CAPÍTULO 16: ECLIPSE SOLAR
Não teve um sono de beleza e nem afago durante o suposto descanso, o raiar chegou mais cedo por estar do lado de fora, belíssimo, porém carregava algo ardiloso. Aquilo era a prenuncia do evidente e crescente receio que sentiu durante a semana, a hesitação era gritante, já a tormenta era estridente.
Ele se banhou na água fria anestesiado, seu assombro vagava por sua fronte como prelúdio daquele algo que apenas seu inconsciente aceitava. Sua postura precisava ser mantida, incluindo quaisquer caricatas faces de sua máscara, necessário, não podia vacilar consigo mesmo nesse fato.
Apesar do calor preceder e a omissão de local de destino em vista, calou-se em uma comunhão interna das verdades não ditas. Estava indo à escola como sempre, só não precisavam saber que essa era sua parada final, nem o responsável por levá-lo ao ponto da rotina.
O desjejum foi breve, não havia ninguém lhe esperando na cozinha ou em canto algum da casa, cada qual estava exercendo suas próprias tarefas. Seguiu à instituição em uma viagem sem distúrbios, quieta e gélida; Miguel esperava-o encostado no portão, conversando com o porteiro, bem animado.
Assim que o condutor deixou-o e seguiu seu próprio rumo, Lucian caminhou até Placa, que o viu logo em seguida, com o sorriso igual, permanecendo extasiado. O cumprimento matinal foi sóbrio, curto, sem delonga, Kael o guiou para o local do passeio de ambos.
Caminho mais reduzido do que aquele para a biblioteca, mas era o mesmo, foram a um espaço entre esse trajeto, a sensação era desconexa com ele próprio. Como se estivesse narrando o momento, sem sentir ou reagir a ele em si, precisava se recompor, no entanto, também precisava ser vivo.
— Onde vai ser o nosso passeio? — Perguntou, quebrando o silêncio.
— Nós vamos ao bosque zoológico municipal, Lucian — respondeu, suave — que bom que hoje não tem aula, não é?
— Por quê? — Permanecia dissonante da realidade, ainda que com pé no chão.
— Você precisa descansar, andou estudando muito essa semana — replicou com uma expressão reconfortante. — Vamos apreciar e nos conectar com a natureza hoje, Lucian.
— Não estudei muito, só o normal de sempre.
— Fugir das pessoas para a biblioteca e se enterrar em pesquisas e livros pode ser considerado muito, meu caro.
— Só se eu já não fosse assim, Miguel.
Este, por sua vez, riu fraco e alcançou a alça da mochila de Lucian, o puxando levemente para o outro lado da rua, seguindo um pouco mais e chegando, enfim, à entrada. O humor defensivo de Lucian, lascava como uma xícara de porcelana fina.
— Sempre venho aqui com as pessoas próximas, pena que uma delas tenha se acidentado, mas creio que segunda-feira você conhece ela.
— O que houve?
— Lembra da festa na casa do PH? Aquela que meus amigos te contaram.
Por um instante, a curiosidade esmagadora daquele dia o assolou novamente, chegando como um trem sem freio, lembrava bem da reação dele. Levemente ruborizado, mas tenso. Essa era a descrição que se recordava daquele momento; assentiu levemente, dando abertura para o contexto.
— Bem, tinha muita gente, muitas pessoas mesmo. De repente, começou um campeonato improvisado de skatistas na piscina do anfitrião. E como pode imaginar, ela estava no meio, participando.
— Como exatamente ela se machucou?
— Nesse campeonato, Lucian, eles deveriam subir o telhado e realizar uma manobra no ar, pulando do skate à piscina, assim que o skate saísse da telha. — Isso não parece seguro, Miguel.
— E não é, mas é comum de fazermos, eu fiz também. Mas na vez dela, aconteceu do skate prender na borda do telhado e ela cair em pé na beira da piscina, caindo nela logo em seguida.
— O, Doamne!¹¹ Por que você pularia? Ela quebrou a perna? Meu Deus, Miguel!
— Calma, Lucian, faz o quê? Quase três semanas? Ela está melhor, segunda-feira tu vê ela com as muletas decoradas dela.
— Não tem um mínimo de descanso necessário nesse tipo de caso, Miguel? Céus!
