CAPÍTULO-EXTRA 10.5: PRESENTE AURORA
Com o combinado de ir à biblioteca à espreita, sob vigília e companhia de seu diabo, o dia se fez afável; esperava algoz, mas com ele, o conforto era evidenciado. Nublado, ameno e suspenso pela mente nas caravelas das aulas, quando a última disciplina base obrigatória foi anunciada, levantou-se para a troca de sala.
A turma inteira reverbera em uma cerimônia exclamativa, ansiavam por aquela aula de educação física, um momento leve na rotina escolar. Caminhava, pensativo, estaria com Miguel pela cidade, na biblioteca, sozinho, só com ele, a estranheza áspera subiu-lhe com o nervosismo.
Apesar do cinzeiro no lugar do mar acima, o calor era abafado, não tinha sequer uma brisa para aliviar. Quando chegaram na quadra, pareceu piorar a situação, parecia que aquele lugar tinha um sol particular, só para eles, Lucian ficou na arquibancada, sofrendo em silêncio.
Não conseguia ler, nem escrever em seu caderninho, o suor e o vigor daquela cena, seus colegas correndo, se exercitando ou jogando qualquer outro jogo, era mais chamativo. Não conseguia seguir nenhuma linha de raciocínio, sentia sua cabeça fritando sob aquele astro de fogo.
— Lucian — sentiu a mão leve em seu ombro acompanhada de um sussurro cálido — se quiser, podemos ir ao bloco A, sabe, ficar por lá, matando o tempo.
— Está me convidando para matar aula? — Questionou, já sabendo a resposta.
— Não, meu caro, estou te convidando para passar um tempo aqui na escola, só não na quadra. Então, o que acha?
— Como pretende fazer isso? Não temos acesso às salas de outros lugares durante as DBOs.
— Lucian, querido, eu sou representante de sala e um grande queridinho da instituição, eu tenho a chave.
— Me parece que você é a chave — brincou, continuando a seguir seus colegas pelo ginásio com o olhar, saltitando como pipoca.
O que não persistiu, Kael o tomou pelo pulso com firmeza, mas gentil, levando-o calmamente para o lado oposto aos outros, Lucian não parecia querer resistir, nem tentou. O sequestro fora executado perfeitamente, haviam chegado ao bloco sem balbúrdia, nem perseguição.
Entre o bloco A, tinha uma seção bloqueada com fitas amarelas e algumas placas de atenção, seguiram mesmo assim, adiante por meio da tralha. Ele destrancou a porta de madeira, promovendo com um sorriso de canto um auditório antigo, com o piso amadeirado solto em certos pontos.
Miguel disse que não acenderia a luz, tanto porque não era realmente necessário, já que as frestas de luz eram diversas, quanto por não quererem chamar a atenção. Os vitrais eram belos, domados por uma aura mística e atenciosa, como se colecionassem corações.
Placa se dirigiu ao palco, deitando na estrutura como se fosse estrela cadente, completamente belo. Ao fundo, havia uma escadaria, que parecia ser menos velha que todo o resto naquele ambiente, Lucian, por sua vez, sentou-se no segundo degrau, com seu caderninho de anotações.
O contraste era óbvio, a corrente de ar convergia em um frescor necessário, mais confortável. O cheiro seguia a mesma premissa da biblioteca, contudo, sem a vigília ou a chance de interrupção abrupta, um local perigoso, de fácil desarmamento.
— O que o príncipe dos Bálcãs vive anotando nesse caderninho aí? — perguntou, quebrando a pacífica quietude, revigorando a alma de Lucian que temia não poder responder.
Em seu caderno, havia um pouco de tudo como registro, variando de nomes de livros, insights, pequenos desenhos até aquela lista sobre Kael, em anexo com o papel pardo. O sorriso de Miguel fez-se um risco de luz no rosto sombreado, seguia com os olhos fechados, como se lesse as palavras no ar.
— Um tratado sobre as tentações do verão tropical ou sobre a decadência moral dos trópicos? — replicou, virando-se para olhar Lucian na escada, que estremeceu em seu silêncio.
