O relatório chegou sem aviso, do jeito que as coisas realmente importantes costumavam chegar: sem cerimônia e com uma etiqueta feia de “confidencial”.
Clarice estava no refeitório do hospital, uma bandeja na mão, fingindo que ia comer alguma coisa que não tinha gosto de nada. O celular vibrou uma vez, curta, como se não quisesse chamar atenção. Ela olhou a notificação e, por reflexo, não abriu de imediato. Primeiro respirou. Depois olhou em volta.
Duas técnicas de enfermagem riam de um meme no balcão. Um residente passava apressado com um jaleco amassado e olheiras de guerra. A televisão presa na parede falava de política como se fosse previsão do tempo.
Normal.
Clarice gostava do normal. O normal era uma camuflagem perfeita.
Ela abriu o arquivo.
Assunto: RAFAEL SALDANHA
Origem: Canal interno
Status: ALVO DE CONFIRMAÇÃO
Anexo: CONFIDENCIAL | ACESSO RESTRITO
O nome era simples, comum o suficiente para desaparecer no meio de outros mil. O que não era comum era o jeito como o relatório foi escrito: seco, sem floreio, cada linha parecendo ter sido escolhida com medo de ser lida pela pessoa errada.
Clarice deslizou o dedo até o anexo, mas travou.
O coração não acelerou. O corpo dela não tinha o hábito de perder o controle. Ainda assim, algo dentro dela fez um pequeno clique, como uma engrenagem encaixando.
“Alvo de confirmação.”
Ela sabia o que significava, mesmo sem admitir para si mesma que sabia.
A mesa de plástico do refeitório estava fria sob os dedos. Clarice fechou o arquivo sem abrir o anexo. Não ainda. Ela precisava manter a própria cabeça no lugar.
O que a incomodava, sempre, era o mesmo detalhe: o mundo humano se movia por ansiedade. O mundo dela… se movia por medo disfarçado de método.
Ela levantou, deixou a bandeja quase intacta e caminhou pelo corredor com um ritmo que, de tão controlado, parecia natural.
No elevador, uma enfermeira comentou com outra:
— Você viu a nova médica do trabalho? Parece que saiu de um comercial.
Clarice fingiu não ouvir. Era uma habilidade que ela treinara sem perceber. O mundo tinha opiniões sobre ela desde sempre, e ela já tinha entendido cedo demais que atenção era tanto moeda quanto ameaça.
E era inevitável: cabelos negros, lisos e longos o bastante para cair bem mesmo presos num coque apressado; olhos verdes que, sem maquiagem nenhuma, pareciam sempre “acesos”; rosto jovem demais para o respeito automático que um jaleco costuma exigir. Gente confundia beleza com leveza. Ela deixava confundirem.
Atravessou o estacionamento, entrou no carro e seguiu para a clínica conveniada que atendia empresas. Um lugar limpo, organizado, com cheiro de álcool e de “vamos resolver isso rápido”.
Era o tipo de ambiente onde perguntas pessoais eram feitas com voz profissional e onde mentiras eram servidas com sorriso.
Perfeito.
No caminho, ela finalmente abriu o anexo.
O arquivo não tinha foto de início. Só texto. A primeira linha fez a nuca dela arrepiar por um motivo que ela não explicou.
Observações preliminares:
— Condicionamento físico acima do esperado sem histórico compatível.
— Índices clínicos fora do padrão populacional, porém “normais” em exames superficiais.
— Relatos indiretos de força/reação em situações cotidianas.
— Padrão de isolamento social e irritabilidade com “injustiça sistêmica”.
— Possível “efeito de encaixe” ao contato com gatilhos específicos.
Clarice releu a palavra: *encaixe*.
Era uma escolha estranha de termo, quase… íntima. Como se alguém tivesse escrito aquilo sabendo exatamente o que procurava, sem poder escrever o que realmente estava procurando.
Ela deslizou para baixo.
Havia uma linha em destaque, como se o autor não confiasse que ela fosse perceber a gravidade.
Prioridade: Alta.
Recomendação: Contato direto e avaliação clínica completa.
