O telefone pesava mais do que deveria.
Rafael ficou alguns segundos olhando para a tela antes de apertar o botão de ligar, como se a ligação fosse uma escotilha para fora daquele corredor branco, daquela mesa, daquela palavra que ainda ecoava dentro dele: Arcóforo.
O toque chamou duas vezes.
— Oi — Camila atendeu, voz seca, como se a palavra viesse com cobrança embutida.
— Oi. Sou eu — Rafael respondeu.
— Eu sei que é você, Rafael. O que foi?
Ele respirou, segurou a vontade de explicar demais. Explicar “demais” era um hábito de quem passava a vida tentando não ser mal interpretado.
— Eu queria falar com a Lia.
Houve um silêncio curto. Depois um som de algo sendo colocado sobre a mesa.
— Ela tá fazendo lição.
— Só um minuto.
Camila soltou um riso sem humor.
— Você some e agora quer “só um minuto”. Tá bom. Espera.
Rafael ouviu passos, um ruído de fundo, depois a voz da filha entrou no ouvido como água limpa.
— Pai!
O peito dele afrouxou numa medida pequena, mas real.
— Oi, minha pequena. Tudo bem?
— Tudo! Eu tirei dez na prova de português!
— Dez? — Rafael sorriu sem perceber. — Então eu tenho uma doutora em gramática na família.
Lia riu.
— E eu desenhei você e a mamãe.
Rafael sentiu a palavra “mamãe” beliscar por dentro. Mesmo assim, manteve a voz estável.
— Desenhou? Quero ver depois. Você guardou?
— Guardei. Vou te mostrar quando você vier.
— Tá combinado.
Um silêncio breve, e ele ouviu a respiração dela, aquele jeito de criança de ficar esperando mais alguma coisa.
— Pai?
— Oi.
— Você tá triste?
A pergunta veio reta, sem rodeio, como criança faz quando percebe rachaduras no adulto.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Tô… pensando muito. Mas tá tudo bem.
— Pensando em quê?
Ele procurou uma resposta que não fosse mentira e não fosse um terremoto.
— Pensando em como eu quero que seu futuro seja bom.
Lia respondeu com a simplicidade mais cruel do mundo:
— Então para de pensar e vem brincar comigo.
Rafael riu baixo.
— Eu vou. Prometo.
— Promete de verdade?
— De verdade.
Ele ouviu um beijo estalado no telefone.
— Tá. Tchau, pai.
— Tchau, minha vida.
O som mudou. A leveza saiu da linha. Camila voltou como se trouxesse de volta o peso da realidade junto com ela.
— Pronto. Já falou.
Rafael segurou o impulso de agradecer. Com Camila, gratidão parecia sempre virar “culpa”.
— Obrigado.
— Aham. — Ela fez uma pausa curta, e o tom dela mudou para aquele modo prático que sempre vinha depois do emocional. — Ah, e outra coisa. Recebi o e-mail da escola. A mensalidade vai aumentar de novo.
Rafael fechou a mão devagar.
— Aumentar quanto?
— Bastante, 30%. — Camila soltou um suspiro. — Rafael… você vai ter que rever o valor da pensão. Tá tudo caro. Eu não tô reclamando por reclamar, tá? Mas do jeito que tá… não dá.
Ele ouviu a irritação na voz dela e reconheceu o alvo errado. Camila não estava falando dele. Estava falando do mundo. Do mesmo mundo que apertava o nó no peito dele.
— Eu entendo — Rafael respondeu, contido.
Camila emendou, mais ácida, como se cuspisse o que vinha guardando:
— Esse governo quer escravizar a gente. Tudo aumenta, tudo vira imposto, tudo vira “taxa”, e a gente que se vire. Aí você liga do nada… eu fico até com medo de ser coisa ruim.
Rafael pensou: *é coisa ruim*. Só que “coisa ruim” não era aumento de mensalidade.
— Não é nada com a Lia — ele disse, e escolheu manter isso como única verdade completa da ligação. — Eu vou ver isso da pensão. Eu ajusto.
Camila silenciou. Depois soltou:
— Tá. Só… não some.
A ligação encerrou sem despedida bonita. Mas havia algo ali. Uma corda esticada. Um pedido torto de estabilidade.
Rafael abaixou o telefone devagar.
O corredor branco não parecia menos branco. A sala não parecia menos grande. O peso não parecia menor.
Mas o rosto da Lia, mesmo sem foto, tinha colocado um eixo dentro dele.
