O Supremo não caiu por argumento.
Caiu por temperatura.
A palavra “temperatura” era a forma educada que Domar usou no briefing, para não chamar de coação com todas as letras. Vexa não teve essa preocupação.
— Eles não mudam porque são convencidos — ela disse, batendo dois dedos na mesa. — Mudam porque descobrem que também sangram.
Kael ficou imóvel, olhar duro.
— Sangrar é fácil. O problema é o que vem depois.
Clarice encarou Vexa como quem segura o freio com o corpo inteiro.
— Você prometeu “controle”. Isso não pode virar caça.
Vexa ergueu o queixo.
— Caça é o que eles fazem com o país há décadas.
Rafael ouviu tudo com os olhos semicerrados, como se estivesse lendo um sistema e procurando o ponto exato onde ele quebrava. A muralha que o Plano A revelou não era técnica. Era institucional. A técnica tinha sido o refletor. O Supremo era o disjuntor.
Domar falou com calma de escritório, mas o conteúdo tinha dentes.
— A Legião do Retorno tem métodos. Nós, do Pacto do Véu, temos acesso. O Círculo do Exílio tem contenção. Você, Rafael… tem legitimidade interna. — Ele inclinou a cabeça. — A pergunta é se você autoriza o passo.
Rafael não respondeu rápido. Ele olhou para Clarice. Ela estava com o maxilar tenso, olhos verdes atentos, como se tentasse prever o que ele faria para conseguir o que queria.
— Eu autorizo pressão — Rafael disse. — Pressão cirúrgica. Sem espetáculo.
Noah, encostado no fundo, soltou um comentário baixo:
— Espetáculo é o combustível deles. Se vocês não fizerem, eles fazem.
Vexa sorriu sem humor.
— E eu sei fazer silêncio.
### O silêncio que derruba
As mudanças começaram como começam coisas grandes no Brasil: com notícia pequena e tom neutro.
Ministro X renuncia por motivos pessoais.”
“Ministra Y decide antecipar aposentadoria.”
“Outro integrante do tribunal pede afastamento para tratar de saúde.
As manchetes vinham limpas, quase higiênicas. Nenhuma menção a ameaça. Nenhuma prova. Nenhum grito.
Só uma sequência improvável.
Iara mostrava uma linha do tempo na tela interna.
— Três renúncias em doze dias — ela disse, sem emoção visível, mas com inquietação no olhar. — Isso estatisticamente não acontece por acaso.
Kael observava a reação do sistema.
— Eles vão interpretar como golpe — ele disse. — E quando interpretam como golpe, respondem como se fosse guerra.
Domar, sempre calibrado, tinha a voz que parecia não carregar culpa.
— Por isso a narrativa precisa ser limpa: “decisões pessoais”. Sem ponta solta.
Clarice não disse nada. Ela só olhou para Rafael, como se quisesse medir a distância entre “pressão cirúrgica” e “tornar-se aquilo que se combate”.
Rafael estava com a mente em duas camadas. Uma calculava. A outra lembrava: Lia falando “para de pensar e vem brincar”.
E, mesmo assim, ele escolheu pensar.
Porque o futuro da filha dele não cabia em brincadeira.
### O contra-golpe do sistema
A muralha cedeu, mas não desabou. Ela se reorganizou.
O sistema tinha um talento antigo: quando perde o jogo em uma frente, cria outra.
A primeira resposta veio como sempre: dúvida.
Não sobre os crimes. Sobre o método.
Na redação, Júlio Brandão assistia ao noticiário com a mesma expressão que teria diante de um truque barato. Só que aquilo não era barato.
Ele tinha visto muita operação cair por vazamento, por ego, por incompetência. Agora era diferente: era eficiente demais. E eficiência, no Brasil, sempre tinha dono.
Júlio puxou um caderno e escreveu uma pergunta simples:
**Quem está encurtando o caminho?**
Ele não tinha acesso ao software, mas tinha faro para padrões. E padrões eram mais honestos do que pessoas.
Renúncias em sequência. Operações rápidas. Provas amarradas demais. Juízes e delegados “acertando” com frequência incomum.
Júlio começou pelo que sempre entrega o resto: contratos.
Em poucos dias, ele encontrou um rastro de consultorias de TI, terceirizações, “melhorias de infraestrutura” assinadas por braços técnicos do Estado, em vários órgãos, com datas muito próximas. Algumas empresas eram novas demais. Outras tinham endereço que não batia. Algumas pareciam fantasma com CNPJ.
