CAPÍTULO 11: ANEDOTA CRUA
Uma ligação fora feita repentinamente, Elena queria passar um tempo com seu filho do meio; já que estava livre da escola, em tese, então estava disponível para isso. Se despediu com um pesar de Kael, aquele diálogo todo havia ido longe demais, e ele ainda havia o acompanhado até a porta de saída da biblioteca com aquele sorriso que confortava até o inferno.
O abalo sísmico tornava-se normal ao decorrer desses momentos a sós, com a própria placa tectônica, que desastre. O carro já o esperava em frente ao estabelecimento, sua viagem foi curta, nem prestara atenção ao caminho, sua dispersão era sinal do estopim de sua sina se concretizando. Por que havia revelado a sua fraqueza?
E pior, ele queria que cresse nele como se ele fosse seu Deus, o que jamais seria permitido ser, não só pecado e blasfêmia era como também um ataque a tudo o que precisava ter certeza que conhecia. Claro, poderia ser mais evidente esse ataque quando considerava a questão como recíproca, e até além disso, queria que Lucian se considerasse ser divino também.
A necessidade de largar de vez e evitá-lo convertia-se em uma urgência quase simplória, se pensasse bem, não se tratava bem do que desejava, mas sim de covardia. Se continuasse enfrentando o fenômeno natural, sofreria consequências piores do que remar contra a maré. A presença dele fazia-se mais do que boa, não podia negar, no entanto, sem razão consciente, era essencial caçar o porquê disso tudo.
Sua mãe divagava como sempre em um monólogo sobre a flora e metáforas para as ocorrências no trabalho. Era eficiente e digna, sua juventude conservada nos olhos e na vivacidade, traiam a fama de megera por parte de seus adversários. Elegante e articulada, um vinho caro, virtuosa e respeitada por onde estivesse fazendo presença.
Sua graça pertencia a algo maior antes do matrimônio, como era bem comentada e repleta de boas prendas, tornava-se também extremamente cortejada. Seus pais não compartilhavam as histórias da família comumente, nem traziam à tona como se conheceram, porém, se esse prestígio era absoluto, sua mãe era uma dádiva para seu pai.
Não por apreço à materialidade, mas porque ele não fazia-se ser o tipo de homem que conquistaria Elena, todo rígido e inexpressivo, mal interagia com a própria família. Ela obviamente tinha origem em uma família de grandes aquisições, então riqueza e títulos não eram o motivo dessa aliança, beleza inigualável desde sempre, portanto não foi por falta de opção também.
— Mamă, cum v-ați cunoscut tu și tata?⁸ — A mania de divagar e perguntar em voz alta os seus pensamentos estava virando um mau hábito.
Ela olhou-o pelo canto dos olhos, estremecendo, falhando em seu sorriso doce de sempre, não era um tópico confortável para ela. E apesar disso, ela ainda manteve a postura e iniciou mais um monólogo gentil, lúdico e cheio de sua eloquência charmosa que conquistava qualquer aliado.
Quando jovem-adulta, antes de completar o último ano da graduação, conheceu-o em uma intervenção comercial, havia uma parceria entre um determinado curso e a coordenadoria com a empresa dos Moldoveanu. Mihai estava presente em um terno terroso com detalhes em xadrez, acompanhado por Alexandru que seguia o molde, porém azuis.
A cooperação entre essa aliança estava fraca, nem estagiários competentes estavam sendo qualificados para aquela função, o que foi uma fala fortuita, tornou-se a pena que Elena usou para escrever o seu fado. Ela costumava ser bolsista de um projeto inovador na época, algo sobre a democracia em um estado de liquidez no ambiente empresarial.
E por conseguinte, estava presente na discussão, ouvindo as reclamações e tomando suas notas, pretendia devolvê-las ao exclamador diretamente, para quebrá-lo em sua lógica; o que não correu como esperava. Estavam em uma sala reservada para reuniões, com dois sócios da empresa, além de pai e filho, o debate unilateral seguia firme, quando Alexandru interrompeu.
Ele havia apontado para Elena e seu caderninho que ela seguia anotando, perguntou quem ela era para estar anotando detalhes confidenciais sem sequer ser convidada e ordenada a essa função. Mihai riu franco, e mandou-a ler suas anotações, na íntegra, sem acrescentar ou retirar qualquer coisa que ela havia escrito.
O que foi um tiro no escuro, suas observações além de claras continham soluções práticas para as reclamações que estavam sendo abordadas descaradamente. O clima não pesou, nem se intensificou, mas a fagulha de intriga pairava pela sala com toda a sua força nas mentes dos senhores. Como única mulher, as coisas poderiam não ser fáceis, e ela poderia não ser ouvida adequadamente.
No entanto, Mihai a convidou a se juntar como analista júnior na empresa, acompanhada por um sênior, seu filho, no caso. E enfim, tudo ocorreu de forma muito juncosa, em uma confraternização profissional, ambos debateram ideias e se entenderam bem, sequenciando uma valiosa aliança entre suas famílias.
Estava vaga a sua história, tinha perguntas das quais queria saber, contudo, naquele ponto do dia, percebia que talvez, só talvez, não precisasse saber tudo. Mas, quem disse que se respeitaria naquela fase do jogo?
— Cum ai știut că îl iubești?⁹
Um brilho fraco parecia se ofuscar ainda mais naquele olhar, ela seguiu com Lucian para o alpendre, assistiam ao fim do pôr do sol entre o jardim. Seguiu contando que soube que gostava dele quando estavam em um passeio com alguns possíveis novos aliados em um cruzeiro, e ela estava sendo cortejada dia e noite por seus amantes nos bailes.
