Um homem flutuava completamente nu a centenas de metros de altura.
Este era Daniel.
Ao observar os arredores, sua expressão era de genuína surpresa.
Fazia décadas que não vislumbrava o verde vibrante de uma floresta; aquela visão fazia seus olhos brilharem com uma intensidade esquecida.
Em sua época original, a natureza era uma lembrança distante; o mundo havia se tornado um amálgama de deserto e destruição.
Presenciar o mundo de Azure pulsando vida acendeu uma chama em seu interior.
Desta vez, ele tinha uma certeza inabalável: protegeria tudo o que lhe era precioso.
“Lucas mencionou-me algo sobre este período do passado em que me encontro...?”, refletiu Daniel, apoiando o queixo na mão.
Tentava antever qual seria a surpresa preparada pelo rapaz.
Apesar de aparentar ser um velho de noventa anos, sua idade biológica era muito maior.
Daniel havia passado muitas décadas treinando em matrizes e zonas temporais.
Foi essa perseverança que o levou a ultrapassar o Pico Supremo das Artes Marciais.
Alcançou o Reino Meio Transcendente, e sua expectativa de vida era um milênio; com seu Rank SS, acrescentaria mais trezentos anos.
Estava acostumado com seu eu desgastado e cheio de cicatrizes; contudo, ao olhar para as próprias mãos e para os braços definidos, notou algo profundamente diferente.
Sua aparência era a de um jovem de vinte anos, mas com mudanças que desafiavam sua herança genética original.
Agora, possuía 1,85 m de altura, e cada cicatriz de batalha, cada marca de fadiga e todas as imperfeições da pele haviam sido varridas.
O rosto exibia traços esculpidos com uma simetria sobrenatural, conferindo-lhe uma beleza que transcendia os padrões humanos.
Entretanto, não era uma beleza comum; havia um ar de mistério denso em seu olhar, uma profundidade que parecia esconder séculos de sabedoria e dor por trás da face juvenil.
Usando seu sentido espiritual, compreendeu que aquela metamorfose era o subproduto de um físico especial.
Seus olhos se arregalaram levemente ao perceber que se tratava do Físico Marcial Caótico, algo que apenas o Demônio Celestial — governante de Murim — havia possuído.
Ao sentir o poder dessa linhagem divina pulsar em suas veias, um peso esmagador abateu-se sobre seu coração.
Entre os poucos registros existentes, aquele físico era classificado entre os três caminhos marciais mais elevados já conhecidos.
Ele o conhecia bem — graças ao que Linia fizera ao culto do Demônio Celestial, o que lhe permitira acessar inúmeros mistérios.
Nos registros estavam descritas as singularidades daquele poder, capazes de surpreendê-lo até mesmo naquela época.
Uma de suas principais características era a coloração da energia — um azul profundo como o oceano, entrecortado por linhas escuras.
Para qualquer artista marcial, possuir algo assim era equivalente a um “passeio no parque”.
Uma luta entre um praticante de terceira classe com um físico marcial contra alguém comum da primeira classe seria como um “cachorro de rua vencendo um tigre de bengala”.
E, nesse caso, o cachorro de rua seria o de terceira classe.
Ainda assim, sabia que aquele despertar fora fruto de um sacrifício proibido.
O preço pago fora a vitalidade e o poder de seus próprios discípulos — todos no Rank S e no auge do Reino Marcial.
O triunfo de sua nova força era manchado pelo pesar de saber que seus pupilos se doaram por completo para que ele pudesse transcender.
Permaneceu em silêncio, direcionando o foco. A dor persistia, mas teria que aprender a conviver com ela.
Decidiu, então, organizar seus pensamentos.
“Pelo que lembro, o primeiro portal apareceu na China em 1998, seguido por outros. Depois vieram Rússia, EUA e Coreia do Sul, em 2000.”
Recordava-se bem disso.
Os arquivos e documentos que encontrou ao eliminar os traidores de Azure detalhavam claramente esses eventos.
A descoberta de que a própria liderança humana fora responsável pela queda da civilização ainda lhe causava uma irritação profunda.
Quanto à sua verdadeira idade… era incerta.
Novecentos anos, talvez mil?
Nem ele sabia ao certo; parou de contar as primaveras ao atingir quatrocentos e cinco.
Sempre se privara de tudo para se preparar contra os inimigos insondáveis que emergiam das fendas dimensionais.
Além de atuar como escudo da humanidade, carregava o fardo de cuidar de inúmeras crianças.
Sua rotina era tão esmagadora que até mesmo pequenas pausas se tornavam luxos raros.
Frequentemente, utilizava sua própria energia para evitar interrupções desnecessárias, mantendo-se constantemente ativo; relaxar era um conceito que jamais pôde se permitir por completo.
Ainda assim, sempre que possível, valorizava pequenos momentos — como um simples banho —, lembranças sutis de que ainda era humano.
Um sorriso discreto surgiu em seu rosto, acompanhado por uma pontada de solidão.
O silêncio era estranho; ele estava acostumado ao caos constante que o rodeava.
As brigas incessantes entre os dois irmãos… os planos sempre suspeitos de Linia e Lúcia… os duelos intermináveis entre Lucky e Sebastiã.
Romeu e Jack tentando espiar as garotas, como sempre — e Sindy, manipulando rapazes incautos com um simples sorriso.
“Hum… sobre esses dois, eu devia ter dado mais algumas surras neles…”
Um leve suspiro escapou.
“Um homem de verdade deve manter a própria integridade… não ficar espiando o que não se pode ter.”
Daniel percebeu que estava sendo observado desde o primeiro instante.
“A tecnologia é tão precária... será que estou nos anos noventa?”, questionou-se.
Mesmo assim, estava satisfeito por atrair seus “patrocinadores”, apesar do incômodo de estar nu.
Como alguém com uma mentalidade forjada ao longo de séculos, sua maturidade superava o embaraço — embora sua vaidade ainda preferisse um terno bem cortado.
“Um terno preto seria muito mais digno... infelizmente, o meu foi pulverizado”, pensou com leve pesar.
Sua antiga vestimenta de batalha fora uma obra-prima, confeccionada pelo melhor alfaiate do Império Eragon — um reino místico, situado em uma dimensão paralela, conhecido por fundir alta tecnologia com a forja de almas.
O traje era imbuído de runas de proteção Rank SSS.
Na época, devido aos recursos limitados, só pôde produzir dez unidades — e seus discípulos, aquela gangue de delinquentes, trataram de “herdar” a maioria.
“Sim, é natural que os discípulos superem o mestre em certas áreas... mesmo que seja na arte de explorar um velho indefeso”, refletiu, com um sorriso irônico.
No fim, o único que lhe restara fora destruído na batalha contra os dragões, e seus últimos fragmentos se perderam na travessia da fenda temporal.
— Haa... aqui estou eu, sorrindo para o passado… ou seria o futuro? Não importa. São memórias que valem a pena, mesmo que eu seja o único a carregá-las.
Murmurou suas palavras ao vazio, mas o brilho em seus olhos revelava algo além da nostalgia.
Desta vez… seria diferente.
Seus olhos se voltaram para o horizonte distante.
E, em silêncio, tomou uma decisão.
O jogo não estava apenas começando.
Ele já conhecia o final.