CAPÍTULO 13: NEFASTA LINGUAGEM
Naquela sexta-feira, primeiro de março, o raiar naquele céu marcava o dourado, um calor intenso em plena manhã. Continuou sendo assombrado por sonhos sem sentido, daqueles que mal se lembram quando acorda, porém que perpetuam com a sensação de ainda estar nele, durante o dia.
Pouco tempo fazia que tinha chegado à escola, o que não foi motivo para poupá-lo das barbáries sussurradas de outrem, comentavam falaciosamente sobre ele. Chamaram-no de descarado e sem vergonha, e mais um termo que não conhecia, provavelmente uma gíria, tala- alguma coisa.
Assim que avançou mais um pouco, reconheceu quem eram seus comentadores da vez, ambos os grupos de Miguel estavam conversando entre si. De forma bem honesta, não estava com cabeça para lidar com isso, seguiu reto por eles, por todos ao seu redor, em silêncio, sem desviar o olhar de seu caminho.
Ao decorrer das aulas, percebia o olhar de Kael em si, pesando algo, contudo, sem a mesma dor que o olhar dos outros causavam. Talvez ele não soubesse o motivo dos boatos; quando conseguiu pegá-lo nesse jogo de mira e vira, Placa sorriu com o semblante mais calmo que já vira.
Entretanto, essa paz entre nós não significava muito, encará-lo em um diálogo não estava em seus planos, ao ressoar do último intervalo, o que antecede as DEOs, correu, não literalmente, mas ligeiro, para o refúgio. A biblioteca daquela escola permanecia intacta, Silvia, apesar de ser voluntária, não estava lá, o que foi motivo de agradecimento mental por parte de Lucian.
O livro que aguardava, enfim, poder continuar, naquela cena da chuva, a confissão, poderia esperar, pois em seguida de alcançar o conforto no fundo da sala, foi encontrado. Como se por ironia conspiratória do universo, seu sol particular estava ali, com um sorriso charmoso, cínico, conversando com a bibliotecária.
Ela ria bastante de alguma coisa que ele conduzia a conversa até que aquela senhora apontou para si, no fundo daquele lugar. Não havia lugares secretos para pessoas em fuga constante, porque também não haviam locais em segredo para o seu maior leitor, quase um fã.
Ele seguiu a rota como soubesse que não ia fugir a sua presa, beirava a ser um belo sabichão. Porque era verdade, não pretendia fugir, havia concordado consigo mesmo em não fugir, só precisava seguir o restante, não engajar mas tentações do diabo.
— Meu caro, Lucian, fugindo para a ficção de novo? — sentou-se à frente dele, em outro assento acolchoado, observando o livro. — Um romance, o mesmo ainda, hein — balbuciando com aquela entonação de quem provocava por pura diversão. — Está caçando na literatura o que você evita ter na vida real?
Por um breve instante, sufocou nas diversas palavras que pensou em exclamar, no entanto, se continuasse nessa, acabaria em silêncio, e sua quietude era lida como confirmação naquele contexto. Precisava responder a altura, sem se engajar nas armadilhas que começavam a ser seu ponto fraco de fato.
— Não comece com suas conversas estranhas, percebi que quer contar alguma coisa, só diga.
Foi entregue por ele, um franzir do cenho acompanhado de uma respiração que parecia cessar, não sabia se Miguel estava sério ou prestes a gritar consigo, não era uma expressão comum dele. Ele não respondeu rápido, procurou em Lucian algo do qual o próprio não sabia, ambos se observavam em busca de um quê não declarado.
— Não gosta das nossas conversas?
— Eu não disse isso.
Respondeu rápido, muito rápido, não pensava que sua resposta causaria aquela reação e nem mesmo aquele tipo de pergunta, o peso daquele estado era sua culpa. Talvez tivesse sido rude sem perceber, o que precisava ser corrigido, pois ainda acreditava que não se ofusca um sol.
— Me desculpe, eu realmente não quis dizer isso.
O momento de observação cessava, Placa desviara o olhar com o brilho enfraquecido, estava começando a se sentir mal pelo que fizera. Poderia jurar por tudo que aquela não era sua intenção, no entanto, não foi necessário, a expressão perpetuava, mas ele seguiu.
— Certo, claro que não quis — iniciou, carregado daquele peso. — Você se lembra de quando escolheu as Disciplinas Eletivas Obrigatórias e um dos monitores voluntários do projeto para te ensinar em casa? — Era retórica a sua pergunta, antes de Lucian responder, cortou-o. — Então, fui avisado que fui escolhido. Seu pai já foi avisado, depois da escola estarei contigo, para ensiná-lo.
