O silêncio dominou todo o local. Nenhuma palavra fora proferida por quase três minutos. Todos fixaram seus olhares no homem diante deles.
Uma brisa firme bateu sobre o rosto de todos. Suas faces estavam congeladas em um formato que remete a pessoas confusas e curiosas.
Arthur arqueou uma de suas sobrancelhas, deixou sua boca entreaberta e cruzou os braços.
— Quem é esse senhorzinho aí?
Suas palavras percorreram por todos os ouvidos, ecoaram por muito além do que ele poderia imaginar. Alguns olhares se voltaram para ele.
"Eita!", pensou ele, se assustando ao ver todos aqueles olhares o julgando de mil e uma maneiras.
Fernanda olhou para seu amigo, ela estava com as sobrancelhas franzidas, e usando um gesto com o dedo indicador, mandou seu amigo ficar em silêncio.
O homem misterioso deu mais alguns passos para frente, ficando a quase dez metros de distância da multidão. Ele tomou um suspiro profundo, colocou as mãos nos bolsos da calça, esperou por mais um tempo, então disse:
— Queridas pessoas… gostaria de desejar um bem-vindos para todos que estão aqui. Como já devem ter percebido, vocês acabaram de passar por um teste.
As pessoas se encararam, cochicharam entre si.
— O que será que vem agora? Eu tô com medo… — falou Júlia, apertando o braço de André.
— E como recompensa por terem passado no teste, irei me apresentar para todos vocês.
— O tiozinho parece ter senso de humor, filho da mãe!! — Arthur murmurou para si mesmo, enquanto começava a coçar o queixo.
— Me chamo Amon. Amon Silva! Apenas isso. Tenho por volta dos 25 aos 50 anos de idade.
Ao terminar sua fala, como se um vidro estivesse sendo atingido por um martelo, a tensão no ar se quebrou. Boa parte da multidão sorriu.
— O cara parece ser gente boa — disse Arthur.
— Parece mesmo!! — respondeu André.
— É! Mas vamos escutar o que ele tem a dizer, provavelmente temos um bom tempo para gastarmos aqui — falou Fernanda.
Júlia apenas balançou a cabeça, concordando com a fala de sua amiga.
— Sei da confusão que vocês devem estar sentindo, mas devo avisar que a partir de agora, todos os acontecimentos que presenciaram, serão muito mais estranhos do que o de agora pouco. — Amon fala, voltando a caminhar para frente, enquanto franzia suas sobrancelhas. — PORTANTO, AQUELE QUE JÁ SE ARREPENDEU DE SE ALISTAR NA "LEGADO'', POR FAVOR, RETIRE-SE IMEDIATAMENTE.
A voz de Amon ecoou de forma poderosa sobre todos os ouvidos ali presentes. Aqueles que estavam rindo, fixaram seu olhar no rosto sério dele. O ar voltou a ficar pesado novamente.
— Filho da puta é bipolar, é? — indagou Arthur.
Os segundos se passaram, ninguém levantou a mão ou deu um passo para frente.
— Vai querer sair, Arthur? — perguntou André.
— Não! Eu ainda estou interessado no dinheiro que esse trabalho pode me proporcionar.
Ninguém levantou um dedo sequer, apesar de carregarem dúvidas em seus olhares, todos pareciam estar cientes do que queriam. E o silêncio perdurou por mais dois minutos.
— Interessante! Já que ninguém me respondeu até agora, vou entender que ninguém desistiu. Confesso que fiquei impressionado com vocês. Acho que desde os meus primeiros anos dando aula por aqui, sempre houve desistentes no pós-primeiro teste que lançava. — respondeu Amon, balançando sua cabeça lentamente. — Bom, vamos direto para o segundo teste!!
Sem mais e nem menos, Amon fora direto e reto. Ele levou uma de suas mãos para cima, estalou os dedos.
Uma faísca prateada se formou em volta dos dedos dele na hora do estalo. A porta do castelo, ainda aberta, fora tomada por completo por uma escuridão tão densa que parecia vir direto do espaço.
Arthur arqueou as duas sobrancelhas ao ver o ocorrido.
— O que será que vem agora? — indagou Fernanda, também cruzando os braços.
— Independente do que for, tomem muito cuidado! — avisou Arthur.
Amon deu alguns passos para o lado, sorriu, colocou as duas mãos no bolso da calça e esperou todos pararem de falar.
Depois de alguns minutos, percebendo que as pessoas tinham se acalmado, Amon estufou o peito e em alto e bom tom, disse:
— Apesar de termos acabado de passar pelo primeiro teste, vamos direto para o segundo. Não podemos perder mais tempo! Primeiramente! Apesar de vocês terem escolhido ficar e tentarem a sorte de quem sabe um dia se tornarem um "Sentinela", devem saber que se reprovarem, também, nesse teste, vocês serão expulsos da "Legado". Não poderão nem mesmo entrar no "EBSS" — explicou Amon.
— O que é "EBSS"? — murmurou Júlia, olhando para André.
— Exército Brasileiro de Sub-Sentinelas. — André respondeu.
— São aqueles malucos que vira e mexe a gente acaba vendo eles pela cidade. Eles sempre andam fardados com aquelas roupas que brilham nos ombros e joelhos e nas arminhas deles — completou Arthur.
— O nome do teste que vocês irão fazer agora, é: 0 a 1. Pois, só depois de conseguirem passar por ele, vocês poderão, enfim, se auto-proclamarem “Aspirantes a Sentinela".
— Então por qual motivo ele fez todo mundo aqui passar por aquele teste? — perguntou Arthur.
— Só Deus sabe… — ironizou André.
— Bom, agora irei explicar a forma de como vocês devem fazer este teste. Primeiro: vocês terão que passar por essa barreira escura. Esta barreira foi criada para separar o joio do trigo, o estragado do normal. Ela observa se o núcleo de "RCF" de vocês está perfeitamente formado. Aqueles que tiverem o núcleo "RCF" em perfeito estado, conseguirão passar tranquilamente pela barreira, mas aquele que tiver algum defeito em seu núcleo, será impedido de passar.
— Fácil de entender. Quem será o primeiro que vai tentar? — murmurou Fernanda.
— Agora que o teste já foi explicado. Vocês já podem fazê-lo! Quem será o primeiro a tentar? Por favor, levante a mão e depois caminhe até mim, por gentileza — falou Amon.
— Aí André. Eu estou com medo de ser reprovada! — comentou Júlia.
— Fica tranquila, Jú — acalentou André.
Muitos ali conversavam entre si, porém ninguém tinha levantado a mão por até dois minutos, até que uma mão fora levantada. Arthur e companhia não conseguiram ver o rosto da pessoa.
A multidão fora ficando em silêncio e abrindo espaço para que o corajoso pudesse ir até Amon.