Início.
Bella a Eternum: O mundo além do portão.
Criado por Iako Sabat.
Revisão: Iako Sabat e LuizZzZ :D.
Mirabelle olhou, surpresa, para a quantidade de peles que Miguel estendeu em cima daquela pedra, assim como para os próprios pés, quais moveu um pouco e fechou os dedos, estava mais firme ali do que lá fora e a sensação de pisar era confortável.
— O– O que você fez aqui?
— É… Bem… — Miguel desviou o olhar, coçando a cabeça e um pouco acuado.
Suas sobrancelhas se arquearam quando reparou na estranha timidez do garoto, mas a curiosidade não a permitiu manter-se quieta. Caminhou até uma das molduras e tocou a pele ainda molhada e repleta de restos de gordura e cartilagem. — Pare de se esquivar e me diga, o que você fez aqui?
— Isso? Eu tô curando couro.
— Curando? O que é isso?
— É… Eu fazia isso com meu avô… — Abaixou e coçou a cabeça, rindo desengonçado.
— Mas para quê você vai querer a faca? Ainda não entendo…
— Você… Você não sabe curar couro? — Quase escorregou ao perguntar.
— Não. — Mirabelle respondeu, seu rosto não diferia de uma pedra.
Miguel ficou em silêncio e, por um curto período de tempo, junto ao inclinar da cabeça, a observou sem palavras. Os dois ficaram assim, trocando olhares enquanto o vento balançava seus cabelos.
Ele então balançou a cabeça, coçou o cabelo e se endireitou. — É– É pra limpar essa pele, por isso preciso de uma faca.
— Eu não posso criar uma faca para você…
— Por quê?
— Se você tocar uma arma com Vistria de outra pessoa, ela vai se desmaterializar.
— Então me empreste, eu preciso de uma faca afiada pra limpar antes de os pôr de molho.
— Isso é impossível. — Virou-se e aproximou-se. — Você escutou o que eu lhe disse? Não vai funcionar.
— Então, o que eu faço? Eu preciso limpar elas… — Cabisbaixo, olhou para as peles que começavam a aparentar sequidão nas pontas superiores que as amarravam às molduras.
— Me permita fazer isso… — suspirou e voltou-se para as peles, onde tocou uma delas e olhou para a gordura e carne que estavam ali. — Não deve ser tão diferente de esfolar o animal… — Mal pensou e agiu, com a faca, ao invés de incliná-la para raspar, a lâmina foi quase que na vertical, entre a separação de uma das camadas.
Os olhos de Miguel se abriram. — Pare! — Correu e bruscamente segurou suas mãos.
— O– O– — Desconcertada, próxima demais do corpo dele, atrás de si, gaguejou, olhando para a mão que a apertava e levantava. — O que pensa que está fazendo? Seu idiota! — Debateu-se. — Me solta!
— Não! Você está fazendo errado. — Miguel olhou para ela e depois para a pele, qual tinha um corte enorme. — Desse jeito não vai prestar pra nada…
— Errado? — Seu rosto desceu por um momento, antes de encará-lo novamente. — Você não está querendo cortar isso?
— Cortar? Não! Eu quero raspar… Quer dizer… esse couro tem que secar, eu quero fazer uma roupa com ele.
— Roupas? O que tem de errado com as roupas que estamos usando?
Boquiaberto, olhou-a, mas logo teve que desviar os olhos junto ao rosto corado. — Vo– Você está me perguntando isso?
— Eu? Elas servem ao propósito delas. — Encarou-o.
Miguel não soube como responder, os seios que apareciam entre os rasgos da roupa, as coxas que malmente estavam cobertas por aquele tecido que, mesmo longo, estava em frangalhos. Tentou falar, mas não conseguiu, soltou-a antes que visse mais do que deveria e se afastou um pouco. — Se acalma… Se acalma… — De costas, respirou fundo e tentou conter-se.
— Então, o que quer que eu faça?
Ele respirou profundamente e sentiu a tensão abaixar, virou-se, calmo, e caminhou novamente até ela. — Te– tem algum problema se eu te mostrar? — Estendeu-lhe a palma da mão aberta, tentou manter-se sério, mas os olhos não conseguiam mais encará-la.
— Não…
Mirabelle pôs a mão rente à dele, qual segurou-a.
— Ce– certo, então deixa eu te mostrar, primeiro você faz assim.
