O sinal caiu numa terça-feira sem poesia.
Não foi blackout da cidade. Não foi tempestade. Não foi “problema técnico” com cara de problema técnico. Foi mais limpo do que isso: a emissora simplesmente sumiu do ar, como se alguém tivesse puxado o tapete do satélite com pinça.
No lugar da programação, veio tela preta. Depois, uma mensagem genérica. Depois, nada.
Nos primeiros minutos, a reação foi riso.
Nos quinze minutos seguintes, virou irritação.
Em uma hora, virou teoria.
Em duas, virou pânico pequeno e difuso, aquela ansiedade coletiva de quem percebe que a janela principal foi fechada e não sabe onde olhar.
O país tentou mudar de canal, tentou streaming, tentou aplicativo, tentou antena. Descobriu que a estrutura inteira dependia de uma mesma espinha dorsal, e a espinha tinha sido interrompida.
Aí entrou o segundo movimento, planejado sem dar cara de plano.
Influenciadores começaram a ocupar o espaço com um volume incomum. Canais regionais, podcasters, páginas de notícia alternativa, jornalistas independentes, perfis grandes e pequenos, todos falando sobre o mesmo eixo: trilha de dinheiro, operações, solturas, o custo real.
Era como se, de repente, a pauta ficasse impossível de empurrar para o canto.
Não era unanimidade. Era massa crítica.
E massa crítica muda comportamento.
Em poucos dias, havia gente em bar, em fila de mercado, em ônibus, repetindo perguntas que antes eram tratadas como “chatice de político”:
— Quem soltou?
— Por quê soltou?
— Pra quem voltou o dinheiro?
— Quem votou?
— Quem lucra?
Rafael assistiu a isso de dentro do centro Eiran com uma sensação estranha: vitória, mas parcial. O país tinha acordado em um olho, mas ainda dormia no outro.
Noah parecia satisfeito, do tipo “eu disse”.
— Aí, ó. Quando a TV some, o povo descobre que tem cérebro. Incrível.
Clarice não sorriu.
Ela observava a tela de relatórios como quem espera a resposta do sistema.
— Eles não vão aceitar — ela disse.
Kael cruzou os braços.
— Eles já estão reagindo.
E estavam.
### O sistema se reorganiza
O Congresso e o Executivo fizeram o que sempre faziam quando a pressão popular ameaçava virar combustível perigoso: ofereceram alívio na superfície.
Medidas anunciadas com cara de salvação: redução de impostos em itens específicos, corte de benefícios “impopulares”, promessa de “enxugamento”, discurso de “responsabilidade”.
A grande política começou a parecer, por um instante, sensata. Como se alguém tivesse voltado para o mundo real.
Só que Rafael aprendeu a olhar o mundo real por baixo.
Iara trouxe um painel com atividade legislativa.
— Votaram três PLs na madrugada — ela disse. — Sem destaque em manchete. Sem debate. Sem tempo de reação.
Rafael inclinou a cabeça.
— O que passou?
Iara apontou.
— Liberação de orçamento paralelo, reconfiguração de emendas, criação de mecanismos de exceção. Volta do segredo com outra roupa.
Vexa soltou um som de desprezo.
— Eles são bons nisso.
Kael franziu a testa.
— E tem mais.
Iara abriu outro painel.
— Algumas empresas conectadas às nossas cadeias de fornecimento apareceram em investigações. “Beneficiárias” indiretas de esquemas.
Domar entrou na sala com um sorriso que não combinava com notícia ruim.
— Não temos envolvimento real — ele disse. — Mas estamos nos tornando peças de um tabuleiro que não montamos.
Rafael ficou quieto por alguns segundos, olhos fixos nos dados.
Era o tipo de golpe que ele reconhecia: se não dá para derrubar o inimigo, suja o chão em volta dele.
— Eles querem que a nossa presença pareça corrupção — Rafael disse, baixo. — Querem que a população associe “os que ajudaram” com “os que roubam”.
Noah ergueu uma sobrancelha.
— Vocês queriam mexer com o sistema. O sistema mexe de volta.
Clarice olhou para Rafael.
— A diferença é que, agora, a gente tem que provar que não está “comprando o Brasil”.
Rafael respirou e assentiu.
— E a gente vai.
Mas ele sabia que a prova não era só documento. Era narrativa. E narrativa era guerra.
### Café, sem jaleco
Rafael pediu para sair por algumas horas. Domar reclamou por protocolo. Kael colocou sombra de segurança sem chamar de segurança. Clarice insistiu em ir junto, e a insistência dela não era ordem. Era cuidado.
Eles escolheram um café pequeno, discreto, longe de olhares previsíveis. Nada de lugar “conceitual”, nada de vitrine. Um lugar com cheiro de pão e silêncio de gente trabalhando.
Clarice não estava de jaleco. Ainda assim, a presença dela tinha aquele aspecto de alguém que mantém o mundo organizado ao redor, mesmo quando o mundo tenta desorganizar.
