ATO 1 — O VÁCUO E O VENTO INSUBORDINADO
O gelo não se partiu; ele abdicou de sua forma.
Não houve o estrépito de estilhaços ou a visão de fissuras geométricas.
Por um milésimo de segundo, a matéria perdeu sua densidade, como se a própria realidade tivesse esquecido a razão de ser sólida.
No epicentro dessa falha existencial, o sorriso de Klyrion era a única coisa que preservava sua nitidez.
Então, o mundo colapsou.
Klyrion permanecia estático, uma figura de porcelana e desprezo, senhor de um tempo que parecia correr apenas para ele.
O primeiro sinal do desastre não foi tátil, mas auditivo: um silêncio anacrônico.
O eco do domínio glacial de Aiden ainda vibrava na atmosfera, mas não como frio; era uma síncope, um ritmo imposto com pressa demais sobre uma melodia que já se perdera.
Kael sentiu a dissonância antes de tentar o primeiro passo.
O Vento, que até então o servia com a obediência de um súdito, agora se movia em um compasso estrangeiro.
Ele tentou um arranque lateral, buscando o flanco do inimigo, mas a natureza lhe deu as costas.
Não foi um erro de cálculo; foi uma traição deliberada.
O ar se esquivou de seus pulmões e de seus pés, e Kael compreendeu, com um arrepio, que aquela recusa era pessoal.
O impacto contra o carro estacionado foi seco.
O metal do capô cedeu sob suas costas com um gemido de agonia estrutural, expulsando todo o ar de seu peito.
— Droga... — rosnou ele, enquanto a energia ao redor girava de forma errática, irritada, como um enxame sem rainha.
— Kael! — O grito de Lyra veio acompanhado por um tremor.
Sob seus pés, o solo pulsava em agonia.
Acima, o Véu ondulava, tenso ao limite, incapaz de mascarar a escala daquela ruptura.
Prédios soltavam suas peles de vidro, o asfalto abria feridas expostas e o fogo começava a lamber os destroços.
A destruição era pública; a causa, um mistério invisível para os olhos profanos.
Klyrion não era um guerreiro de fúria, mas de precisão.
Seu tridente desceu em um arco cirúrgico, cortando o vácuo onde Kael deveria estar.
Quando o herdeiro do vento tentou recuar para a esquerda, a atmosfera agiu como uma mão invisível, empurrando-o para a direita, entregando-o diretamente à lâmina do carrasco.
Aiden sentiu a urgência queimar antes mesmo do pensamento se formar.
Não houve o luxo da concentração.
Ele ergueu a mão e o gelo brotou em placas brutas, irregulares e desesperadas, interceptando o tridente a milímetros do rosto de Kael.
O choque não produziu um som de batalha, mas o lamento de um sino rachado.
Kael foi projetado contra um muro, enquanto a barreira de Aiden rangia, lutando para não se desintegrar sob o peso da vontade de Klyrion.
O vilão, entretanto, não buscou o golpe de misericórdia.
Ele golpeou o próprio espaço.
Uma onda de choque invisível varreu a avenida; o asfalto foi arado como terra macia, vitrines implodiram e um veículo foi arremessado ladeira abaixo, transformado em uma carruagem de morte em rotação descontrolada.
— CUIDADO! — O aviso de Ryu foi um grito de pânico.
Ele tentou avançar para interceptar a trajetória, mas o concreto sob seus pés tornou-se fluido, fazendo-o tombar.
O carro vinha em sua direção como uma prensa hidráulica.
Lyra não hesitou.
Ela não tentou opor força contra massa.
Em vez disso, comandou a vida.
Do asfalto estéril, ramos grossos e cipós distorcidos explodiram em uma rede frenética.
O metal rugiu ao encontrar a resistência vegetal, ficando preso em um abraço de raízes que absorveu a inércia do desastre.
Ryu ofegou, caído de costas, a poucos palmos do para-choque retorcido.
Lyra, sentindo o impacto em seus próprios ossos, caiu de joelhos.
— Você está bem? — perguntou ela, os olhos varrendo o caos.
— Sim — Ryu assentiu, a voz sumida.
— Então corre. Agora.
Nesse instante, a proteção de Aiden estilhaçou-se.
Um fragmento de gelo, carregado com a energia do impacto, cravou-se no solo perto de Lyra.