Além da estranheza daqueles dedos grandes que se fecharam sobre sua pequena mão e o toque do corpo dele que estava logo atrás, não houve nenhuma reação quando a guiou em direção à pele e inclinou a faca para raspá-la. Mas isso foi em um primeiro momento, entre o cair dos pelos com os movimentos repetidos acompanhados de pausas para limpar a faca, não conseguiu esconder.
— En– Então… — Tentando manter a postura, involuntariamente apertou a mão dela, mas diminuiu a força assim que sentiu um tremor nas costas pressionando-lhe o corpo. — Você faz assim.
Os braços dele ainda eram maiores que os seus, a cercavam, o corpo também, uma parede sobre a qual estava encostada e que a cobria por completo com aquele toque suado. O ar quente que lhe acariciava os ouvidos involuntariamente e a fazia abrir a boca, porém não saíam palavras, somente diminutos grunhidos que acompanhavam o avermelhar de seu rosto e a inconsistência nos olhos.
— O que é isso? Por que estamos fazendo isso? — O mundo, em poucos instantes, começou a girar, foi difícil manter os pensamentos na tarefa que estava executando.
— Nã– Não solte.
Apertou-lhe a mão que abrira repentinamente quando ele forçou entre as escamas para retirar a pelagem dura.
— Eu– Eu não soltei!
Miguel ficou em silêncio, era duro para si também, mas olhar para a pele ficando limpa o fazia querer continuar, mesmo que já tivesse perdido há muito tempo o controle, ignorar as tensões era necessário.
— O– O que está fazendo?
Soltou-lhe a mão esquerda e segurou diretamente na pele.
— Pen– Pensei que… estava incomodando… assim fica melhor pra… pra você.
Moveu um pouco o rosto e ela sentiu um pequeno arrepio quando a respiração dele tocou novamente o pescoço dela.
— Nã– Não! Quer dizer… — Com a mão esquerda agora livre, ao invés de se apoiar melhor, primeiramente a desceu e pôs frente a seu corpo. — Eu… Está– está tudo bem. — Não demorou a erguê-la novamente, hesitando em tocar a dele, que aumentava a intensidade da respiração e a qual a direita tremia, mesmo que segurasse em si com firmeza.
— Ma– Mas o que eu estou fazendo?! E– Essa não sou eu! Essa não sou eu! — Em um impulso, segurou a mão esquerda dele. — Vamos terminar isso, não posso perder meu tempo aqui. — Sua voz saiu indiferente, seria, ríspida, mas o rosto contava outra história, não havia mais espaço para a vermelhidão, dificilmente conseguiria desferir tais palavras cara a cara.
— Ce– Certo! — Miguel rapidamente se recompôs e logo foi com tudo para terminar o trabalho, mas Mirabelle travava, seu corpo estremecia e estava praticamente sendo guiada, sem conseguir raciocinar direito.
E o tempo passou, a faca foi sendo limpa toda vez que viam as mãos escorregarem, pausas vinham no sentir do suor se acumulando em seus corpos. As armações eram desfeitas assim que terminavam de despelar e o pelo ia se acumulando no canto da parede junto aos galhos. Mirabelle respirava profundamente e não se virava de maneira alguma enquanto Miguel desmontava as molduras e dobrava os couros. De costas para ele, o desconforto tomava conta do garoto, cujos os olhares direcionados a ela estavam permeados pela distância e pelo próprio nervosismo.
Não demorou para o sol chegar ao topo, assim como também a Miguel, que logo sentiu uma ardência nas cicatrizes que se acumulavam em suas costas, mas já haviam terminado de limpar todas as peles. Quando se deu conta do calor, estava soltando a mão de Mirabelle e respirando aliviado, impulsionando-se involuntariamente para trás e se sentando bruscamente no chão.
Mirabelle continuou ali, imóvel, conteve-se para não ceder às pernas trêmulas e tentou a todo custo recuperar a razão que havia perdido.
— Aaaa! — Miguel estirou os braços, ela que estava estática, reagiu estranhamente, um arrepio lhe percorreu todo o corpo quando ouviu a voz dele, mas não ousou se virar.
— Agora que terminamos, é melhor eu deixá-las de molho. — O garoto se levantou, cobriu as vistas com a mão e olhou para o alto.
