CAPÍTULO 17: ECLIPSE SOLAR – PARTE II
O lago brilhava sob aquele sol matutino e era fiel à beleza natural do apenas ser e existir. O que não era o caso de Lucian, não exigia fidelidade em seu próprio estado de estar, sua máscara fazia todo esse serviço social, vestindo nele a performance do que é não ser.
Conheceram setores, espécies, experiências, mas ainda não se entendia, vivia no meio urbano da alta sociedade, mesmo que um pouco mais longe, naquele ano; era humano, com tudo que há de mais falso e estagnado nisso, como um cadáver. Um corpo morto é visto com aversão, naturalmente, por outros.
E claro, experiências animalescas, sequer conhecera o que há em todo esse gigantesco universo, sequer vivenciado outras formas de se enxergar no mundo. Nada, e nada mais, nem poderia pensar em testar outra face para que outros vissem, sem comprometer a antiga.
Então, conhecer era um termo grandioso para aquela pouca coisa que foi mostrado, no entanto, só ruminava e distraía-o do porquê, sua paixão causada pelas substâncias de seu cérebro. Não poderia ser alvo de amor, tanto como receptáculo, nem altar, quanto como devoto fiel, íntegro.
Seu amigo explicava tudo e mais um pouco, versado em muitas linguagens daquele universo que não conhecia e outros muitos. O céu desabaria sob aquele apogeu infame de seu coração, não lhe cabia definir qualquer coisa naquele instante, mas poderia reclamar a injusta medicação mental que sofrera.
— O que quis dizer com arriscando outra coisa? — Perguntou Lucian, baixo até demais.
— Bem, naquele contexto, de você fugir das pessoas e me responder que não estava arriscando a vida — começou, pausadamente, escolhendo as palavras certas. — Talvez, uma distração, arriscando perder algo, um algo que você não sustenta continuar pensando.
— Sustentar pensando?
— É, meu caro, algo que te atormenta, assombra a sua mente e você quer se livrar, mas sente mais a respeito disso do que pensa.
— Por que acha isso?
— Não tenho muita certeza, mas não acho que você fugiria e seria arisco atoa, Lucian. Você pode ser sombrio por ser fruto de seu meio, mas ainda tem uma ingenuidade nas ações, como se estivesse aprendendo e se adaptando.
— Acha isso porque sou estrangeiro?
— Acho isso, querido, porque quando se adota um gato arisco, ele não te conhece, não conhece o novo ambiente, e ser arisco é o único jeito que ele conhece, por instinto, como entender onde está e se adaptar ao seu novo companheiro.
— É meu novo companheiro, Kael? — perguntou, rindo, estava surpreso com a doçura das palavras de Miguel e seu peso sumia lentamente; talvez, fosse uma boa ideia fazer uma lista nova, o porquê gostava dele.
Primeiro, esse charme é o mesmo de quando foi acolhido no dia da visita à escola, amava isso nele, sua gentileza, sua bondade e seu carisma. Ele era ele, um indivíduo que se preocupa com o coletivo sem se deixar consumir, um virtuoso nato com a liberdade plena.
— Novo companheiro? Então teve um antes, Lucian? — devolveu a pergunta, acompanhando o riso leve. — Creio que não, não acho que eu deva me sugerir em alguma posição da sua vida, mas deixar que você decida.
Segundo, sua percepção ampla de tudo, fiel a si mesmo, ele tinha disso, de não se forçar aos lugares, sempre convidado, sempre requisitado. Ele agia verdadeiro e íntegro ao que era, e por isso era querido, seu Eu era apreciado pelas pessoas, tão natural quanto o sol.
— Não teve um, nunca. Não tive um companheiro ou coisa do tipo, e você? Quantos teve?
— Alguns, não muitos como espero que não esteja imaginando. Mas alguns.
— Tem preferência?
— De quê?
— De posição, disse que não deveria sugerir, mas não disse nada sobre preferência.
— Ah, tá, entendi — balbuciou entre um riso curto —, se eu disser pode ainda soar como sugestão caso você não saiba o que quer, então não vou dizer.
— Entendi; escolheu por querido mesmo? — replicou, Lucian.
— Sim, o termo soa bem pra você.