Ele não sabia o que era, mas sabia que era alguém.
E esse “alguém” tinha pressa.
### A guerra pela tela
Rafael percebeu a mudança antes mesmo de Domar falar.
No país, a opinião pública começou a oscilar. Não porque os crimes sumiram, mas porque o foco começou a ser sequestrado.
Uma grande emissora, a mais poderosa do país, passou a tratar as operações como “excesso”. A linguagem mudava: “perseguição”, “instabilidade”, “crise institucional”, “ameaça à democracia”. O escândalo deixava de ser o dinheiro roubado e virava o “método” de quem tentava rastrear o dinheiro.
Espantalhos.
Rafael assistiu a um painel de comentaristas, todos indignados com o vazio certo, e sentiu algo duro dentro do peito.
— Eles não estão defendendo pessoas — Rafael disse, baixo. — Estão defendendo a engrenagem.
Domar assentiu.
— A grande mídia é um braço do sistema quando o sistema precisa de fumaça.
Vexa ficou em pé, impaciente.
— Então derrubamos a emissora.
Clarice virou o rosto na hora.
— Não.
Vexa encarou Clarice.
— Você prefere deixar eles cegarem a população?
Clarice respondeu firme, sem elevar:
— Eu prefiro não virar censura.
Noah, do fundo, falou como quem joga uma pedra num lago:
— Vocês não precisam derrubar. Só precisam competir. O problema é que competir com o sistema usando o jogo do sistema… dá nisso.
Rafael ficou quieto por um instante. Depois levantou os olhos.
— A gente não vai derrubar emissora. A gente vai furar bolha.
Domar inclinou a cabeça.
— Como?
Rafael apontou para Iara.
— Vocês disseram que empurraram tecnologia e redes nos últimos quarenta anos.
Iara assentiu, cautelosa.
— Sim.
Rafael então apontou para Domar.
— E você disse que tem influência.
Domar não negou.
— Recursos. Pessoas. Portas.
Rafael apoiou as mãos na mesa.
— Então usa. Influenciadores, jornalistas independentes, canais alternativos, redes regionais. A gente mantém a pauta viva: trilha de dinheiro, quem soltou, por que soltou, o custo real disso.
Kael estreitou os olhos.
— Isso vira guerra informacional.
— Já é — Rafael respondeu. — A diferença é que agora alguém vai jogar sem fingir.
Clarice observou Rafael com atenção. Ele estava indo para frente sem se perder no delírio do poder. Isso importava para ela.
— Sem mentir — Clarice disse, encaixando uma condição. — Sem fabricar coisa.
Rafael assentiu.
— Sem mentir. Só… sem deixar o sistema escolher sozinho o que o país vê.
Vexa respirou fundo, como quem tolera diplomacia porque quer resultado.
— Finalmente.
### Uma rotina nova, um imprevisto velho
O “trabalho” de Rafael virou uma espécie de duplicidade.
Durante o dia, para o mundo, ele era o analista que “mudou de emprego”. À noite, e às vezes no meio do dia, ele era o Arcóforo em aprendizado, andando por corredores brancos, sentado em mesas que falavam baixo sobre coisas altas.
E então, numa manhã que parecia comum, o mundo puxou ele de volta pelo tornozelo.
Camila ligou cedo, voz cortante.
— Rafael. Deu problema.
— O que foi?
— Minha mãe tá passando mal. Eu preciso levar ela agora. Agora. Não dá pra deixar a Lia sozinha. Você consegue ficar com ela hoje?
Rafael olhou para o relógio. Olhou para a agenda interna. Olhou para a parede lisa.
— Consigo — ele disse.
Camila soltou um ar.
— Tá. Eu tô descendo com ela. Você busca a Lia e… por favor, Rafael. Sem inventar.
Ele engoliu um comentário e respondeu só com o necessário:
— Eu vou buscar. Cuida da sua mãe.
Minutos depois, Rafael estava com Lia no carro, uma lancheira no colo dela e uma lista infinita de perguntas no banco de trás.
— Pai, por que eu não fui pra escola?
— Porque hoje é dia de… missão especial.
— Missão! Tipo super-herói?
Rafael olhou pelo retrovisor.
— Tipo isso. Mas sem capa. Capa atrapalha.
Lia riu.
O “trabalho” dele não era lugar para criança. Só que agora era. E ele não tinha opção.
Ao entrar no prédio, Lia ficou olhando tudo com aquela curiosidade afiada de criança que não respeita segredo só porque adulto quer.
