A guerra não tinha sirenes.
Tinha vinhetas.
Tinha cortes secos para comerciais, trilha de tensão, legendas escolhidas com malícia. Tinha “especialistas” que falavam como se fossem neutros e riam como se soubessem de algo que a plateia não sabia.
Meses se passaram assim.
O Brasil virou um ringue de narrativa, e a narrativa virou a arma principal.
A emissora maior do país seguia como se fosse um órgão do corpo do sistema, não um observador. Quando não atacava as operações com palavras limpas e indignação conveniente, trocava o assunto. Jogava novas pautas como cortina. A cada semana, um espantalho diferente para a população bater com prazer.
Enquanto isso, a vida insistia em existir.
Lia completou oito anos.
Rafael completou quarenta e um.
A comemoração foi simples. Bolo pequeno, vela que Lia soprou com a seriedade de quem faz pedido importante, e um abraço que apertou o peito de Rafael de um jeito que nenhuma reunião do Conselho conseguia apertar.
Depois do parabéns, Lia pediu o presente que não estava embrulhado:
— Pai, brinca comigo.
Ele brincou. Meia hora, mas brincou. E quando ela dormiu, ele voltou a ser o que tinha virado: um homem com uma chave no sangue e um país inteiro tentando cuspir essa chave para fora.
Na manhã seguinte, Rafael entrou na sala do Conselho com um olhar diferente. Não era raiva. Era decisão.
Clarice percebeu antes de todo mundo.
Domar estava sentado com o mesmo controle de sempre. Kael parecia pedra. Iara tinha gráficos. Vexa tinha pressa. Noah estava no fundo, braços cruzados, olhando o teto como se o teto fosse mais honesto do que gente.
Rafael falou sem introdução:
— Eu quero tirar a emissora do ar.
O silêncio veio rápido.
Clarice foi a primeira a reagir.
— Não.
A palavra saiu firme, cortante, mais rápida do que ela provavelmente queria.
Rafael olhou para ela.
— Clarice…
— Isso é censura — ela disse, sem abaixar o olhar. — Isso vira precedente. Isso vira você decidindo o que o país pode ou não pode ouvir.
Rafael não explodiu. Ele deixou a frase dela bater e voltou com calma.
— O que eles fazem é pior.
Domar inclinou a cabeça, interessado.
— Explique.
Rafael apontou para a tela com gravações de programas, recortes, editoriais.
— Não é opinião contrária. Não é divergência. Eles não estão “errados”. Eles são o próprio sistema falando com a boca de emissora. Eles escolhem o que some e o que vira incêndio. Eles criam espantalhos para o povo bater e esquecer da trilha de dinheiro.
Kael soltou um som curto.
— A emissora é infraestrutura de controle.
Clarice balançou a cabeça, tensa.
— Mesmo assim… desligar é perigoso. Você vai dar munição narrativa pra eles. Vai virar “golpe”, “ditadura”, “censura”.
Rafael encarou Clarice por um momento. O olhar dele não era de ataque. Era de quem respeita e discorda.
— Eu não tô tentando vencer debate, Clarice. Eu tô tentando impedir que o país seja hipnotizado.
Noah descruzou os braços, finalmente interessado.
— E como você pretende fazer isso? Na base do grito?
Rafael olhou para Noah.
— Dá pra tirar do ar com o que vocês têm aqui na Terra?
Noah soltou uma risada curta, quase ofendida pelo otimismo.
— Com o que temos feito aqui? Não. Você tá falando de derrubar a maior estrutura de transmissão do país. Isso exige camadas que a gente não instalou porque… bom… porque a gente não queria parecer dono do planeta.
Vexa abriu um sorriso pequeno.
— Eu queria.
Clarice lançou um olhar para Vexa que pedia “menos”.
Rafael não perdeu o fio.
— Então com o que vocês têm aqui não dá.
Noah assentiu.
— Não dá.
Rafael encostou as costas na cadeira, olhou para o teto por um segundo, e então voltou com a pergunta certa, a pergunta que mudou o ar:
— E com algo feito fora da Terra?
Noah sorriu. Não um sorriso bonito. Um sorriso de quem acabou de ver um atalho perigoso.
— Aí… é outra conversa.
Clarice apertou os lábios.
— Rafael, não…
Rafael levantou a mão, pedindo um segundo.
— Eu não tô dizendo “vamos dominar a mídia”. Eu tô dizendo “vamos desligar um braço do sistema” por um tempo suficiente pra quebrar o ciclo.
Domar observava como se enxergasse valor e risco na mesma moeda.
