Convivência.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
A chuva persistiu em cair, fazia dias que chovia sem parar e o frio na caverna começou a aumentar com o enfraquecimento na luz das pedras. Miguel, que tinha uma sensação estranha na cabeça, começou a sentir o frio e acordou, colocando logo a mão sobre um tecido que tinha embaixo da cabeça.
— Hã? O que é isso? — Puxou o objeto em que apoiava a cabeça e viu uma parte, manchada de um marrom-avermelhado, do vestido de Mirabelle, enrolado em uma pedra.
— Essa foi a única forma que achei de apoiar a sua cabeça. — respondeu Mirabelle.
— O– Obrigado… — Miguel olhou para ela, que estava sentada logo em frente.
— Agora que você acordou, venha se aquecer... Aguente até essa chuva passar, vou procurar algo para comer e treinarei você, não podemos perder muito tempo aqui. — Mirabelle se levantou e foi em direção a uma pequena fogueira, perto da parte inundada da caverna.
— Espera! — Lenvantou-se abruptamente com os olhos bem abertos: — Co- como assim treinar? O que está acontecendo?
— Eu que lhe pergunto, como você pode chegar a cogitar que não deve ser treinado? Você é fraco... Seu controle é instável... Eu nem deveria me arrepender, já que fui forçada a te ter como mestre... Mas mesmo assim me arrependo... — Ela se virou para ele.
— Co-controle? Na-não! Quer dizer! Eu nem sei o que está acontecendo e você está falando de treinar?
— Aaa... Por que, de tantas opções, tinha que ser logo um idiota? — Mirabelle levantou e pós a mão no rosto.
— Ei!
— Fique quieto, garoto. — Ela o mirou com o indicador e ele instintivamente se calou. — Por sua causa, eu me tornei de carne e osso... — falou e foi na direção dele. — Minha Vistria está presa dentro de sua alma e agora tenho que viver perto de você, senão nem energia eu tenho.
— Vi- Vistria? — perguntou, acuado.
— Sim... Vistria. — Mirabelle respondeu bem de perto, mesmo séria, deu para perceber a fúria em seus olhos. — Você selou minha Vistria. — Ela cutucou a testa dele. — Entendeu agora? Seu... Idiota.
— E– Entendi! Eu– eu acho... — Miguel respondeu gaguejando enquanto via sua agressora se afastar.
— Você nem percebe o que está causando? — Olhou para os arredores.
— Eu causei tudo isso? — Miguel apontou com a mão tremendo para si mesmo, observando o teto da caverna, onde a intensidade da luz oscilava e a água da chuva escorria cada vez mais forte de algumas fissuras.
— Sim, você é uma aberração… Eu fiquei horas pensando sobre isso, mas só agora me caiu a ficha de como aquele portão aceitou o pedido de um demente como você.
— Ei!
— Quieto! — Mirabelle lhe apontou o dedo, mas logo cessou a demonstração da raiva que tinha. Olhando para ele, comparou-o a um animal indefeso, tremendo no frio. — Eu... — Respirou e acalmou os ânimos. — Eu não deveria estar fazendo isso... Afinal, querendo ou não, você será meu mestre de agora em diante... — Falou, estendendo-lhe a mão, qual Miguel segurou com receio e se levantou com a ajuda dela.
Os dois ficaram de frente um para o outro novamente e ela estava estranhamente instável com a direção dos olhos, levantou o rosto e olhou diretamente para Miguel. — Espero que aquilo que disse seja verdade...
— O-o que? — perguntou, tentando lembrar com o rosto avermelhado qual das coisas que disse e que, de certa forma, foram da boca para fora.
— Aquilo sobre não medir palavras... — sussurrou, mas foi tão baixo que ele sequer escutou devido ao barulho que a chuva fazia do lado de fora. Ela engoliu o que disse e se afastou com certa dificuldade no andar: — Espero que entenda que nosso encontro poderia ter sido diferente... Mas foram setecentos... Setecentos anos presa por uma traição de quem em algum momento já considerei minha irmã… — Sua feição franziu, um olhar de desgosto, não direcionado a ele, se mostrou junto àquelas palavras cheias de mágoa.
Miguel manteve-se em silêncio.
— Quando vocês apareceram, não pude fazer muita coisa além de lembrar-me do passado... — Sua cabeça se abaixou: — Meus ressentimentos acumulados por eras não podem ser contidos por mera presença mutativa. — Havia uma inconsistência em seus olhos que se moviam de um lado para o outro.