Ele se virou e encontrou Noah encostado numa parede, como se o rapaz tivesse surgido do nada, mas Rafael sabia que não era “do nada”. Noah era o tipo que ouvia onde ninguém queria ser ouvido.
— Família humana é barulhenta — Noah comentou, mãos nos bolsos. — Parece que tudo é decisão e cobrança ao mesmo tempo.
Rafael olhou para ele.
— E a sua?
Noah deu de ombros, mas o gesto foi duro.
— A minha é… estatística. — Ele encarou Rafael. — Você tem sorte. Sua filha tem você. Isso é raro.
Rafael não respondeu. Guardou a frase.
Clarice apareceu no corredor, sem jaleco, sem máscara social. Os olhos verdes dela estavam atentos. Não invasivos. Presentes.
— Conseguiu falar com ela? — Clarice perguntou.
— Consegui.
Clarice assentiu, e o silêncio dela foi o tipo de silêncio que não pressiona.
Noah apontou com a cabeça para dentro.
— Eles estão te esperando. Acham que você vai entrar em colapso. Ou pedir pra ir embora. Ou começar a gritar “cadê a câmera”.
Rafael olhou para a porta lisa.
— E você acha o quê?
Noah soltou um riso curto.
— Eu acho que você vai ser problema. Do tipo que muda o jogo.
Clarice encarou Rafael como se medisse uma coisa simples: ele estava de pé. Inteiro. Sem aquela tremedeira mental que muita gente teria ao descobrir que a própria origem era uma equação adulterada.
— Você tá bem? — ela perguntou.
Rafael respondeu sem dramatizar:
— Eu tô focado.
Clarice estreitou os olhos, tentando entender de onde vinha aquela firmeza repentina.
— Focado em quê?
Rafael levantou o celular uma última vez, encarou a tela apagada, e guardou no bolso como quem guarda uma arma.
— No futuro da minha filha.
Ele empurrou a porta e entrou.
A sala do Conselho estava no mesmo estado: mesa longa, luz uniforme, gente sentada como se a realidade deles dependesse de postura.
Domar foi o primeiro a falar, com o mesmo sorriso útil.
— Rafael. Esperávamos que precisasse de mais tempo.
Kael observou em silêncio, como guarda observa suspeito. Iara tinha o olhar de quem quer dados. Vexa tinha pressa no rosto.
Rafael sentou sem ser convidado.
Um detalhe pequeno, mas suficiente para mudar o ar.
— Eu precisei de cinco minutos — Rafael disse. — E uma ligação.
Vexa inclinou o corpo para frente.
— E… decidiu?
Rafael olhou para Vexa e respondeu com calma:
— Eu decidi que agora quem pergunta sou eu.
Houve um micro silêncio. Não cerimônia. Surpresa.
Domar manteve o sorriso, mas os olhos dele apertaram.
— Claro. Pergunte.
Rafael apoiou os antebraços na mesa, como se a mesa fosse um quadro branco invisível.
— Onde vocês estiveram nesses quarenta anos?
Kael respondeu antes que Domar controlasse a narrativa:
— Sobrevivendo.
Rafael manteve o olhar nele.
— Isso é verbo genérico.
Iara interveio, mais honesta:
— Nós nos espalhamos. Criamos redes. Construímos infraestrutura. Recursos. Rotas. Bases.
Rafael olhou em volta, apontando com o queixo, sem levantar a voz:
— Isso aqui não foi construído por estagiário. Isso aqui não é “sobrevivência”. Isso é poder.
Domar abriu as mãos, um gesto de diplomacia.
— Poder controlado.
Rafael inclinou a cabeça.
— Controlado por quem?
Domar sustentou o olhar.
— Até agora… por nós.
Noah soltou um som baixo no fundo, como se dissesse “é disso que eu falo”.
Rafael seguiu, sem se desviar:
— Vocês têm influência política?
Domar respondeu com elegância:
— Influência é inevitável quando você quer sobreviver num planeta governado por instituições.
— Militar? — Rafael emendou, olhando para Vexa.
Vexa não desviou.
— Treino, armas, contingência. Sim.
— Tecnológica? — Rafael olhou para Iara.
Iara assentiu, como se falar aquilo fosse óbvio e ao mesmo tempo perigoso.
— Nós aceleramos coisas. Direcionamos pesquisas. Às vezes evitamos que tecnologias caiam em mãos erradas cedo demais. Às vezes empurramos para frente quando precisávamos de um mundo com… capacidade mínima.
