A noite já havia caído. Do outro lado de Hanôver, três figuras caminhavam tranquilamente por uma das avenidas mais nobres da cidade. À frente seguia Jairo; seu moicano branco chamava atenção até sob a iluminação dos postes, enquanto seus olhos avermelhados observavam cada detalhe da rua com a calma de um caçador. Ao seu lado caminhava William, um jovem de pele negra marcada por extensas queimaduras antigas e cicatrizes que atravessavam parte do rosto, do pescoço e dos braços. Os cabelos estavam presos em tranças nagô cuidadosamente alinhadas. Seus olhos castanhos mantinham uma serenidade quase melancólica, e cada passo era acompanhado pelo discreto apoio de uma bengala metálica, utilizada mais por necessidade do que por fraqueza. Logo atrás vinha Jiā Lín, com seus longos cabelos negros e lisos contrastando com a lateral direita da cabeça completamente raspada. Os olhos estreitos denunciavam sua ascendência chinesa, mas era o olhar profundo e vazio que mais chamava atenção. Parecia não haver qualquer emoção ali, como se ela observasse o mundo apenas para analisá-lo, nunca para senti-lo.
Os três vestiam ternos escuros de corte elegante combinados com tênis discretos, suficientes para misturá-los à elite que circulava pela região sem abrir mão da mobilidade necessária caso tudo desse errado.
— Então... como o americano está se sentindo andando com dois estrangeiros? — provocou Jairo, sorrindo de canto.
William soltou um suspiro cansado.
— Você nasceu na Rússia, mora no Brasil e estamos na Alemanha. Acho que nenhum de nós tem moral para fazer esse tipo de piada.
Um breve silêncio tomou conta do grupo. Jiā Lín sequer desviou os olhos da rua.
— Crianças... discutam depois. Já estamos chegando. Esse é o último lugar da nossa lista.
Os três pararam diante de uma pesada porta de madeira escura. Jairo ergueu a mão e bateu três vezes. Alguns segundos depois, a porta se abriu. Um homem gigantesco surgiu na entrada; o pescoço grosso quase desaparecia entre os ombros, enquanto o olhar desconfiado examinava cada um deles.
— *Que voulez-vous?* — perguntou em francês.
Jairo manteve um sorriso educado.
— Ficamos sabendo que vocês trabalham com mercadorias de primeira qualidade. Gostaríamos de dar uma olhada... e, quem sabe, fechar um negócio.
O segurança permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de abrir passagem. Sem dizer uma única palavra, os três atravessaram a porta. O ambiente era sufocante; o ar carregava o cheiro de álcool barato, fumaça de charutos e perfumes exageradamente doces. Homens embriagados riam alto enquanto negociavam dinheiro entre copos vazios, e mulheres circulavam pelo salão com sorrisos forçados, tratadas como parte da mercadoria oferecida pela casa.
Jiā Lín percorreu o local com um único olhar gélido. William apoiou a bengala no chão, respirando discretamente pelo nariz, visivelmente incomodado com a mistura de odores nauseantes. Já Jairo apenas sorriu. Era exatamente o tipo de lugar que esperava encontrar.
Um velho desceu lentamente a escada principal, acompanhado por dois brutamontes. Um deles empurrava um cilindro de oxigênio preso a um carrinho metálico, ligado por uma cânula ao nariz do idoso. Apesar da idade avançada e da saúde debilitada, seus olhos permaneciam atentos e calculistas. Ele parou diante do trio e abriu um sorriso discreto.
— Por acaso... são americanos? — perguntou o idoso, a voz saindo levemente arrastada pelo esforço respiratório.
Jairo soltou uma risada abafada por trás da máscara.
— Ah, claro que não. Isso soa como uma baita ofensa. Eu sou um camarada russo, ela é chinesa... e esse rapaz aqui veio de algum lugar da África — respondeu, dando uma rápida olhada no velho antes de continuar. — Pelos seus traços, arriscaria dizer que o senhor é francês. Assim como aquele gigante lá de fora. Hahaha.
