ATO 1 — A INÉRCIA DOS ESQUECIDOS
Eles não estavam fugindo de nada, nem buscavam um destino que justificasse a pressa.
Era apenas a economia cruel do cansaço; o caminho mais curto entre a exaustão e o repouso.
A rua lateral serpenteava por trás do bloco de oficinas da Academia, um trecho onde os postes de luz pareciam hesitar antes de despertar e o asfalto exibia as cicatrizes de manutenções negligenciadas.
Não era uma via proibida; era simplesmente uma zona morta na memória da cidade.
— Se cortarmos por aqui, matamos dez minutos e pegamos o ônibus antes do nó no trânsito — Lukas disse, ajustando as alças da mochila com um nervosismo latente.
— Se eu me atrasar de novo, meu pai vai achar que eu estava inventando desculpas sobre o que aconteceu ontem.
— Drama — Lyra respondeu, embora seus olhos estivessem atentos a cada beco.
— Você chega tarde todo dia, Lukas.
— Exato. Mas hoje eu tenho uma desculpa real, e é exatamente por isso que ele não vai acreditar.
Eles avançaram.
O rugido da avenida principal foi engolido pela arquitetura rápido demais, substituído por um silêncio abafado, como se o bairro estivesse envolto em camadas espessas de algodão.
O som de um carro passando na avenida chegou atrasado.
Não fraco — atrasado.
Como se tivesse atravessado água antes de alcançar os ouvidos deles.
Kael sentiu primeiro.
Não foi uma dor física, foi um "atraso" na realidade.
Seu passo demorou meio segundo a mais para encontrar o chão, como se a gravidade estivesse testando sua consistência.
O Vento em seu interior puxou… e soltou. Puxou de novo.
Fraco, confuso, errático.
Kael diminuiu o ritmo.
Os outros o seguiram, não por comando, mas porque o corpo humano sabe quando a atmosfera muda antes que a mente processe o perigo.
— Tá quente aqui — Dante comentou, limpando o suor da testa.
— Estranho. Não estava esse calor dois quarteirões atrás.
Nami parou, os olhos fixos na garrafa em sua mão.
A água no interior ondulava em padrões geométricos anormais, vibrando em uma frequência que não vinha de seus passos.
— Não é calor, Dante — ela corrigiu, a voz baixa e cortante.
— É pressão. O ar está ficando denso demais.
Lukas soltou um riso seco, quase um engasgo.
— Pressão psicológica pós-prova? Porque se for, eu quero dar meia-volta agora.
Kael não respondeu.
Um estalo seco ecoou à esquerda.
A lâmpada do poste mais próximo apagou.
A rua ficou um tom mais escura.
Definitivamente.
O celular vibrou no bolso como algo que não deveria funcionar ali. Ele parou.
ATO 2 — O CONFLITO NA PENUMBRA
A tela de Kael acendeu, uma lanterna solitária no crepúsculo da rua.
Pai. "Você volta a pé hoje ou vai querer carona?"
A pergunta era de uma normalidade excruciante.
Carregava a certeza cotidiana de que o mundo ainda girava em seu eixo correto.
Outra vibração. Uma chamada. O toque ecoou contra os muros descascados, alto demais, invasivo demais.
— Atende, Kael! — Lukas sibilou, a voz subindo um tom.
— Se ele estiver perto, ele nos tira daqui. Eu não gosto desse silêncio.
Kael encarou o nome na tela.
Ele sentia o Vento em seu peito se contorcer, um aviso mudo de que a voz de seu pai não pertencia àquele lugar.
Ele recusou a chamada e guardou o aparelho.
— Depois eu respondo — disse ele, a voz gélida.
— Depois? — Lukas parou, plantando os pés no asfalto.
— Cara, olha em volta. O rádio daquela casa parou. O cachorro daquele cara tá ganindo em vez de latir. Vamos voltar para a avenida. Agora!
— Voltar vai levar o dobro do tempo — rebateu Dante, embora sua postura estivesse tensa.
— Se tem algo errado aqui, o melhor é atravessar rápido.
— Ou não entrar no buraco! — Lukas retrucou, olhando para Aiden em busca de apoio.
Aiden não teve tempo de responder.
Seu próprio celular tocou.
Ele atendeu, afastando-se, mas a voz do pai era tão alta que todos puderam ouvir o rastro de pânico.
— Onde você está, Aiden? Já era para estar em casa! Essa cidade... as notícias... saiam da rua!
— Estamos voltando, pai — Aiden mentiu, sua mão apertando o telefone até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Estamos quase na avenida.
Ele desligou e encarou o grupo.
O conflito estava desenhado nos rostos: Lukas queria fugir; Dante queria correr para frente; Maira e Nami trocavam olhares de quem esperava o primeiro sinal de combate.
