CAPÍTULO 15: LANÇADO ÀS FERAS
Após o fim daquela aula introdutória, a partir da despedida de seu amigo, notou o remanso acolhido em seu espaço, com o véu dourado estendido sobre às altas voltagens da atmosfera. Acompanhado por um linho oceânico feito renda, nas bordas deste, não haviam festas na redondeza, sequer o canto de um grilo ou brilho de um vagalume.
Estava sozinho com o lapso temporal repetitivo e automatizado em sua mente, cada detalhe fora memorizado, categorizado e caracterizado algo a mais. A varanda suspensa suspendia o temor tangível, balançando-o em torno de uma brisa de questões.
Estava trêmulo e acelerado, tudo tinha um ritmo e uma pulsão, o espaço era feito de polares que se magnetizavam com perfeição. Chamá-lo de cínico não funcionava mais, não distraia sua mente, apenas traia sua emoção, minimamente.
Evitá-lo não mudaria nada naquele ponto do seu caminho, ainda seria real tudo o que houve, seu engajamento nesses diálogos também não tinham estorno. Poderia culpar a si próprio e só, por seu pecado, tanto à família quanto à crença, não deveria se deixar levar pelo momento.
No entanto, tudo era sim, muito claro, muito real, para ser descartado dessa maneira, não poderia reduzi-lo e fingir que não era nada, apesar de seu amigo forçá-lo a questionar, não o forçou a desistir, nem largar. Mas não havia como atuar uma falsa mesmice de antes, como se não houvesse adquirido uma nova visão sobre a forma das coisas.
Seu consentimento às condições fora questionado e levantava mais questões do que esperava; quanto de sua liberdade era esmagada em prol de uma virtude, que nem bem explorada era? O seu respeito e obediência era maior que sua existência naquela sociedade familiar.
Estava exausto de ser o bom moço cheio de tristeza, contudo, não tinha outra saída em vista, sua performance com as máscaras sociais Moldoveanu eram essenciais. Eram herança, eram a essência da sobrevivência, eram existir, era o que conhecia e sabia bem.
Quando dormiu, não sentiu, só apagou, não viu a brevidade e nem persistiu, e o mesmo serviu para o abrupto despertar de madrugada, seus sonhos atacavam-o. O seu pesadelo diário encarnava seu inconsciente neste mundo, suava frio naquele calor, tremia naquele inferno.
Precisava de um passatempo com alto grau de distração, daqueles que giram o trezentos e sessenta e rodopiam no próprio eixo, precisava agir feito um giroscópio. Era necessário se equilibrar na ponta do precipício, uma urgência maior do que a ânsia.
Sua semana foi a corrupção e a ruína, extremamente corrosiva; no sábado, estudou os tópicos da sala de aula e concluiu, no domingo, após a divina liturgia, sua pesquisa geral sobre os temas do grupo da Feira de Literatura. Na escola, sumiu como névoa, Kael o viu algumas vezes pelos corredores, na sala de aula e nas DEOs que faziam juntos, mas sem assunto aprofundado.
Tudo muito leve no sentido de tempo, porém muito pesado no quesito espaço, mesmo longe de Miguel, os olhares eram carregados de um quê desagradável. Seu estresse era notório, às vezes, encarava de volta e perguntava: “o que foi?”, ríspido, querendo saber do que tanto falavam a seu respeito.
E seu respeito era percebido como infame e pouco decoroso, manteve sua educação plena, mas seu tratamento contra seus grandes comentadores era bem mais do que só arisco. E esta mudança fez uma censura implícita em massa das vozes, que não se posturavam mais com aquela certeza de seus boatos.
Na noite de quinta-feira, foi assombrado de novo, breve, mas sombrio. Estavam naquela cena, juntos na varanda, próximos na balaustrada de vidro, Miguel se apoiava no parapeito, observando o pôr do sol refletindo na figura de Lucian, ambos riam e conversavam sobre a vida.
Mas não era só isso, carregavam aquela atmosfera viva e cálida, como se realmente pulsasse vida, sangue nas veias daquele momento. Havia um quê de íntimo, como se fossem em conjunto uma obra intimista do renascimento de algum artista superestimado.
E a proximidade a cada segundo era maior, acordou quando o fim esperado se aproximou, estava assustado e sem saber o que pensar. A confusão reinava em todos os territórios de seu ser, até os desconhecidos e mal explorados cantos da face real.
Enquanto ambos riam, conversavam e se aproximavam, o olhar era terno e carregado de um simbolismo esotérico, conectados mentalmente com a própria vontade. Miguel havia retornado com a postura correta, afastando os braços do parapeito e caminhando à sua frente.
Muito calor, estava suando naquele pós sonho, levantou-se e andou pelo quarto sem rumo, ainda recebendo os lapsos do que havia vivenciado naquele mundo. Frente à frente, ele o alcançou a estrutura, puxando com uma firmeza de quem precisa capturar, tomando-o em seguida em algo da paixão.
Não havia visto essa cena de fato, despertou antes de se concretizar os atos de seu inconsciente desgovernado, mas sabia o que fora feito. Sentia a calidez em seu rosto, a fraqueza de seus membros e o coração que pesava em uma densidade diferente, não fazia sentido algum as motivações para a construção daquele universo onírico.
Em meio a um suspiro provocado pela sessão de inspirar e expirar em viés de sua paz, precisava saber a razão daquele tormento, não conseguia mais aturar aquela tortura sem saber o porquê de ser alvo dela. No entanto, também sabia que apenas os mortos obtêm a plena paz, então permaneceu no sofá balanço até dormir novamente, sem paz.
Desejo-lhe uma semana maravilhosa, até a próxima ☀️