ATO 1 — OS ARAUTOS E O PERGAMINHO DO ECLIPSE
A ruína não tinha teto. O templo antigo se abria para a noite, com pilares de pedra quebrados ao meio, enquanto o chão de obsidiana refletia a luz da lua.
No centro, aprisionado no círculo de contenção, o Pergaminho do Eclipse parecia vivo demais para ser apenas um artefato. O couro ancestral inflava e contraía devagar, absorvendo a energia escura do lugar.
Vareth estava inclinado sobre o artefato, as vestes roçando o chão gélido. Seus olhos acompanhavam as linhas arcanas que insistiam em não se fechar.
— O padrão ainda não fechou — disse ele, com a voz fria e calma.
Ao seu redor, Seris flutuava sem fazer barulho. Os dedos pálidos roçaram o ar sobre as runas, e o pergaminho respondeu na hora, soltando uma faísca de mana escura pelo salão.
— Ainda não está no ponto — murmurou Seris. — Se forçarmos agora, o selo rejeita.
— Ou explode metade do continente — rosnou Norath do fundo da penumbra.
Ele afiava as espadas gêmeas contra um pilar quebrado, soltando faíscas no escuro.
— Ele não cede à força, Norath — corrigiu Vareth sem erguer a cabeça. — Só responde quando dói do jeito certo.
A presença de Jessica ecoava na mente compartilhada dos Arautos.
— Ela ainda serve para isso. — continuou Vareth. — O Vórtice aceita a energia dela sem resistência.
Norath parou de afiar as lâminas.
— Deixamos aquela garota viva só por isso. Se a compatibilidade dela falhar na hora, eu mesmo rasgo a garganta dela.
— A retirada de ontem foi cálculo — disse Vareth. — O Eclipse ainda não está pronto.
No altar, o pergaminho inflou uma última vez. As runas tentaram se alinhar num padrão perfeito, mas vacilaram e falharam. Exatamente no mesmo ponto de sempre.
Uma onda de energia escura se espalhou pelo ambiente, e o ar ficou tão pesado que respirar virou esforço.
ATO 2 — ELITE DOS DEFENSORES EM AÇÃO
O ar no armazém abandonado cheirava a ferro velho, óleo queimado e poeira. Nas paredes de concreto, havia símbolos arcanos desenhados às pressas com giz e pó de osso.
Arctean ergueu o punho esquerdo. A manopla deu um estalo metálico.
— Entrada tática. Padrão Silêncio.
Selene avançou pela lateral, contornando caixas de madeira podre. Seus olhos brilhavam em violeta, rastreando os vestígios de mana no ar. Atrás dela, Korvus vinha com o escudo meio erguido, enquanto Saren fechava a retaguarda com a mão na espada.
O ritual principal já tinha acabado. O que ficou para trás não fazia sentido.
No centro do galpão, cordas grossas pendiam das vigas de aço, marcadas por sangue nos pontos em que pulsos humanos haviam sido presos. No chão, círculos incompletos se cruzavam.
Selene se ajoelhou e tocou o concreto.
— Ainda está quente. Esteve ativo há menos de uma hora.
Arctean se aproximou de um caco de vidro no chão e recolheu uma gota de líquido escuro com uma pinça.
— Sangue humano misturado com Noite-Morta.
Saren caminhou até a base da cadeira de ferro central. Preso a uma rebarba do metal, havia um fio de cabelo.
Loiro. Fino. Jovem.
Quando Saren o tocou, veio uma faísca psíquica na cabeça: o som de dentes batendo, o aperto de uma mordaça e olhos azuis no vazio.
Ele ergueu a cabeça.
— Jessica esteve presa aqui.
— E saiu viva — Korvus fechou o punho, e a energia do escudo oscilou. — Não há sinal de morte.
— Foi levada. Como um recurso — concluiu Arctean.
Selene se levantou de uma vez.
— Arctean, a prioridade mudou. Se invertermos o fluxo desse círculo agora, derrubamos a rede deles na cidade. Cortamos a reação aqui.
— Negativo — respondeu Arctean de imediato, sem alterar o tom. — A garota é a chave. Primeiro tiramos ela do tabuleiro.
— E se esse atraso custar o setor inteiro? — rebateu Selene. — A gente salva uma vida ou protege dez mil? Escolhe logo.
Saren entrou entre os dois.
— Fazemos os dois até onde der. Selene, isola o nó do ritual. Arctean, segue o rastro.
— E se tivermos que escolher? — insistiu Selene.
Saren olhou para as cordas vazias no teto.
— Então escolhemos quem ainda dá tempo de salvar.
Antes que a conversa continuasse, as runas no chão acenderam num vermelho doente. Uma projeção astral apareceu por três segundos, mostrando três vértices vazios.
— O ciclo começou — disse Saren antes que a imagem sumisse.
Arctean ajustou a manopla com os dentes, com o olhar fixo no escuro.
— O problema é que a gente ainda está cego.
Um barulho de madeira quebrando cortou o silêncio. No fundo do armazém, atrás de uma pilha de paletes podres, um vulto tentou correr para a saída.
Korvus nem se mexeu. Só ergueu a mão esquerda e criou uma barreira translúcida na frente do fugitivo, jogando ele de costas no chão.
O cultista caiu de joelhos, pálido e tremendo de pavor.
Saren se aproximou em passos calmos e agachou na altura dele. A voz veio baixa e direta:
— Me dá o nome de quem montou isso. Agora.
