A multidão observava em choque o corpo imóvel. Gritos ecoavam, cortados por empurrões e pelo suor frio que escorria do rosto da maioria.
Porém, Luck, André, Fernanda e mais algumas pessoas, que em quantidade poderiam ser contadas nos dedos das mãos, observavam em silêncio e sem se moverem, já que estavam em zonas de poucas pessoas.
Luck observava de olhos arregalados, punhos cerrados e com o corpo inteiro arrepiado. A imagem do corpo destruído do rapaz fixara-se em sua mente. Sua respiração tornara-se pesada e seus dentes rangiam bem lentamente.
“Mas em que merda a gente se meteu?” — pensou Luck.
Por outro lado, Júlia mantinha uma postura diferente, já que se movera rapidamente para trás de André, agarrando-o pela cintura e encostando sua cabeça nas costas largas de seu amigo.
— Ele… ele está morto mesmo? André?
Fernanda, ao ouvir os lamentos da amiga, imediatamente cruzou os braços, franziu as sobrancelhas e disse:
— Fique tranquila, Júlia. Ele não morreu por ser fraco, mas sim por ser fraco e teimoso. Mesmo sabendo que já estava eliminado, tentou forçar sua entrada. Achei uma atitude bem estúpida da parte dele.
— Fernanda. Não era hora de falar essas coisas — disse Luck, virando o olhar para a amiga, franzindo sua testa em sequência.
Logo em seguida, ele fixou os olhos em Amon, então levantou a mão direita para cima e aguardou até que o professor pudesse vê-lo.
As pessoas em volta começaram a se acalmar, enquanto viam o braço estendido de Luck. O silêncio já não existia mais, mas o local tornara-se cada vez menos barulhento a cada pessoa que olhava para ele.
Amon, virando-se na direção de Luck, acenou com a cabeça, dando sinal positivo para que ele falasse.
— Eu acho que não queria fazer esse teste, sabe? Teria como o senhor permitir a minha saída?
Amon o encarou em silêncio, até soltar um leve suspiro.
— Não! Todos farão o teste. A desistência não é uma opção disponível. A obrigatoriedade da participação estava claramente estipulada no contrato que vocês assinaram. Espero, sinceramente, que tenham se dado ao trabalho de lê-lo antes de rubricá-lo.
“Puts! Pior que eu nem li essa porra!”, pensou Luck, levando as duas mãos ao bolso da calça.
— Ah, qual é, professor, deixe-os saírem daqui logo! Não tem nenhuma serventia em forçar medrosos a se tornarem Sentinelas — disse um dos alunos em voz alta, lenta e grossa, enquanto dava alguns passos à frente, saindo da zona vazia no meio da multidão.
— Ah, era aquele cuzão lá! — murmurou Luck, arqueando uma das sobrancelhas.
— Você conhece esse cara? — indagou André, dando dois toques no braço de Luck e se aproximando dele em seguida.
— Não! É que um pouco mais cedo eu acabei esbarrando nele sem querer. Aí ele meio que me chamou de moleque e tals… achei ele bastante cuzão, sabe? — explicou Luck.
André apenas balançou a cabeça em concordância.
— Não posso fazer isso. Seria quebrar as regras. E regras, jovem, não são sugestões. Elas são a estrutura que impede que a civilização desabe no caos. Eu, particularmente, tenho uma aversão profunda a infringi-las. A cláusula é clara: participação obrigatória. Portanto, a porta de saída permanece... fechada para vocês.
— Bom. Não me diga que eu não te avisei, Amon.
O homem era um rapaz de pele branca, tinha olhos azuis que pareciam brilhar intensamente. Vestia um casaco preto, desgastado nos ombros e punhos, e por baixo usava um moletom grafite, com o capuz displicentemente jogado para trás.
Usava também uma calça jeans preta, bem ajustada, de modo a não comprometer sua mobilidade. E nos pés calçava um tênis de lona cinza-escuro, com cadarços brancos.
Dando sua opinião controversa sobre as pessoas ao seu redor, o jovem caminhou lentamente em direção à barreira criada pelo professor.
As pessoas ao redor foram abrindo passagem; alguns o olhavam da cabeça aos pés, outros cochichavam entre si, emanando olhares de indiferença e curiosidade.
Porém, uma coisa era certa: o jovem não parecia ter medo. Seus passos ecoavam de forma pesada, entrando abruptamente nos ouvidos das pessoas.
Quando o jovem passou ao lado de Amon, olhou-o e soltou um sorriso de canto de boca, para logo em seguida voltar a olhar para a barreira.