— Pai… aqui é onde você trabalha?
— É.
— Parece hospital.
Rafael pensou: "tem cheiro de hospital, mas cura não é o que fazem aqui."
Eles passaram por corredores brancos. Lia apertou a mão dele com força, não por medo, mas por empolgação. Criança adora lugar diferente.
Clarice apareceu no corredor como se já esperasse. Ela olhou para Rafael, depois para a menina, e o rosto dela mudou. Não virou “mãe”, não virou “titia”. Virou alguém tentando acertar o tom.
— Oi — Clarice disse, se agachando um pouco para ficar na altura de Lia. — Você deve ser a Lia.
Lia arregalou os olhos.
— Você é a doutora?
Clarice sorriu.
— Eu sou.
Lia apontou com o dedo, sem cerimônia.
— Você é muito bonita.
Rafael fechou os olhos por meio segundo. Clarice segurou o riso de um jeito quase elegante.
— Obrigada. E você também é.
— Eu sei — Lia respondeu, com certeza absoluta, e isso arrancou de Clarice uma risada que saiu sem filtro.
Rafael observou aquela interação com o corpo tenso e a cabeça anotando coisas sem querer. Clarice tinha uma habilidade rara: ela não tratava Lia como “risco”. Tratava como pessoa.
— Você trabalha com o meu pai? — Lia perguntou.
Clarice olhou para Rafael de canto, pedindo permissão com o olhar.
Rafael assentiu, pequeno.
— Eu trabalho — Clarice respondeu. — E eu ajudo ele a… organizar coisas.
— Ele organiza tudo — Lia disse, orgulhosa. — Até as meias.
Clarice olhou para Rafael como se dissesse “entendi”.
— Então ele é bom nisso.
Lia se virou para Rafael e cochichou alto, sem noção do volume:
— Pai, ela tá dando em cima de você?
Rafael engasgou com o ar.
Clarice ficou com os olhos bem abertos por um segundo. Depois segurou o riso de novo, mordendo a bochecha por dentro, como quem tenta manter postura.
— Lia!, onde você aprendeu isso? — Rafael disse, vermelho de um jeito que não combinava com o cargo que ele acabara de assumir diante do mundo.
Lia deu de ombros.
— A mamãe fala isso.
Clarice se levantou devagar, escolhendo uma saída limpa.
— Eu vou… pegar um chocolate quente pra você. Aqui tem.
Lia vibrou.
— Tem chocolate?!
Rafael olhou para Clarice, quase pedindo desculpa sem palavras.
Clarice só piscou, como quem diz “tá tudo sob controle”.
Mais tarde, Rafael levou Lia de volta para Camila, entregou a menina como quem devolve o próprio coração ao lugar certo.
Camila agradeceu com o olhar, sem dizer “obrigada” em voz alta. Era o jeito dela.
Rafael entrou no carro e, antes de dar partida, o telefone vibrou.
Camila.
Ele atendeu.
— Oi.
Camila falou com o mesmo tom de sempre, mas havia um corte de curiosidade ali.
— Quem era a doutora bonita que tava na sua sala?
Rafael fechou os olhos. A imagem de Lia apontando “você é muito bonita” passou como um flash.
— Camila…
— Rafael. — Ela enfatizou o nome dele. — Eu perguntei porque a Lia perguntou. E porque você não costuma ter “doutora bonita” em sala nenhuma.
Ele respirou.
— É uma colega de trabalho.
— Colega. — Camila repetiu a palavra como se testasse o gosto. — Tá.
Um silêncio. Depois ela soltou, mais baixo:
— Só… não complica as coisas pra Lia.
Rafael respondeu com firmeza contida:
— Eu não vou complicar nada com a Lia.
Camila respirou do outro lado.
— Tá. Então… boa noite.
A ligação encerrou.
Rafael ficou com o telefone na mão por alguns segundos, olhando para a tela apagada. O mundo dele tinha ganhado corredores brancos, conselhos subterrâneos, facções, pressão em ministros e guerra de narrativa.
E ainda assim, um dos momentos mais difíceis do dia tinha sido responder uma pergunta simples:
“Quem era a doutora bonita?”
Ele guardou o celular e dirigiu.
No fundo, Júlio Brandão continuava farejando. A emissora continuava construindo espantalhos. O Supremo tentava se reorganizar.
E Rafael tinha uma certeza prática:
Se o sistema queria guerra, ele ia escolher onde as batalhas aconteciam.