Escuro, sozinho em um ambiente sem luz, sem sons, acompanhado somente de sua respiração, calma e serena.
Um ambiente iluminado, repleto de pedras das cores mais variadas. Um balcão de madeira, o barulho da madeira quando pôs a mão nela, o som de panelas sendo mexidas no fogo baixo, acompanhadas de um cheiro memorável. Uma voz familiar, cantarolando uma música popular. A visão de uma bela mulher de cabelos castanhos, vestida em um simples vestido de bolinhas.
— Mãe?
Os raios de sol encandearam suas vistas e o teto pedregoso foi o que enxergou quando acordou de seu breve sonho.
— Eu...
Ficou parado um tempo até que se virou para os lados, olhando para o ambiente ao seu redor.
As gotas de água ainda pingavam na entrada da caverna, havia poças por todos os lados. As pedras brilhantes e a fogueira na qual estava próximo haviam se apagado. O silêncio era tão grande que o som da pouca água que escorria até o lago ao seu lado era cristalino como a própria.
Olhou novamente para o teto, sem se importar com o calor de sua pele iluminada pelo sol, pôs as mãos no rosto, mordeu os lábios e respirou fundo. Um sentimento amargo lhe desceu pela garganta junto do farfalhar de sua respiração e dos murmúrios silenciosos. Levantou-se. Devagar, colocou as mãos para se segurar na pedra a qual sua cabeça estava apoiada. A dor das costas que dormiram no chão duro e parcialmente no frio, onde o calor das chamas não conseguiu chegar, se fez presente. Ele grunhiu, mas não foi pior, nem igual, à que já havia passado antes. Já em pé, olhou novamente ao redor; a fogueira ainda mantinha um resquício de calor, emanando das brasas acesas entre as cinzas dos resquícios de madeira carbonizada. Ao lado, o lago, suas águas eram cristalinas, mas o fundo era escuro, não se via nada longe de onde a luz tocava. Ajoelhou-se, levou a mão até ele, pegou um pouco de água e bebeu. Não sentiu dor, não sentiu mais sede. Virou-se para a caverna e uma silhueta estava em sua frente, era a mesma mulher que tinha visto em seus sonhos.
— M-ma–
Estendeu a mão para agarrá-la e arrastou-se em sua direção, mas quando a tocou, a resposta foi diferente do que esperava.
— O que você está fazendo? — perguntou Mirabelle sendo abraçada.
— O-o quê? — Soltou-a perplexo e olhou para cima. — Mi-Mirabelle?
— Sim?
— D-desculpa... — Passou a mão sobre o rosto. — Eu... Eu estava delirando...
A visão que teve foi estranha em um primeiro momento. O jeito com que Miguel veio em sua direção já a causou estranheza, mas a palavra qual não conseguiu escutar despertava ainda mais sua curiosidade. Porém, o tempo lhe era muito importante, então relevou tudo aquilo. — Se já recuperou sua sanidade mental, me siga, precisamos buscar o que comer...
— M-mas– O-o quê? — Levantou-se meio tonto e firmou-se em pé, seguindo Mirabelle para fora da caverna.
— Qualquer coisa que seja comestível, você vai morrer se continuar assim...
— M-morrer?
— Sim. — Ela virou-se em sua direção e pôs o dedo no seu peito. — Olhe para você...
— Eu? — Olhou-se de cima para baixo, focando na ponta do dedo dela tocando-lhe.
— Sim... Como você vai ter ener- — Uma forte contração tomou conta de Mirabelle. Ela sentiu fraqueza e caiu de joelhos.
— Mi-Mirabelle? Está tudo bem!? — Surpreso, pegou-a em seus braços e a segurou antes que caísse totalmente no chão. Ele tentou levantá-la, mas quanto mais a segurava, mais pesada ficava. — Ei! O que está acontecendo!?
O corpo dela tremia, sua respiração estava inconsistente, entre grunhidos e murmúrios ela soltou: — E-energia... P-preciso de Energi–
— Energia!? — gritou, assustado. — Como assim energia!? Onde eu encontro isso!?
— Su- Sua boca...
— Minha o quê?
Confuso, mal conseguiu prestar atenção quando Mirabelle o agarrou. Suas mãos eram pequenas e delicadas, seus braços finos mal conseguiam fechar-se devido à diferença de tamanho. Ela se aproximou devagar, seus corpos ficaram colados um no outro, o ar quente saindo de sua boca, as contrações em seu corpo que eram sentidas por ele. O desequilíbrio que fez com que os derrubasse no chão, fazendo com que caísse em cima dele. — Um b-beij-
— Ma-mas- O que está acontecendo!? — perguntou assustado, mas não teve espaço para fazer nada, assim que se deu por conta, seus lábios já haviam se tocado.