Nota: Não acionar protocolos de força. Evitar gatilhos públicos.
Clarice fechou o celular. A cidade passava pela janela do carro como um filme antigo. Gente atravessando a rua, vendedores, motos, ônibus. Tudo tão vivo, tão caótico, tão… humano.
Ela sempre sentia essa dualidade: uma parte dela amava a Cidade. Outra parte dela a observava como quem observa um experimento que pode dar errado a qualquer momento.
E naquele dia, especificamente, ela estava indo ver um homem que talvez fosse a diferença entre esses dois destinos.
A clínica tinha uma sala de espera pequena, cadeiras cinzas e plantas de plástico tentando parecer esperança.
A recepcionista sorriu:
— Dra. Clarice? O pessoal da empresa já mandou a lista. Antonio Nunes as 9:00, Lidiane Santos as 9:30 e Rafael Saldanha às dez.
Clarice assentiu, pegou a prancheta, ajeitou o jaleco.
O jaleco era uma ironia que ela apreciava em silêncio: um pedaço de tecido branco dando permissão social para tocar o corpo de alguém, fazer perguntas íntimas e parecer confiável.
Confiável era um disfarce poderoso.
Ela entrou na sala, organizou os instrumentos com movimentos metódicos, lavou as mãos, conferiu o estetoscópio, o oxímetro, o medidor de pressão. Tudo padrão, tudo banal.
Era nesse tipo de banalidade que as grandes coisas se escondiam.
Dez em ponto, bateram na porta.
— Pode entrar.
O homem entrou com a postura de quem não queria estar ali, mas sabia que precisava estar. Quarenta anos, talvez um pouco mais ou menos. Corpo firme, não de academia, mas de resistência. O tipo de físico que você ganha quando passa a vida carregando peso invisível.
Ele olhou para a sala, depois para ela, e por um instante Clarice percebeu algo que sempre a inquietava:
o olhar de quem se sente deslocado, mas não sabe o porquê.
— Bom dia — ele disse.
A voz era normal. O rosto era normal. O nome era normal.
Mas havia uma sensação sutil, difícil de explicar, como um campo elétrico quieto.
Clarice sorriu com a gentileza treinada.
— Bom dia, Rafael. Pode sentar, por favor. É só exame de rotina.
Ela observou como ele sentou. Sem pressa. Sem ansiedade. Mas havia tensão contida, como um animal domesticado pela obrigação de conviver.
Rafael olhou para ela de novo, rápido demais para ser só curiosidade.
Ela sabia o motivo, claro.
Uma médica do trabalho com vinte e poucos anos sempre chamava atenção. A juventude num lugar que costuma ser ocupado por gente mais velha dava a impressão errada: ou ela era um prodígio, ou era “colocada ali”.
Ela era as duas coisas, só que por motivos que ele não imaginava.
Clarice conferiu a ficha da empresa, como quem faz burocracia.
Cargo: Analista de Sistemas.
Ela quase sorriu por dentro.
Típico, pensou. Não pelo estereótipo barato, e sim pelo padrão: gente que vive olhando sistemas por dentro tende a perceber quando o mundo inteiro é um sistema defeituoso.
— Vamos começar com algumas perguntas — Clarice disse, pegando a ficha. — Coisas básicas. Qual sua idade?
— Quarenta.
Clarice anotou, olhando o papel, mas ouvindo o ritmo da resposta.
— Alguma doença crônica? Hipertensão? Diabetes?
— Não.
— Uso de medicação contínua?
— Não.
Ela levantou os olhos.
— Já quebrou algum osso?
Rafael piscou, como se a pergunta fosse inesperada.
— Não.
— Nunca? Nem braço, nem perna, nada? Queda de bicicleta, futebol, alguma coisa?
Ele deu um meio sorriso sem humor.
— Eu era meio… cuidadoso. Acho.
“Cuidadoso.” Clarice anotou como quem não dá importância, mas por dentro sentiu o encaixe de novo. Havia um padrão ali: gente como ela também era “cuidadosa” sem saber explicar. O mundo parecia mais frágil nas mãos.
