O despertador tocou com a mesma coragem de sempre: nenhuma.
Rafael abriu os olhos sem pressa, como quem já conhecia o roteiro do dia e, por isso mesmo, não via motivo para se levantar. O teto do apartamento era branco, liso, sem história. A parede ao lado tinha uma trinca fina, quase elegante, que ele jurava não estar ali no mês passado. O prédio envelhecia como tudo no país: devagar, calado, com as contas em dia e a dignidade no limite.
Ele passou a mão no rosto, sentindo a barba que não era desculpa nem estilo, era só… cansaço acumulado em forma de pelo. Pegou o celular e checou as horas. Antes mesmo de levantar, o dedo deslizou automático para as notícias, como se buscar indignação fosse parte do alongamento matinal.
As manchetes já vieram gritando.
Rafael largou o aparelho na cama, como se o calor das letras pudesse queimar. Ficou olhando para o teto e respirando, uma, duas vezes, tentando não começar o dia com um soco no estômago.
Não funcionou.
O nó veio do nada, daquele lugar atrás das costelas onde ele não sabia diferenciar raiva de tristeza. O país tinha um jeito especial de fazer isso: misturar indignação com impotência até virar uma massa que entupia a garganta.
Levantou. Foi até a cozinha, abriu a torneira, encheu o filtro, pegou uma caneca com o logo desbotado de um congresso qualquer. Café. O único ritual que não o traía.
Enquanto a cafeteira gotejava, o rádio da vizinha já fazia seu trabalho de sempre: infiltrar o mundo no silêncio alheio. Voz animada, trilha de vinheta, a alegria artificial de quem vende tragédia em horário comercial.
Rafael ficou parado, de braços cruzados, olhando o café cair como se aquilo tivesse algum significado. A gota final sempre era uma pequena vitória: “acabou, pelo menos isso.”
Pegou a caneca, caminhou até a sala e ligou a TV. O noticiário estava no modo “urgente” sem urgência nenhuma, aquela tarja vermelha que virou decoração nacional.
A âncora, impecável, anunciou com a serenidade de quem recita o clima:
— O Supremo Tribunal Federal decide, por maioria, reinterpretar pontos centrais da Constituição… críticos afirmam que a decisão ultrapassa competências e abre precedente para…
“Reinterpretar.”
Rafael sentiu o nó apertar mais.
Ele não era jurista. Não tinha diploma para debater artigo, inciso, parágrafo. Mas tinha algo que o país parecia ter perdido: instinto de limite.
O problema não era uma decisão específica. Era o gesto. O hábito. A sensação de que tudo estava sempre “em revisão”, exceto o que realmente precisava mudar.
A reportagem seguiu com imagens do plenário, ministros falando como se estivessem sempre certos, opositores indignados como se estivessem sempre inocentes, comentaristas explicando o inexplicável com a calma de quem faz isso há anos.
Rafael apertou os dedos na caneca sem perceber. O porcelanato rangeu sob a força mínima, quase nada. Só que “quase nada” era sempre o começo.
A jornalista do vídeo, do lado de fora do prédio do tribunal, concluiu:
— Especialistas apontam que o Supremo tem exercido um papel cada vez mais ativo diante da omissão do Legislativo…
O café, de repente, ficou amargo de um jeito diferente.
“Diante da omissão.” Sempre tinha uma justificativa bonita. Sempre tinha uma frase que parecia sensata quando era dita rápido. E rápido era o idioma oficial de qualquer decisão grande demais para ser aceita devagar.
Rafael desligou a TV.
O silêncio veio como um alívio curto, porque a cabeça continuou falando por conta própria.
Ele se perguntou, como se perguntava desde que se lembrava, quando exatamente o mundo tinha decidido que a verdade era uma questão de narrativa e não de realidade.
A resposta nunca vinha. Só vinha o mesmo desânimo, como uma maré que volta mesmo quando você jura que não vai mais olhar o mar.
A porta do quarto se abriu com um estalo leve.