Rafael mexeu no café e falou sem rodeio:
— Por que vocês não me ameaçaram?
Clarice ergueu os olhos.
— Como assim?
— Vocês têm gente, recurso, influência, arma. Têm uma facção militarista com gosto por força. — Ele olhou para ela. — Se o que vocês queriam era a Auriga… por que não me colocaram numa sala e disseram “ou ativa ou morre”?
Clarice não ficou ofendida. Ela ficou séria.
— Porque isso não funciona.
Rafael franziu a testa.
— Funciona com humanos.
— Você não é humano — Clarice respondeu, e a frase veio como lembrete, não como agressão.
Ela respirou e falou com cuidado, como se estivesse entrando num assunto que ela só ouviu em histórias e, ainda assim, respeitava.
— O Arcóforo sente intenção.
Rafael ficou imóvel.
Clarice continuou:
— O ato de ativação não é só contato físico com uma célula de comando. A célula “lê” a intenção do comando. Se a intenção vem contaminada por medo, coerção, humilhação… ela simplesmente não encaixa.
Rafael estreitou os olhos.
— A Auriga ignora.
Clarice assentiu.
— Ignora. E não só ela. Muitos sistemas reais. É como se a linhagem tivesse uma trava interna: “não obedeça sob ameaça”. — Ela sorriu de leve, sem alegria. — Até alguém com sangue real, se estiver sob coação, é… rejeitado.
Rafael ficou alguns segundos olhando para a superfície do café, como se estivesse vendo uma equação antiga se montar sozinha.
— Então vocês precisavam me convencer.
— Precisávamos — Clarice confirmou. — Por isso eu fui enviada. Por isso nós fomos devagar. Por isso, mesmo quando Vexa queria te empurrar… ninguém fez.
Rafael observou Clarice, e algo na forma como ela falava não parecia “protocolo”. Parecia verdade pessoal.
— Você não gosta desse método — ele disse.
Clarice não negou.
— Eu acho que intervenção é necessária. Eu não acho que virar império resolve. Tem diferença.
Rafael assentiu devagar.
— E qual é a diferença?
Clarice olhou para ele com firmeza.
— A diferença é se você consegue dormir depois.
O silêncio entre os dois ficou confortável por alguns segundos. Um silêncio de gente que está perto demais do centro de algo grande para ficar conversando sobre clima.
Rafael sorriu pequeno.
— Você dorme?
Clarice respondeu sem brincadeira pronta:
— Eu tento.
Ele observou o rosto dela, os olhos verdes, o jeito como ela segurava a xícara, e pensou na Lia. Pensou no mundo que Lia ia herdar. Pensou que ele precisava de pessoas ao redor que não tivessem prazer no controle.
Clarice era uma dessas pessoas.
### O envelope de Júlio Brandão
Júlio Brandão recebeu o envelope numa sexta-feira, no fim da tarde, quando a redação já tinha cheiro de pressa indo embora.
O envelope não tinha remetente. Só o nome dele, escrito com letra que parecia cuidadosa demais para ser raiva.
Ele abriu com a caneta, do jeito que repórter velho abre coisa perigosa: sem teatralidade, mas com respeito.
Dentro havia:
* Documentos recentes de contratos, aditivos, empresas “intermediárias”.
* Registros antigos, alguns digitalizados, outros fotografados.
* Mapas de relações societárias com nomes repetidos em lugares improváveis.
* Uma linha do tempo com buracos. Buracos grandes demais.
O detalhe que mais incomodou Júlio foi uma seção específica:
**Registros anteriores a 40 anos:** *escassos e confusos.*
Não era “não existem”. Era “existem, mas parecem propositalmente embolados”. Nomes que mudavam grafia. Endereços que não batiam. Sócios que surgiam e desapareciam. Empresas que pareciam ter atravessado décadas como fantasmas.
No meio das folhas, uma anotação impressa, simples:
**“Procure o ponto de origem.”**
E outro papel, separado, com um endereço:
**Consultório da Dra. Clarice Azevedo**
*(Medicina do Trabalho)*
Abaixo, uma frase curta, quase debochada:
**“Uma consulta com a jovem médica pode ser interessante.”**
Júlio encostou na cadeira e olhou para o teto da redação, como se o teto pudesse confirmar se aquilo era armadilha ou presente.
Ele não era ingênuo. Sabia que alguém estava empurrando ele para uma porta.
Mas também sabia que portas assim só aparecem quando existe algo atrás delas.
Ele pegou o celular, digitou o endereço no mapa e olhou o horário de funcionamento.
Depois fechou o envelope, colocou tudo numa pasta, e guardou com o cuidado de quem guarda um fósforo num depósito de gasolina.
Do lado de fora, a cidade seguia.
Do lado de dentro, o rastro começava a ter cheiro de coisa antiga demais para ser só corrupção.
Cheiro de origem.