— Internações?
— Não lembro de nenhuma.
— E doenças comuns? Gripe forte, pneumonia, essas coisas?
Rafael pensou por um instante.
— Eu fico resfriado às vezes. Mas… passa rápido.
Ela assentiu, como se fosse normal.
Por dentro, era mais um ponto no mapa.
Clarice pegou o termômetro, mediu temperatura, saturação, pressão. Tudo dentro de “normal”, o que por si só já era um tipo de resposta. O corpo dele obedecia o padrão como quem veste uma roupa.
— Vou auscultar, tá? — ela disse.
Aproximou-se, colocou o estetoscópio no peito dele.
O coração batia firme, regular. Não acelerava com a proximidade. Não reagia como reagia na maioria dos homens quando uma mulher jovem e bonita se inclinava sobre eles.
Rafael era contido. Ou treinado. Ou… simplesmente diferente.
Clarice passou o estetoscópio pelas costas dele, ouviu o ar entrar e sair com uma eficiência quase irritante.
— Respira fundo.
Ele respirou.
Ela observou o movimento do tórax, a postura, a forma como ele controlava o próprio corpo. E então, no meio da rotina, surgiu um desvio humano, pequeno e quase engraçado.
Rafael apontou com o queixo, um sorriso discreto aparecendo.
— Você… é mineira?
Clarice ergueu uma sobrancelha.
— Como assim?
— O jeito de falar. Parece… sotaque de Minas. — Ele deu de ombros, como se fosse só curiosidade. — Não é daqui de São Paulo.
Ela sentiu um calor leve no peito, uma lembrança sem fotografia: cozinha simples, pão de queijo, uma voz chamando “Claricinha” com carinho e paciência. Coisas que não constavam em relatório nenhum.
Ela sorriu, agora um pouco menos treinado.
— Sim Nasci no Interior de Minas. — E devolveu, com a mesma informalidade: — Mas você também não é daqui. Seu sotaque é… sul. Paraná?
Rafael soltou um riso curto, surpreso por ela ter tentado.
— Santa Catarina.
— Tá explicado. — Clarice fingiu seriedade profissional de novo, mas os olhos ainda estavam rindo. — Dois estrangeiros em São Paulo, então.
“Estrangeiros.” A palavra teve um gosto estranho na boca dela.
Rafael pareceu gostar do momento de normalidade. Como se, por um segundo, ele não fosse um prontuário. E ela, por um segundo, não fosse uma pergunta com jaleco.
Clarice voltou ao protocolo.
— Vou pedir pra você apertar minha mão um instante, só pra avaliar força, tá?
Ela estendeu a mão.
Quando ele tocou a mão dela, recuou quase imediatamente, como se tivesse sentido um choque.
Não foi choque elétrico.
Foi reconhecimento.
Clarice manteve o rosto neutro. Ela tinha praticado neutralidade como quem pratica idioma. Por dentro, uma parte dela quis sorrir. Outra parte dela quis correr.
Rafael pigarreou.
— Desculpa. Mão fria.
Ela forçou uma risada leve, humana, conveniente.
— Normal. Aqui o ar-condicionado não tem dó.
Mas ela sentiu. E, pelo microsegundo de reação dele, sabia que ele também sentiu.
Um tipo de “igualdade” que não dependia de palavras.
Clarice voltou para a ficha.
— Você sente dores frequentes? Coluna, articulações?
— Não.
— Cansaço excessivo?
Ele hesitou.
— Cansaço… sim. Mas não físico.
Clarice levantou os olhos devagar, como se fosse só empatia profissional.
— Mental?
Rafael respirou, um pouco mais fundo. O nó estava ali, escondido.
— Eu… não sei. Parece que o mundo tá sempre… errado. E eu tô sempre assistindo, quer dizer acho que isso é mais questão de psicólogo.. ou políticos.
Clarice segurou a caneta no ar por um segundo.
Ela conhecia essa frase sem conhecer. Já tinha pensado coisas parecidas quando adolescente, ouvindo os adultos conversarem sobre “o planeta que perdemos” e sobre “o que a Terra vai se tornar”.