— M-Me desculpa! Sa- Sabe... eu não faço a mínima ideia do que aconteceu comigo, também... he, he... — Desengonçado, se aproximou novamente, coçando a cabeça: — Foi tudo do nada, mas eu ao menos estou vivo... eu acho... Que– quer dizer, é o que importa, não? — Miguel fechou os olhos e soltou outra pequena risada ao final da frase. — Va- vamos ver onde isso vai dar! Eu estou cansado de tentar entender o que está acontecendo... — Terminou com as mãos nos ombros de Mirabelle enquanto sorria para ela.
Surpresa e sem palavras, preenchida por um sentimento estranho, deparou-se com aquele alegre e sorridente rosto bobo. Não esperava aquilo, quando mirou em seus olhos, viu que ali residia pureza, um Homem carregado de inocência. O máximo que conseguiu fazer foi acenar com a cabeça, escondendo o tímido sorriso no rosto enquanto os estalos de madeira e o brilho baixo do fogo iluminavam sua feição.
— Então... — tossiu e se afastou dele. — Venha se aquecer primeiro. Tenho que arrumar seu Raquiru... Está uma confusão aí dentro.
— Raquo– ru? — Colocou a mão na cabeça.
— Raquiru.
— Aaah! Raquiru… O que é isso?
Mirabelle pôs a mão sobre a ponte do nariz e respirou fundo. — Eu não acredito nisso… — Virou-se novamente para ele. — Quantas vezes já falei que esse temporal foi causado por você?
— Eu? Como assim?
Miguel olhou para ela com descrença, mas não contrapôs a afirmação. Em seus olhos e expressões estavam aparentes para Mirabelle que ele não fazia a mínima ideia do que ela estava falando.
— Seu Raquiru está bagunçando a energia ao redor... — Ela levantou o dedo.
— Olhe para isso aqui.
— Uau! — Miguel ficou boquiaberto com o que presenciou. Partículas de energia se juntaram no dedo indicador dela e criaram uma pequena luz que logo se desestabilizou e evaporou.
— Deu para entender?
— O que? — Respondeu com a mesma cara de bocó de pouco tempo atrás.
— Você é mesmo burro hein...
— Ei!
— Quieto.
— Ta- ta bom... — Ele se calou, cabisbaixo.
— Você é uma espécie de redemoinho que deforma toda a energia ao redor… Mas o problema está dentro de seu corpo, pois aí tem algo muito perigoso, um tipo de energia que só é encontrada lá em cima. — Apontou com o indicador para o teto.
— No céu? — Olhou para o alto, ainda disperso.
— Não, sua anta! Estou falando das águas! Águas! — Ela se aproximou novamente dele, mas, eufórica, acabou por derrubá-lo e, sobre o mesmo, colocou a mão em seu peito. — Dentro de você existe Éter! Éter! Essa é a força mais poderosa e tóxica do universo! Você é um vórtice contínuo de produção de Vistria, uma energia tão–!
Ela parou a gritaria e olhou para ele que, com medo, fechou os olhos e se contraiu, parecendo um animal indefeso.
— Argh! Não acredito nisso... De tantas possibilidades, eu tive que justamente ficar presa a uma pessoa tão burra como você? — Naquele momento, ela pensou que ia ficar sem cabelos de tanto os puxar.
— Desculpa Tá!? Desculpa! Mas não dá para entender! Esse negócio de outro mundo! Energias! A Emília… — virou o rosto e sentiu uma profunda angústia e tristeza.
— Não chore, seu... Argh! Eu sabia que tinha me esquecido de falar algo... — Ela pôs a mão sobre o rosto e apertou a ponte do nariz novamente. — Escute, garoto, não fique triste por sua “amiga”, ou sei lá o tipo de relação que vocês dois têm... Ela está bem, por infelicidade do destino...
— O– Oque!? A Emília está viva?!! — As expressões em seu rosto mudaram da água para o vinho. Levantou-se e logo segurou nos braços de Mirabelle. — Onde ela está!? O que aconteceu com ela!? — Ele a balançou sem parar, eufórico com a notícia.
— Aaaaaaaa! Chega dessa palhaçada! — Irritada, ela o empurrou para que parasse de chacoalhá-la. Entre a raiva e o desprezo por tal situação, quase que sua mão foi de encontro ao rosto de Miguel, mas sentindo uma fraqueza no braço, parou e recuou.
— De– Desculpa... — Miguel se acuou, como um cachorro que acabara de apanhar de seu dono, ele se encolheu no canto da parede e olhou para Mirabelle, que não pôde fazer nada mais do que respirar profundamente com a visão deplorável que tinha de seu mestre inútil.
— Deus... Olha, Emiliare é fraca, por isso ainda não se manifestou. Eu conversei com ela antes de sair de-la. Ela está bem, infelizmente... — Mirabelle apontou para a marca no peito dele, onde um círculo dourado se encontrava e as espadas gêmeas carmesins estavam dentro dele.
— Mesmo? — perguntou, colocando a mão sobre a marca em seu peito.