— Aham, deve ter, mas ela quer voltar — replicou, começando com aquela entonação. — E você, não tem um mínimo de descanso, garoto prendado?
— É diferente, não estou arriscando a minha vida.
— Então, anda arriscando outra coisa, Lucian?
O olhar dele dizia muito, a seriedade cômica e irônica dele causou uma gargalhada em Miguel. Caminhavam há um bom tempo quando decidiram parar em frente ao setor de animais carnívoros. Observavam os animais sincronizados até nas reações.
— Kael, o que significa taricola?
— Como?
— Acho que talacori?
— Certeza?
— Talvez talarico?
— Ah, essa eu conheço — disse em meio a um riso contido —, é uma gíria usada pra categorizar alguém que é fura-olho ou só fica dando ideia em quem é comprometido.
— Certo, o que é fura-olho, dando ideia e em que sentido de comprometido?
— Perdão, ficou muito vago — inspirou fundo, segurando o riso — fura-olho, é quem tenta roubar o parceiro romântico de outra pessoa, tipo, querer ficar com ela.
— Como assim ficar?
— Ok, justo, é um conceito estranho mesmo, é quando você quer algo casual com alguém, sem assumir um relacionamento. Entendeu?
— Sim, então ser fura-olho é quando se quer ter relações com alguém que é casado?
— Nem sempre é casado, às vezes é só um namoro; dar ideia é esse processo de demonstrar interesse no alvo que é comprometido.
— Então, ser comprometido é quando se está em um relacionamento, não precisa ser casado para estar em um. Entendi, talarico é quem deseja alguém comprometido e fica dando ideia.
— Isso mesmo, porém às vezes chamam alguém de talarico quando ele dá ideia em alguém que ele sabe que é alvo do mesmo interesse de outra pessoa.
— Como assim?
— Por exemplo, você tem um amigo que gosta de uma pessoa e eles já estão se dando ideia, mas você vai e dá ideia na pessoa que o seu amigo quer.
— Então, só é necessário ter um alvo de interesse e um desvio de caráter contra alguém que já investe tempo nesse alvo.
— Isso mesmo, por que a pergunta?
— Ouvi isso na escola, nada demais.
O silêncio se estendeu por muito tempo após essa afirmação, não, era algo demais sim, estavam chamando-o assim pelos corredores. Mas por hora, aproveitaria o passeio, sem se questionar muito sobre a atitude alheia, que era plenamente desrespeitosa.
— Então, é, bem — tentou reverter o efeito de sua resposta. — Qual o nome da sua banda?
— Lume Sísmico, bem linguístico, não acha? Cheio desse brilho que abala, somos todos fenômenos da natureza encarnados com uma alma crua em um corpo humano, bem cruel. Exagerei, perdão.
— Não é exagerado, ressoa bem até — respondeu rápido e breve, como um fiel que reconhece a fonte de sua devoção sem precisar de prova concreta. — Resolveram aquele problema?
— Entre nós, sim, resta o voto da diretoria. Tu lembra do diretor, certo? Ele é bem avoado com essas coisas estudantis.
— Lembro sim, ele abriu a porta, me mostrou um garoto rebelde e me expulsou da sala. Ainda bem que correu tudo bem.
— Garoto rebelde? Tenho uma causa bem definida para ser definido como rebelde, Lucian.
— Ah, quem sabe — riu solene, revirando os olhos —, qual a cor que vai pintar seus espinhos?
— Qual cor você quer que eu pinte, querido? — Ele disse com aquela entonação que soava como mel na língua naquele ambiente.
— Por que me chama de querido? — perguntou, se desviando da escolha que parecia íntima demais.
— Por que só agora te incomodou? — devolveu, com aquele olhar afiado. E percebendo que ele não responderia, continuou. — Quer outro apelido? Alguns amigos meus preferem ser chamados por vida, o que acha? Ou até, amor.
A provocação era contínua, não exigiria nenhum daqueles apelidos como forma casual de amizade, pareciam dissonantes demais de sua real implicação. Descia pela garganta aquele mel que sentira antes na língua, estava jogando de novo, sem ter certeza de quais eram as regras.
— Qual você prefere, Kael? — Devolveu, tentando investigar as leis implícitas que haviam sido construídas. — Geralmente aplicamos apelidos que projetam algo que sentimos referente ao alvo desse título. Então, quer me chamar por amor, Miguel?
