CAPÍTULO 20: ARAUTO DO DISSABOR
Fez-se a luz em seu mundo, segunda-feira, décimo primeiro dia de março, um nevoeiro denso e brilhante se estendeu por aquela manhã, carregando a tênue incerteza. A livraria Miríades, durante a semana, tinha seu atendimento conduzido por outras três pessoas; só aos domingos, então, Miguel atendia.
Havia a pouco tempo despertado, mas sentia-se como se não pertencesse a canto algum naquele planeta. Fosse presságio ou neurose, a pedra rolava por si, forçando alguma conclusão incerta. Conseguiu reunir suas anotações em uma síntese geral para poder discutir de forma organizada.
O desjejum foi leve, estagnado, o silêncio reinava como sempre, mesmo o rei sendo austero e territorialista e a rainha, uma analista socioespacial nata. A estratégia comum não funcionava de forma alguma para Lucian, fugir não implicava em satisfação, como enfrentar não significava aceitar.
Nem mesmo o ritualístico caminho sóbrio com o cântico dos passarinhos lhe foi real, daquela vez, sua ação não gerava reação, não tinha solução alguma que apaziguasse o seu pobre coração. Enlutado, desviado e apaixonado, tudo o que deveria ter evitado.
Compaixão com a família era uma virtude desde que se mantivesse somente no véu amargo do verbo, se demonstrar já era pecado, vício. Por outro lado, seu caminho litúrgico era tudo menos ignorante, fingir normalidade era fácil, contudo, com a dicotomia da presença de seu anjo, não conseguiria fingir estar acostumado.
E por fim, sua paixão desatina, podá-la não adiantava mais, e arrancar a raiz não estava sequer em cogitação, não tinha como fugir e fingir, só vigiar e punir. Observar as nuances e se afastar quando não pudesse participar, ser amigo de um vórtice da existência, era sim pedir para morrer afogado.
Na instituição, o borbulho iniciou, nadando contra a maré social, de ditos malditos sem fundamento, escoando por toda versão de forma incompleta. Ilhas eram as piores, reunidas em grande número, acessível para pessoas muito importantes, de relevância, um grau elevado e condicionado por elas.
Os circuitos, no entanto, interligados, fios e condutores, com uma energia fundamental, sempre sabiam, não importando com quem estivessem conectados. As rodas poderiam ser cirandas, entretanto, a dança não era amistosa, era um pacto leal de comunidade.
E claro, os círculos, todos muito simbólicos, poderiam separar-se e retornar, nada mudaria no formato, o que difere é que, bem, a partida sempre retoma de algum lugar. A saída tende a ter um motivo de criação, quem sai só volta quando concluir o objetivo comum.
Naquele dia, estavam em um misto tendencioso e caloroso, Miguel estava no centro como um sol com seus planetas em órbita. Conduzindo por entre o espaço, abalando seus eixos em prol das estações, se Lucian fosse um giroscópio naquele momento, estaria ao lado dele ao invés de qualquer outro.
A dança social não era só um ensaio, bem que poderia, ser só um teste de coreografia, como quis que fosse, mas os olhares que entregam a sede e o toque que tece a fome. Como desejou que fosse mais uma blasfêmia, uma conspiração organizada ou só um mero pesadelo.
Todavia, o arauto do dissabor se fez mais do que real, pois fundiu céu e inferno na terra, deslocando o solo para o seu mais puro e infame cadáver. Sentiu o jogarem naquela cova, sem sinal de matrimônio, sequer aliança, mas o verbo tem seu poder tal como os atos gritam e reverberam.
À distância até que considerável, viu o abraço e o beijo, a comemoração social de um grupo que aguardava a sua volta, não era atoa a sua exclusão. Ele estava em um relacionamento e Lucian desejou o alvo de interesse de outra pessoa, como não tinha aliança, até poderia ser de fachada.
Mas por que alguém como ele estaria em um relacionamento falso com alguém? Poderia ter bem quem quisesse e até mais. O cortejo poderia ser ficção ou só uma brincadeira, ele já havia dito antes que era só a curiosidade do monstro, o tratamento de seus amigos e até que era brincadeira, só para distraí-lo.
Claro, isso foi bem no começo das aulas e realmente poderia ser verdade até aquele momento, poderia até ter interpretado tudo errado. Faria todo o sentido a hostilidade repentina e os boatos árduos, talvez fosse isso mesmo, foi unilateral, pecou em ver mais do que era, em sentir mais do que dividiam.
Possivelmente, seu olhar pesou sobre ambos, pois Miguel o olhou por entre as pessoas e sorriu, caminhando em sua direção enquanto apoiava a sua companhia, que usava muletas. Ela pareceu olhar fria por um instante, o que não durou, porque entregou um riso semelhante ao de Kael, doce.
— Bom dia, Lucian! — Miguel cumprimentou, sorridente. — Bem, essa é Letícia, a minha namorada.