O velho sorriu de canto, sem se abalar com a petulância do mercenário.
— Bem... como podem ver, temos muitas mulheres bonitas por aqui. Pagando bem, vocês podem fazer o que quiserem. Só peço que as devolvam vivas.
Jairo inclinou levemente a cabeça, fingindo pensar.
— Qual é o seu nome?... Ah, pensando bem, isso não importa.
Seu sorriso desapareceu, e o clima no salão pareceu congelar por um instante sob a pressão daquela mudança súbita de tom.
— Não estamos interessados em aluguel. Viemos comprar. Pelo que ouvimos, quase toda essa mercadoria foi obtida recentemente. Dizem que o senhor possui um estoque reservado para clientes especiais... e é justamente esse estoque que queremos negociar.
Jairo deu um passo à frente, ignorando a postura defensiva dos seguranças, e encarou o velho nos olhos.
— Se o preço for justo... compramos tudo.
— Ah, claro... Temos carne bem jovem. Asiáticas, sul-americanas, africanas... — o velho abriu um sorriso repugnante. — O que procuram?
— Tudo — Jiā Lín respondeu sem hesitar. — Mas primeiro queremos avaliar a mercadoria.
O velho fez um gesto com a mão.
— Tragam o lote especial.
Um dos capangas desapareceu pelo corredor enquanto o restante do salão voltava a fazer barulho. O idoso voltou sua atenção ao trio.
— Então... com o que vocês trabalham?
William apoiou as duas mãos sobre a bengala.
— Lavagem de dinheiro. Tráfico. Assassinatos por contrato. Prostíbulos exóticos... Tudo o que dá mais lucro.
O velho soltou uma gargalhada rouca.
— Então por que vieram comprar comigo? Homens como vocês devem ter fornecedores espalhados pelo mundo inteiro.
Jiā Lín respondeu antes que qualquer um dos dois abrisse a boca.
— Porque todos sabem que o senhor é o maior traficante de pessoas da Europa... e o mais confiável.
O ego do velho pareceu inflar imediatamente. Naquele instante, o capanga retornou. Atrás dele vinha uma fila de crianças e adolescentes. Eram cerca de quinze. O mais velho não aparentava ter mais de dezesseis anos. Todos caminhavam de cabeça baixa, com marcas de agressões, hematomas e um olhar completamente vazio.
Mas uma menina chamou a atenção do trio. Era pequena, talvez entre sete e nove anos. Sua pele escura lembrava o tom da de William. Os cabelos crespos e volumosos caíam desordenados sobre os ombros. Ela tremia sem parar. Seus olhos permaneciam fechados.
Jairo franziu a testa.
— O que aconteceu com essa garota?
O velho sorriu com um orgulho doentio.
— Ah... Ela tinha olhos curiosos. Um arco-íris completo. Achei bonitos demais para desperdiçar.
Ele apontou para uma prateleira atrás do balcão. Dentro de um frasco de vidro, mergulhados em um líquido transparente, repousavam um par de olhos de cores incomuns, misturando diversos tons em um único íris.
— Viraram decoração.
Por um breve instante... ninguém respondeu. William apertou o cabo da bengala com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Jiā Lín permaneceu imóvel. Jairo apenas sorriu. Um sorriso pequeno. Frio. Assustador.
— Infelizmente não consegui me divertir com nenhum desses pedaços de carne — continuou o velho. — Por isso o preço aumentou. Temos mercadoria de quase todos os continentes... E podem comprar sem medo. Os pais já estão mortos. Além disso, fazendo negócio comigo, vocês contam com a proteção da UMD.
Sem desviar os olhos da menina, William perguntou em voz baixa:
— Algum deles corresponde à descrição da irmã?
Jairo fez um leve aceno afirmativo.
— A garota sem os olhos.
O silêncio voltou a tomar conta do salão. Então Jiā Lín deu um passo à frente. Sua voz saiu calma. Quase educada.
