CAPÍTULO 14: NEFASTA LINGUAGEM – PARTE II
Não se importava com o abrupto desalinhamento de sua alma, ele tecia linhas a mais, então tinha permissão para cortar algumas partes e lê-las como bem quisesse. Não era uma confissão da mente, mas de seu coração que permaneceria longe do alcance de seus pensamentos conscientes.
Se quisesse, poderia ter ido embora e aguardado em casa por sua aula privada com ele, pois não tinha uma DEO sequer naquele dia. No entanto, o convite para conhecer a sala de instrumentos, enquanto Kael resolvia uma questão com a banda, parecia uma ideia muito boa.
E de fato foi, eram belos e o local tinha a acústica perfeita, Miguel mostrava uma nova face naquela discussão com o grupo. Ele mantinha uma seriedade, uma firmeza, uma liderança marcada pela assertividade e segurança do que estava propondo.
Ao decorrer dessa conversa, Lucian se manteve sentado em uma mesa extensa, rústica ao extremo com pirografias em ambos os lados. Em contrapartida, Miguel segurava uma baqueta, ele havia pego do Eduardo, o baterista, pois estava batucando e fazendo piadas durante a discussão.
O calor daquela tarde era notável em todos daquele cômodo, os picos em rosa dos espinhos do cabelo de Placa estavam desbotando. Seus olhos marcavam um cansaço sóbrio, parecia muito bem composto, com a postura correta, porém tranquila, com um sorriso doce, mas sem que permitisse abertura para desvios.
Havia passado um breve tempo, quando percebeu que estava conseguindo acompanhar algumas palavras soltas na discussão rápida e acalorada. Discutiam sobre a música e presença de palco para a próxima apresentação, no próximo semestre; demoraria, tinham meses ainda, contudo, pelo tom da conversa, parecia ser algo importante.
Estava pleno, observando Miguel em todos os sentidos e oscilando para a janela com seu feixe solar, guiando para o jardim da escola repleto de alunos em horário de clube. Quando foi convocado pela presença cálida e próxima até demais, estava a menos de um palmo de seu rosto no momento em que ouviu seu próprio nome ser sussurrado como se fosse um delito.
Estremeceu em um silêncio rigoroso e bem necessário, manteve bem a postura, mas acreditava fielmente que seu rosto havia entregado com um rubor escaldante. Pois a expressão de seu colega era a de alguém que havia conseguido o que queria, ou talvez, até mais. Miguel havia estendido a mão com a palma para cima, como se fosse um príncipe ajudando-o a descer.
O que não havia recusado, segurou e desceu da mesa no mesmo silêncio confortável, costumeiro de ambos. Saíram da sala e o ar estava ainda mais quente, como se respirar fizesse o processo de cozimento por dentro. Estava ansioso pelo fim do verão, pelo que havia pesquisado, em vinte dias e algumas horas, o outono chegaria com a sua brisa fresca.
— Se quiser que a aula comece mais cedo é só me avisar, Lucian — começou Miguel, quebrando o silêncio —, é você quem decide quando vamos embora para sua casa, hoje.
Um leve pulo de seu coração cortando a respiração lhe fez se engasgar em qualquer resposta premeditada, não esperava que ele fosse quebrar o gelo de repente. Entretanto, se fossem para a sua casa, poderiam contar com um clima mais frio ao menos, já que sua família nunca estava em casa, nem mesmo para as refeições familiares.
— Certo, claro, por mim tudo bem — balbuciou baixo, procurando pelo celular. Enviou uma mensagem para o motorista responsável por ele, naquele dia; ele chegaria logo. — Nós podemos ir sim, se quiser.
Ambos seguiram para a entrada, agora saída, da escola, já com as respectivas coisas, pouco havia passado quando o condutor chegou. A viagem presenciou um silêncio cômodo, uma viagem longa e quente, o trânsito estava agitado naquele horário. Pela primeira vez, prestou atenção no caminho como lugares reais, a praça e a biblioteca municipal, sempre passou por ali, e não havia notado antes.
Talvez fosse mais distraído do que pensava. O bosque continha diversos pássaros na grama, como se eles estivessem apreciando a vista. Por breve curiosidade, tornou a olhar para o lado, Kael estava sublime, o sol escaldante que derretia os corpos daquela cidade, nele esculpiam uma beldade.
O sol daquela tarde refletia em seu rosto, criando um reflexo dourado nas mechas de seu cabelo, em seus olhos criaram um novo conceito para preciosidade. Tal como se fossem um literal espelho para a alma, como o quadro de Dorian que carregava consigo a sua essência.
Nesse momento de observação, percebeu que era melhor retornar para o outro lado, a paisagem deveria ser contemplada também. Mas a figura se manteve, mesmo que composta, seu físico declarava o cansaço, e aquele sorriso era de quem estava sonhando e acordou ao lado de quem ama; sentia que finalmente chegou a uma boa definição.
Estavam no condomínio e mal sentiu a pressão de estar perto, quando o motorista avisou que haviam chegado. Desceram na mesma quietude solene, confidentes, seguiram o rumo da mesma forma, nos diversos cômodos até o andar superior e, enfim, seu quarto.
— É uma casa linda, Lucian, ela tem seu charme — começou a sua vivacidade, acompanhada daquele estridente instinto. — Esteve me esperando? — seguiu até a escrivaninha, apontando para a segunda cadeira.
