CAPÍTULO 21: LIGAÇÃO RECEITADA
O caos era maior do que Lucian, enorme e agourento, conseguia correr, mas somente de Carlos, pois o turbilhão em sua mente fazia-se receptáculo. Uma corrida que não poderia ganhar, como pôde? Ainda teria que vê-lo outras e mais vezes, sabendo de muita coisa que talvez nem verdade fosse.
O que também não era importante, porque estava lúcido, não existia manobra lúdica que desfizesse o tremor em sua base, sentiu o gosto metálico na boca e parou. O golpe havia feito mais do que dor, precisava cuidar disso, não seria nada Moldoveanu de sua parte se não cuidasse de sua aparência.
Entretanto, a confusão expressa entre a distimia que pesava seu coração era de tamanho absurdo, rítmica em um descompasso. Sua respiração sem ordem refletia o acesso de um disparo sem alvo certo, não fazia a mínima ideia de onde estava, tudo muito longe e incerto.
Por que tinha que gostar justo dele, um garoto, um garoto que namora uma garota? Por que ele parecia tenso quando comentaram sobre a festa? Quem ruborizava sobre um acidente? Tinha mais do que isso, tinha que ter, as coisas nunca eram tão simples quanto precisavam ser, a carência de razão complexa e invariável se fez necessária.
E o que Carlos tinha a ver com tudo isso? Por que se relacionaria com alguém que queria te bater? Miguel, sim, Lucian precisava perguntar para ele tudo isso, a respeito de tudo, no entanto, não era fácil, não tinha contexto, e de certa forma, não era responsabilidade dele o terremoto daquela vez.
— Lucian? — Aquela voz tão desejada se fez presente, como se por intervenção divina ao seu quase estado em completo potencial de pânico. A redundância de sua própria racionalização era ser redundante, mas qualquer coisa seria boa, desde que o impedisse de surtar.
— O que aconteceu com você, Lucian? — Ele perguntou de novo, sem chance de resposta.
Estava atônito, sem voz, estático. Miguel respirou fundo, pedindo permissão com o olhar e seguiu com uma paciência de praxe, vagaroso, dando a chance para ele recuar a qualquer instante, segurando as mãos de Lucian, conduziu-o pelos corredores e o guiou para um lugar seguro.
Levou-o para o banheiro dos professores, raramente alguém apareceria naquele horário, principalmente por ser distante das salas de aulas e de qualquer laboratório. Lucian tremia sob o toque e o abalo em seu cérebro, que decidiu se manifestar no corpo.
Sua pele em extensão gelava como se estivesse em uma overdose catártica, por exceção a sua cabeça, que em sintonia de oposição, fervia tal como a febre remanescente. Apesar de sentir-se desorientado, pôde relaxar na companhia dele, confiava nele, mesmo não tendo certeza de mais nada a respeito dele.
— Você tinha razão, ele queria me bater — comentou, enquanto Miguel o ajudava a sentar na plataforma da pia.
Quando quebrou o silêncio, assistiu o tempo parar para Miguel que conferia tudo lentamente ainda pedindo permissão para verificar tudo. Ele estava com as mãos trêmulas verificando os batimentos de Lucian pelo pulso e seguiu lento para analisar próximo à traquéia, no pescoço.
Demorou-se a soltar este ponto, embora ainda seguisse testando os reflexos oculares de Lucian com a outra mão e garantindo que ele se distraísse. Assim que soltou-o, organizou-se para ajudar a limpar o sangue, naquele soco, acertou parte do nariz e da boca, criando um corte nesse último.
— Me desculpe, Lucian. Não era pra isso ter acontecido, não consegui te proteger dele, sério, perdão — ele carregava um olhar culpado, chegava a compartilhar esse sentimento, como se ter que tê-lo cuidando de si fosse sua culpa, e de certa forma, até que era.
— Ele me disse que você namorou ele, não pensei que gostasse de caras — estava tentando ser informal e receber respostas para as dúvidas que ainda perturbavam os seus sentidos. O estado de antes amenizava gradualmente, o cuidado era eficiente.