Ele aparentemente não tinha intenção alguma de parar, como se já soubesse que atravessaria facilmente a barreira que pouco antes tinha matado um homem.
Amon soltou um suspiro, seguido de uma leve risada, vendo o jovem se aproximar da barreira com tanto orgulho e confiança de que não seria parado por nada.
Quando ele finalmente ficou a menos de um metro da barreira, deu um passo um pouco maior do que o habitual, fazendo sua perna passar tranquilamente pelo local. Seu ritmo não havia diminuído. Em um rápido instante, seu corpo atravessou completamente a barreira invisível.
Era como se nenhuma barreira alí existisse, como se estivesse fazendo uma caminhada qualquer.
A multidão soltou um grito abafado, um som que começou ao fundo e terminou na frente, como uma onda. Os olhos de todos se arregalaram completamente.
Porém, Amon soltou mais um sorriso discreto.
O jovem misterioso parou de costas para todos, enquanto observava a escuridão do corredor que agora estava à sua frente.
— Parabéns, rapaz. Você foi o primeiro a transpor minha barreira. Uma conquista notável. — Ele cruzou os braços, erguendo o queixo em um gesto de reconhecimento. — Agora, tornaste digno de declarar teu nome perante mim, teu professor.
O garoto se virou para Amon, emanando um sorriso perceptível por todos ali.
— Meu nome é Bartolomeu! Apenas isso!
Sua voz ecoou nos ouvidos das pessoas, que acharam, de certa forma, um nome bastante diferente do habitual.
— Muito bem, Bartolomeu, você não precisa ficar parado aí! Siga em frente e, em algum momento, encontrará a sala de aula. Adentre-a e me espere!
Bartolomeu bufou, deu as costas para Amon e caminhou para frente, indo de encontro à escuridão. Porém, antes de sumir no breu do local, virou rapidamente o rosto, e seus olhos se fixaram na direção de Luck.
Em seguida, voltou a seguir em frente e, por fim, desapareceu da visão de todos.
Vozes voltaram a dominar o local, com muitas pessoas se perguntando por que ele conseguira passar; outros conversavam com amigos numa tentativa de ganhar coragem com o apoio alheio.
— Ele olhou para mim? — perguntou Luck.
— Eu acho que sim — respondeu André.
— Nem chegou direito e já está fazendo inimizade, típico seu mesmo, Luck — reclamou Fernanda.
— Eu já acho que ele está apaixonadinho por você, Luck — falou Júlia.
Como se a morte de uma pessoa não tivesse acabado de acontecer, muitos alunos foram tomados por esperança ao ver Bartolomeu passar no teste. Os primeiros começaram a caminhar em direção à barreira, emanando de seus olhares um brilho que provavelmente duraria por muito pouco tempo.
Um sorriso discreto saiu dos lábios de Amon, ao ver a multidão enfim se movimentar para fazer o teste.
O próximo a tentar ultrapassar a barreira, por sua vez, foi mais cauteloso do que os dois primeiros, levando apenas o dedo indicador ao local onde ficava a barreira.
Ao fazer isso, ele sentiu a pressão o impedindo de entrar no corredor do castelo.
Seu olhar foi de encontro ao de Amon, que balançou a cabeça como resposta ao acontecimento, fazendo com que o rapaz entendesse que ele tinha acabado de ser reprovado.
O rapaz soltou um suspiro profundo, enquanto seus olhos perdiam o brilho. Retirou o dedo da barreira e saiu do local.
Então, depois dele, outros foram tentando passar pela barreira. Alguns davam socos leves, chutes e até mesmo cabeçadas, mas todos, independentemente da forma que tentassem, não passavam de forma alguma pela barreira.
Luck não observava ou ficava atento à forma como as pessoas ali tentavam passar, mas sim observava para onde elas iam depois de serem reprovadas.
Eles iam de volta para o portão de saída, onde um dos guardas o abria rapidamente para que os reprovados pudessem ir embora do local.
— Luck!! Você vai tentar fazer o teste ou vai ficar só olhando? — perguntou André, levando uma das mãos ao ombro de seu amigo, enquanto arqueava uma de suas sobrancelhas.
— O jeito é tentar… já que é a única forma de sair daqui, né.
— Infelizmente…
— Mas se nós passarmos, poderemos morrer no próximo teste.
— Luck, acho que você deveria começar a ler os contratos que assina — disse Fernanda.
— Uma das poucas vezes que irei concordar com você — respondeu Luck.