— Muito bem, senhor Andreie... — Ela ergueu lentamente o olhar. — Vamos levar todas as pessoas deste lugar.
O velho sorriu.
— Todas?
— Crianças. Adolescentes. Adultos. E qualquer objeto de valor encontrado no prédio.
O sorriso do traficante desapareceu.
— Vocês são da AMI... não são?
Jiā Lín balançou a cabeça negativamente.
— Não. — Ela sustentou o olhar do velho. — Nós apenas somos extremamente competentes. — Fez uma breve pausa. — Só hoje, nossa equipe fechou quase todos os lugares como este... e matou cada pedaço de lixo que encontramos pelo caminho.
O salão inteiro mergulhou em um silêncio absoluto.
Um dos seguranças ergueu a mão e uma torrente de fogo explodiu em direção ao trio. Antes que as chamas os alcançassem, William deu um leve toque na própria bengala. O oxigênio ao redor do jato de fogo simplesmente desapareceu por alguns instantes. Sem combustível para continuar queimando, as chamas morreram no ar, dissipando-se em uma fumaça escura.
O salão mergulhou em um silêncio de um segundo. Jiā Lín levou a mão ao comunicador preso ao ouvido.
— Já contatei o Paulo. Ele vai retirar todos os civis e levá-los ao ponto de extração — disse ela.
Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente.
— Jairo, cuide do andar de baixo.
Ela voltou o olhar para a escadaria.
— William, você vem comigo. Vamos verificar o segundo andar... e massacrar o restante dos envolvidos.
Os criminosos começaram a cercá-los por todos os lados. Jairo apenas estalou o pescoço. Em seguida, inflou levemente as bochechas. Quando expirou, um gás amarelado escapou pelos filtros de sua máscara, espalhando-se silenciosamente pelo salão.
Os primeiros seguranças ainda tentaram avançar. Não conseguiram dar mais do que três passos. Sangue começou a escorrer por seus olhos. Um deles caiu de joelhos, vomitando uma mistura de sangue escuro e fragmentos de carne. Outro tentou gritar, mas apenas golfadas avermelhadas escaparam de sua boca antes que desabasse no chão.
O pânico tomou conta do ambiente. Enquanto os criminosos morriam agonizando, Jiā Lín e William passaram por eles sem sequer diminuir o ritmo, seguindo em direção à escadaria. Ao mesmo tempo, uma escuridão profunda surgiu atrás das crianças e dos demais reféns. Como uma boca silenciosa, as trevas os envolveram cuidadosamente e começaram a transportá-los para o ponto de extração preparado por Paulo.
Jairo desembainhou lentamente sua shashka. A lâmina refletiu a luz fraca do salão. Mais reforços surgiram pelos corredores e pela entrada principal. Um sorriso surgiu no rosto do russo.
— Finalmente... — murmurou — achei que esta noite fosse acabar sem diversão.
Jairo avançou sem hesitar. Os seguranças se lançaram à frente do velho numa tentativa desesperada de protegê-lo. Foi inútil. A shashka descrevia arcos rápidos e precisos pelo ar. Um braço caiu antes que seu dono percebesse o golpe; uma perna foi separada do corpo; um homem perdeu a cabeça antes mesmo de conseguir sacar a arma. Não havia desperdício de movimentos. Cada corte era calculado para matar ou incapacitar instantaneamente.
O velho recuava, tropeçando nos próprios pés. Seu corpo inteiro tremia. Um líquido quente escorreu por suas pernas; ele havia perdido o controle da própria bexiga. Naquele momento, independentemente da classe que possuísse, a vitória simplesmente não existia. Jairo parou diante dele. Através da máscara de gás, sua voz soou abafada e assustadoramente calma.
— Contaminei seus homens com uma variante do ebola. Precisei modificá-la para que pudesse se espalhar pelo ar... — Ao redor, os últimos capangas agonizavam, tossindo sangue enquanto seus corpos começavam a entrar em colapso. — Eles vão morrer juntos.