— Com quem acha que está falando? Não duvide de minha palavra, seu imprestável... — O tom forte voltou. — Se eu estiver errada, que um raio caia! — Não podia ter escolhido momento pior para citar isso, pois logo que falou, um alto e forte estrondo acompanhou o enorme raio que caiu e clareou a caverna como um todo.
Os dois se assustaram com o barulho, tanto foi que Mirabelle escorregou e caiu em Miguel, que tentou se esquivar e bateu a cabeça na parede logo atrás.
— Ai! — gritou, pondo a mão no local que tinha sido acertado.
— Você está bem? — Mirabelle se aproximou e acabou escorregando e, quando conseguiu se segurar, apoiando-se nas paredes atrás dele, ficaram face a face, tão perto estavam que faltava um movimento para que seus lábios se tocassem e foi isso que aconteceu quando Miguel, com o rosto avermelhado, tentou se afastar e acabou por empurrar a perna dela, o fazendo desequilibrar e se beijarem.
— O queeeeee!? — Desta vez, fora o rosto extremamente vermelho de Miguel, não houve luzes ofuscantes e muito menos pulsos de energia. A única coisa de extraordinário que aconteceu foi a reação de Mirabelle, que não só não recusou o beijo como, quando se separou, não falou nada mais nada menos que. — Idiota...
Miguel ficou perplexo, sem saber se levantava ou se deitava, se iria passar o resto da vida sem lavar a boca e escovar os dentes ou até mesmo se deveria se importar em procurar uma escova para isso. Tudo que ele pode falar foi. — nossa... — Enquanto tocava os próprios lábios e, olhava para ela que se sentou bem afastada.
Emburrada, virou o rosto quando olhou para a cara de bocó dele. — Não vou perder meu tempo com você... — Ela se virou e ficou de costas.
— Eu– Eu– — Colocou as mãos sobre o rosto avermelhado. — A caaara! o que que eu faço!? — Pôs-se a pensar, mas com as emoções à flor da pele, não conseguiu focar em nada.
Olhou para um lado e depois para o outro, virou o rosto, se virou para Mirabelle e em seguida desviou o rosto avermelhado e procurou o que o distrair, mas não achou nada.
Soltou um longo suspiro e, por um tempo, olhou para o teto. Ali percebeu que a água tomava um caminho estranho ao entrar na caverna por fissuras. Ela escorria por pequenas estalactites, pingava e se reunia em caminhos da parede ao chão, rumando para uma poça em outro espaço menor, enchendo-a e depois escorrendo até o lago que havia se formado dentro da caverna.
Ele foi até o canto onde a água empossava, um brilho entre o amontoado de terra lhe chamou a atenção. Ali começou a cavar um buraco, os pensamentos lascivos que não saíam de sua cabeça, memórias distorcidas e eventos que não sabia digerir, aos poucos emergiram em sua mente.
Ele tocou a terra, ela grudou entre seus dedos, era ruim de tirar, quanto mais puxava, mais se sujava. As unhas cheias de terra ardiam. Tocar o chão doía. Os olhos dele ficaram trêmulos, um queimor tomou-lhe o peito, seus pés afundavam, mas continuou a cavar e, aos poucos, quanto mais fundo cavava, menos pensamentos em sua mente restavam e sua respiração se acalmava.
Ele parou, olhou o que tinha feito, e riu quando reparou que foi pouco tempo que se passou para a água transbordar aquele buraco e seguir o próprio rumo.
Vendo aquilo, voltou a cavar, mas era uma sensação diferente, não era invasivo, não era afiado, não cortava, afundava entre seus dedos, mas não o impedia, não limitava.
Aquilo onde punha a mão não era formado só de pedra, era mais como se fosse uma espécie de argila, barro, só que esbranquiçado e não demorou muito para que, enquanto cavava, se deparasse com algumas pedras brilhantes.
Ficou muito alegre com aquilo, eram muito bonitas e tinham tons dos mais diferentes, chegavam a ir de azuis a variações de vermelho e até mesmo verde.
Aquilo o animou e continuou a cavar, mas logo cansou e a água já estava chegando à sua cabeça, nem mesmo as pequenas valetas que fez no chão, o ajudaram a diminuir o escoamento da água. Ele então parou de cavar e foi fechar os buracos que havia feito ao redor, deixando só aquele grande buraco, preenchido pela água da chuva.
Contente com as pedras bonitas e coloridas que havia encontrado, separou-as por cores e as guardou em um monte ao redor da fogueira, não muito longe de onde havia escavado.
— São... Tão bonitas! — Miguel, contente com sua criação, correu até Mirabelle, que se encontrava deitada. — Eu tenho que mostrar isso para ela!