— Obrigado, e não, não exatamente — deixou suas coisas em seu devido lugar —, meu pai foi quem planejou a decoração.
— Entendo — confirmou, enquanto ambos se sentavam — bem, creio que você está indo muito bem no idioma pra quem disse que sabia só o básico.
— Eu estudei um pouco, mas também tive incentivo por meio de diálogos bem complexos — replicou, como quem respinga uma indireta, causando uma risada curta em seu colega.
— Sei bem, querido — observou a varanda suspensa —, como fui avisado só hoje que eu tinha um aluno, não tive tempo de planejar uma aula à altura. O que acha de continuar com o estímulo da linguagem?
— Pensei que o professor se apresentasse no primeiro dia de aula — Lucian replica com um sorriso leve, está em terreno conhecido, confortável.
— Está correto, Lucian — respondeu, revirando os olhos — mas creio que não é necessário.
— Sim, não é. Como sugere que continuemos?
— Bem, quem estava conduzindo dessa vez era você, tu quem sabe o caminho — exclamou sublime, com um olhar afiado.
— Justo. Então, se a atração for do monstro, como saciaria a fome de forma prática?
Miguel, que estava apoiado na escrivaninha com o cotovelo, deslizou e se deixou mostrar sua surpresa, seguiu desviando o olhar para a varanda. Já eram pouco mais de duas da tarde, quando bateram à porta, Lucian sorriu de canto com a ausência de resposta e se dirigiu ao som.
Haviam entregado uma bandeja com duas taças de sorvete, Lucian estava igualmente surpreso naquele momento, nunca alguém havia entregue algo do tipo em seu quarto. Ao fechar a porta, levantou suavemente a bandeja e inclinou a cabeça para fora, ambos seguiram para a varanda.
— Uma delícia, Lucian — não havia notado, mas já estavam acomodados e Miguel parecia estar falando — bem, se a atração for do monstro, para saciar, ele deveria consumir o alvo de interesse. É igual para ambos.
— Não acho que seja igual, um vai ser literalmente devorado — replicou, confuso.
— Não precisa ser literal, meu caro, há outras formas de consumir alguém.
— Certo, como?
O vácuo entre a pergunta e a resposta se estendeu mais do que o comum e uma variação de expressões em Miguel foram conciliadas a um riso contido. Conseguia vê-lo se desviar mentalmente de algo, pois observava tudo como se fingisse não saber desse algo.
— É comum ver em tropos clichês, por exemplo, a vulnerabilidade de uma personagem para trazer à outra, a sensação de que há reconhecimento. Pode ser considerado consumir, conhecer o outro.
— E nesse caso, o que saciaria esse monstro que já sabe a teoria da humanidade?
— Bem, se ele aplicar tudo o que sabe no alvo de interesse, possivelmente saciaria.
— E o que seria essa fome?
— Está monopolizando as perguntas?
Foi natural a volta que os olhos de Lucian deram, tal qual o diálogo que flutuava e rodopiava no ar com um pretexto de significado desconhecido. O sofá balanço recebia uma brisa quente e o sorvete chegava ao fim, ambos perceberam o silêncio que ficou e riram em conjunto.
— Comer tem muitos sentidos, Lucian, mas não sei qual é a fome do monstro.
— Quais outros sentidos?
— Bem, pelo menos aqui, sei que tem conotação sexual, então, dizer que o monstro quer comer o humano, não soa muito bem.
— Mas, como isso funcionaria?
— Como assim, querido? Um monstro comendo um humano ou um monstro comendo um humano? — questionou, enfatizando o segundo verbo; com uma expressão cômica.
— Não, como isso funcionaria, não é muito intuitivo esse conceito.
— Você quer dizer, o verbo sendo usado nesse sentido ou como esse verbo funciona entre um humano e um monstro?
— O segundo; não acho que funcione, Kael.
— Quer que eu te mostre como é?
A voz de Miguel falhou em um riso em meio aquela entonação francesa dos filmes românticos ao extremo, e assim que Lucian percebeu, entendeu onde a conversa estava caminhando. Claro, havia uma nuance na última pergunta, talvez ele mostrasse digitalmente, o que seria desagradável, mas na segunda possibilidade, seria saciar, de fato.
Decidiu levantar-se e deixar sua taça no sofá suspenso, seguindo para a barreira média de vidro, mesmo sendo uma ocasião estranha, o silêncio não criou tensão incômoda. Logo atrás, Miguel juntou-se e apoiou-se na mesma barreira, retornando à mesma aparência no carro.
— Cínico — replicou baixo, mas audível o suficiente para Miguel rir de sua afirmação.
— O que você acha que impediria o humano de ceder?
— A moral, talvez, ou medo. E se for nesse outro sentido, estranheza. Por quê?
— Por nada, meu caro — respondeu Miguel — Ah é, na próxima sexta-feira não tem aula. Se quiser, podemos sair e eu te apresento mais da cultura e da linguagem, assim mantemos uma aula ainda.
— Eu aceito.
Nem havia pensado antes de responder, mas a resposta estava na ponta da língua, na sóbria mente, na coragem rasgada no coração e na verdade de sua alma. Seu inconsciente estava trabalhando muito bem sozinho, sem sequer consultar.
Como de praxe, tenham uma ótima semana pessoas ☀️