— Procissa. Clarice incentivou ele.
Rafael continuou, como se tivesse aberto uma torneira pequena.
— Eu vejo notícia e dá um… negócio. Uma vontade de… sei lá. De fazer alguma coisa. Mas aí você olha em volta e parece que nada muda. Parece que tem gente que gosta que seja assim.
Clarice anotou uma frase genérica: *estresse, irritabilidade, sensação de impotência*. A linguagem humana para coisas que, nela, tinham outro nome.
Ela o observou em silêncio, e de repente entendeu o peso do relatório.
Não era só o corpo dele.
Era a mente.
A forma como ele descrevia “o mundo errado” não era dramatização. Era… instinto.
Clarice fechou a prancheta.
— Rafael, tudo aqui parece bem. Mas eu queria fazer um exame complementar… rotina mesmo. Um hemograma, uns marcadores inflamatórios. Você consegue colher agora?
Rafael arqueou uma sobrancelha.
— Exame complementar em rotina?
Ela deu de ombros com naturalidade.
— Às vezes a empresa pede. E eu gosto de ter um baseline.
Ele pareceu considerar se aquilo era só burocracia ou invasão. No fim, assentiu.
— Tá.
Clarice se levantou, abriu a porta e chamou a técnica. Enquanto isso, ela pegou o celular, só por um segundo, e abriu o anexo de novo.
Uma linha que ela tinha ignorado saltou agora como uma lâmina:
Se confirmado, evitar contato prolongado sem preparação emocional.
Clarice encarou aquela frase e quase riu.
“Preparação emocional.”
Como se ela tivesse esse luxo.
A técnica entrou, fez a coleta, Rafael agradeceu com educação. Ele era educado de um jeito cansado, como quem aprendeu que ser rude só dá mais trabalho.
Quando a porta fechou de novo e eles ficaram a sós, Clarice percebeu algo simples e perturbador:
Rafael não parecia doente.
Rafael parecia… incompleto.
Como se faltasse uma peça.
E Clarice, com vinte e três anos e um jaleco branco, tinha sido enviada para colocar a peça na mão dele.
Ela sorriu, cordial.
— Pronto. É isso. Em dois dias sai o resultado, eu te aviso pela empresa.
Rafael levantou.
— Obrigado, doutora.
Doutora.
A palavra soou engraçada nela. Pesada demais para alguém tão jovem. Pesada demais para alguém que carregava segredos que não cabiam em prontuários.
Rafael acredita que a consulta tinha acabado.
Mas quando ele colocou a mão na maçaneta, Clarice não se conteve completamente. Só o suficiente para não estourar o mundo ainda.
— Rafael?
Ele virou.
— Você… já teve a sensação de que nasceu no lugar errado?
A pergunta saiu com leveza, como curiosidade profissional. Mas os olhos dela estavam sérios. Muito sérios.
Rafael demorou um segundo para responder.
— Todo dia.
Clarice assentiu devagar, como se aquilo confirmasse mais do que qualquer exame.
— Entendi.
Ele abriu a porta e saiu.
Clarice ficou sozinha na sala, olhando para a prancheta como se ela pudesse responder alguma coisa.
O mundo humano do lado de fora continuava. Pacientes, papéis, vinheta de rádio, café ruim.
E, no meio de tudo, um homem chamado Rafael Saldanha caminhava por aí sem saber que, em algum canto do universo, existiam doze coisas adormecidas esperando por uma ordem que só ele podia dar.
Ela pegou o celular e, dessa vez, abriu um canal que não tinha ícone, não tinha nome, não tinha nada além de um espaço vazio que aceitava mensagens.
Digitou apenas:
Contato confirmado. Ele é como nós.
Antes de enviar, hesitou.
Porque “como nós” era uma frase grande demais para ser dita sem destruir alguma coisa.
Então ela apagou e reescreveu:
Ele encaixa.
Enviou.
E, pela primeira vez em muito tempo, Clarice sentiu algo que não era medo nem método.
Era expectativa.