A Biblioteca Arcana de Vidran erguia-se diante deles como um monólito silencioso, quase consciente. Era feita de pedra negra encantada, tão lisa que refletia a luz como um espelho. Inscrições antigas serpenteavam pelas paredes, mudando de forma quando alguém tentava decifrá-las. Apenas magos autorizados podiam entrar ali.
E Nice Lunatic não estava na lista.
Os guardas posicionados diante da porta usavam armaduras reforçadas com runas de proteção e mantinham lanças de cristal maná-térreo — armas capazes de atravessar barreiras mágicas. Nada disso parecia intimidar Nice.
Shibungo, ao contrário, tremia no ar, sua cartola quase caindo.
— Homi… se for pra morrer, eu prefiro morrer dentro de um copo de licor doce. Aqui não. Isso aqui é coisa de maluco…
Nice caminhou como se desfilasse. Seus passos eram leves, meticulosos — o andar de alguém que sempre pertence ao lugar onde pisa, independentemente de ser convidado ou não.
Os guardas cruzaram as lanças diante dele.
— “Acesso restrito. Civis não entram.”
Disse um deles, voz firme.
Nice inclinou ligeiramente o queixo, como quem olha uma peça fora do lugar.
— “Civis? Que palavra… limitada.”
Shibungo pousou na cabeça do guarda da esquerda.
— Ele não gosta dessa palavra não, viu. Eu já avisava, mas ninguém me escuta.
O guarda o espantou, irritado.
— “Volte imediatamente. Só magos credenciados podem—”
— “Eu sou credenciado.”
Nice interrompeu.
— “Não está na lista.”
— “Então a lista está errada.”
Os guardas se entreolharam. Nice exalava uma confiança tão imperturbável que por um segundo ambos hesitaram, como se fosse natural obedecê-lo.
E essa hesitação era tudo o que ele precisava.
Nice ergueu a mão lentamente.
Um brilho serpenteou entre seus dedos — magia, mas não de ataque. Uma magia sutil, fina, como um sussurro.
— “Vocês vão me deixar entrar.”
As pupilas dos guardas tremeram. A magia de manipulação de Nice não era poderosa o suficiente para controlar mentes… mas era perfeita para confundir julgamentos, distorcer percepções. Um truque de cassino, evoluído.
Shibungo abriu as asas, espantado.
— Ôxe, tu tá usando aquele truque de “ilusão de sorte”? Pensei que só funcionava em bêbado!
— “Homens com medo são parecidos com bêbados.”
Nice disse com indiferença.
Os guardas engoliram seco.
— “Tem razão… você está na lista.”
— “Pode entrar.”
A porta colossalfendeu silenciosamente.
Nice sorriu.
Tudo estava sob controle — como sempre.
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O Salão das Mil Runas
A biblioteca era gigantesca. Corredores intermináveis, abóbadas altas, estantes que subiam até o céu, todas feitas de madeira escura encantada. Esferas luminosas flutuavam como vaga-lumes gigantes, iluminando mapas estelares e pergaminhos que vibravam com vida própria.
Shibungo se assustou com um livro que abriu sozinho.
— Pelo casco da minha vó, isso aqui tem mais vida que o bairro dos bêbados do seu cassino!
Nice ignorou o caos ao redor e caminhou direto até a área proibida, guiado por sua memória impecável — e por algo mais.
Um chamado.
Ele o sentia desde que começara a estudar invocação. Como se algo antigo o observasse. Algo que queria ser encontrado.
E Nice pretendia encontrá-lo.
No fundo da biblioteca, atrás de uma fileira de grimórios presos a correntes, havia uma sala isolada. Seu nome estava gravado acima da porta em uma língua esquecida:
“Armazém das Entidades”
Nice encostou na porta.
Ela não abriu.
Shibungo se aproximou.
— Parece trancada, né?
— “Nada fica trancado para mim.”
Ele deslizou a mão pela superfície da madeira arcana, encontrando uma ranhura. Inseriu nela um fragmento de mana — apenas o suficiente para ativar o mecanismo, não o suficiente para disparar alarmes.
A porta se partiu ao meio, liberando um cheiro de pergaminho antigo misturado com poeira de mana.
Dentro, algo pulsava.
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O Livro das Sombras Pactuadas
O objeto estava sozinho no pedestal: um livro grosso de capa preta, preso por correntes enferrujadas que não pareciam materiais… pareciam vivas. A superfície ondulava como respiração.
Shibungo voou para trás.