— Pai?
A voz era pequena, mas o efeito era grande. O nó não sumiu, mas mudou de lugar. Saiu da garganta e foi para algum canto onde ele conseguia controlar.
Lia apareceu com o cabelo em pé, pijama de desenho, um olho meio fechado, outro mais ou menos aberto, como se ainda estivesse negociando com o sono.
Ela tinha sete anos e uma capacidade absurda de existir com confiança, como se o mundo fosse um lugar naturalmente seguro. A inocência era uma coragem que Rafael não tinha mais.
— Bom dia, coisinha — ele disse, tentando colocar sorriso na voz antes de colocar no rosto.
Lia caminhou até ele e encostou a cabeça na barriga dele, abraçando sem pedir permissão, como se o corpo dele fosse uma certeza fixa no universo. Rafael passou a mão nos cabelos dela com cuidado, como se alisar aquilo fosse também alisar o mundo.
— Hoje é dia de escola? — ela perguntou, com uma preocupação que só quem tem sete anos consegue ter.
— É. E você vai arrasar — ele respondeu.
— Eu vou. Mas a mamãe falou que você tem que levar minha mochila porque eu esqueci ontem.
Rafael soltou uma risada curta pelo nariz. A vida tinha esses detalhes que impediam o apocalipse completo.
— A mamãe falou, né?
Lia assentiu com a seriedade de quem acabou de transmitir um decreto internacional.
Rafael pegou a mochila no canto do sofá. Era pequena, azul, com uma estrela meio torta bordada. Ele colocou na mesa e conferiu o estojo, a garrafinha, a agenda. Tudo ali. A conferência era automática: sempre que ele tinha a Lia, ele virava um sistema.
O celular vibrou em cima do balcão.
**Camila**.
Ele olhou o nome e sentiu um segundo nó, esse mais antigo, mais pessoal. Camila não era um problema, mas a relação deles tinha virado uma arena onde cada conversa era um teste de paciência.
Atendeu.
— Oi.
— Rafael, bom dia — Camila disse, rápida. Sem respirar muito entre uma palavra e outra, como se até a educação fosse um gasto. — Você viu a agenda? Tem bilhete da professora. E a Lia tá com tosse?
Rafael olhou para Lia, que estava perfeitamente saudável, encostada no sofá como uma rainha de pijama.
— Não tá com tosse, não. Tá ótima.
— Ela tossiu ontem à noite comigo. Você não presta atenção.
Rafael fechou os olhos um instante. Aquilo doía porque era verdade de um jeito injusto: ele prestava atenção. Mas Camila não acreditava mais nos esforços dele, só nas falhas.
— Eu presto — ele disse, contido. — Vou ler a agenda. Vou levar a mochila. Tudo certo.
— Tudo certo pra você é sempre “tudo certo” até dar errado — ela respondeu, e havia algo naquela frase que não era só sobre a mochila.
Rafael respirou, como quem segura uma resposta que podia virar incêndio.
— Camila… eu tô com a Lia. Ela tá bem. Eu vou levar ela no horário.
Silêncio do outro lado, pequeno, mas cheio.
— Tá. Só… não fica fazendo essas coisas de notícia perto dela. Ela ouviu você ontem falando do país.
Rafael travou. Não porque era um golpe baixo, mas porque era verdade. Ele tinha falado. Tinha falado com raiva. E a Lia tinha ouvido. As crianças eram antenas.
— Tá. Eu não vou — ele respondeu, mais baixo.
— Tchau.
A ligação encerrou sem beijo, sem nada. Camila sempre desligava como se cada segundo fosse um favor.
Rafael colocou o celular na bancada com cuidado demais, como se pudesse quebrar. Lia o observava com a testa levemente franzida.
— Você e a mamãe tão brigando? — ela perguntou.
A pergunta era simples. A resposta nunca era.
Rafael se abaixou até ficar na altura dela.
