CAPÍTULO 18: REDUTO ECLESIÁSTICO
E tal foi o começo de uma noite que não parecia ter fim, pouco depois da despedida à tarde, sua mãe e seus irmãos chegaram de seu passeio cultural. Estavam crestados e plenamente corados de um quê genuíno familiar, um pouco dos traços do riso acompanhavam seus rostos.
O calor manteve-se tranquilo por um bom tempo, quando a escuridão tomou forma de vez, foi a hora de seu pai chegar. Deste modo, todo o sistema se rachou, sua mera presença trouxe a austera frieza às faces da família Moldoveanu, porém, nele havia o mesmo traço traiçoeiro.
Ninguém sabia por onde realmente esteve durante o dia, o que era muito bom, sem desconfiança de seu comportamento um pouco mais leve. Entretanto, todos estavam no mesmo cômodo, mesmo tarde, mesmo sem diálogo. Cada um seguia com alguma atividade distinta, comum.
Sem novidade alguma: Elena observava suas plantas pelo vitral da sala ao alpendre; Vlad realizava uma pesquisa em seu laptop, acompanhado por outros livros e arquivos; Anya jogava Damas contra seu pai, que movia às vezes, enquanto lia um livro em contrapartida.
Uma cena cristalizada, parcialmente encenada e adaptada, coreografada há gerações e perpetuada em cada uma delas com uma perfeição estagnada. Poderiam ser gravados em uma tela, em uma foto, ou até em uma rocha como uma gravura, pois seu ensaio seria eterno.
— Lucian! — Alexandru chamou, abrupto. — Te-au acceptat în noul grup de la școala duminicală. Începi mâine, la ora 7¹⁴.
Assentiu em silêncio, não esperava que fosse rápido ou que fosse notificado desta forma. Após isso, as coisas tomaram seus devidos fins do dia a dia, cada um seguindo com sua respectiva rotina noturna. Pelo menos, naquela noite o sono veio breve e permaneceu até o raiar em seu rosto.
Estaria mentindo se afirmasse não estar nervoso, ainda era uma questão dificultosa de se aceitar, como Kael fora aceito tão facilmente como auxiliar de algum instrutor voluntário? Havia uma restrição bem clara aos valores e virtudes, às aparências e vida externa.
A menos que ele não estivesse falando sério, o que também era pouco provável, até aquele momento, não houve uma farsa ou mentira rasgada por aí. Totalmente íntegro, virtuoso, de boa aparência e família, talvez, Mihai tivesse gostado de seu amigo.
Seu desjejum foi leve como a brisa daquela manhã, quando foi conduzido ao local, percebeu os lugares que eram reais. O bosque permanecia reluzente, vivo, e os pássaros que faziam ninho, cantavam em meio a liberdade. Já na praça municipal, haviam diversos jovens, rindo e se divertindo, tão cedo.
Apesar da jovialidade, as roupas eram típicas de um ambiente de ensino, provavelmente, eram as pessoas que fariam parte da escola dominical nesse novo grupo. Restavam pouco menos que dez minutos quando entrou realizando o reconhecimento estratégico de cada canto.
Poderia ficar à janela, mas a corrente de ar viria de duas fontes; já ao lado da parede, próximo à porta, atrapalharia sua visão com as pessoas chegando ou saindo e o meio não entrava em consideração. Decidiu, por fim, pelo fundo ao lado da janela, pois o seria suficiente.
A ventilação, que vem a partir da porta, passaria pela sala inteira antes de chegar nele, e mesmo no calor tropical, não seria problema real. Por estar ao lado de uma fenestra, receberia vento frio, e se fechassem, teriam o ventilador, não era tão ruim.
Não era ruim sua estratégia, mas era tola em sua base e inocente em sua formação, já sua conclusão era péssima. Não contava com uma sala cheia, com janelas que mal se mexiam e um ventilador quebrado. Conseguiu, por sorte ou até destino, mudar para o fundo ao lado da parede, antes que ocupassem.
Escutou um tiquetaquear de algum relógio de pulso daquela sala, significava que era real, estava prestes a começar. Uma senhora atravessou a porta, carrancuda, um olhar exaurido e pérfido, carregava uma Septuaginta; então começariam literalmente do começo.
Desde o velho testamento. A senhora escrevia lenta e com uma expressa ausência de interesse no quadro à frente, seu nome era Sônia. Seguiu replicando algumas regras de convivência e dinâmica social daquele ambiente.
Sua voz também carregava uma aspereza de quem está enrouquecido. Um pouco diferente do que estava acostumado, no entanto, se parasse para refletir sobre isso, sabia muito bem que tudo isso era muito distinto de seu comum. Começaram com uma breve oração em pé, decorrendo como cântico, sentiu o aroma de incenso se aproximar, e não só isso, passos.
Carregando uma vela acesa, brilhando em seu sorriso tímido e uma postura carregada de uma sacralidade que cegava. Sem espinhos dessa vez, não poderia carregar a coroa de Jesus naquele ambiente, estava organizado em uma tranquilidade meditativa.
Aquela era uma versão divina da que já era angelical, mesmo vestindo preto da cabeça aos pés, social em todos os mínimos detalhes, estava sem os seus dez piercings bem expostos. Kael não estava em um círculo, um circuito, uma roda e nem em uma ilha, estava ali, sublime demais; mesmo a cultura seguindo o simples.
Tentou manter a paz em seus pensamentos enquanto assistia-o posicionar a vela e acender outros incensos, criando a imersão de todos no ambiente. Sônia poderia falar o quanto quisesse, mas a sua visão ainda era privilegiada, apesar de ser sob medida, quando ele se movia, o terno seguia com seu ajuste.
Ele arrumava os papéis e anotava no quadro os tópicos abordados pela instrutora voluntária, com ele de costas, era possível deduzir e assim ver cada parte de sua musculatura. Seguia pleno, Lucian, observando-o e escutando a senhora que explicava algo sobre algo.
Talvez fosse necessário tranquilizar ainda mais os seus pensamentos, no fim das contas, aquele ali era somente Miguel, que mesmo divino, era o pedaço de paraíso mais pecaminoso existente. A projeção de sua mente estava beirando à loucura, seus dizeres eram indizíveis.
Precisava atuar como o melhor cristão que pudesse, vestir a face mais limpa que tinha guardado ao longo dos anos, fez-se de tal maneira, como se fosse estátua. Mesmo sua visão partindo para os lados em busca do auxiliar de Sônia, às vezes, manteve-se calmo.
Chegando perto de cessar, se levantaram para um último cântico de devoção, formando uma roda uniforme com todos ali presentes. E teve o azar do alvo de seu interesse se juntar ao seu lado, segurando a sua mão com uma firmeza gentil, de um momento recente.
— Seja bem-vindo, Lucian — iniciou, sussurrando, inclinando suavemente em sua direção. — Que bom que pôde vir, querido, espero que tenha gostado — retornou à postura adaptada à roda, entregando uma piscadela para Lucian.
Este, apenas estremeceu, o abalo sísmico foi seguido por um rubor infernal, não havia como manter sua postura dessa forma. Para sua sorte, o foco era o canto em coro de olhos fechados, todos sincronizados, puros. Agora, o veria seis dias da semana, o desejando nos sete, como um bom amigo.
¹⁴ Em português, “— Lucian! Te aceitaram no novo grupo da escola dominical. Você começa amanhã, às 07h”.