— Eu não namorei ele, Lucian — desconversou breve, desviando o olhar — só ficamos uma vez, naquela festa, nada demais. E você sabe, eu gosto de pessoas.
— Mas você e a Letícia, não estão…
— Carlos, Letícia e eu, nós três ficamos, foi um pedido dela. É complicado te explicar agora, Lucian.
Em seguida, sentiu uma fisgada da dor que soava estranha, Kael estava a sua frente com uma mão em seu ombro, pressionando em bloqueio o corpo de Lucian. Enquanto que com a outra, seguia realizando um breve cuidado no lábio inferior dele, uma limpeza simples.
Com isso, sendo um machucado, ainda tinha ele ali mexendo nele, cuidando dele, com uma devoção cheia de culpa, sincera. Tinha mais o que questionar, no entanto, talvez não fosse o momento certo para isso, podia esperar, precisava que Kael soubesse que estava melhor naquele momento.
— Eu sei que se ele chegou a esse ponto, deve ter falado coisas grosseiras pra você, querido — iniciou, totalmente focado em ajudar a manter a aparência da minuta familiar de Lucian. — Se você quiser, pode ir à livraria, depois da liturgia, e eu te ajudo a entender qualquer coisa que ele tenha lhe dito. Só não deixe ele contaminar você com o cinismo raivoso dele.
Não era muito a contaminação, suas questões com ele eram muitas, contudo sua confiança em Miguel era maior, poderia não confessar, mas acreditava nele. O toque era suave, carregado daquela atmosfera do não dito até que confortável, sentia-se mais calmo, mesmo sem paz.
Tinha fé naquela placa tectônica, pois já havia a visto funcionar, colocar em prática as suas prendas, ele era um anjo caído em todas as formas, só precisava de mais um pouco. Ele precisava de alguma resposta para silenciar temporariamente o caos interior, nem que só abafasse o som.
— Eu não tenho o que perdoar, Miguel, não é sua culpa, não tinha como você saber que.
— Não, meu caro, não peço desculpas porque quero tirar a culpa de mim, pois eu suspeitava, mas não fiscalizei, eu sabia da possibilidade e mesmo assim.
— Kael — interrompeu, segurando e afastando a mão de Miguel que nada mais tinha o que limpar onde estava. — O que você realmente quer?
Irrompeu um suspiro ecoado pela acústica, como se tivesse sufocado a própria inspiração por tempo demais por tensão e só agora tivesse permissão para expirar. Lucian assistia o caos reverberar em Miguel, e podia jurar que o som era alto, que era belo. Não tinha visto-o assim antes e talvez não voltasse a ver, uma sinceridade vulnerável naquela expressão.
— Lucian, te explico o que quiser no domingo, mas hoje, quero focar em você e apenas você.
— Ele disse que você vive ocupado porque está fugindo de algo, algo grande — balbuciava, ainda tocando levemente a mão que havia afastado.
— Lucian, por favor — persistiu, com um olhar avassalador, o toque mútuo abalou-se.
— Ele disse que você é perfeito, mas que isso é vício e não virtude — replicou retirando a mão de Kael de seu ombro e segurou o dele em contrapartida.
— Lucian — tentou, com a voz falhando.
— Mas eu acredito em você, você sabe, já conversamos sobre isso. Claro, não como Deus, mas é um tipo diferente de credo, Kael.
Miguel riu fraco, colocando sua própria mão sobre a mão de Lucian, em seu ombro, como se por honra, prestasse respeito a uma nação, oferecendo seu coração. Ambos carregavam uma discórdia com muitos laços soltos, porém, sabiam que resolveriam.
— “Não como Deus”, está trocando a primeira parte do meu nome, querido? Sou algum tipo de demônio para você, Lucian? — Questionou, brincando.
— Como você disse, Kael, Miguel é o nome de um arcanjo, então você não é um Deus, mas ainda acredito em você — finalizou, ambos compartilhando aquele sorriso confidente.
Espero que tenham gostado do capítulo de hoje, o próximo será um extra — ou seja, fica a vosso critério se é canônico ou não — e um desenho que eu fiz para aquecer o coração, porque nem tudo é tristeza aqui. 🫶 Desejo-lhes uma ótima semana, até a próxima! ☀️