— Bom — falou André, ficando à frente de seu amigo e caminhando em direção a Amon. — Eu irei fazer esse teste primeiro que você, meu amigo. Se eu passar, esperarei vocês lá dentro.
— Tem certeza, André? — indagou Julia, dando alguns passos para frente.
— Fica tranquila. Não tem como eu morrer fazendo esse teste, alguém já fez isso por nós.
— Mas e se você reprovar e eu passar? — Com os olhos marejados, Julia perguntou.
— Aí fudeu, né. Mas fica tranquila que nem o destino irá nos separar.
André adentrou na multidão, que ia abrindo espaço para ele avançar. Muitos ali queriam ir primeiro, mas talvez suas ansiedades os deixassem presos à espera dos mais próximos da barreira fazerem o teste primeiro.
Contudo, nem todos estavam atentos. Um homem musculoso — um pouco mais alto que ele e Luck — ficou parado bem à sua frente.
André relou gentilmente em seu ombro, a fim de chamar sua atenção, o que fez o homem se virar para ele.
Tal homem tinha uma aparência bastante peculiar, diferenciando-se dos demais. Seu cabelo era longo, com pontas espetadas, que caíam até a cintura; possuía uma cor vermelha intensa, mais vermelha que o sangue.
Seus olhos também eram da mesma cor. Tinha uma barba bastante descuidada, suas sobrancelhas eram grossas e ele emanava um sorriso de orelha a orelha.
Vestia uma camiseta da mesma cor dos cabelos, usava uma calça branca com alguns rasgões nas duas coxas voluptuosas. Seu tênis era preto, misturado com um verde-claro.
— Opa! Desculpa aí, amiguinho. Não te vi aí atrás — disse o tal homem, falando de forma alta, soltando uma gargalhada no final de sua frase, enquanto levava as duas mãos à cintura.
— Tá tudo bem. Eu só gostaria de passar para poder fazer o teste, sabe.
— Ah… Você estava bastante ansioso para fazer o teste? — O homem perguntou, indo para o lado, dando passagem para André passar, enquanto fazia algumas pessoas irem para o lado, deixando-as desconfortavelmente espremidas umas às outras.
— Não, não. Eu só queria fazer logo para poder ir para casa.
— Ah. Você acha que não da conta de passar pela barreira?
— Não é isso. É que eu queria fazer logo esse teste para acalmar meu amigo.
— Que fofinho, cara. Gosta de ajudar os amiguinhos, né.
André sentiu o tom sarcástico vindo da fala do homem, então arqueou as sobrancelhas e franziu a testa, enquanto manteve silêncio por alguns segundos.
— Beleza. Eu acho que… já vou indo nessa então.
— Tranquilo, tranquilo. Vai lá, cara. Mas antes de você ir, não quer fazer uma aposta? — O homem ruivo falou em um tom ondulado, enquanto cruzava os braços e arqueava uma das sobrancelhas.
André, que já tinha dado as costas para o ruivo, semicerrou os olhos e virou a cabeça para o lado, enquanto, lentamente, voltava a ficar de frente com o cara.
— Não! Eu nem te conheço para apostar em alguma coisa.
— Mas não seja por isso. Eu me chamo Thiago Apóstolo Reis. Agora diga-me seu nome.
— Eu me chamo André.
— Pronto, viu? Agora nós nos conhecemos. Ha ha ha ha. — Ele riu de forma exagerada, mostrando o dedão da mão esquerda para André.
— Não é porque sabe meu nome e eu sei o seu que a gente se conhece, cara.
— Ahhh, que isso. Não me diga que esta com medo de perder a aposta. Você nem sabe do que ela se trata.
— Não preciso saber de algo, já que eu não estou afim de apostar em nada.
— Primeiro escute, depois recuse.
— Então fala logo, cara.
— Cinquentão!!
— Cinquentão o quê?
— Para ver quem passa no teste.
— Mas e se nós dois passarmos no teste? E se nós dois reprovarmos no teste?
— Aí ninguém precisa pagar. Fica tranquilo, maninho.
— Não, valeu — disse André, dando as costas novamente para Thiago.
— Cem reais?
— Também não.
— Tá com medinho, André?
— Não estou. Eu só não quero. — Ele voltou a olhar nos olhos de Thiago, agora com a testa franzida e punhos cerrados.
— Mas eu acho que você está. Não confia no próprio taco?
André rangia os dentes, enquanto começou a suar.
— Quinhentos reais! — respondeu André.