Jairo inclinou levemente a cabeça.
— Mas para você... eu reservei algo melhor.
Dois dedos atravessaram o espaço entre eles e tocaram os olhos do traficante. A infecção aconteceu instantaneamente. O velho soltou um grito tão alto que ecoou por todo o prédio. Jairo retirou a mão lentamente.
— Aproveite a sensação. — Ele deu um passo para trás. — Essa bactéria devora um corpo vivo de dentro para fora. Eu a cultivo exclusivamente para pessoas como você.
Sem esperar a reação, voltou a caminhar. Mais homens surgiam pelos corredores. A shashka voltou a cantar. Cabeças rolavam pelo chão, braços eram arrancados e pernas tombavam antes mesmo que seus donos conseguissem reagir. O corredor transformava-se, pouco a pouco, em um verdadeiro matadouro.
Enquanto isso, no segundo andar...
Jiā Lín e William avançavam de quarto em quarto. Cada porta arrombada revelava um novo cenário de horror: homens influentes abusavam de vítimas dopadas, enquanto outros apenas observavam, embriagados. Nenhum deles teve tempo para implorar. A lâmina de sangue criada por Jiā Lín atravessava gargantas com precisão cirúrgica. Os que escapavam dela encontravam William. Com um simples gesto, ele alterava a composição química do ambiente ao redor dos criminosos; alguns morriam intoxicados, outros sufocavam lentamente sem compreender o que havia acontecido. Atrás deles, as vítimas eram libertadas uma após a outra.
William observou o corredor por alguns segundos.
— Se a garota está aqui... então a arma deve estar em algum desses qua...
Sua frase morreu no meio do caminho. Ele bateu duas vezes a ponta da bengala contra o piso: *Toc. Toc.*
O segundo impacto devolveu um som metálico. William sorriu discretamente.
— Achei.
Ajoelhou-se e apoiou a ponta dos dedos sobre o assoalho. Mana percorreu a madeira até alcançar a estrutura escondida logo abaixo. O gálio infiltrou-se entre as juntas metálicas, alterando suas propriedades e enfraquecendo toda a sustentação. William levantou-se. Com um único golpe da bengala...
*CRACK!*
O piso cedeu, revelando um compartimento oculto sob o quarto.
— Primeiro as damas.
— Por que você não entra na minha frente? Eu faço questão.
William apoiou a bengala no chão.
— Estou sem compostos químicos úteis para manipular. Se eu entrar agora, vou ter que usar elementos do meu próprio corpo... e prefiro evitar isso.
Jiā soltou um leve suspiro.
— Então fique de vigia.
Sem esperar resposta, ela saltou para dentro da abertura.
O espaço lembrava um bunker improvisado. As paredes de concreto eram frias, reforçadas por vigas metálicas, e o ar carregava um forte cheiro de ferrugem, mofo e sangue seco.
Ela avançou pelo corredor estreito com a faca em punho até parar diante de uma pesada porta de aço.
Sem hesitar, passou a lâmina pela palma da própria mão.
O sangue escorreu entre seus dedos e, ao tocar o chão, começou a coagular e endurecer, formando uma massa sólida de vermelho escuro.
— Ei, William... desce aqui.
Ele apoiou a bengala na borda da abertura e saltou para dentro do bunker.
— O que foi?
Jiā apontou para a porta.
— Talvez você não seja tão inútil por enquanto. Consegue extrair algum componente do meu sangue para abrir isso?
William se ajoelhou diante da poça de sangue endurecido, analisando-a por alguns instantes.
— O corpo humano tem quantidades muito pequenas de gálio. Não daria em nada. Mas posso extrair o ferro e o alumínio para produzir termita...
Ele ergueu os olhos para a porta de aço.
— ...a quantidade ainda vai ser pequena.
— Sem problemas. Você sabe que nós temos sangue de sobra.
William sorriu de canto.
— Eu sei. Só estou avisando que vai doer.
Jiā ergueu novamente a faca.
— Dor nunca foi um problema.