CAPÍTULO-ESPECIAL 13.5: SONÂNCIA DE PELÁGO
A alvorada acordou com a leveza de uma pena azul, suave e insistente, da janela que se estendia de um canto ao outro e do topo ao chão, refletia os primeiros feixes de luz daquela sexta-feira calorosa. Do outro lado, um saí-azul ciscava na varanda suspensa, sem intenção de causar coisa alguma.
Lucian estava absorto na penugem azulada e nas asas negras em contraste às pernas rosadas do pássaro, mal havia amanhecido e o calor fazia-se latente. Quando tomou força para se levantar, conseguiu levar água no copo para a ave do lado de fora, sem assustá-la.
Com êxito, vestiu-se a tempo de o ver voar para longe com uma tranquilidade sob aquele azul sem fim. Partiu para o andar debaixo, realizando o desjejum e seguindo em frente para o último dia útil da semana, mesmo que em um primeiro de março.
O ambiente escolar já não era novidade, hostil e infernal, simplesmente deprimente, não existia advérbio o suficiente para aplicar alguma intensidade a mais em seu desgosto. As pessoas em ilhas, rodas, círculos e circuitos eram o ruído de sua manhã, com as suas ladainhas sem pé nem cabeça.
Seu breve encontro com o peso do olhar de Miguel sobre si, quando atravessou ambos os grupos que mal diziam a respeito do estrangeiro, carregou um queísmo cheio de tensão. O sorriso calmo e cego dos boatos atrás dele beiravam uma variação de armadilha, tal qual a perseguição de um gato contra um rato.
As primeiras aulas decorreram com aquela abstração crítica de sempre, cheia de seus critérios e requisitos interpessoais, cujo o próprio não conferia. A pulsão por uma distração recaiu sobre os ombros dele, ansiando algo que o levasse a crer no que não é real.
E com a ironia divina do universo que culminou diante o seu destino, seu colega do sorriso travesso o convidou para passar tempo durante o intervalo, juntos. Era óbvio que não havia negado, aceitou de imediato, entregando um riso nasal contido, deixando claro que percebeu a travessura deste convite.
Foi guiado uma segunda vez para os cantos cobertos por faixas amarelas da escola, os blocos que precisavam de reforma, mas não do tipo que precisam ser rápidos. As plantas rasteiras se erguiam contra as construções, grande parte delas com enormes vitrais, recriando um mosaico in natura.
— Você sabia que a escola tem um jardim secreto, Lucian? — afirmou mais do que perguntou, o observando pelo canto dos olhos, risonho.
— É para lá que está me levando?
— Pretendia te levar no anfiteatro antigo, mas se quiser, te levo no jardim.
— Você acha que dá tempo de ver os dois?
— Bem, são vinte minutos de intervalo, então talvez dê.
Não demorou muito e ambos estavam de frente com a porta monumental do anfiteatro, era desnecessária e profundamente bela. A construção externa recebia os adornos clássicos com uma dosagem equilibrada de ornamentos até no interno, porque quando Miguel destrancou aquela monstruosa porta, o interior do lugar — não tinha palavras para descrever.
Parecia uma cúpula sagrada ou até mais, a estrutura de madeira escura com o piso de ardósia esverdeado contrastavam com a pintura no teto que seguia facilmente um modelo renascentista. Em alguns pontos, havia castiçais desenhados em sua base com lírios em sua mais bela forma.
Poderia continuar observando por toda a eternidade cada mínimo detalhe, se não fosse pela porta se fechando atrás de si e uma mão em suas costas o guiando pela escadaria acima. Seu guia contava algo sobre a história do local e a visão de cima ser melhor para contemplar a debaixo.
— Você tem razão, é sublime — replicou, deslumbrado.
— Que bom que acha isso, mas sabia que o “ão” é um som fechado e nasal, certo? Não precisa dizer “záum”.
— E você só me diz agora?
— Ah, e o “r” é mais gutural, se não usar direitinho pode ficar confuso.
— Como ficaria confuso?
— Certo, pensa assim, qual a diferença entre carro e caro?
— Perdão, o quê?
— E avó e avô? — continuou, segurando um riso.