Não pretendia responder, porém fez-se absurda a sua respiração falha de quem foi pego no flagra em um segredo cruel. Decidiu abrir o caderninho, folheando até a página com o destaque, se tratava de uma página até que recente, onde uma lista traçava com uma rigidez certos conceitos pragmáticos.
Com a caneta no bolso interior da blusa do uniforme, agora em mãos, começou a se desfazer sob riscos nervosos, tensos. 1. Evitar contato visual. 2. Não responder provocações. Respirou fundo, sua caneta pairou sobre a terceira regra, já meio apagada: 3. Não se engajar nas blasfêmias.
— Deixe-me adivinhar — a voz doce de Kael invadiu seus pensamentos sem pedir licença. — “Regra quatro: não esquecer que o diabo também cita versículos”. — Lucian estremeceu, mas Miguel ainda mantinha os olhos nele, vidrado.
— Como você…?
— Todo santo tem um diário de confissões, Lucian. E todo diabo gosta de ler — piscou, seus olhos eram verdes como musgo sob a luz filtrada. — Posso fazer uma anotação?
Antes que Lucian pudesse recusar, Miguel levantou-se com a fluência de um felino amarelo e pegou o caderno, sentando-se um degrau acima. E sua caneta, vermelha como sangue vibrante, como se incorporasse Pero Vaz de Caminha, traçou letras exageradas na margem:
“E o anjo disse ao estrangeiro: não temas, pois da sombra nascerá o verbo, e o verbo será carne, e a carne, paradoxo.”
Lucian leu e sentiu um calafrio.
— Isto é…
— Blasfêmia? — Kael completou, devolvendo o caderno. — Ou literatura? O Evangelho Segundo Miguel, capítulo um, versículo um.
— Você quer me tentar?
— Quer me fazer seu diabo?
O repouso sonoro se instaurou diferente de qualquer outro. Não era vazio, sequer ausente; era cheio. Cheio de ruído de seu sangue em seu corpo fervilhando, do sussurro das folhas do lado de fora, da respiração quase imperceptível de Kael.
Lucian assistiu o perfil de Miguel banhado pela luz âmbar do vitral e pensou, não pela primeira vez, que Kael parecia uma criatura feita de antíteses — libertário e anjo, diabo e humano.
— Você fala mais com os olhos do que eu com a língua inteira, Lucian — disse, suave, quase um sussurro.
Lucian baixou os olhos para o caderno, sua mão moveu-se quase que por vontade própria, riscou todas as regras. No centro da página em branco, no verso, escreveu em uma única linha:
“Regra única: a voz dele contamina, ignore-o.”
Kael se inclinou para ler, cutucando com seus espinhos rosa, levemente, o rosto de seu colega. Ele não sorriu, manteve um rosto sério, quase solene.
— Então vamos piorar a contaminação — ele sussurrou, sua boca tão perto do ouvido de Lucian que o ar formou arrepios em sua nuca. — Me fale uma palavra em romeno.
Lucian engoliu em seco, balbuciando:
— “Dor”, é uma saudade que machuca. Uma nostalgia por algo que você nem sabe se existiu.
— Dor pra nós não é saudade, saudade é um conceito próprio. Dor é qualquer coisa que cause uma sensação ruim, que fere, literal ou não.
— Agora você — desafiou Lucian, sua voz mais firme do que sentia.
— Iubire — Kael disse, a palavra saindo suave como um beijo. — Repete.
Lucian sentiu seu coração parar.
— Iubire.
— É um jeito de chamar alguém, né? Amor — Kael perguntou, seu olhar fixo nos lábios de Lucian.
Este, no entanto, só assentiu, incapaz de respirar.
— Ah — Kael recuou, não tinham reparado a natural proximidade, retornou com o sorriso — então é isso que eu estava tentando dizer desde o início, dá pra continuar te chamando só de querido, se quiser.
Espero que tenham gostado do primeiro extra e lhes desejo uma boa semana, até o próximo domingo ☀️
Obs: Um capítulo-extra, nessa obra, significa que não é necessariamente canônico, porém fica a critério do leitor integrar ou não o conteúdo do extra com o desenrolar da história canônica. 🫶