CAPÍTULO 12: LILÁS AGOURO
Em plena quinta-feira, um dia frio, o estado não se alterou, pelo contrário, permanecia intacto desde o último movimento. Estavam juntos em uma sala de estudos, o grupo inteiro seguia um rumo tênue da linha de uma lâmina cega, não por deixarem de afiá-la, oposto disso, cortavam o ar e reverberando o seu corte um nos outros. Assim, acabavam a cegando rápido demais, criando aquela tensão que se tornava padrão.
A sala estava repleta de informações, haviam reservado aquele espaço para se dedicarem ao projeto de corpo alma, durante os intervalos, nela coexistiam cadernos abertos e livros empilhados, nas mesas e no chão. O aroma de café em suas garrafas térmicas era evidente até demais, além do doce cheiro mesclado a outro mais forte e amadeirado.
Pedro seguia ajeitando repetidamente o seu óculos a cada comentário cínico e maldoso de Carlos, que naquele momento, só seguia fazendo isso por diversão, pois seu próprio trabalho também estava estressante. Ser dupla de Kael era concordar em discordar mais do que pestanejavam, seu sarcasmo não funcionava nele como agia em Pedro.
Camila, Silvia e Marina estavam em uma mesa redonda, apesar de Marina ter seu próprio tema a parte das duas à mesa, ter seu fluxo de pensamento diminuído pelo farfalhar de ambas era melhor do que estar próxima daqueles garotos cheios de marra e bronca. E claro, Lucian seguia em um assento baixo, acolchoado, no canto, entre uma estante e a parede, bem escondido.
Como se tratava de uma sala de estudos com um debate bem acalorado, começaram a seguir regras implícitas e as organizar através da lousa, o diagrama, com conexões e sínteses. Até o momento, havia quatro pilares no diagrama que Kael desenhou, acompanhado por pequenas frases que tinha grifado em alguns textos nos diversos livros.
O ar rarefeito e pouco sóbrio, carregava a energia das mentes férteis prestes a colidirem, quando Miguel teve uma ideia. Esfregando as mãos, de pé diante do quadro, com um sorriso de general prestes a travar uma batalha que promete ser gloriosa, exclama:
— Certo, time, a fase da primeira coleta cessou, daqui a pouco o intervalo acaba e precisamos saber onde cada um está — aponta para sua colega. — Agora é a hora de forjar o aço, Silvia, poderia registrar os pontos-chave?
Ela estava tensa igual todos naquela sala, optando por se levantar e se aproximar da lousa para anotar enquanto comentavam sobre suas respectivas divisões. — Registrando, podem prosseguir!
— Vamos começar pelo alicerce. Pedro, o Pilar Clássico. Nos fundamente.
Erguendo-se com a postura de um professor, com um compilado de papéis, retira um com um resumo impecável, ajusta o óculos redondo e começa:
— O arcabouço clássico é inescapável. Em Édipo Rei, a condição humana é uma armadilha tecida pelo destino e pela arrogância. A busca por conhecimento leva à ruína. É uma visão pessimista e estrutural. Em contraste, nas tragédias shakespearianas, como Hamlet, o conflito é interno. A condição humana é a paralisia perante a escolha, a corrupção da alma pela inação. A conclusão é que, no cânone ocidental, somos joguetes de forças superiores ou de nossas próprias falhas de caráter.
Sem sequer um mínimo suspiro, leu depressa e robótica a sua síntese do modo mais breve que encontrou. Com um sorriso pleno, satisfeito, senta-se e revira os olhos para Carlos que se levanta em puro trejeito de desdém. Não perdendo um segundo, segura um sorriso cínico estampado em seu rosto.
— Muito bonito, Professor. Mas é uma cortina de fumaça. O que o seu cânone convenientemente ignora é a podridão cotidiana. — Ele se inclina para frente, apoiando um pé em uma cadeira. — O Pilar Social, que eu e o Messias aqui pesquisamos... — segue com um gesto ofensivo para Kael — Mostra que a tal condição é só uma desculpa para a hipocrisia.
— Certo, chega — Miguel intervém, prevendo a possível briga verbal que dali sairia se ele continuasse. — Está perfeito, Pedro. Isso nos dá o alicerce, e agora a casa é nossa — exclama, direcionando o olhar. — Carlos, o Pilar Social. O que a podridão do mundo tem a nos dizer sobre a condição humana?