O chão não quebrou; ele flutuou por um segundo, perdendo sua função sólida.
Ondulações se espalharam, e Kael sentiu o mundo "escapar".
Nada mais ali obedecia às leis dos homens — ou mesmo às de Klyrion.
ATO 2 — O ÔNIBUS E A ÚLTIMA CRIANÇA
O caos, enfim, reclamou suas vítimas.
Sob os pés de Jessica, a calçada abriu-se em uma fenda faminta.
Seu grito foi sufocado pelo susto enquanto o corpo perdia o apoio.
Sophia lançou-se para segurá-la, mas o mundo estava inclinado contra elas.
Antes que o abismo as levasse, Nami surgiu.
Ela não usou força bruta; ela usou a fluidez.
Manipulando a água que jorrava dos canos rompidos, ela moldou uma coluna líquida de alta pressão, transformando o vazamento em um pilar de sustentação que arremessou ambas de volta à superfície segura.
— Corre! — ordenou Nami, a voz cortante.
— Não parem por nada!
No epicentro da via, um ônibus escolar jazia como um animal ferido, o motor agonizando em fumaça.
Uma mulher, sem armadura ou poderes, apenas com a coragem nua e o rosto manchado de fuligem, coordenava a fuga.
— Um por vez! Eu seguro vocês!
Ela recebia as crianças nos braços e as guiava para o beco onde as raízes de Lyra ofereciam um abrigo improvisado.
"Vai dar tempo", ela dizia, uma mentira santa dita com o sorriso de quem já aceitara o próprio fim.
Dante, do outro lado, arrastava civis para longe das fachadas que desabavam, sua voz rouca de tanto gritar direções.
O campo de batalha não vibrava apenas com magia, mas com o peso das escolhas mortais.
Klyrion desviou o olhar dos heróis. Ele focou no ônibus.
— A distração perfeita — murmurou, com a calma de quem observa uma peça de xadrez.
Aiden sentiu o sangue congelar.
— NÃO!
Klyrion disparou um estilhaço de Reflexo.
Aiden agiu por puro reflexo, erguendo um muro de gelo que desviou a trajetória do projétil por uma fração de centímetro.
O ataque passou. E seguiu seu curso.
— Não... — sussurrou Aiden, a compreensão sendo sua maior tortura.
A mulher empurrou a última criança.
Ela sorriu ao ver o pequeno seguro, mas o som que se seguiu foi o som do inevitável.
Kael tentou comandar o Vento para puxá-la, mas o elemento respondeu com um soluço fraco e desalinhado.
O estilhaço não explodiu; ele simplesmente atravessou.
Ela caiu.
O impacto do corpo contra o degrau do ônibus e, depois, contra o asfalto frio, selou o silêncio daquele quarteirão.
A criança gritou, mas Aiden sentiu algo pior: o gelo morrendo em suas mãos.
O mundo decidira que aquela perda era absoluta.
Um estrondo à direita quebrou o transe.
Lukas, ajudando um idoso, viu-se sob a sombra de uma viga de concreto que se desprendia do alto.
— LUKAS! — Kael gritou, mas o espaço estava distorcido demais para uma corrida.
Lyra bateu seu cajado no solo.
Em uma explosão de energia vital, raízes brotaram para desviar, e não para deter, o peso morto.
O concreto raspou no ombro de Lukas e desabou a centímetros de seus pés.
Entre a poeira e o pavor, Lukas e o idoso permaneceram ilesos.
— Continuem — disse Lyra, a voz trêmula, sem olhar para trás.
ATO 3 — O PREÇO DA FALHA
Klyrion sorriu. Um sorriso de confirmação metafísica.
— Você sempre chega um segundo depois, Aiden — disse ele.
A culpa pesou como chumbo.
Diante de Aiden, o Reflexo da mulher surgiu — pálido, incompleto, uma estátua de dor que o acusava.
— Você desviou o golpe — continuou o vilão.
— Mas você não a salvou.
A dúvida se instalou como um parasita: outro movimento teria mudado o desfecho? Aiden nunca saberia.
E o silêncio de Klyrion era a prova de que essa era a sua verdadeira arma.
Kael sentiu o Vento se retrair, como um animal que lambe as feridas.
— Não foi culpa dele! — ele rugiu, mas a voz soava pequena diante da tragédia.