Kael, que estava com aquela postura confiante e sublime, se desmanchou em uma risada nervosa, alcançando a própria nuca com uma mão e gesticulando com a outra, enquanto desviava o olhar. Clássico, o jogo era o mesmo, muito mais fácil agora que sabia o que fazer para desarmá-lo.
— Se está sugerindo isso sabe que escolher um apelido para outra pessoa chamá-lo dessa forma, sugere que a projeção é mútua ou que anseia que essa projeção seja o reflexo dos sentimentos de quem te chamará por esse título.
— Então, como prefere, Kael?
— Você responde primeiro, quer que eu te ame reciprocamente ou apenas que eu te ame? Afinal, você sugeriu amor como apelido.
Essa tensão estava explícita demais, as palavras não eram veladas, mas sim muito diretas, não tinha como fugir dessa vez sem desconversar ou se dar por vencido. No entanto, o que importava? Ao longe, começou a escutar vozes que conhecia muito bem, olhou para a direção de origem do som, e viu Anya, Elena e Vlad observando os arredores, rindo calmamente, como se fosse natural essa dinâmica familiar.
E pior, estavam justo no local onde não eram para estar, em um instante espaço-temporal inconveniente, não poderiam vê-lo ali, com Miguel, daquele jeito. Ele estava marcado por aquele olhar de quem brinca e colhe os frutos do flerte por diversão, um amigo totalmente diferente da norma familiar.
De forma abrupta e bem bruta para o seu comum, segurou o antebraço de Miguel e saiu em uma caminhada, quase corrida, depressa. Passaram por uma ponte longa avermelhada, o lago era belíssimo, mas sem tempo para apreciar, só parou quando chegou em uma pequena construção do jardim japonês daquele bosque.
Seu coração saltaria no lago se pudesse, tinha um ritmo desproporcional à sua respiração que era igualmente descompassada. Retumbava em sua mente o eco daqueles que menos esperava encontrar, tremia levemente, tentando regular o seu estado interior.
Pararam no centro do ambiente suspenso no lago, rústico, segurava não só o antebraço, como também, ao parar para observar os arredores, o colarinho da blusa de seu colega. Miguel que estava bem tranquilo para o repentino puxão e deslocamento que sofrera, envolvia os próprios braços ao redor da cintura de Lucian.
A pequena construção era ampla e pouco coberta, mas era longe o suficiente para ele não ser visto por sua mãe e seus irmãos. E agora que a sua respiração voltava ao normal, observou o lago com as carpas em contraste à flora do jardim. A beleza natural daquele setor do bosque merecia ser contemplada com toda a sua alma.
— Se queria ficar a sós comigo para me beijar, era só ter me convidado, Lucian — e claro, ainda estava segurando ele e a cena não era das melhores, porque ele o segurava com aquela firmeza que viu na sala de instrumentos, e em seu sonho sombrio.
Soltou o colarinho dele, recebendo um sorriso charmoso como dádiva, estavam próximos até demais, como um abraço estranho, daqueles que se vê em bailes escolares, no canto do salão. E sabia bem o que se seguia desses eventos, seu sonho, seu inconsciente sabia bem o porquê.
Estava apaixonado por aquele raio de sol, pretendente da anarquia e filho não assumido de Rá, seu anjo caído. Era por isso que ele fazia oficina em sua mente, os químicos da estúpida paixão estavam o afetando, o assombrando. Sua mente seguiu repetindo diversos nãos, sem parar, nem mesmo quando se desvencilhou bruscamente.
Não podia mais seguir mentindo para si mesmo daquele jeito, gostava daquele fruto tropical, de Kael. Seu humor vacilava internamente, variando entre os diversos temperamentos quando misturados com a negação do luto. Mas sua postura se manteve, assim que se soltou, riu baixo e o chamou de cínico.
Podia não funcionar para si mesmo, a traição de suas emoções, mas era uma resposta que funcionava para seu amigo, que continuou o turismo cultural, incentivando a linguagem que eles criaram. A brincadeira estava perigosa, o problema era que apenas queimava Lucian, pois não era real o sentido daquele jogo para Miguel, era só um jogo amigável.
¹¹ Em português, “— Oh, meu Deus!”.
É por aqui que este capítulo fica, espero que estejam gostando das boas venturas 🤭, enfim, desejo-lhes uma ótima semana! ✨