— Você está falando da Auriga.
Noah inclinou a cabeça.
— A Auriga tem sistemas que podem fazer isso parecer… acidente. Tempestade solar. Falha em satélite. Cascata de redundância. — Ele olhou para Rafael. — Mas pra encostar nesses sistemas… precisa de permissão.
Rafael prendeu o olhar nele.
— Essa permissão é abrangente ou específica?
Noah abriu as mãos, tranquilo demais.
— Pode ser específica. Você delimita o que eu posso usar e por quanto tempo. E delimita quem pode ativar de novo. Eu gosto de contratos.
Clarice olhou para Rafael como se quisesse segurar o pulso dele no ar.
— Isso vira uma linha difícil de apagar.
Rafael respondeu baixo, sem frase pronta, sem discurso.
— Eu já tô numa linha difícil desde que descobri que fui trocado numa maternidade.
A sala ficou quieta de um jeito diferente.
Domar então falou com voz de quem organiza logística.
— Para acessar a Auriga, precisamos ir ao sul.
Iara confirmou, projetando um mapa.
— Patagônia. Câmara subterrânea antiga. Clima hostil, pouca presença humana, isolamento natural.
Vexa assentiu.
— Segurança fácil.
Clarice suspirou, derrotada por necessidade, não por concordância.
— Eu vou junto.
Rafael virou para ela.
— Eu sei.
Noah ergueu uma sobrancelha, e a expressão dele dizia “interessante”.
### “Viagem a trabalho”
Camila não gostou.
Quando Rafael ligou, ela atendeu no segundo toque, como se já esperasse cobrança.
— Oi.
— Eu vou viajar no fim de semana. Trabalho.
— De novo? — a palavra veio afiada. — Você virou executivo agora?
Rafael manteve a voz calma.
— É necessário.
Camila soltou um ar pelo nariz.
— E eu fico com a Lia, óbvio.
— Sim. Eu só tô avisando.
Um silêncio.
Camila perguntou, do jeito que ela perguntava coisas que não queria parecer que importavam:
— A doutora bonita vai junto?
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Vai.
O silêncio ficou maior.
Quando Camila falou, foi com um tom estranho, misto de ironia e alerta.
— Uhum. Tá. Só… Rafael… não mistura as coisas.
Rafael respondeu firme:
— Eu não misturo a Lia com nada.
— Eu não falei da Lia. — Camila deixou a frase no ar como faca. — Eu falei de você.
Ele engoliu seco.
— Eu volto no domingo.
— Volta mesmo.
A ligação terminou.
Rafael guardou o celular e sentiu a pressão do mundo humano tentando puxar ele de volta para o chão. Só que agora o chão tinha portas escondidas.
### A câmara na Patagônia
O frio da Patagônia não era só temperatura. Era agressão silenciosa.
O vento parecia querer arrancar conversa da boca das pessoas. O céu tinha um cinza pesado. A paisagem era aberta demais, e tudo ali dava a sensação de que o planeta era maior do que qualquer plano humano.
Eles desceram em um ponto remoto, com veículos preparados e roupas para o frio. Clarice vestia um traje térmico escuro que, mesmo funcional, ficava elegante nela de um jeito irritante. O rosto dela parecia mais sério naquele ambiente, como se o frio exigisse verdade.
Noah estava animado de um jeito que parecia indecente para quem estava indo mexer numa arma colossal.
— Vocês vão ver — ele falava, praticamente pulando dentro do casaco. — Vocês acham que já viram tecnologia? A Auriga é… é outra escala.
Rafael observava, quieto. Ele deixava os outros falarem. Ele guardava energia.
A entrada da câmara subterrânea era discreta, escondida em rocha e gelo, com uma porta que parecia pedra até ser reconhecida por sensores invisíveis.
Quando a porta se abriu, o ar mudou. Cheiro de metal antigo, seco, preservado.
Eles desceram por um túnel longo até o chão virar hangar.
E então Rafael viu.
A Auriga não era uma “nave”. Era um continente de metal.

3.325 metros de comprimento. Começou Noah empolgado.
Um misto de encouraçado, porta-aviões e submarino, como se alguém tivesse juntado três monstros e dito “agora respira”.
O casco era majoritariamente negro, um negro que engolia luz. Nas laterais, detalhes vermelhos cortavam a superfície como veias. E uma linha dourada corria com precisão, marcando o que não era só nave: era trono. Era símbolo. Era comando.
Torres de armamento pontuavam a estrutura em múltiplos níveis. Lançadores, baterias, silhuetas que pareciam imóveis, mas não pareciam mortas.