— A gente… tá aprendendo a conversar melhor — ele disse, escolhendo as palavras como quem monta um brinquedo frágil. — Mas eu e a mamãe te amamos, tá?
Lia assentiu, como se tivesse entendido metade e aceitado o resto por confiança. Era isso que mais assustava: o quanto ela confiava.
Ele se levantou, pegou uma colher e mexeu o café já frio. A televisão continuava desligada, mas a sensação do noticiário ainda estava na sala, como cheiro de fumaça depois do fogo.
Rafael olhou para a janela. A cidade lá embaixo já estava em movimento: ônibus, motos, pessoas correndo sem saber exatamente de quê. O Brasil acordava cedo para manter seus problemas vivos.
Ele não sabia por que aquele noticiário tinha batido tão forte. Não era novidade. Não era escândalo inédito. Era só mais um capítulo do mesmo livro interminável.
E mesmo assim, o nó.
Como se dentro dele existisse algo que reconhecia, instintivamente, que aquilo não era só “política”. Era um tipo de quebra… mais funda. Uma quebra de regra. De ordem. De limite.
Rafael levou a caneca até a pia. No caminho, esbarrou no canto da mesa. Foi um toque leve.
A borda de madeira ficou com uma marca, pequena. A superfície teve um arranhão fino, como unha.
Rafael parou. Olhou.
O toque tinha sido leve demais para aquilo.
Ele passou o dedo no arranhão e sentiu a madeira lascada, real. Por um segundo, uma memória estranha quis subir, como um sonho que você quase lembra ao acordar: corredores frios, metal, luz branca. Vozes em um idioma que ele não conhecia mas que, de algum jeito, parecia… familiar.
Ele piscou forte. A sensação sumiu.
— Pai? — Lia chamou, já com a meia na mão. — Me ajuda.
Rafael virou o rosto na hora. Sorriso pronto. Modo pai ativado.
— Claro. Vem cá.
Ele se ajoelhou no chão e começou a colocar as meias na filha com cuidado, como se aquilo fosse um ritual sagrado. E talvez fosse. Talvez fosse a única coisa que ainda fazia sentido.
Enquanto puxava o tecido sobre o pé pequeno, Rafael pensou, sem querer, em algo que ele nunca dizia em voz alta:
Se alguém tivesse coragem de colocar ordem nesse mundo… de verdade… sem brincar de faz-de-conta…
Ele interrompeu o pensamento. Era perigoso.
Porque, no fundo, ele sabia: quando você começa a desejar “ordem” demais, você também começa a desejar poder.
E poder, naquele país, sempre vinha com sangue nas mãos. Mesmo quando vinha com sorriso.
Lia levantou os braços para ele ajudá-la a colocar a blusa.
Rafael obedeceu, e por um instante, tudo ficou normal.
Só que o nó continuou lá.
E, de algum lugar que ele não sabia nomear, uma parte dele respondeu ao próprio pensamento anterior com uma calma que não era humana:
Talvez a ordem não precise pedir permissão.
Rafael sentiu um arrepio subir pela nuca, como se alguém tivesse falado atrás dele.
Olhou para a sala.
Ninguém.
A televisão desligada refletia o próprio rosto dele, meio torto, como um espelho ruim.
Rafael respirou e forçou o corpo de volta ao presente.
— Pronta? — ele perguntou, pegando a mochila.
— Pronta! — Lia respondeu, feliz demais para um mundo tão pesado.
Ele abriu a porta. O corredor cheirava a produto de limpeza barato. O elevador demorou, como sempre.
E enquanto esperava, Rafael pensou que talvez o nó na garganta fosse só isso: um homem cansado, assistindo o mundo desandar, tentando ser pai direito.
Só que, por trás da explicação confortável, havia outra coisa.
Uma sensação de que ele era… maior do que sua vida.
Como se, durante quarenta anos, ele tivesse sido uma máquina ligada no modo economia.
E alguém, em algum lugar, tivesse acabado de encostar o dedo no botão de “ligar”.