Klyrion avançou. Seu tridente desceu em um corte vertical.
Aiden tentou reagir, mas seu corpo pesava.
O impacto o arremessou contra um carro capotado, o metal se dobrando em torno de suas costas com um estrondo de carcaça velha.
Longe dali, outra estrutura cedeu.
Dante estava na linha de queda.
Antes que a viga o esmagasse, Maira surgiu como uma muralha.
Ela cravou os pés no asfalto e o chão se ergueu em placas compactas, escorando o peso de toneladas.
O impacto jogou-a de joelhos, o rosto transfigurado pelo esforço hercúleo.
— Ficou louca?! — Dante gritou, chocado.
— Anda logo! — Maira rebateu entre dentes.
— Eu não aguento isso o dia todo!
ATO 4 — A COERÊNCIA FORÇADA
Kael fechou os olhos e respirou.
O Vento ainda era rebelde, mas agora, ele parou de tentar domá-lo.
Ele avançou não contra o inimigo, mas contra o espaço que ele ocuparia.
O chão cedeu sob os pés de Klyrion, forçando o vilão a recuar meio passo pela primeira vez.
— Você aprendeu — observou Klyrion, os olhos brilhando.
— Não — Kael respondeu, a voz gélida.
— Eu apenas parei de insistir no impossível.
Klyrion tentou invocar novos Reflexos, mas o campo de batalha estava desfigurado.
Lyra selava as rachaduras com vida; Nami criava uma névoa que cegava os espelhos; Maira deformava o horizonte.
Aiden levantou-se, o frio retornando não como uma barreira, mas como um fio condutor.
— Eu não posso desfazer o que foi feito — disse Aiden, a voz baixa e absoluta.
— Mas posso escolher o que vem a seguir.
Ele tocou o solo.
Linhas finas de gelo percorreram o campo, conectando cada companheiro.
O mundo hesitou sob aquela nova geometria.
O campo cedeu, não por fraqueza, mas porque reconheceu a coerência daquele grupo.
— Agora! — comandou Kael.
O Vento se alinhou.
Não foi uma ordem de Kael, foi um acordo entre o herói e a natureza.
A Constelação Ascendente brilhou no firmamento.
O peito de Kael ardeu com uma chama que prometia poder e cobrava alma.
Ninguém sairia ileso daquele pacto.
— ASCENSÃO!
O feixe de luz absoluta desceu, corrigindo a curvatura do espaço.
Klyrion tentou um último movimento, mas o vácuo ao seu redor era agora sólido, uma prisão de realidade pura.
— Impossível... — ele murmurou, enquanto sua forma começava a fragmentar-se.
— É apenas a consequência — finalizou Aiden.
Klyrion desintegrou-se em milhões de cacos de vidro, que se perderam no silêncio que se seguiu.
ATO FINAL — O SILÊNCIO QUE NÃO CURA
A tormenta cessou.
A água voltou a correr mansamente para as sarjetas, mas o chão permanecia uma cicatriz aberta.
Os civis começaram a emergir das sombras, como fantasmas retornando ao mundo dos vivos.
A criança do ônibus parou diante do corpo da mulher.
Nami apenas pousou a mão sobre os olhos do menino, forçando-o a encarar o próprio ombro.
— Não olhe — sussurrou, a voz falhando.
Kael observava as próprias mãos.
Elas não tremiam, o que o assustava mais do que o tremor.
Aiden ajoelhou-se ao lado da mulher caída.
Ele não a tocou; a distância entre a vida e a morte era um abismo que ele não ousava cruzar.
— Se eu tivesse sido um segundo mais rápido...
— Não — Lyra interrompeu, sua voz carregando o peso da terra.
— Você fez uma escolha. E escolhas têm preços. Isso não apaga a perda, mas é o que nos torna reais.
As sirenes começaram a uivar ao longe.
O Véu tentava, freneticamente, remendar a percepção da realidade para os sobreviventes.
Kael sentiu o Vento soprar uma última vez — um sussurro de desconforto que soprava do futuro.
— O Vento não fez isso por acaso. — disse ele, olhando para o horizonte.
Kael fechou os olhos e, na escuridão de sua mente, a Catedral de Saint Solarius erguia-se imponente.
Algo lá em cima observava. Algo que, pela primeira vez em milênios, estava satisfeito com o preço cobrado.