— Calma, é a mesma palavra.
— Lucian, observe eu falando — disse, representando lentamente — “a-vó” é um som aberto, olhe “a-vó”. Mas “a-vô” é um som fechado, aqui, fica menor “a-vó”, “a-vô”.
— Eu vi, não tinha percebido isso — afirmou, desviando o olhar.
— Relaxe, quer tentar você sozinho?
— É um pouco estranho isso, eu queria tentar o “r”, mas não entendi como faz esse gutural.
— Aqui, Lucian, observe — chamou, se aproximando. — “carro” e “caro”, a língua na palavra carro desce, enquanto “caro” ela bate contra o céu da boca.
— Ca-ro e car-ro, não, calma, foi errado.
— Quase lá — mentiu, suavemente. — Mas deixa eu ver… — sem cerimônia, mas com uma leveza calculada, Kael ergueu a mão e envolveu o pescoço de Lucian, logo abaixo do maxilar. — Aqui. Tente de novo, você vai sentir uma vibração, o som desse “r” gutural vem daqui, é mais profundo.
Lucian ficou imóvel por um instante, segurando o fôlego em pleno abalo sísmico, por um instinto bruto e sem noção de consequência, segurou com uma mão o pulso de Miguel, forçando-o a se aproximar. A aula tinha acabado de ficar muito, muito mais interessante.
— Caro e carro; é eu senti — replicou rápido, liberando o fôlego em um sopro corrido.
Kael, por outro lado, manteve a mão por um segundo a mais, sentindo o músculo se contrair contra a pele, antes de recuar. Aquele sorriso acompanhava um olhar travesso com uma luz divertida, já Lucian assistia isso sabendo estar se queimando ali.
— Tenta de novo. Razão.
Lucian olhou para os lábios de Miguel, que formavam a palavra com uma beleza quase musical. Ele já não estava mais interessado no sistema linguístico, seu interesse naquele instante era na língua, a fonologia de seu colega, ali na sua frente.
— Kael — começou Lucian — Em romeno, “Aveţi dreptate” é mais seco. Como um estalo. A sua “razão” é mais predatória, como se eu pudesse me afundar.
Assistiu seu amigo arquear uma sobrancelha, como se pressentisse a travessura mútua que estava por vir. A brincadeira seria devolvida e elevada a um nível do qual não esperava alcançar; sugestão implícita do riso contido que, apesar de não ser zombeteiro, trazia consigo um encantamento genuíno.
— E por qual razão você se afundaria, Lucian? Onde mergulharia?
— Porque situações assim — divagou ao inclinar-se para frente, invadindo o espaço pessoal de vez do seu colega com uma ousadia recém-descoberta — me fazem pensar que você é o oceano, enquanto sou apenas algo que deságua.
Miguel riu, baixo. Estavam ao lado do corredor de assentos que desciam em sequência pelos degraus abaixo, do topo daquela campina acadêmica, o ar tornou-se rarefeito. Este, entre eles, estava agora carregado, denso, o não dito pesava comicamente.
— Andou escutando músicas brasileiras, Lucian? — perguntou em meio a sua contenção do riso.
— Talvez — balbuciou, empurrando um pouco o seu amigo, seguindo em sequência para a última poltrona daquele corredor.
— Isso significa que mergulharia em mim?
— Eu não sei nadar — respondeu, assistindo Placa se aproximar. — Mas se é para afundar, acho que faz sentido eu mergulhar mesmo assim.
— Nem sempre se afunda quando não sabe nadar. Às vezes, você flutua e segue o fluxo da maré.
— Mas, dessa forma, eu não tenho controle nenhum a respeito de onde eu vou.
— Bem, as marés são regulares, então, de certo modo, o oceano é estável. Você não precisa se preocupar com o controle, ele mesmo pode te guiar.
— Acho melhor irmos ao jardim, Miguel.
— Vamos então.
A amargura cedeu espaço em complemento ao silêncio, alheio da fuga que havia selado a paz de Lucian em cativeiro. Quando chegaram à porta, tentou abri-la e não conseguiu, recebendo um riso nervoso do representante da sala. Ele tentou abri-la também, sem êxito.