— Ele está apavorado — Aiden murmurou.
— Alguma coisa está acontecendo lá fora, ou a gente está no epicentro de algo que eles ainda não viram.
— Por isso mesmo! — Lukas insistiu, dando um passo para trás.
— Vamos dar a volta!
Kael olhou para o final da rua.
O Vento puxava. Não era indecisão. Era uma direção inevitável.
ATO 3 — A ESCOLHA QUE NÃO É HEROICA
— Se a gente virar agora — Kael disse, sua voz cortando a discussão — alguém que não pode se defender vai passar por aqui depois.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Lukas balançou a cabeça, os olhos marejados de puro instinto de preservação.
— E daí? Não somos heróis, Kael! Somos jogadores de futebol! Isso não é problema nosso!
Kael o encarou.
Não com julgamento, mas com uma clareza assustadora.
— Desde ontem, Lukas... tudo é problema nosso.
O Vento deu um solavanco violento.
Maira deu um passo à frente, ajustando a alça da mochila como se fosse uma armadura.
— Eu fico — ela sentenciou.
— Se essa rua está "quebrada", atravessamos juntos. Ninguém fica para trás, mas ninguém volta para o escuro.
Lyra já tinha começado a caminhar, sua sombra se alongando de forma estranha no asfalto.
— Então andem — ela disse por cima do ombro.
— Antes que o medo de vocês crie pernas e nos morda.
Eles avançaram como um grupo fragmentado.
No meio da quadra, um caminhão estacionado tentou dar partida.
O motor tossiu um som metálico e agudo, como um grito, e morreu. O motorista desceu, esmurrando o capô em um transe de fúria desproporcional.
Uma luz de poste estourou em uma chuva de faíscas.
O Vento puxou Kael com força total.
O atraso acumulado da realidade estava prestes a ser cobrado.
ATO 4 — O SELO DE SANGUE E ESTÁTICA
O celular de Lyra não vibrou. Ele emitiu um som agudo, uma frequência que fez os dentes de todos doerem.
Ela atendeu imediatamente.
Não houve chiado.
Houve o som de algo sendo triturado do outro lado da linha, seguido por uma voz que não parecia humana, embora usasse as palavras corretas.
Era uma voz vinda de um abismo de estática.
— Vocês cruzaram o horizonte de eventos — a voz disse, fria e absoluta.
— Lyra, escute bem. O que está à sua frente não é mais uma rua. É uma dobra. Se vocês continuarem, o mundo comum não poderá mais alcançá-los.
Lyra sentiu o sangue esfriar.
— Como a gente sai?
— Vocês não saem — a voz sibilou, e Lyra pôde jurar que ouviu algo rastejando no áudio.
— Vocês sobrevivem. O que foi despertado em Kael atraiu algo que estava faminto. Corram. Se o som da cidade sumir completamente... vocês já estarão mortos.
A ligação caiu com um estalo que soou como um osso quebrando.
Lyra guardou o celular, o rosto pálido como mármore.
— O que disseram? — Aiden perguntou, já sentindo a eletricidade estática arrepiar os pelos de seus braços.
— Corram — Lyra sussurrou. — Agora!
ATO 5 — A RUA QUE ENGOLIU O MUNDO
O aviso foi o gatilho.
A rua descia levemente, e o ar lá embaixo estava tão denso que parecia líquido.
O som da avenida principal desapareceu por completo.
Não era apenas silêncio; era a ausência total de existência auditiva.
Ao fundo, o prédio de oficinas soltou um estalo ensurdecedor.
O metal das vigas começou a ceder, retorcendo-se como se mãos invisíveis e gigantescas estivessem brincando com o aço.
Vidros estouraram para dentro, transformando-se em poeira brilhante.
— O chão! — Nami gritou.
O asfalto começou a ondular.
As rachaduras antigas se abriram, revelando um abismo de escuridão pulsante que exalava um cheiro de ozônio e morte.
Lukas tropeçou, o pânico paralisando seus pulmões.
Dante o agarrou pelo colarinho, arrastando-o enquanto uma das placas de concreto se erguia, bloqueando o caminho de volta.
O Vento puxou Kael com uma urgência ensurdecedora.
Ele viu a realidade se desintegrar à sua frente.
As cores da rua estavam sendo sugadas, deixando apenas tons de cinza e o brilho doentio da energia elemental que começava a vazar de Aiden.
A rua à frente não levava mais para a casa deles.
Levava para um vácuo onde o tempo não fazia sentido.
— Não parem! — Kael gritou, sua voz sendo a única coisa que ainda cortava a densidade do ar.
Atrás deles, a entrada da rua simplesmente sumiu, substituída por uma névoa negra que avançava como uma parede sólida.
Eles estavam presos no "Caminho Errado", e o mundo, lá fora, ainda achava que dava tempo de salvá-los.