Este que ainda estava surpreso e indignado por ter sido interrompido daquele jeito pelo líder do grupo, se desfez de sua pose e seguiu até uma estante para se encostar nela, com um sorriso seco, pouco nobre.
— A condição humana é uma luxúria burguesa. O que existe de fato são condições materiais. Ele pega seu exemplo de Vidas Secas. Fabiano não sofre de uma angústia existencial. Ele sofre de fome. De sede. A condição dele é a de um animal de carga, e a literatura só serve para documentar isso, não para filosofar. É um retrato da alienação causada pela base econômica.
Carlos tenta o máximo que pôde não usar a entoação de seu cinismo costumeiro, vacilando aqui e ali, contudo, seu sorriso rude aumentava cada vez mais ao olhar para Kael. Este, por outro lado, tinha seus olhos soltando faíscas, aquele era um debate que já tiveram mil vezes, e ele adora.
— E é aí que você erra, reduzindo tudo a economia. A condição não é a fome, é a consciência da fome. É a memória de Sinhá Vitória de uma cama de couro, é o desejo do menino mais novo de aprender histórias bonitas. É essa centelha de humanidade, de desejo por algo mais, que a opressão tenta apagar e não consegue. Isso é a condição humana: a chama que não se deixa extinguir, mesmo na mais completa miséria. É o que gera a revolta.
Todo aquele debate começava a restaurar aquele ar austero de antes de decidirem dar a voz uns aos outros. Lucian não conseguia raciocinar e sequer criar algum pensamento coerente nessa situação. Seu choque em relação a quão rápido se respondiam e o pouco que entendia do que estavam falando era maior, rendendo a ele apenas a leitura da nuance vocal.
— Revolta? Que revolta? A revolta dele é um miado de gato faminto. É ineficaz. Você romantiza a pobreza, Kael. A sua chama é o ópio que distrai da necessidade real de uma mudança estrutural, não dessa bobagem libertária de despertar consciências uma por uma. A crítica não é sobre ser ativista ou não, mas sobre método e análise: revolução cultural versus revolução material.
E essa nuance evidenciava claramente uma briga, daquelas bem feias, as quais queria se manter bem longe, mas como sairia daquele lugar, sem acabar chamando a atenção e sendo então o alvo de qualquer coisa que estava nas mentes ali presentes?
— Isso não é literatura, é panfletagem! Ambos! — Exasperado, Pedro se levanta e se coloca entre os colegas — Estão forçando uma leitura contemporânea em obras que devem ser analisadas por sua estrutura e universalidade!
Não havia como, no entanto, as colegas próximas, na mesa redonda, pareciam saber como acalmar aqueles três. Marina, que havia ficado em silêncio, traçando linhas entre os nomes dos pilares em seu caderno, fala, observando seu caderno.
— E se a estrutura universal for justamente... essa briga? — Ela olha para eles. — O Pilar Interior que pesquisei... a metamorfose de Kafka, a loucura de Machado de Assis... Mostra que o conflito é interno. É a pessoa contra a imagem que tem de si mesma. O que o Carlos chama de condição material e o Kael chama de chama... talvez sejam a mesma coisa vista de fora e de dentro.
O silêncio reinou por um breve instante, ela conseguiu criar uma ponte teórica que unia tudo, sem grande fundamento na tese, ocasionando em apenas um conceito vago. Portanto, o impasse prático permaneceu, precisavam fundamentar de forma válida ou achar algo a mais para complementar, a menos que quisessem continuar com a discussão.
— Então temos um problema. Dois eixos de análise que se negam — Esfrega a têmpora, pensativo; ele não está olhando para Lucian, está genuinamente preso no problema que ele e Carlos criaram. — A visão materialista de Carlos, que esmaga o indivíduo, e a visão existencial que eu defendo, que o eleva. Como apresentamos isso na Feira sem parecermos desorganizados? Como integramos essas visões sem que uma anule a outra?
— Não integra — Carlos replica. — Colocamos em choque. Deixamos o público decidir.
— Isso é academicamente irresponsável! Precisamos de uma síntese! — Nesse ponto, Pedro já havia guardado seu óculos e se exaltado.