— Acho que o universo quer te ver comigo, hein — brincou, observando a angústia de Lucian.
— Está brincando comigo?
— Fique tranquilo, querido, vou pedir para alguém nos tirar daqui.
— Dracu — replicou, enraivecido, vagando para o pátio.
— Perdão, a situação é realmente infernal — proferiu, seguindo Lucian.
— Não — exclamou, se voltando contra Miguel — Ești diavolul.
— Eu sou o diabo? Meu bem, por que eu sou o diabo? — replicou sério com um sorriso travesso.
— Cínico, você é um cínico — afirmou, apontando para o rosto de Miguel, em especial para o sorriso largo que continuava firme, como quem ama o caos e o elogio.
— Ahan, querido, mas por que, hein? — perguntou após clicar em algo no celular e guardá-lo.
— Você fica me tentando e no fim é só uma brincadeira. Ce a cu tine?¹
— Não precisa ser só brincadeira, se você quiser pode ser real, Lucian — ofertou, próximo o suficiente para fitá-lo nos olhos e a uma distância segura para se distrair de cair de vez.
— É mais seguro acreditar que é irreal — recuou um passo, desviando o olhar.
— Tente acreditar no irreal de verdade, não só no que é seguro acreditar — afirmou, pousando a mão entre o ombro e a nuca de Lucian.
— Por que quer tanto que eu confie em você? — perguntou, cedendo à proximidade.
— Quando você confia em algo, não fica tudo mais fácil?
— Mas você não é fácil, Kael.
— Você também não é, Lucian. Mas, se quiser, posso ser fácil para você — ofertou, novamente, com aquele sorriso travesso.
— O que quer dizer com isso? — indagou, sugerindo com o olhar, saber bem do que se tratava, vagando para o ponto fixo de sua ânsia.
— Quer mesmo descobrir? — demandou, encostando as testas em um sopro de desistência.
Entre a tensão do sol contra a cruz, o inferno se acendeu queimando a madeira e fervilhando em cadência o fruto do pecado, na mente de Lucian. Se aceitasse a sua sina de uma vez, poderia ter paz em seu leito de morte? Poderia viver bem se recusasse a si mesmo o seu desejo?
O que não era importante, de repente, a porta foi chutada e Bento apareceu, orgulhoso de seu feito — salvando os príncipes da prisão do castelo — riu muito e partiu, após vê-los juntos e tão apressadamente sendo separados pela ocasião.
O sinal ressoou pelo ambiente escolar, mesmo a distância, este retumbou nos corações em chamas daquele espetáculo confidencial. Miguel se desculpou brevemente pelo susto e ambos seguiram para a saída, quando ele para Lucian contra a porta.
— Na próxima eu te mostro o jardim, o que acha?
— Vai agir como uma serpente?
— Eu com certeza vou oferecer o fruto novamente.
— Acho bom, então — balbuciou, desviando o olhar.
Antes que seguisse, seu colega o voltou contra a porta de novo, segurando o seu rosto levemente inclinado para cima, entregando um selar breve. Sumindo em seguida para o seu pescoço, entregando uma mordida de força calculada, por instinto, pousou sua mão no cabelo dele, sem pretensão de deixá-lo partir.
— Doamne…²
Quando ele soltou a sua pele, deixou um beijo sobre a marca e outro sobre a testa de Lucian, deixando-o ali com o que pensar sobre a sua ousadia travessa. Se a alvorada carregou leveza algum dia, de fato, aquela trazia consigo uma troca com o que há de leviano nesse instante.
¹ Em português, segue um sentido de confronto: “— Qual é a tua?”.
² Em português, sugere um tom íntimo ou de lamento: “— Meu Deus…”.
Espero que tenham gostado do capítulo especial em comemoração aos 1k lidos nesse livro, agradeço às leituras e aos comentários maravilhosos de vocês! Desejo-lhes uma ótima semana, até a próxima! ☀️
Obs: O capítulo, por ser um especial, não pode ser considerado canônico, o que difere dos extras que fica a critério do leitor se vai considerar como canônico ou não. 🫶