— Mirabelle? — Quando voltou a visão para a garota e às peles. Ela já não estava lá, havia desaparecido e somente a faca que segurava ficou ali no chão. — Ei! Mirabelle? Cadê você? — Sem nem ligar para as peles, Miguel olhou para ambos os lados e, em poucos segundos, começou a suar frio. Rapidamente, entre o reluzir do sol em suas vistas turvas e um vulto amarelo, ele correu para fora da caverna.
— Ei! Ei! Ei! EiI! Ei! Ei! Ei! O que foi que aconteceu!!!??? — Mirabelle olhava para o alto, arfando como se houvesse corrido uma maratona, enquanto o corpo todo tremia, apoiada na parede do lado de fora. A boca não parava fechada, os olhos inconsistentes não a permitiam focar em nada enquanto sua mente estava tão cheia quanto uma represa que se partiu ao se deparar com Miguel a encarando.
— O– O– O– O– O– O–
— Mirabelle, o que foi que aconteceu? — Agarrou-lhe os braços abruptamente. — Está tudo bem?
— Ma– Ma– Ma– Mas– — Perdendo-se entre devaneios, nem mesmo o encarar conseguia, sua boca tentava falar, mas sua mente não dizia as palavras que tinham que sair, nem mesmo força nos braços encontrava para o afastar.
— Oooi! Mirabelle!? — Miguel começou a chacoalhá-la — Mirabelle! Acorde! — a preocupação lhe acometia, observando-a reticente às suas perguntas, junto à respiração inconsistente e fraqueza no corpo, em um lapso de memória, uma possibilidade lhe veio à mente. — Já sei!
— O que eu estou fazendo!? Contenha-se, Mirabelle! — Entre um chacoalhar e outro, sua mente começou a voltar a si, mas, em poucos instantes que conseguiu retomar o controle, seus lábios foram traçados por Miguel. — O queeeeeeeeeeeee!?
Ela sentiu o toque molhado e quente dele, que havia tomado a iniciativa de a beijar, e quase se deixou ceder quando foi empurrada contra a parede, mas em poucos instantes sua mão rumou em direção ao rosto de Miguel, que caiu no chão.
— Ai! — Gritou o garoto que pôs a mão sobre o rosto. — Por que você fez isso!?
— Seu louco! — Mirabelle não conseguia o encarar, desviando o olhar e tentando se manter sã em meio a tantas emoções que se acumulavam em si. — Nunca mais faça isso! — Ela gritou e correu dali como se fugisse de alguém.
Miguel que não entendeu nada, com a mão sobre a bochecha avermelhada, ficou ali, parado, observando-a se distanciar. — Mas que porra…
— O que foi que aconteceu? — Entre um olhar para o pico do monte e outro para o caminho que Mirabelle percorreu, coçou a cabeça e respirou fundo, fechando os olhos. — Aaah! Não adianta eu pensar em nada agora…
Devagar, se levantou e entrou na caverna. Pegou um pouco das cinzas que havia amontoado e derrubou-as no buraco, indo até perto da pedra e pegando um galho grande. — Espero que isso funcione… — Miguel então mexeu a água com o galho e jogou mais cinzas, aos poucos a cor foi mudando, ela foi ficando cada vez mais pesada e acinzentada. — Pronto… — Então subiu e pegou as peles dobradas, as abriu uma a uma frente ao buraco e as mergulhou na mistura de água e cinzas, mas nem todas afundaram, algumas boiaram, amontoando-se.
Cético, logo foi para fora novamente. — Não pode ser muito pesada. — Olhou ao redor e pensou que não encontraria, mas logo estava ele voltando para dentro com uma pedra, que mesmo não sendo muito grande, o fazia dobrar os joelhos e a coluna, tentando manter a postura até chegar no buraco. — Ah! — Jogou a pedra dentro do buraco, a água espirrou em sua cara, a qual limpou com o braço e logo depois entrou ali para organizar as peles embaixo dela.
Foi árduo, não pelo peso da pedra, mas porque escorregava na argila e as peles boiavam, o atrapalhando em manter o equilíbrio. Logo que conseguiu colocar todas ali e assentou a pedra no lugar, pulou para fora todo sujo de barro e cinzas, tentando ficar em pé com os pés escorregadios.
— Agora sim! — gargalhou Miguel, que coçou o nariz tentando não escorregar. Em seguida, caminhou até uma parede, mais para dentro da caverna, perto do lago e da fogueira, e marcou ali um risco com um graveto. — Agora tenho que esperar três dias.