Rafael não deixou escapar.
— Vocês estão por trás de avanços dos últimos quarenta anos.
Iara não negou.
Kael falou com desprezo controlado, como se a palavra fosse feia na boca dele:
— Você acha que esses macacos… — ele parou, avaliou Rafael, mas a frase já tinha saído no olhar — esses humanos encolheram um computador para caber na palma da mão sozinhos?
Noah soltou uma risada seca.
— Aí. Começou o carinho.
Rafael ignorou o comentário e cravou o olhar em Kael.
— Então vocês tratam a humanidade como criança que precisa de babá.
Kael não recuou.
— Nós tratamos a humanidade como espécie instável com acesso a bombas e ego.
Rafael deixou a frase pairar. Depois puxou outro fio, mais profundo.
— E a tal da Auriga?
O ar mudou. Até Vexa prendeu o impulso.
Domar respondeu, com cuidado:
— Existe.
Rafael não aceitou “existem” como resposta.
— Onde? Quantas? O que fazem? Quem controla?
Iara respondeu parte, como quem não quer que o assunto vire explosivo por ignorância:
— Uma Unica. Escondidas em terras geladas. Colossal para os padrões humanos. Capazes de impor bloqueios, defesa total, e… cerco.
Rafael ouviu “cerco” e pensou na palavra “grades” que Kael usou antes. Pensou em campos. Pensou no mundo reagindo com medo.
Ele olhou para Clarice, que estava de pé perto da parede, mais perto dele do que dos outros. Clarice não disse nada, mas o olhar dela tinha um pedido: "não vira isso numa sentença agora".
Rafael voltou para Domar.
— Quem controla essa “nave”?
Domar olhou para a palavra que não estava escrita na mesa, mas estava ali:
— Um Arcóforo… em nível total.
Rafael assentiu, e o gesto dele parecia simples, mas tinha peso.
— Então vocês me trouxeram aqui porque eu sou a chave do cofre.
Vexa respondeu, sem rodeio:
— Nós te trouxemos porque precisamos de você.
Noah murmurou, baixo o suficiente para não virar briga:
— Precisam ou querem?
Rafael continuou, sem olhar para Noah:
— Vocês têm rede financeira?
Domar sorriu.
— Recursos. Fundos. Empresas. Operações.
Rafael fez a última pergunta como quem fecha um checklist:
— Vocês têm gente infiltrada em governos?
Domar manteve a voz neutra.
— Pessoas influentes. Sim.
Rafael encostou as costas na cadeira e deixou o silêncio trabalhar por alguns segundos. Ele percebeu uma coisa que ninguém ali tinha coragem de dizer alto:
Eles tinham vivido quarenta anos fingindo não ser império… e mesmo assim construíram um.
Ele inclinou o corpo para frente de novo, mais próximo da mesa.
— Então vamos alinhar uma coisa. — A voz dele não subiu, mas ficou mais firme. — Vocês me chamaram aqui achando que iam me conduzir. Eu não sou peça.
Kael estreitou os olhos.
— Você acabou de chegar.
— Eu acabei de descobrir — Rafael corrigiu. — Chegar é outra coisa.
Domar tentou recuperar o controle do tom.
— Rafael, nós só queremos…
Rafael cortou, sem agressividade, sem teatralidade:
— Eu sei o que vocês querem. Agora eu vou dizer o que eu quero.
O silêncio veio como pressão de água.
Rafael continuou, olhando de um para um:
— Eu vou ajudar. Sim. — Ele segurou um segundo, deixando claro que a palavra não era favor, era decisão. — Mas vai ser do meu jeito.
Vexa fez menção de falar, mas Clarice se mexeu, e o movimento dela foi pequeno e suficiente para Vexa não atropelar.
Rafael ficou alguns segundos quieto, encarando o holograma como quem tenta medir o peso de uma coisa sem ter unidade de medida pra isso.
— Antes de vocês continuarem… — ele disse, sem levantar a voz. — O que vocês pretendiam fazer com a Auriga?
Noah respondeu com a naturalidade desconfortável de quem repete uma doutrina antiga.
— Manter como garantia. Um último recurso.
Rafael inclinou a cabeça.
— Garantia de sobrevivência… ou garantia de poder?
Clarice entrou, cautelosa.
— De sobrevivência. A intenção sempre foi evitar interferência.