Era doce, uma sensação nova, mesmo que presenciada outras vezes, era revigorante. Não existia fome, não existia dor. A pele que o tocou, suada, seus corpos ligados por mera junção pífia. Ele a abraçou, foi instintivo, impulsionado por um sentimento que não lhe pertencia, qual seu corpo forçou que fizesse. Suas línguas se entrelaçavam, uma respiração forte e quente, olhos fechados, sua experiência entregue ao tato e por assim perdurou até que Mirabelle separou seus lábios e olhou para ele ofegante. Os dois ficaram parados por um pequeno instante. Seus olhos brilhando com os reflexos da luz do sol, refletindo em suas íris, um ao outro.
— Eu- — Ela parou por um instante e fechou os olhos. Em seguida, levantou-se e, sem dizer uma única palavra, saiu da caverna e foi para o lado de fora.
Miguel, estático, ficou, olhava para frente, mas não havia o que olhar. Sua visão ficou fixa na mesma posição do rosto da garota que acabara de beijar. Parado, observando o tempo passar.
Contato.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Mirabelle estava de frente para a ponta da montanha. O local onde a caverna deles se encontrava era um enorme pico de uma montanha íngreme. Existia um vão na frente da caverna, uma área grande o suficiente para caber mais de cem pessoas. Ao redor tinham caminhos, espaços entre rochas e fissuras que formavam um labirinto, passagens para onde seguir e na frente de Mirabelle, havia a imensidão do deserto se estendendo até o horizonte, para o qual ela olhava séria, com as bochechas avermelhadas.
Miguel saiu da caverna, coçando a nuca e com o rosto também avermelhado, seus olhos estavam fixos no chão, não tinha coragem de levantá-los. Sua respiração estava calma, mas seus pensamentos ficaram turvos.
— Mi-Mirabelle D-de-
— Esqueça o que acabou de presenciar... — Mirabelle o interrompeu, abaixando a cabeça, de costas para ele. — Aquilo... Aquilo não era eu...
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Mirabelle soltou um longo suspiro e virou-se já com o rosto em suas feições habituais, indiferente, séria e ranzinza. — Venha, vamos buscar o que comer... — Seguiu por um caminho estreito.
— Ma– mas... — O pobre garoto tentou se desfazer de sua cara de vergonha, mas estava difícil. Sem tempo de questionar, tentou endireitar-se, engoliu a timidez, a vergonha e a seguiu. Alguns passos depois, parou para consertar os trapos em sua cintura, improvisando um saiote, que volta e meia escorregava e quase o deixava nu. — Mi-Mirabelle! Espere! — gritou o rapaz que estava quase ficando para trás.
Séria, ela parou e em silêncio o aguardou.
Seus passos foram rápidos, aquele lugar o causava terror. As paredes de pedras cinzas e altas, a pouca luz que vinha do céu azulado, os cantos e arestas escuros e desconhecidos, vãos pequenos e apertados que o causavam calafrios por todo o corpo.
— Tente não ficar para trás... — falou Mirabelle, que, quando o percebeu segurar os panos para que ficassem no lugar, foi até perto dele.
Evitando tocá-lo, pegou pela ponta dos dedos os tecidos soltos e arrumou-lhe o pano. — Espero não ter que o vestir, você tem capacidades para isso.
— Me desculpa...
— Agora vamos... — Virou-se e andou em direção a uma das passagens. — Precisamos confirmar se essa energia que sinto é realmente de comida.
— Energia?
— Sim, não tenho conhecimento de como funcionam as energias na Terra atualmente, mas nas águas acima do Firmamento nem toda energia é viva...
— Firmamento? Como assim?
— Você está no Firmamento… e aqui existem muitas energias diferentes, algumas vêm de seres que aqui habitam, outras vêm do próprio Criador.
Miguel ficou quieto escutando a explicação, era tudo tão diferente do que tinha aprendido até então. Sua visão ficou presa às costas de Mirabelle, que andava solenemente em sua frente, esgueirando-se como uma caçadora.
— Existem algumas energias benignas vindas do Criador. Deus fez o centro da Criação, a Terra, assim.
— O quê? — Dúvidas vieram em sua mente, aquilo era completamente diferente, tanto do que havia aprendido como daquilo que supostamente lhe havia sido desmentido por Isabella.
— Mas nem toda energia é totalmente benigna e uma delas é o Éter, uma energia tão grande e poderosa que poderia apagar existências e que foi o resquício do poder que utilizou para expurgar as trevas do centro da Criação.
Eles iam se esgueirando por lugares cada vez mais apertados em passos lentos, pausas eram costumeiras, Mirabelle olhava ao redor, analisava o terreno, a vegetação. Miguel aguardava calmo e sereno, observava cada movimento que ela fazia, enquanto prestava atenção à conversa.