Quando o meio-dia chegou, retornaram ao Jardim Japonês e almoçaram por lá, Miguel havia testado uma nova receita que aprendeu no clube de culinária e trouxe para ambos. E para Lucian não era novidade, estava maravilhoso, perfeito como tudo que sabia dele.
— Gostou? Já dá pra eu ser dono de casa? — Perguntou em meio a um riso contido.
— Como? Está bom sim, muito bom — respondeu Lucian, plenamente confuso com a pergunta.
— Dizem que quando cozinha bem, já dá pra casar. O que acha?
— Está fazendo uma crítica social ou querendo saber se você deveria casar?
— Ambos, meu caro.
— Muito cedo, não acha?
— Tu quem sabe, Lucian; você acha que é muito cedo para casar comigo?
— Perdão, o quê?
— É cedo para alguém se casar comigo? Sou pouco atraente?
— Sfinte Sisoe¹², Miguel! Não, quero dizer, sim, é cedo para se casar, mas não, não diga isso — replicou depressa, ruborizando na mesma velocidade. — É eufêmia afirmar isso, pouco atraente, mas não vou argumentar, acabaria elogiando.
— Seria ruim me elogiar? Ou é porque não tem como defender sua afirmação? — Questionou afiado, sabendo bem o que estava falando.
— Quer receber um elogio meu, Kael?
— Então, é verdade, não sou agradável nem mesmo ao olhar.
— Cine te-a făcut¹³, Miguel? Você é agradável até demais ao olhar, cínico!
Terceiro, gostava do jeito que ele pensava, sua maneira de ver o mundo, como ele era o próprio projeto intelectualizado e libertário, a sua força de vontade. A perspectiva que ele carregava de tudo, como se não fosse mais do que absurdo, como se Sísifo realmente estivesse feliz em sua penitência.
— Me acha agradável ao olhar até demais? Sou muito bonito, Lucian?
— Belo e sublime, Kael, um falso sórdido, que nada tem de imoral, virtuoso. Mas muito cínico.
— Está criando uma lista, querido?
— Eu tenho uma lista, Miguel.
Pela primeira vez, viu um rubor leve e um sorriso meigo em Placa, com um olhar amigável e de praxe, com uma postura cansada, mas leve. Completamente rendido a cena, Lucian sabia e entendia muito bem o porquê, mesmo com só três tópicos em sua lista.
— O que acha de irmos à aula, Lucian? Daqui a pouco dá o mesmo horário da última vez.
Seguiram essa rota novamente, retornaram à escola e de lá o condutor foi avisado, por fim, após toda a burocracia de deslocação pelas ruas e escadas, repetiram a varanda. O véu azulado com rendas douradas e esfumadas se estendiam longamente, enquanto um sabiá cantarolava na fiação acima.
Até o que era rápido deixou de ser dissociado, muito reativo, discutiram sobre cores e tonalidades, como o rubor em comum entre eles e o humor cotidiano. Dissertaram sobre a existência e o quão longe se está de ser real, consideraram também o desatino pensar, a respeito das conspirações.
Comentaram sobre a fé e os feriados, o vinho estar entre o pecado libertino e o sangue sacro. Viajaram na poesia de Cecília Meireles ao romance sombrio dostoievskiano, recitaram ambos alguns poemas de Florbela Espanca, e enfim, escreveram seus próprios.
Perto das cinco e meia da tarde, ambos desceram em busca de algo doce, quando Miguel encontrou a cozinheira e perguntou se podia ajudá-la no jantar. Ela concordou quando ele apresentou provas de seu talento e aprovação da ideia de sobremesa. Lucian foi quem aprovou.
O decorrer deste tempo, psicologicamente, foi eterno, tão terno e adorável, ambos dividiram olhares e risos doces, foi o primeiro dia naquele país, que não havia jantado sozinho. O coração teve de partir-se quando Miguel teve que se despedir, mas o momento, seria eternizado em sua vida onírica.
¹² Esta é a tradução quase exata de “Holy Smoke!” ou “Céus!” em português. É uma expressão clássica e muito usada para mostrar surpresa, choque ou admiração, mas de uma forma mais leve e um pouco antiquada, o que pode ser muito charmosa.
¹³ Uma expressão clássica e muito expressiva de exasperação afetuosa. Significa algo como “Que criatura é você?” ou “Em que mundo você foi criado?”.
Espero que tenham gostado do capítulo e desejo-lhe uma semana maravilhosa ✨