— Evitar interferência. — Rafael repetiu, e a frase saiu sem deboche, só como quem testa a solidez. — Então me explica por que vocês deixaram o Brasil, e o mundo virar essa… máquina de moer gente.
Kael mexeu o maxilar, prestes a responder algo mais ácido, mas se segurou.
Clarice respirou, didática:
— Porque mexer demais chama atenção. E atenção vira guerra.
Rafael apoiou os dedos na mesa.
— Eiran e descendentes também vivem aqui. Também são afetados. “Não interferir” não é neutralidade. É escolha. E vocês escolheram assistir.
Vexa estreitou os olhos.
— E você acha que consertar isso não vai chamar guerra?
— Vai chamar de qualquer jeito. — Rafael respondeu. — Só muda se a guerra vem porque a gente tentou reduzir dano… ou porque vocês preferiram fingir que não era com vocês.
Um silêncio curto. Denso.
Rafael continuou, direto:
— Eu não tô pedindo utopia. Eu tô pedindo o mínimo. Se vocês querem que eu coopere… vocês vão me ajudar a colocar isso nos eixos. Começando daqui.
Noah passou a mão no queixo, incomodado. E falou antes de pensar.
— A Auriga já é uma garantia. E… não é a única.
Rafael virou o rosto devagar.
— Como é?
Noah piscou uma vez. Tarde demais. A frase já tinha saído.
Clarice olhou para Noah, depois para Rafael, e fez um aceno pequeno, como quem decide não mentir mais por economia.
Rafael não elevou o tom.
— Não é a única o quê, Noah?
Noah soltou o ar, derrotado por um detalhe simples: Rafael tinha faro de analista e paciência de quem não sai de um assunto até fechar todas as abas.
— Existem… doze fortalezas orbitais. — ele disse, e a palavra “doze” pareceu bater na parede e voltar. — Estações colossais. Dormentes. Escondidas no cinturão de asteroides.
A sala ficou mais fria sem ninguém tocar no ar-condicionado.
Rafael sustentou o olhar.
— E quem comanda?
Noah engoliu seco.
— Só sangue real ativa. E… concede comando.
Rafael ficou um segundo em silêncio, como se uma peça enorme tivesse acabado de encaixar no lugar certo. A incredulidade dele não sumiu, mas ganhou forma.
Então ele levantou três dedos, enumerando com simplicidade:
— Primeiro, tentativas pelas sombras. Não pra dominar. Pra corrigir o que dá sem explodir o planeta.
Domar observou, calculando.
— Segundo — Rafael continuou — se sombras não bastarem, cooperação. Revelação seletiva, negociação, acordos. Do jeito menos burro possível.
Kael soltou um som de reprovação, mas ficou quieto.
Rafael ergueu o terceiro dedo, e a sala pareceu endurecer.
— Terceiro… se mesmo assim esse mundo continuar insistindo em se destruir… — ele olhou para a mesa inteira, e a frase saiu sem ameaça gratuita, só como lógica — tomada à força.
Noah descruzou os braços no fundo.
— Você tá falando de guerra.
Rafael olhou para ele, direto.
— Eu tô falando de sobrevivência. E de futuro.
Clarice encarou Rafael com uma mistura de alívio e inquietação, como se tivesse encontrado o líder que esperava… e ao mesmo tempo reconhecido o risco que isso trazia.
Domar se ajeitou na cadeira.
— Você está dando um ultimato.
Rafael negou com um gesto mínimo.
— Não. Eu estou desenhando o diagrama. O ultimato quem dá é o mundo, todos os dias, quando escolhe continuar errado.
Vexa, pela primeira vez, pareceu satisfeita. Não por paz. Por direção.
Kael parecia perigoso, mas contido.
Iara observava como se estivesse assistindo o surgimento de um novo protocolo.
Noah apenas encarava Rafael, como se tentasse decidir se ele era solução ou repetição.
Clarice deu um passo à frente, voz baixa:
— E você… aguenta o peso disso?
Rafael pensou na ligação. Na Lia comemorando nota. No aumento da mensalidade. No “não some” de Camila.
Ele respondeu sem frase pronta:
— Eu aguento porque eu não tenho opção.
Domar assentiu, finalmente sem sorriso.
— Então começamos.
Rafael olhou para a mesa, para o corredor branco que esperava do lado de fora, para o prédio que fingia ser prédio.
— Não — ele disse, e a palavra veio calma, mas mudou o ar. — Vocês começaram há quarenta anos.
Ele inclinou a cabeça.
— Agora eu quero ver o que vocês construíram.