Com certeza não deveria tê-lo respondido daquela forma, sua seriedade e franqueza era algo árduo de se lidar, mesmo acreditando que havia dito pouca coisa, talvez sua entonação soasse áspera. Sua desculpa poderia não ter soado verdadeira, pois algo ainda marcava isso, sua própria expressão, talvez, estivesse marcada por algo que não sinceridade.
— Eu te escolhi porque confiei em você desde aquele dia, perdão se te causei algum mal.
O olhar sobre si retornava, pairando ainda aquela pedra de Sísifo, acompanhado por um sorriso fraco, não suficiente. Deveria demonstrar sua genuína e pura sinceridade na afirmação anterior, talvez, se engajasse um pouco, não fizesse tão mal assim.
— O que quer dizer com evita? — Iniciou, aproximando-se vagarosamente de seu colega à frente. — Não acho que seja fuga, Kael — inclinou-se pouco, deixando o livro na prateleira ao lado. — Mas, e você? Por que está na biblioteca comigo; me assistindo ler?
A cena foi lenta para ambos, o olhar de Miguel acompanhou cada gesto de seu colega que parecia prendê-lo em algo maior, assistiu a mão dele descer da estante e pousar em seu joelho. Ambos não entendiam bem as intenções de Lucian naquele instante, nem mesmo durante o silêncio que seguiu pelos dois.
— Eu, eu não quis dizer nada, nada muito, é — começou, desviando-se do olhar de Lucian. — Evitar nem sempre é fugir, pois, é, bem, é possível estar no mesmo cenário que, que um monstro e não sair correndo. — Dizia, observando as estantes ao redor e brevemente a postura de Lucian. — Mas, estar no mesmo ambiente e fazer nada a respeito, pode ser visto como evitar.
Lucian, que estava igualmente nervoso, sorriu e com um riso fraco, retirou a mão e virou-se, encostando contra a estante, ainda observando-o, sentia que havia o hipnotizado. Pois aquele olhar era de um peso diferente, acompanhava-o como se pudesse sentir a sua alma através das lentes que espelham o mundo mental.
— Então, se estou evitando e não em fuga, você seria o monstro, Kael? O que eu deveria fazer a respeito de você? A respiração dele parecia se cortar novamente, Miguel estava em um silêncio íntimo, diferente dele mesmo, não conduzia e nem ansiava por isso. E Lucian sabia que ele estava permitindo que conduzisse por conta própria aquele momento.
— Se eu for o monstro, Lucian, significa que você está me evitando. E pior, não é por medo, então há algo que te faz não querer me enfrentar que é maior do que isso. Se não correu e permaneceu no mesmo espaço ainda, mirando-o às vezes, talvez — o brilho voltava, e virou-se também, sentando ao lado de Lucian —, sinta atração pelo monstro.
Já era tarde demais quando percebeu onde seu engajamento está os levando, seu colega estava brincando de flertar de novo. Mas não podia aceitar que brincasse consigo desse jeito, principalmente ele, não poderia manter em silêncio o que podia acontecer.
— Se fosse atração, ele já teria dito. Não acha, Miguel?
— Quem sabe, pode ser que algo o impeça de dizer.
— E por que o monstro não diz? Ele é quem está cercando quem o evita.
O silêncio dos olhares afiados, próximos, entre ambos era fervoroso. Miguel ria porque sua provocação estava dando certo como sempre e Lucian sorria porque estava sendo queimado pelo sol, sabendo que um pouco faria bem para a saúde, mas que aquilo já era demais.
— Bem, Lucian, o monstro pode ter suas razões para estar perto, pode bem ser que não seja atração, mas só curiosidade. — Se fosse só curiosidade, já não deveria ter partido? Faz tempo que está próximo.
— Meu caro, Lucian — começou —, talvez a curiosidade acerca da humanidade esteja saciada na questão teórica, pois observou apenas.
— Como saciaria a fome de um monstro de forma prática?
— Bem, se for atração da parte do humano, ele pode se deixar ser devorado pelo monstro.
O intervalo havia passado rápido demais, aquele ressoar, no entanto, prometia mais do que só aquilo, aquela conversa continuaria. Em seu quarto. E pela primeira vez, ansiou poder continuar uma conversa estranha de Miguel, sem porquê evidente, mas sentia que seriam bons amigos, se permitisse.
Funfact que talvez não seja tão fun, amanhã — 29/12 —, seria o aniversário de Lucian, caso ele fosse real. 🫶 Na narrativa, a história acontece em 2019, então, nesse caso, ele estaria fazendo 23 anos. 🎉
Espero que tenham gostado do capítulo e tenham uma ótima semana pela frente, até a próxima ☀️