Miguel sabia que seu dever como líder era mediar e encontrar uma saída justa para todos, percorria o quadro, o diagrama, os pilares, e então, pousam, por acaso, na figura quieta e trêmula de Lucian, no canto da sala. Não pensava em incluí-lo descaradamente, mas sabia que ele poderia dar outra visão, ele era de outro lugar e portanto, entregaria uma dicotomia diferente.
— Talvez — balbuciou —, talvez a síntese não esteja na teoria, mas na prática de outra cultura. — Sua voz propositalmente mais lenta, ponderada. — Carlos, você fala da opressão material como uma verdade universal. Mas e se, em uma cultura que viveu sob séculos de opressão material diferente da nossa – não capitalista, mas feudal, ortodoxa, soviética – a resposta não tenha sido nem a resignação animal nem a revolta libertária, mas algo completamente diferente.
Se era uma afirmação ou uma interrogativa, não sabiam, era algo no ar, do qual rarefeito, surgiu neles à mente essa austeridade. O grupo inteiro se reuniu implícita e sincronicamente para olhar Lucian, a pergunta não dita estava sendo dirigida a ele, se aquela lógica anterior era universal ou não, pois se não fosse, ele poderia saber.
Lucian era a única testemunha capaz de responder sob um viés estrangeiro, logo, o silêncio se transformou, sem tensão de morte, mas intelectual. Carlos franzia o cenho, avaliando, pois burro não era, a objeção de Kael era válida.
— É um ponto justo. O materialismo dialético exige que se considere o contexto histórico específico. — Ele se vira para Lucian, seu olhar é o de um investigador diante de uma nova peça de evidência. — Romênia. Região de camponeses, boyares, depois satélite soviético. Sobrevivência através da submissão e do humor ácido. É isso? A condição humana aí é a resignação cínica?
A pergunta abrupta é brutal, quase cruel em sua frieza analítica, mas é honesta, é como Carlos se comunica. Lucian, interpelado não pela emoção, mas por um debate de ideias no mais alto nível, se vê forçado a responder no mesmo tom. O português saindo com dificuldade, mas com uma urgência nova:
— Não resignação... resistência silenciosa — ele os encara, um fogo súbito em seus olhos. — Meu avô... ele não era um animal resignado. Ele era um homem que carregava sua cruz, porque acreditava que o mundo material era passageiro. A condição não era a miséria, era a fé. Era o que impedia a alma de se tornar — respirava fundo, precisava pensar antes — como a do Carlos diz — Ele olha para Carlos, temendo a agressão que Kael alertara. — Não é cinismo. É luto pela vida que se perdeu, mas fé na que virá.
O silêncio que se seguiu carregava um peso, mas não reverberou como se fosse constrangedor. Era um silêncio de mentes processando uma nova variável. Recebiam uma nova visão das coisas e precisavam sintetizar bem rápido, pois o tempo parecia correr.
— Resistência silenciosa… — Pedro anota algo, murmurando —, uma terceira via entre a revolta e a resignação. Fundamentada na tradição e na transcendência... Fascinante.
Miguel parecia brilhar, ascendia-se como se fosse o mais divino raiar de uma estrela nova, assentindo lentamente, com um sorriso tímido. Precisavam finalizar, estava ciente, e pela primeira vez, Lucian sentiu conseguir ler pelo menos a superfície de seu colega. Este o olhava como se Lucian fosse a chama que não se apaga de uma lenda ancestral; estava abalado novamente por aquele olhar.
— Luto e Fé — começou, Miguel. — Isso não é um pilar. É a argamassa que pode unir os outros. Mostrar que a condição humana não é uma resposta, mas a pergunta que cada cultura responde à sua maneira — ele olha para o grupo. — Precisamos de uma sessão sobre essa resistência e sintetizar na próxima vez. Lucian, você pode levantar autores da sua terra que mostrem isso?
Lucian assentiu silencioso, acompanhado pelo som alto e atordoante do sinal da escola, marcando a hora das aulas das DEOs. Apesar de ter apenas a primeira hora, Kael ainda faria mais outras naquele dia, completamente ocupado. Não era necessário evitá-lo, precisava apenas não se engajar em suas doces conversas.
Espero que tenha um bom início de semana! Até a próxima ☀️