— As Trevas continuavam a fazer incursões pela criação, se movendo em direção ao centro e a todo custo buscando destruir a Obra Prima de Deus, corroendo as conexões, destruindo a ordem natural, corrompendo Anjos e os transformando em demônios.
Os olhos de Miguel ficaram bem abertos quando ouviu a palavra "Anjo". Ele mordeu os lábios por um instante e olhou para baixo, mas logo voltou a si.
— Os demônios eram imparáveis, degenerados, vis, esses seres malignos portadores de uma energia corrompida foram a proteção que as trevas precisavam para cruzar o mar de energia destrutiva que o Éter era. Deus, vendo isso, antes de completar o primeiro dia da criaçã–
— Espera!
— Não grite, seu inútil! — Mirabelle virou-se e tapou-lhe a boca, Miguel ficou assustado, mas logo se viu livre, pois de relance ela soltou-lhe e se afastou arfando: — V-você quer espantar nossa provável fonte de nutrientes antes mesmo que a encontremos?
— D-desculpe, eu exagerei... — sussurrou, cabisbaixo. — É que... como tudo isso aconteceu em metade de um dia? — perguntou, gesticulando.
— Garoto, poucas coisas podem ser descritas no mundo de forma a chamá-las de verdade única... Nem eu sei se foi em um dia, quem dirá se foi um ano... — Mirabelle parou e riu. — Essa é uma das várias histórias que ouvi quando eu era viva... — Por um momento, esboçou um sorriso irônico no rosto antes de completar sua fala: — Eu escutei isso de um rapaz que não parecia ter chegado aos seus quinhentos anos...
— Espe–
Prestes a gritar, foi novamente interrompido, mas não pela mão dela e sim por seu olhar frio e amedrontador.
— Qui-Quinhentos anos!? — sussurrou.
— Sim... Ele parecia ainda mais jovem que isso, porém me foi dito por ele que tinha mais de mil... Eu só pude rir da sua cara, hahá... — respondeu, rindo.
— Mi-Mil!? I-isso é possível? — questionou, realmente assustado, seus olhos eram um vislumbre de quão inusitada foi a informação que recebeu.
— Sim... Por que a surpresa? Eu tinha acabado de chegar aos meus mil e trezentos anos na época. Ele não era tão velho em comparação... — Mirabelle o olhou com certa desconfiança.
— Mi-Mil e Trezentos!? Quer dizer que você tem mil e trezentos anos!!? — Abismado com o que ouviu, seus olhos só não saltaram das órbitas porque logo se conteve quando ela o empurrou contra a parede, fazendo-o engasgar com a própria saliva.
— Seu Idiota! Nã- — Ela logo reparou o que tinha feito e se afastou sem terminar sua fala, seu corpo tremeu junto à sua respiração enquanto se endireitava: — O que há de tão estranho em atingir tal idade em vida?
— Na-Não! Quer dizer... Como? Como você viveu mais de cem anos?
— Cem?
— Sim! Cem anos! Nós só vivemos no máximo cem anos!
— O que houve com os Homens? — perguntou Mirabelle a si mesma, colocando a mão no queixo. — Homens vivendo somente até os cem anos?
— Sim! — gritou, mas logo abaixou o tom, sendo encarado por um olhar penetrante. — Meu bisavô morreu com oitenta... — completou com um pouco de tristeza.
— Isso é estranho... Muito estranho... — Mirabelle ficou apreensiva com o que ouviu, mas um barulho a interrompeu antes que pudesse sanar a dúvida que tinha. — Quieto... — falou e se agachou rapidamente.
Miguel a seguiu e os dois se esgueiraram entre as passagens, que ficaram mais e mais escuras e apertadas. Uma luz surgiu à frente, uma fissura pequena que malmente cabia o corpo dela. Ela parou por um segundo, deu para escutar o barulho de passos, mas não eram humanos, o que escutava era algo mais próximo ao caminhar de uma ave. Olhou para Miguel, que estava bem atrás, com a respiração intermitente, assustado e apreensivo, aguardando seu próximo movimento.
— O-o qu– — Antes que ele pudesse sequer dizer alguma palavra, seus lábios foram calados por um beijo. Ele ficou sem palavras, sem reação, suas mãos se abriram, fecharam, seu corpo travou: — O-oOo quê!? — Perplexo, viu-a se afastar logo em seguida.
Diferente do garoto, ela estava atenta à criatura que ficaria de frente e começou a mexer os dedos, a areia ao redor levitou e formou uma espiral, uma pequena estaca se formava em sua mão. Quando separou-lhe os lábios, olhou para frente e, sem pestanejar, se impulsionou rumo à luz.
— Es- Espera! — gritou o garoto, mas quando se deu por conta, já estava longe.