E bem, assim que anoiteceu e conseguiu encontrá-la a sós com a lua minguante, recitou Réplicas¹⁰ para ela, concluindo-o ajoelhado em meio ao som melódico e abafado de um grupo de jazz do outro lado do navio, segurava uma caixinha aveludada aberta, com um anel que dizia reluzir o satélite natural acima.
Não era um pedido para aprisioná-la, ele havia pedido que ao menos o considerasse um de seus pretendentes, se ela aceitasse, garantia que a conquistaria todos os dias de sua vida. Se isso era realmente algo verdadeiro naquele momento, não tinha certeza, mas se estão onde estão, é porque ela o aceitou.
Após seu conto que parecia falácia naquele instante em silêncio, ela declarou que ia se recolher devido a uma dor de cabeça, se era verdade ou não, também não importava. Se seu pai realmente tivesse recitado Réplicas para ela, ele não era um grande galanteador.
O restante da noite quente foi corrompido pelo incessante momento, revisitava aquele lugar em suas memórias, torcendo que elas mudassem e não fossem o que eram. O sono não veio rápido, mas o sonho veio abrupto, estrelas cadentes assombravam a sua varanda, folhas e flores grudavam no deck de madeira e sentia a presença de um intruso.
Saiu de sua cama, dirigindo-se à varanda, observava a chuva de fenômenos dos quais não tinha controle. Escutava uma melodia fraca de jazz e o aroma agridoce, como chocolate amargo, bem mais doce, nesse caso. Seu intruso era Miguel, que estava sentado contra a grade daquele lugar suspenso.
Estava ciente de que era um sonho, um daqueles dos quais você nunca deseja acordar. Seu colega estava tranquilo, dizendo estar tomando um ar, pois o mundo ao seu redor estava em chamas, e o único que poderia salvá-lo era Lucian.
Sabia, como uma reafirmação, que não era real; Kael balbuciava algo sobre as chamas, que haviam sido causadas pela estranha forma do desejo, que fazia as pessoas de bobas para fazê-las fazerem o que fosse necessário.
Tudo muito redundante, era um sonho, estava ciente, embora não entendesse o que exatamente elas faziam e nem porque era preciso que fosse feito. Quando ele o olhou, observando-o como se fosse possível senti-lo através dessa mirada, pois se fosse, tinha certeza que era um olhar cálido, daqueles que aquecem o coração e falecem o medo de... não, estava louco.
Sabia que seria mentira, a partir daquela noite, se alguma vez dissesse que nunca havia sonhado conhecer alguém como aquele intruso. Literal, figurado ou por fascínio, não precisava pensar sobre isso, pois precisava entender, o pequeno sol a sua frente continuava balbuciando sobre as chamas.
Quanto mais observavam-se mutuamente, naquele clima cálido, mais nuances surgiam por vez, apesar de saber também que precisava deixá-lo para trás se quisesse permanecer em paz consigo mesmo, também sabia que nunca havia sonhado que perderia alguém como ele.
O brilho daquele olhar fascinava em complemento ao riso confidente de quem se pareciam conhecer há séculos, o que não era bem verdade. Lucian começava a crer nele, não como Deus, mas como pessoa íntima; jamais teve alguém que poderia lê-lo e não julgá-lo, mesmo vendo a íntegra.
Fisicamente, sentiu-se soltando do mundo onírico, a qualquer instante, acordaria e o perderia de vista, aquela versão menos provocadora e verbal de seu colega. Entretanto, sua mente vacilava para o que seu inconsciente guardava, se seu pai não era um galanteador, Lucian conhecia alguns outros poemas mais adequados.
La Esteaua
À Estrela
La steaua care-a rãsãrit
1-o cale-atât de lungã,
Cã mü de ani i-au trebuit
Luminii sã ne-ajungà.
Até à estrela que reluz
há uma distância de trespasse;
correu milênios sua luz
para que enfim nos alcançasse.
Poate de mult s'a stins in drum
In depàrtãri albastre,
lar raza ei abiâ acum
Luci vederii noastre.
Talvez há muito já se fora
no longe azul o extinto astro;
porém seus raios só agora
ao nosso olhar mostram seu rastro
Lcoana stelei ce-a murit
Incet pe cer se sue;
Erà pe când nu s'a zàrit,
Azi o vedem ti nu e.
A aura da estrela que morreu
grimpando o céu se faz dar fé;
era, e ninguém a percebeu,
hoje que a vamos, já não é...
T ot asdel când al nostru dor
Pieri in noapte-adâncã,
Lumina stinsului amor
Ne urmàr~te incà.
Nossa saudade se faz dor
e na abissal noite se finda.
Porém a luz do extinto amor
os nossos passos segue ainda.
Por Mihai Eminescu, o favorito de seu avô, reflexo da mente conturbada contemporânea de seu neto, Lucian Moldoveanu. Antes mesmo de despertar, um pensamento interrogativo surgia, pois que tipo de pessoa dedicava um poema a um amigo? Um amigo que fazia da sua mente uma oficina de abalos sísmicos.
⁸ Em português, "- Mãe, como você e meu pai se conheceram?"
⁹ Em português, "- Como soube que o amava?"
¹⁰ Um poema de Mihai Eminescu.
Espero que tenha gostado do capítulo de hoje, lhe desejo uma boa semana, até a próxima ☀️