— Ôxe, nem pagando! Esse trem aí tá vivo, homi!
Nice se aproximou.
— “É por isso mesmo que eu quero.”
Ao estender a mão, as correntes se soltaram sozinhas — não como se tivessem sido liberadas, mas como se estivessem recebendo Nice. Como se já o esperassem.
Assim que ele tocou a capa, o livro sussurrou.
“Enfim… você veio.”
Nice abriu o livro sem hesitar. Letras mudavam a cada segundo, rearranjando-se, mostrando diagramas de criaturas, círculos de conjuração, contratos mágicos e páginas em branco que preenchiam conforme ele olhava.
Era uma biblioteca inteira dentro de um único volume.
— “Interessante.”
Shibungo, nervoso:
— Nice… esse livro aí tem uma presença que tá me dando dor de barriga. E eu nem tenho barriga.
— “É conhecimento proibido.”
Nice disse calmamente.
— “É claro que ele tem presença.”
Uma página se destacou.
Nela, um símbolo circular, semelhante a um olho fechado, pulsava suavemente.
**Primeiro Mandamento da Invocação Superior:
“Não invoque o que você não pode controlar.”**
Nice sorriu, frio.
— “Eu sempre controlo.”
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A Bibliotecária
Quando Nice guardou o livro sob o braço, uma voz ecoou atrás dele:
— “Interessante escolha para um iniciante.”
Nice virou-se devagar.
Uma mulher alta, de pele cinza e olhos amarelos brilhantes, o observava. Suas orelhas pontudas e feições elegantes revelavam sua raça: uma elfa sombria, raro vê-los em reinos humanos.
Ela vestia um manto bordado com símbolos arcanos que pulsavam suavemente.
— “Você não estava aqui antes.”
Nice comentou.
— “Eu estava observando. Você que ainda não havia me percebido.”
Shibungo sussurrou:
— Eita, essa é perigosa…
A mulher se aproximou, analisando o jovem invocador como se folheasse um livro vivo.
— “Eu sou Rhiannon, Guardiã da Biblioteca Arcana.
E você… não deveria estar aqui.”
Nice manteve o olhar inabalável.
— “E ainda assim estou.”
Rhiannon arqueou uma sobrancelha.
— “Como conseguiu passar pelos guardas?”
— “Sorte.”
— “Ninguém tem tanta sorte assim.”
— “Eu tenho.”
Rhiannon estreitou os olhos, avaliando.
Nice podia sentir: ela era forte. Muito forte. Magia antiga corria em suas veias. Mas, ao mesmo tempo… estava curiosa.
E curiosidade era sempre uma porta aberta.
— “Você não vai impedir minha saída.”
Nice afirmou, não perguntou.
Rhiannon cruzou os braços.
— “Depende.”
— “Depende do quê?”
— “De quem você realmente é, Nice Lunatic.”
Shibungo quase caiu no chão.
— Como é que ela sabe o nome?!
Rhiannon sorriu de canto.
— “O livro só responde àqueles com potencial sombrio. Ele nunca se abriu assim para ninguém… desde os antigos magos de invocação.”
Nice manteve a postura.
— “Eu tenho potencial para o que quiser.”
— “Veremos.”
Ela deu passagem.
Nice caminhou diante dela sem pressa, com o livro sob o braço, como se estivesse levando algo perfeitamente legal.
Rhiannon observou com olhos que pareciam atravessar sua alma.
Ela ainda não sabia…
Mas Nice já tinha decidido que ela seria útil.
Muito útil.
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Saída da Biblioteca
Assim que cruzaram a porta, os guardas recobraram a atenção, confusos, como se tivessem perdido minutos de memória.
Nice passou por eles como se fosse invisível.
Shibungo sussurrou:
— Eu num sei o que é pior… tu ter pego esse livro aí… ou essa elfa misteriosa tá interessada em tu. Isso vai dar rolo.
— “Nada dá rolo.”
Nice murmurou.
— “Só resultados.”
Quando os primeiros raios da tarde tocaram sua pele, Nice sentiu o peso do livro vibrar discretamente. Uma energia escura, adormecida, murmurando promessas em línguas impossíveis.
Ele ergueu o queixo, olhando o horizonte de Vidran.
— “A partir de hoje, Shibungo… a verdadeira história começa.”
O besouro respirou fundo.
— Oxê… então a gente tava só no prólogo até agora?
— “Exatamente.”
Nice começou a caminhar pela rua movimentada, como se fosse o verdadeiro dono da cidade.
E, talvez… fosse mesmo.
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