos abafados pelas chamas de Emília que lhe alertavam sobre o já agarrando-se no seu corpo, líquido negro, que repentinamente tomou conta da terceira esfera.
— Então você decidiu mostrar sua verdadeira forma... — Perante a visão asquerosa de um ser antropomórfico, ela ergueu a mão e fechou os olhos enquanto era encoberta pela energia escura.
Assim que seus olhos se abriram e aquela luz radiante os acompanhou e penetrou por entre a escuridão, rasgando e dilacerando a criatura em frangalhos, a entidade começou a grunhir de dor com um aperto no pescoço. Era a mão de Mirabelle que, quando se fechou, pulverizou a energia que continha, assim o fazendo voltar à sua forma de liquido.
Após se livrar de seu último empecilho, ela adentrou a última esfera.
— Mas o que!? — Incrédula, Emília não sabia o que falar, aquela energia negra que estava tentando evitar ter contato enquanto a reprimia tinha simplesmente sido freada. — E– Espera o que ela está fazendo!? — Mas não era porque ficou perplexa com o que havia presenciado que não continuou atenta às ações posteriores de Mirabelle que estava muito próxima do rosto da projeção de Miguel. — Eeeeii! Mirabelle! O que está fazendo!
— Hm? — Ouvindo os gritos que chegavam abafados até si, Mirabelle virou o rosto para Emília, que demonstrava caras de susto e desconfiança que tinha sobre o próximo ato que tomaria.
— Eu estou saindo daqui.
— Saindo!? Como assim!? Existe uma saída!?
— Sim, assim... — Mirabelle foi de encontro aos lábios de Miguel e Emília, sem reação e vendo mais uma vez o brilho de seus olhos se apagar, só pôde gritar: — Não!