A cidade acordava lentamente, com o céu tingido de tons acobreados e o som distante de buzinas e sirenes. Para ele, porém, era apenas mais um dia de rotina, ainda que diferente, amanhã completaria 18 anos, e com isso, chegaria o fim de uma vida que, de certa forma, sempre foi solitária.
No espelho do pequeno quarto do orfanato, ele se observou: cabelo castanho escuro levemente bagunçado, olhos castanhos claros que carregavam uma curiosidade silenciosa e uma determinação que não combinava com a timidez natural de quem passou anos sem família. Sua postura era reta, mas não rígida; a presença firme, mas sem alarde. Um jovem comum aos olhos da cidade, mas com uma sensação de que algo dentro dele sempre foi diferente.
Ser órfão tinha suas rotinas e pequenas alegrias. Os funcionários do orfanato eram cuidadosos e afetuosos na medida do possível, e os colegas, apesar das diferenças, eram sua família improvisada. Ainda assim, havia um peso no ar: amanhã, ele teria que sair do orfanato. A lei era clara, e todos que completavam 18 anos precisavam seguir sozinhos. O futuro era incerto, e a cidade parecia maior e mais assustadora do que nunca.
Um toque na porta interrompeu seus pensamentos.
— Bom dia! Café da manhã está pronto — disse uma voz familiar do outro lado.
Ele se levantou, ainda com o peso da ansiedade no peito, e abriu a porta para encontrar um dos funcionários sorrindo, com bandeja nas mãos.
Enquanto se dirigia ao refeitório, ainda perdido em pensamentos sobre o que viria depois que completasse 18 anos, uma voz mais firme o chamou do corredor:
— Lucas, pode me acompanhar um instante?
Era o diretor do orfanato, um homem de presença serena e olhar atento. Lucas seguiu, curioso e ligeiramente nervoso.
— Amanhã é um dia importante para você — começou o diretor, enquanto caminhavam pelos corredores silenciosos
—Teremos uma pequena festa para celebrar seu aniversário. Não apenas isso, mas você também precisa começar a pensar no futuro, nos próximos passos fora daqui.
Lucas assentiu, sentindo um misto de ansiedade e expectativa.
— Sei…
— Por enquanto, apenas aproveite o momento e esteja preparado — concluiu o diretor, colocando uma mão firme em seu ombro.
— A vida fora do orfanato será um grande desafio, mas eu sei que você tem capacidade para enfrentá-lo.
Lucas retornou ao seu quarto, sentindo o peso do futuro mais presente do que nunca. O corredor silencioso parecia ecoar cada pensamento seu, cada dúvida sobre o que viria depois que completasse 18 anos.
Sentou-se à beira da cama e observou o teto, deixando a mente vagar entre lembranças do orfanato e pequenos sonhos que ainda guardava para si. Apesar da ansiedade, havia uma chama de curiosidade acesa dentro dele, um pressentimento de que algo grande estava prestes a acontecer, algo que mudaria tudo.
Respirou fundo e se levantou. Amanhã seria um novo capítulo, e ele precisaria estar pronto para encará-lo. Por enquanto, restava apenas esperar e se preparar para o que viria.