A luz foi uma boa barreira para a visão, a criatura que pensou ser provavelmente uma galinha se mostrou grande, um pássaro feroz, uma mistura de Dodô com lagarto. Um ser estranho, qual nunca presenciou em toda sua longa vida e que ricocheteou sua estaca de energia com a armadura de escamas que tinha por debaixo das penas.
— Mas o quê!? — Espantada, correu em direção à ave que, ao percebê-la, a atacou. Suas garras afiadas eram mortais e quase as perfuraram, se não fosse por uma rápida esquiva. Agachando-se, girou, a ave que tinha a atacado ficou de costas, seu senso de direção era horrível e demorou para perceber que não tinha nada em suas garras.
Mirabelle gritou, tentando juntar mais energia com as mãos, mas falhou enquanto esquivava das garras e bicadas que vinham em sua direção. Entre uma esquiva e outra, suas mãos fixaram um formato, ela sentiu que havia formado novamente uma estaca, então pulou sobre a criatura e se agarrou em suas costas. O ser começou a se debater, em direção às paredes de pedra se jogou. Mirabelle utilizou da força que não tinha, para se segurar, tentando cravar a estaca de energia entre as escamas e penas da criatura.
Miguel, que correu assim que ouviu o primeiro grito dela, mesmo ao ver tal criatura estranha e desconhecida, repleta de escamas esverdeadas que o faziam tremer da cabeça até a ponta dos dedos dos pés, gritou: — Mirabelle! — Avançando em sua direção.
— Ga-Garoto! — Ela se assustou enquanto tentava a todo custo penetrar a armadura da criatura, mas falhava miseravelmente a cada solavanco que levava com os movimentos.
Miguel jogou-se em cima daquele Ser com todas as forças que tinha, um salto forte o suficiente e dotado de uma força que desconhecia foi o pontapé para que alcançasse e se segurasse na cauda dele.
A criatura estava confusa, seu senso de direção, que já não era bom, estava totalmente bagunçado, sua cauda estava sendo agarrada por Miguel, o qual ela jogava de um lado e para o outro e que os gritos de dor, quando atingia as paredes, tornavam ainda mais difícil se posicionar. Em suas costas estava Mirabelle puxando e arrancando suas penas, tentando a todo custo penetrar a densa camada de escamas que protegia o ligamento de suas asas.
Os movimentos que sentiu ativaram um instinto de sobrevivência que todo animal aéreo tinha e suas asas começaram a se mover. O vento vindo delas era tão forte que fazia cortes no chão. Miguel, vendo tudo aquilo com os olhos semiabertos pela dor, começou a escalar a cauda onde se fixou, fincando os dedos nas escamas com toda a força que tinha e aproximando-se de Mirabelle enquanto o estranho Ser se preparava para alçar voo.
— Mi-Mirabelle! — gritou, vendo os brilhantes cabelos dourados à sua frente sendo jogados de um lado para o outro pelo vento.
— Ga-Garoto! — estendeu-lhe a mão: — Segure!
Miguel conseguiu alcançá-la, mas quando estava prestes a segurar em sua mão, um súbito vento o fez ser jogado para o alto quando a criatura saiu do chão. Se não fosse pelo rápido movimento dela que soltou a criatura por um instante, Miguel cairia.
— Eu disse para se segurar! — gritou, tendo seu pequeno corpo esticado como uma corda de atracadouro.
Prestes a subir aos céus, Mirabelle utilizou do corpo de Miguel como o peso que precisava e, quando ele caiu junto dela, novamente, nas costas da criatura, ela cravou a estaca com todas as forças que tinha, entre as escamas dela.
O Ser começou a agonizar de dor e teve o voo interrompido, caindo no chão e batendo-se nas paredes, tendo dificuldades para manter-se em pé.
Mirabelle, vendo que não conseguiria fixar-se e sentindo seu corpo fraco, olhou para Miguel ao seu lado, tentando se segurar. Novamente sem lhe permitir consentir, beijou-lhe, sentindo quase que de imediato suas forças se regenerarem e fazendo a estaca de energia crescer de tal forma que perfurou a criatura, atravessando-a de uma ponta a outra e parando no chão.
Enquanto o sangue pingava de seu bico dourado e os poucos espasmos de seus músculos eram sentidos, aquele ser desconhecido até então, perecia, com uma lança de energia perfurando seu corpo.
Ofegantes, ambos se viam aliviados enquanto seguravam a mão um do outro, tentando manter-se firmes em cima da criatura. Mas não demorou muito para que ela viesse a cair no chão e os dois pudessem se levantar e se afastar.
— E-eu- — Tentando se explicar, Miguel ficou perplexo quando a mão de Mirabelle foi em direção ao seu rosto junto de uma face carregada de emoções que desconhecia.