Noah estava em êxtase.
— Olha isso! — ele apontava. — Ali são baterias de defesa de ponto. Ali… ali é uma matriz de canhões de arco. Aquilo é módulo de mísseis atmosféricos e orbitais. E aquelas entradas… são baias de drones. Tudo dormindo.
Rafael andou alguns passos sem falar.
Clarice também ficou em silêncio, e Rafael percebeu algo nela que não tinha visto antes: um olhar de reconhecimento quieto, como se parte dela também estivesse voltando para algum lugar, mesmo tendo nascido na Terra.
Noah percebeu o olhar dos dois e soltou uma indireta com um sorriso torto:
— Vocês fazem essa cara e eu fico achando que vocês vão se casar com a nave.
Clarice lançou um olhar gelado para Noah.
— Fala menos.
Noah riu.
Rafael olhou para a Auriga e perguntou, quase sem intenção de piada:
— As fortalezas orbitais são desse tamanho?
Noah soltou uma gargalhada, genuína.
— Desse tamanho? — Ele balançou a cabeça. — Cada fortaleza tem atracadouro pra vinte naus da classe Auriga. Isso só no primeiro nível.
Rafael franziu a testa.
— Primeiro nível.
Noah abriu um sorriso maior, adorando a própria frase:
— Doze níveis.
Clarice soltou um ar, como se tentasse imaginar e falhasse.
Rafael apenas absorveu. E anotou mentalmente.
### Dentro da Nau Trono
O interior da Auriga tinha o mesmo cheiro de metal limpo e ozônio discreto, só que mais antigo, mais profundo. Corredores largos, superfícies sem juntas aparentes, símbolos Eiran gravados em linhas que pareciam linguagem e circuito ao mesmo tempo.
Rafael sentiu uma pressão estranha no peito. Não dor. Algo que lembrava saudade sem lembrança. Ele olhou para Clarice e viu no rosto dela o mesmo tipo de silêncio.
Noah percebeu e falou baixo, sem sarcasmo dessa vez:
— Isso aqui… reconhece vocês.
Eles chegaram à sala de comando.
As luzes estavam apagadas. Monitores mortos. Painéis como olhos fechados.
No centro, uma esfera esbranquiçada flutuava a poucos centímetros de um pedestal. Não brilhava como lâmpada. Brilhava como algo que tinha vida própria, esperando.
Noah apontou, quase reverente:
— Núcleo de comando. A célula de energia de ativação. Você encosta a mão e delimita permissões. O que pode ser usado, por quanto tempo… e por quem.
Rafael olhou para Noah.
— Você vai conseguir fazer o que eu pedi sem ativar tudo?
Noah assentiu, sério agora.
— Se você delimitar específico, sim. Só o necessário.
Clarice falou baixo:
— Rafael…
Ele virou para ela.
— Eu sei.
Ela não pediu “não faça”. Ela só ficou ali, como se a presença dela fosse um lembrete de que decisões têm custo.
Rafael deu um passo à frente.
A esfera parecia puxar o olhar dele. Não hipnose. Familiaridade bruta.
Ele levantou a mão.
Antes de tocar, um nome apareceu na mente dele como se sempre tivesse estado guardado em algum canto que nunca foi usado.
Não era “Rafael”.
Era um nome com peso de origem, com som de casa antiga.
**Arctus Veltras Revam**
Ele respirou.
A mão dele encostou na esfera.
A superfície não era fria nem quente. Era… responsiva, como se reconhecesse a pele.
Rafael falou, e a voz dele saiu firme, como comando que não exige esforço:
— Eu, Arctus Veltras Revam, Arcóforo… autorizo o despertar da Nau Trono.
— Áuriga, obedeça. Respire.
Por um segundo, nada.
Depois a nave respondeu.
Luzes acenderam em cascata, como um amanhecer programado. Painéis se iluminaram com símbolos Eiran. Monitores abriram olhos. O ar vibrou com um som baixo, profundo, como um coração enorme ligando após décadas.
O chão tremeu de leve.
E Rafael sentiu.
Não uma sensação mística. Um encaixe total. Como se o mundo tivesse girado um dente e finalmente alinhado.
Noah olhou ao redor com os olhos brilhando, quase criança.
— Ela tá acordando.
Clarice respirou devagar, e o olhar verde dela ficou preso por um instante nos painéis iluminados, como se algo dentro dela dissesse “isso era pra ser meu também”, mesmo sem ter sido.
Rafael manteve a mão na esfera.
A Auriga não era mais metal dormindo.
A Auriga era um organismo.
A Auriga respirava.