— Ei! Ei! Mirabelle! — sussurrou, mas logo olhou para suas mãos sujas e evitou tocá-la. O silêncio que se sucedeu fez com que não quisesse a incomodar. Ele a olhou cabisbaixo e se arrastou logo em seguida com passos curtos de volta a seus achados, quais o deixaram com brilhos nos olhos.
— Essa daqui parece um diamante! — sussurrou baixo e colocou a mão no queixo enquanto separava as pedras azuis das vermelhas. — Será que essa daqui vale alguma coisa!? — pôs-se a pensar, por um tempo, olhando uma pedra idêntica a um Rubi, qual brilhava intensamente, refletindo as chamas da fogueira.
— Bem... de que que adiantaria? Não tem pra quem mostrar mesmo... — Coçou o nariz enquanto seu sorriso caído dava espaço ao desânimo.
As pedras que tinha encontrado eram dos tamanhos mais variados, cristalinas, algumas transparentes, outras com cores sólidas, algumas brilhavam devido às chamas e outras emitiam brilho próprio, mas se apagavam quando ele as tocava.
Entre olhares de alegria e pensamentos solitários. Não estava mais tão pensativo sobre os recentes acontecimentos. Levantou-se e soltou um longo bocejo, cogitou se deitar ali, não estava tão frio quanto as pedras de energia que perdiam a luz quando se aproximava. Mas, quando olhou para as mãos e a barriga cheia de argila, decidiu encarar a chuva forte para se limpar.
Inocente, chegou à entrada da caverna e, em um impulso, foi de encontro com a água da chuva, mas esqueceu que só estava quente dentro da caverna e que lá fora fazia um frio do cacete.
— AAAAAA! — gritou Miguel.
— Garoto!? — Mirabelle se levantou assustada e correu na direção do grito.
— O que houve? Está tudo be– — Assustada, quando chegou à entrada e viu Miguel saltando na chuva, seu semblante caiu e voltou para dentro.
— Fri– Friiiiooooo! — gritava o garoto pulando na chuva, limpando a sujeira de seu corpo.
— Idiota... — sussurrou e voltou para onde estava e deitou-se.
Alguns minutos se passaram com ela de costas, mas com os olhos abertos. Miguel saiu do “banho” e entrou correndo com os braços cruzados e batendo os dentes.
— Friiiiiiiiiio! — Correu e ficou o mais próximo possível da fogueira, mas o frio de seu corpo trêmulo não era confortado nem pelo calor das chamas.
— O-o-o– o qu– que? — Olhando para as pedras que se espalhavam pela caverna, logo reparou que havia uma grande emitindo um suave brilho, ao lado de Mirabelle, e que rapidamente se aproximou. Era quente e, mesmo quando se aproximava, o calor permanecia. Então, sem nem pensar duas vezes, a tocou. — Aaaaaa! Quentinho…
A sensação foi tão boa que escorou o corpo sobre aquele aquecedor natural, as gotículas de água que ficaram na pele molhada evaporaram e logo ele estava seco, mas subitamente a pedra em que se segurou e todas ao redor, apagaram. — Ahn?
— Seu idiota! Saia daí! — Mirabelle partiu para cima dele e o jogou para longe da pedra brilhante que começou a piscar intermitentemente e sofreu alternâncias de intensidade de iluminação até que estabilizou.
— O que foi!? — gritou, irritado.
Ela se aproximou enfurecida, sentou em cima dele e o segurou pelo ombro. — Você perdeu uma parte do seu cérebro!? Eu não tinha lhe falado que você está desestabilizando toda a energia da qual você se aproxima? — Começou a chacoalhá-lo. — Sabe o quão difícil foi aumentar a temperatura dessas pedras? Esse calor está muito abaixo de nós e só se faz presente na pouca Tena que não dispersou! — Colocou o dedo na cara dele. — Se você ficasse um pouco mais, derrubaria toda a conexão! — Olhou para os arredores com todas as pedras acesas. — Iríamos passar a noite toda no frio por imprudência sua! — Ela retirou o dedo da cara dele.
Miguel se calou e mordeu os lábios. Antes que ela pudesse prosseguir, a mão dele a empurrou, e Mirabelle quase tropeçou antes de se endireitar em pé.
— Ei–
Em silêncio, ele fechou os olhos e se afastou, e ela, nada fez além de seguir o rumo contrário e voltou ao lugar em que descansava.
Longe das pedras brilhantes, andou até a fogueira, o único lugar onde podia se aquecer. Estava confuso, era tudo tão novo, tão estranho. Olhando para o vão no teto por onde a água escorria, sua mente se entristecia.
— Deus... O que o senhor quer de mim?
O céu nublado e a chuva intensa foram as únicas respostas que teve junto do silêncio que acompanhou seu adormecer.