É óbvio que ouvir a confirmação doeu mais do que a suposição e o teatro encenado de dois rostos compartilhando um suspiro. Mas não podia evitar o peso que lhe caía sobre os ombros e em seu coração, ele namorava, ele namorava uma mulher, nunca havia cogitado tal possibilidade.
— Prazer, Lucian — começou, ela, com um sorriso gentil — Kael falou muito sobre você, é muito bom poder te conhecer finalmente.
— Igualmente, Letícia — replicou sem olhar nos olhos deles, precisava fugir, embora sentisse raízes em seu encalço.
Eles devolveram mais um riso pleno e retornaram ao grupo, todos muito animados, como se rissem da cara dele. Se ontem, nada havia como melhorar, naquela tarde, não poderia piorar. Dito e feito, após o intervalo, em puro silêncio, nem mesmo a discussão aconteceu.
Exceto por Carlos que o convidou para conversar depois do clube de Literatura. Estava arrasado, desejava em segredo o falecimento dela, usurpar o lugar dela, ser ela. Como nunca havia pensado na possibilidade de Kael sequer gostar de homens Talvez a sua amizade homoafetiva tenha distorcido sua capacidade cognitiva para não ver isso.
Se culpar não levaria a canto algum, mesmo que não pudesse evitar, e sabia disso, não tinha como evitar não se culpar pelo seu próprio engano. Contudo, precisava se distrair, e Carlos poderia ser uma distração válida naquele dia, naquele meio tempo, na biblioteca.
— Não conseguiu furar o olho dela a tempo, doido? — Carlos questionou, rindo cínico, enquanto encostava em uma estante apoiada na parede.
— Eu não sei do que você está falando.
— Claro que não, está mais triste porque está saltitando de alegria. Confesse!
— Essa é a minha cara.
— Qual é — prolongou, desencostando e se aproximou. — A Silvia ouviu a conversa de vocês aquele dia, sobre liberdade e tals, ela disse que você está dando em cima do namorado da amiga dela.
— Eu, eu não estava flertando com ele — replicou, olhando-o nos olhos, próximo. — Ele quem veio conversar comigo.
— Claro, ele conversa com todo mundo, idiota — exclamou, rindo de Lucian — mas ela viu você, ela viu como você estava olhando pra ele. Ela sabe que você escolheu de propósito as mesmas DEOs e ele, como voluntário para te ensinar.
— Por que você me chamou aqui? — Encurralado, contra a parede e Carlos a sua frente.
— Nada demais, só queria saber o porquê que você acha que ele é extremamente ocupado.
— Como assim?
— O que — começou, zombeteiro — você acha que ele realmente gosta de sempre ter que estar fazendo alguma coisa?
— Sim, eu também estou sempre estudando.
— Não, não, você ainda não entendeu — riu, fechando com um braço de cada lado. — Quando você foge para estudar, tem um motivo, não tem? Então, se Kael tem que fazer um monte de coisa, é porque está fugindo de algo grande, e só estudar não basta, ele precisa provar algo, ele precisa estar sempre em movimento.
— Do que você está falando? Por que ele precisaria fugir? — Estava ficando sem ar, preso na presença de Carlos daquele jeito, não tinha conforto algum, e as questões jogadas, estava perto de um colapso.
— Estou falando que Kael está fugindo de alguma coisa e se ocupar é a única maneira dele se redimir. Então, se você está perdidinho em amor por ele, recomendo esquecer e sumir.
— Por que está falando isso para mim?
— Eu já estive com ele, ele é perfeito, mas a perfeição é um vício, se você acha ele virtuoso, você entende do que estou falando. A mente dele é um terreno perigoso, não engaje nos joguinhos, pois se ele te fisgar, não tem saída.
— Calma, você esteve com ele? Então, isso é algum tipo de ciúmes doentio? Por que vocês terminaram?
— Eu terminei, e é claro que invejo toda e qualquer relação, mas eu juro que faz sentido.
— Não, não, não — Lucian começa a tentar sair da prisão braçal. — Eu não gosto dele, eu não sabia que ele namorava, e eu não quero estar no meio disso. Se ele é ou não perfeito, não é da minha conta. E você, você é maluco!
Um soco foi desferido contra o rosto de Lucian e ele retornou a prisão de antes, porém com os braços contidos na parede. A dor era pouca para o nervosismo e para o medo que pairava no seu estado atual, nada fazia muito sentido, nem mesmo as palavras soltas.
— Se você não souber quem você é, você vai se perder em tudo o que ele é, me ouça — exclamou, segurando-o bruscamente. — Ele é humano como todos nós, mas esteja pronto para cair se voar muito perto do sol.
— Você é louco! — Proferiu, enquanto se desvencilhou com um golpe que viu em algum programa de televisão e correu o máximo que pôde.
Não bastava estar fadado à escória, como também precisava sobreviver à queda. Se Carlos estivesse certo, já estava queimado e Kael sentiria o cheiro. Se tudo aquilo era real, não tinha porquê se exaltar, os eixos eram inclinados e ainda assim, mantinham precisão.
Espero que tenham gostado do capítulo de hoje, apesar do caos, e desejo-lhes uma semana maravilhosa. ✨