O homem soluçou, limpando o suor do rosto sujo.
— Eu… eu não sei os nomes! Usavam máscaras de osso… Só sei o título…
— Qual título? — pressionou Selene, encostando a adaga espiritual no pescoço dele.
— A Porta que Sangra!
Um silêncio pesado caiu sobre o galpão.
Arctean se ergueu devagar e mexeu no painel do pulso.
— Queimem tudo. Purificação nível quatro. Enviem o relatório para a base agora.
Ele olhou para os túneis escuros no fundo do armazém.
— Avisem que os Arautos já estavam um passo à frente quando chegamos.
ATO 3 — A PISTA DE JESSICA
A luz do entardecer morria nos painéis da Fortaleza dos Defensores, tingindo a sala de observação de vermelho. Ninguém ali tinha notado o tempo passar. O cansaço era visível no rosto de todos. A apreensão pesava ainda mais.
Bip. Bip. Bip. O gráfico disparou em três picos erráticos.
Três picos curtos tocaram no monitor. O gráfico de frequência oscilou em picos erráticos — um ruído espiritual abafado, como alguém batendo do outro lado de um vidro grosso.
Elias ergueu a cabeça e mexeu rápido no console, aumentando o ganho do sinal ao limite.
Vestígios de runas antigas.
Assinatura energética… 98% de compatibilidade.
Próxima demais para ser acaso.
Nami deu um passo à frente, com os punhos fechados ao lado do corpo.
— É a Jessica.
No canto da mesa, Ryu não se mexeu. A luz azul da tela refletia no rosto dele.
— Ou alguém quer muito que a gente pense que é ela.
Ninguém respondeu. Todos tinham tido exatamente o mesmo pensamento.
O mapa se abriu na tela, mostrando um depósito abandonado no setor industrial. Poucas rotas de fuga, muitos pontos cegos. Espaço morto demais.
Não era só uma pista. Era um convite descarado. Uma armadilha perfeita.
Dante olhou para o ponto vermelho piscando no mapa e apertou as mãos. A decisão já estava tomada.
— A gente vai.
Não teve votação nem conversa. Eles se viraram e foram direto para a saída.
Mas, nas sombras do corredor de metal, alguém acompanhava os passos deles em silêncio.
Lukas esperou o grupo se afastar. Ele pisava só onde o chão de aço não rangia, escondendo a presença. Não tinha permissão e nem ordens, mas o medo de ficar para trás era maior do que qualquer bronca.
Precisava provar que podia lutar junto com eles.
Mantendo distância de duas esquinas para não ser pego pelos sensores de Ryu, Lukas foi atrás.
Se fosse visto, seria mandado de volta na hora. E se voltasse para casa… talvez fosse tarde demais para o grupo.
ATO 4 — ARMADILHA / ENCONTRO COM VOR’GATH
O depósito cheirava a ferrugem, poeira antiga e óleo queimado. No chão de concreto rachado, o cenário deixava claro o que tinha acontecido ali: runas riscadas às pressas, velas derretidas e círculos de contenção quebrados ao meio.
Lyra se ajoelhou, tirou a luva e tocou a fenda no solo. O chão reagiu na hora. As raízes sob o concreto soltaram um pulso que arrepiou os braços dela.
— Isso esteve ativo há poucos minutos — murmurou Lyra. — Forçaram o sinal.
Aiden se inclinou sobre um selo quebrado.
— E não foi interrompido. Foi destruído de fora para dentro.
Dante deu três passos até o centro do círculo.
O ar esquentou de repente e ficou pesado, puxando o corpo de todos para baixo. A poeira que flutuava no ambiente simplesmente parou no ar.
Nami ergueu o queixo, com faíscas azuis estalando nas mãos.
— Ele está vindo.
A porta lateral de metal rangeu. Depois, se abriu sem pressa.
Vor’Gath entrou no galpão.
A armadura negra parecia metal vivo, rachada por linhas luminosas que acompanhavam a respiração dele. Cada passo fazia o chão tremer e as vigas do teto rangerem com o peso.
Sem rugidos. Sem avisos. Só a presença esmagadora dele.
O olhar dele percorreu o grupo até travar em Dante.
Lentamente, ergueu o braço coberto de placas de ferro e apontou o dedo.
— Você.
A voz veio funda, vibrando no peito de Dante. O garoto travou no lugar, sem conseguir puxar o ar.
Kael deu meio passo à frente e se colocou na linha de visão do monstro, sem hesitar. Seu punho direito acendeu com uma mana dourada concentrada.
— Se quiser ele… vai ter que passar por nós primeiro.
Vor’Gath nem piscou. Não diminuiu o passo nem respondeu. Ele só continuou andando, como se Kael nem existisse.
Ao lado de Kael, Nami cobriu os braços com lâminas de raio que estalavam no ar. Ryu sacou a espada em um movimento rápido e silencioso, inclinado para frente em base de ataque.
Lyra concentrou mana da natureza nas pernas para firmar os pés no chão, enquanto Aiden preparou selos de proteção na retaguarda. Dante travou os dentes, venceu a hesitação e acendeu a própria aura, cruzando os braços na posição de combate.
As auras do grupo acenderam juntas no escuro do depósito, uma após a outra, como brasas acesas no mesmo fôlego.
Vor’Gath deu mais um passo, rachando o concreto sob a bota, e avançou.